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Dezenove Tora-san assistidos e a grata surpresa de encontrar um screwball sensacional que segue subestimado pelos fãs da mais longa série cinematográfica do cinema. Assim como na ideia genial do segundo filme quase uma década antes, Yamada e seu roteirista Yoshitaka Asama colocam um personagem idoso no centro da história. O ilustre Kanjuro Arashi com seu charme e humor me deixou nostálgico das cenas com Chocho Miyako, a mãe de Tora-san.
No início da sessão, é possível ver a homenagem yamadiana à arte fílmica em si e ao ator que interpreta o personagem descendente de senhores feudais. O sonho na abertura é uma paródia dos filmes nos quais Kanjuro Arashi interpretava Kurama Tengu desde os anos 20. Temos ainda nos créditos iniciais uma cena deliciosa e parecida, diga-se de passagem, com a do segmento anterior em que Tora-san atrapalha uma equipe nos bastidores de um filme.
Cenas de puro deleite e comédia de costumes preparam o filme para a entrada da musa Mariko (Kyoko Maya) que vai despertar mais um caso de desilusão amorosa na vida do nosso protagonista predileto. É o equilíbrio perfeito entre o humor e a tristeza dos personagens que colocou a obra ao meu ver acima de outros títulos que talvez tenham exagerado um aspecto em detrimento do outro. Conseguiu ser divertido e burlesco mesmo abordando o tema do luto.
Brilhante! Como ri alto deparando-me com o tal cachorro chamado Tora. Simplesmente incrível a maneira com a qual estes personagens nos cativam. Não há artifícios, apenas ideias das mais banais que surpreendem o espectador relembrando alguma situação similar que todos já vivemos. Simples embora triunfante em rigor fílmico, vide a transição de chanbara entre a casa do senhor e a cena de Genko com Mitsuo no templo de Shibamata. Que olhar afiado!
Dezoito filmes de Tora-san tentando alegrar a vida dos outros e fazê-los sorrir, este pareceu mais um melodrama com toque de humor. A presença teatral de Machiko Kyo (grande atriz dos clássicos Rashomon, Jigokumon, Ugetsu Monogatari) pode não agradar a todos com sua eloquência dramática, porém a tragédia da personagem também remete ao declínio da era de ouro do cinema japonês, à morte de grandes estrelas da época e ao fim dos estúdios.
Foi a penúltima aparição no cinema desta atriz lendária e amada pelo público japonês antes de se aposentar. Em contrapartida, a sua filha no filme interpretada com muita delicadeza por Fumi Dan aposta em dobro no jogo sutil. Parecia mais um rosto bonito no início, mas revela outras camadas ao longo do filme. Mãe e filha, as duas personagens se envolvem ♥ ♥ ♥ ~ afetivamente com Tora-san de formas bem diferentes e o filme aborda a questão do etarismo.
Após a invasão rude e egocêntrica de Tora-san na reunião escolar do sobrinho, fazendo ainda por cima o tristonho que vai embora sofrido, o nosso protagonista recebe verdadeiramente o tapa na cara do etarismo, merecido ou não. Teve que ouvir que era velho demais para a professora e que tinha a idade para ser o pai dela. A piada da cena ocorre quando Sakura diz que a mãe dela é quem deveria estar próxima à idade dele. Resultado, a mãe entra cena.
Por falar na Sakura, impossível imaginar a série sem a irmã de Tora-san interpretada pela magnífica e soberba Chieko Baisho. Uma atriz iluminada pela inteligência do jogo mínimo e do olhar misterioso que merece sempre ser louvado. Quando ela entra em cena, o negócio vira uma aula de atuação. Algo que não pode ser dito de todos, vide a trupe de teatro na primeira parte do filme com alguns excessos e até um ator descrito por Tora-san como "bicha" (!)
O episódio da vez tem várias cenas tristes e até alguns diálogos divertidos, mas fica subestimado perto do filme anterior considerado o melhor Tora-san já feito. Apesar dos altos e baixos, destaca-se em seu olhar sensível do luto e pela poesia que os japoneses atribuem à simplicidade das coisas. Como é bonito vê-los em situações banais como uma despedida na estação ou uma conversa no jantar, a beleza dos momentos onde nada acontece.
Vigésimo Tora-san retoma o personagem em sua versão “estúpido cupido” — o retorno para ajudar um casal de apaixonados — a garçonete Sachiko e o eletricista Ryosuke recebendo aqui uma importância maior para o enredo do que outros coadjuvantes em segmentos anteriores. O resultado ficou acima da média e me conquistou imediatamente graças à Shinobu Otake que mostra muito bem a sua presença brilhante apesar de ainda tão novinha!
Ao interpretar a garçonete Sachiko em cenas melodramáticas exigentes, a jovem Shinobu Otake já fazia prova de um grande equilíbrio entre sensibilidade e introspecção antes mesmo de arrebatar o prêmio de melhor atriz por “The Incident” de 1978. Ainda que fossem papéis secundários na época, a sua sutileza tinha o potencial de roubar a cena. Foi de fato o caso neste filme de Tora-san trazendo uma musa elegante que para mim passa despercebida.
Então, o cupido protagonista se tornando graças à escola da vida o expert das práticas do amor vai tentar ajudá-la com o inexperiente Ryosuke (Masatoshi Nakamura), um garoto simples e gentil apelidado de Watt em referência ao seu trabalho de eletricista. A interação dos jovens aqui revela muito bem o drama de homens tímidos em sociedade patriarcal e o fim teria sido amargo com a influência da cultura do suicídio se não fosse uma comédia yamadiana.
Diretor magnífico que filmava cenas profundas com humor, inclusive sobre a morte. Lançava apenas dois meses antes o que muitos consideram a sua obra-prima, “The Yellow Handkerchief” em outubro de 1977. Em seguida, na véspera do ano novo, Yamada novamente em cartaz com esta comédia romântica que possuía a sua espontaneidade típica até nos atos mais burlescos e afetados vide Tora-san que nos ensina a amar através do cinema:
É preciso escolher um filme que combina com o amor, explica Kuruma-sensei. Não pode ser estrangeiro, pois ela vai achar o galã americano mais bonito do que você. Não pode ser de Yakuza que vai deixá-la indiferente e também não pode ser de tragédia que dá vontade de ir embora. Tem que ser uma comédia daquelas que a gente ri até ficar com fome para depois convidá-la para jantar. Caro Tora-san, se é rir e comer, já estou diplomado no seu curso!