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Dois séculos atrás, Charles S. Peirce sintetizou em 3 partes a maneira como a mente humana se comporta perante os fenômenos. Ele chamou de categorias universais do signo: a primeiridade - ou o ícone, o nível em que uma mente entra em contato com um fenômeno e esse tem um potencial de significações infinitas para essa mente; de secundidade o conflito, o questionamento, a dúvida, também chamado de índice - o que indica algo além dele mesmo; e a terceiridade, o momento em que a mente define o fenômeno sob todos os seus filtros de interpretação do mundo e ele se torna simbólico. Isso até que o processo recomece, ad infinitum.
Todas essas etapas ficam claras no filme de Aronofsky, assim como o fenômeno em pauta do início ao fim do filme: os significados que o homem deu ao longo dos tempos em seu contato com os fenômenos no estado puro.
Interpretações que geraram os livros do gênese, do novo testamento, as religiões e regras determinantes, os intermediários entre homem e o inalcansável. Este inalcansável, ele mesmo a primeiridade, o estado puro do fenômeno dos fenômenos - a ideia de que se tudo foi criado, é preciso haver um criador. E este só poderíamos conhecer pela interpretação. A problemática de se entender o fenômeno em seu estado puro é a própria problemática universal. Já o fenômeno primeiro, que uns chamam de deus e sua obra já simbólica, concreta, mais palpavelmente atribuída aquela cujo título é MÃE natureza - da qual inclusive nós mesmos viemos.
O diretor faz uma crítica profunda e sintética à humanidade - cuja existência é tão curta e rápida quanto o tempo que permanece em tela durante o filme, e nos joga em um emaranhado de sentimentos, que divide todos que assistem em 3, assim como as categorias do signo de Peirce: os que ficaram sem palavras e apenas sentem o impacto do que vislumbram na tela, os que entenderam em parte e estão até agora elocubrando em dúvidas sobre o que o diretor está falando e os que já saem bradando do cinema "péssimo filme!".
Como se em apenas duas horas pudessemos pular do impacto à uma definição simbólica do mesmo - o que é muito mais um conforto para não ter que pensar ou pura falta de capacidade de entendimento (que não necessariamente é algo ruim) - o que não é em nada incomum, visto o desconhecimento do universo vasto conceitual e histórico posto em pouco mais de 120 minutos na tela.
Porém, no momento que - por um referencial mais amplo, você ENTENDE o objetivo do Diretor - e não se engane, tem um objetivo e uma intenção clara, é impossível não assistir o filme sob uma ótica de crítica à humanidade - esses seres obtusos, que entendem "cada um do seu jeito" o poema Dele, que são os hóspedes indesejados desse planeta-lar e como filhos mimados deixam sua marca sem retorno na casa daquela que representa não apenas a natureza, mas a VIDA, a maternidade, a CRIAÇÃO de fato.
Não se enganem - esse filme não é uma ode devota ao divino, mas tem pelo contrário, um dos tons mais científicos que vi. Está longe de ser milagroso, pelo contrário - destrói o véu ilusório da tentativa de justificar os erros, os fenômenos como milagres e jogam na nossa cara que por mais que tentamos, é de uma infantilidade absurda terceirizar nossa responsabilidade. Mostra o terror que é ter uma crença e elegê-la como a principal, como é ingênuo e bobo valorizar os fins - estar junto Dele - com os meios - DESTRUINDO aos poucos e sadicamente a Mãe e, ao final, restar a interpretação - o efeito do filme em cada um sentado na poltrona.
As diversas camadas dessa obra-prima - em minha opinião, de Aronofsky, seja da relação marido-mulher, da metáfora do poeta, da loucura das relações humanas, em determinado momento todas elas se juntam e mostram que são metáforas para a condição humana de hoje. Comportamentos esses marcados pela religião. Religião essa que determinou as regras e escreveu os livros. Livros esses que determinam "a Verdade". Verdade essa que se mostra tão insana quanto as situações do filme. E filme esse que termina mostrando que enquanto nos comportarmos daquele jeito visto ao longo dos minutos da tela, o ciclo de destruição - e ausência de sentido, não terá fim.
FILMÃO.
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Gostei do seu modo de escrever as resenhas, parabéns.
O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!
Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)
Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
Boa sorte! :)
* Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/
Opa, valeu, Rodrigo! :)
Tb gostei muito da nossa crítica; inclusive da do Roberto que achei justa (no sentido dele SABER dos defeitos mas compreender pq ele foi capaz de gostar ainda assim, entende?)
Enfim, fico feliz de saber q tu curtiu cara! Abração!! Qq coisa tô la no Facebook tb:
Filme divertido, gostoso de ver, superou minhas expectativas. O único mal desse filme são os haters e a clara falta de carinho que o estúdio tem com filmes de protagonistas femininas. A sensação é de o filme ter sido nerfado. Mesmo assim o filme entregou.