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Transformar mais de uma hora e meia de personagens caminhando em algo cinematograficamente envolvente é, por si só, um desafio considerável. A Longa Marcha encontra sua solução ao situar essa premissa simples em um cenário distópico, no qual jovens voluntários participam de uma competição brutal: quem para de caminhar é executado. A ideia é eficaz como ponto de partida, mas o filme demonstra consciência de que o impacto não pode se sustentar apenas no choque da proposta.
Para manter o interesse do espectador, a narrativa aposta principalmente nos diálogos e nas interações entre os competidores. É nesse aspecto que o longa tenta construir tensão emocional e psicológica, explorando alianças momentâneas, conflitos latentes e o desgaste progressivo imposto pela marcha. Embora essas relações nem sempre alcancem um nível verdadeiramente memorável, cumprem a função de evitar a monotonia e de dar alguma profundidade humana a um conceito que poderia facilmente se tornar repetitivo.
O resultado é um filme competente, bem realizado do ponto de vista formal, que entende seus próprios limites. A Longa Marcha talvez não marque de forma definitiva pelo desenvolvimento de seus personagens ou por diálogos particularmente impactantes, mas consegue sustentar o interesse ao longo de sua duração. Trata-se, portanto, de uma obra sólida, que entrega exatamente o que se propõe: uma distopia simples, eficiente e suficientemente envolvente para justificar a caminhada até o fim.
Walter Salles retorna ao cinema nacional após mais de 15 anos com uma obra poderosa e profundamente sensível: Ainda Estou Aqui. Adaptado do livro de Marcelo Rubens Paiva, o longa mergulha na tragédia pessoal de uma família destroçada pela ditadura militar brasileira, ao mesmo tempo em que constrói um drama universal sobre perda, memória e sobrevivência.
No centro da narrativa está Eunice (Fernanda Torres, em atuação magistral), esposa do ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello), sequestrado pelo regime militar após o golpe de 1964 e jamais visto novamente. A história, embora fortemente enraizada em um momento sombrio da história brasileira, transcende suas origens ao focar nas reações humanas e familiares diante da violência institucional.
A abertura já dá o tom do que está por vir: Eunice boiando nas águas do Leblon enquanto um helicóptero militar sobrevoa a praia – imagem que simboliza a constante vigilância e opressão. Mas o grande mérito do filme está em sua sutileza emocional. Salles opta por manter o foco na intimidade da família Paiva, contrastando o conforto da elite carioca com a crescente ameaça autoritária que se aproxima inexoravelmente.
A fotografia de Adrian Tejido é outro ponto alto, alternando entre o realismo da câmera na mão e composições cuidadosamente planejadas que evidenciam o peso da ausência, o silêncio e o medo. A trilha sonora de Warren Ellis amplifica essas emoções sem jamais exagerar.
Fernanda Torres entrega uma performance marcante, guiando o espectador pela transformação de Eunice — de esposa protegida e consciente ao mesmo tempo, a mulher que carrega o luto e o trauma da ausência, e que precisa se reconstruir em um mundo devastado. A breve participação de Fernanda Montenegro, como a Eunice já idosa, é um toque emocional certeiro que fecha o arco da personagem com dignidade e força.
Mais que uma reconstrução histórica, Ainda Estou Aqui é um filme sobre o peso do silêncio e da omissão. Em tempos em que discursos autoritários voltam a ganhar espaço, Salles nos lembra que a "época boa" da ditadura foi, para muitos, um pesadelo jamais encerrado. E o faz com domínio técnico e narrativo, entregando uma das produções brasileiras mais relevantes e com maior potencial internacional das últimas décadas.
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Oi, Flávio!
Está aceito, seja bem vindo.
Olá. Seja bem-vindo! :)
Olá! Sem problemas, amigo. Parabéns pela atitude. Tem gente que não está nem aí. rs
Lembro que concordei com muita coisa que você escreveu. Uma crítica bem lúcida.
Bugonia chega cercado de desconfiança, sobretudo para quem já nutre reservas em relação ao cinema de Yorgos Lanthimos. A impressão inicial é a de que o filme poderia repetir vícios recorrentes do diretor, especialmente a priorização excessiva da forma em detrimento do conteúdo, marcada por escolhas estéticas deliberadamente estranhas e, por vezes, dispersivas. No entanto, à medida que a narrativa avança, o longa surpreende ao superar moderadamente essas expectativas negativas.
Diferentemente de outras obras de Lanthimos, em Bugonia a excentricidade visual e narrativa aparece de maneira mais controlada. Embora ainda presente, ela se mostra melhor integrada à construção da trama, funcionando menos como mero artifício estilístico e mais como elemento que contribui para o desenvolvimento dramático. Essa contenção relativa é fundamental para que o filme encontre um equilíbrio mais eficaz entre proposta estética e envolvimento narrativo.
Emma Stone, já consolidada como uma das principais colaboradoras do diretor, mantém seu compromisso em explorar personagens desafiadores nessa fase mais experimental de sua carreira. O resultado é mais uma atuação sólida, marcada por entrega e coragem artística. Ainda assim, é Jesse Plemons quem se destaca de forma mais contundente. Sua performance é a verdadeira espinha dorsal do filme, conferindo densidade emocional e coesão ao conjunto, sendo decisiva para que a proposta funcione plenamente.
Em síntese, Bugonia não elimina por completo as características que dividem opiniões no cinema de Lanthimos, mas demonstra um amadurecimento no uso de sua linguagem peculiar. O filme vale especialmente pelas atuações de Jesse Plemons e Emma Stone, que elevam o material e tornam a experiência recomendável, mesmo para os espectadores mais céticos em relação ao estilo do diretor.