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Exemplo claro de como o cenário é, aqui, personagem também, sendo, a princípio, um determinante fatalista do destino das personagens para depois, inescapável, tornar-se o lar daquelas mulheres. Em que momento o desespero de Áurea em escapar dali se tornar resignação, conformidade? Até que ponto tudo virou areia dentro dela também? Assim como a areia, as esperanças sempre escapam da mão.
A questão geracional e a relação avô - mãe - filha também são bem interessantes. É a avô quem busca a ajuda que permitirá àquela família sobreviver naquele lugar; é a mãe que luta e persiste em bolar planos para escapar daquela areia movediça que engole seus anos de vida;
[/spoiler]é a filha, já cria daquele espaço, que consegue finalmente oportunidade de novas perspectivas.[spoiler]
Exemplo claro de como poucos minutos de filme (sem diálogos) são capazes de transmitir fortes mensagens e atravessar o espectador de formas únicas. Uma ótima obra para o exercício da alteridade e para reflexões acerca da relação dos sujeitos negros com seus próprios corpos, ancestralidade, raízes e, infelizmente, com a escravidão colonial e demais violências sistêmicas que vêm sofrendo em uma sociedade como o Brasil. As algemas brancas são um símbolo claro, assim como aquelas roupas brancas que aparecem e fazem com que o corpo do ator quase desapareça sobre o fundo branco. Não há contraste de cores: há é apagamento da negritude e de sua rica contribuição para a identidade brasileira.
Acabei vendo a versão dublada em espanhol, o que acredito que atrapalhou um pouco minha experiência, dificultando, por exemplo, minha percepção a respeito da atuação. Fora isso, uma boa crítica e sátira acerca dessas figuras colonizadoras que compõem a história de nosso país. Acho interessante o exagero de alguns momentos, seja nas roupas, nos cenários, nas atuações, o que contribui para o tratamento pitoresco do tema.