Vigésimo Tora-san retoma o personagem em sua versão “estúpido cupido” — o retorno para ajudar um casal de apaixonados — a garçonete Sachiko e o eletricista Ryosuke recebendo aqui uma importância maior para o enredo do que outros coadjuvantes em segmentos anteriores. O resultado ficou acima da média e me conquistou imediatamente graças à Shinobu Otake que mostra muito bem a sua presença brilhante apesar de ainda tão novinha!
Ao interpretar a garçonete Sachiko em cenas melodramáticas exigentes, a jovem Shinobu Otake já fazia prova de um grande equilíbrio entre sensibilidade e introspecção antes mesmo de arrebatar o prêmio de melhor atriz por “The Incident” de 1978. Ainda que fossem papéis secundários na época, a sua sutileza tinha o potencial de roubar a cena. Foi de fato o caso neste filme de Tora-san trazendo uma musa elegante que para mim passa despercebida.
Então, o cupido protagonista se tornando graças à escola da vida o expert das práticas do amor vai tentar ajudá-la com o inexperiente Ryosuke (Masatoshi Nakamura), um garoto simples e gentil apelidado de Watt em referência ao seu trabalho de eletricista. A interação dos jovens aqui revela muito bem o drama de homens tímidos em sociedade patriarcal e o fim teria sido amargo com a influência da cultura do suicídio se não fosse uma comédia yamadiana.
Diretor magnífico que filmava cenas profundas com humor, inclusive sobre a morte. Lançava apenas dois meses antes o que muitos consideram a sua obra-prima, “The Yellow Handkerchief” em outubro de 1977. Em seguida, na véspera do ano novo, Yamada novamente em cartaz com esta comédia romântica que possuía a sua espontaneidade típica até nos atos mais burlescos e afetados vide Tora-san que nos ensina a amar através do cinema:
É preciso escolher um filme que combina com o amor, explica Kuruma-sensei. Não pode ser estrangeiro, pois ela vai achar o galã americano mais bonito do que você. Não pode ser de Yakuza que vai deixá-la indiferente e também não pode ser de tragédia que dá vontade de ir embora. Tem que ser uma comédia daquelas que a gente ri até ficar com fome para depois convidá-la para jantar. Caro Tora-san, se é rir e comer, já estou diplomado no seu curso!
Dezenove Tora-san assistidos e a grata surpresa de encontrar um screwball sensacional que segue subestimado pelos fãs da mais longa série cinematográfica do cinema. Assim como na ideia genial do segundo filme quase uma década antes, Yamada e seu roteirista Yoshitaka Asama colocam um personagem idoso no centro da história. O ilustre Kanjuro Arashi com seu charme e humor me deixou nostálgico das cenas com Chocho Miyako, a mãe de Tora-san.
No início da sessão, é possível ver a homenagem yamadiana à arte fílmica em si e ao ator que interpreta o personagem descendente de senhores feudais. O sonho na abertura é uma paródia dos filmes nos quais Kanjuro Arashi interpretava Kurama Tengu desde os anos 20. Temos ainda nos créditos iniciais uma cena deliciosa e parecida, diga-se de passagem, com a do segmento anterior em que Tora-san atrapalha uma equipe nos bastidores de um filme.
Cenas de puro deleite e comédia de costumes preparam o filme para a entrada da musa Mariko (Kyoko Maya) que vai despertar mais um caso de desilusão amorosa na vida do nosso protagonista predileto. É o equilíbrio perfeito entre o humor e a tristeza dos personagens que colocou a obra ao meu ver acima de outros títulos que talvez tenham exagerado um aspecto em detrimento do outro. Conseguiu ser divertido e burlesco mesmo abordando o tema do luto.
Brilhante! Como ri alto deparando-me com o tal cachorro chamado Tora. Simplesmente incrível a maneira com a qual estes personagens nos cativam. Não há artifícios, apenas ideias das mais banais que surpreendem o espectador relembrando alguma situação similar que todos já vivemos. Simples embora triunfante em rigor fílmico, vide a transição de chanbara entre a casa do senhor e a cena de Genko com Mitsuo no templo de Shibamata. Que olhar afiado!
Dezoito filmes de Tora-san tentando alegrar a vida dos outros e fazê-los sorrir, este pareceu mais um melodrama com toque de humor. A presença teatral de Machiko Kyo (grande atriz dos clássicos Rashomon, Jigokumon, Ugetsu Monogatari) pode não agradar a todos com sua eloquência dramática, porém a tragédia da personagem também remete ao declínio da era de ouro do cinema japonês, à morte de grandes estrelas da época e ao fim dos estúdios.
Foi a penúltima aparição no cinema desta atriz lendária e amada pelo público japonês antes de se aposentar. Em contrapartida, a sua filha no filme interpretada com muita delicadeza por Fumi Dan aposta em dobro no jogo sutil. Parecia mais um rosto bonito no início, mas revela outras camadas ao longo do filme. Mãe e filha, as duas personagens se envolvem ♥ ♥ ♥ ~ afetivamente com Tora-san de formas bem diferentes e o filme aborda a questão do etarismo.
Após a invasão rude e egocêntrica de Tora-san na reunião escolar do sobrinho, fazendo ainda por cima o tristonho que vai embora sofrido, o nosso protagonista recebe verdadeiramente o tapa na cara do etarismo, merecido ou não. Teve que ouvir que era velho demais para a professora e que tinha a idade para ser o pai dela. A piada da cena ocorre quando Sakura diz que a mãe dela é quem deveria estar próxima à idade dele. Resultado, a mãe entra cena.
Por falar na Sakura, impossível imaginar a série sem a irmã de Tora-san interpretada pela magnífica e soberba Chieko Baisho. Uma atriz iluminada pela inteligência do jogo mínimo e do olhar misterioso que merece sempre ser louvado. Quando ela entra em cena, o negócio vira uma aula de atuação. Algo que não pode ser dito de todos, vide a trupe de teatro na primeira parte do filme com alguns excessos e até um ator descrito por Tora-san como "bicha" (!)
O episódio da vez tem várias cenas tristes e até alguns diálogos divertidos, mas fica subestimado perto do filme anterior considerado o melhor Tora-san já feito. Apesar dos altos e baixos, destaca-se em seu olhar sensível do luto e pela poesia que os japoneses atribuem à simplicidade das coisas. Como é bonito vê-los em situações banais como uma despedida na estação ou uma conversa no jantar, a beleza dos momentos onde nada acontece.
Dezessete filmes de Tora-san e eis aqui o título que muitos consideram o melhor para ser assistido por alguém que não pretende ver cinquenta filmes. Isto é, se for o caso de escolher um episódio separado dos outros, porém sigo fiel no culto ao personagem de Lily que brilha ao meu ver em mais de um filme, inclusive no último da série. Dito isso, o enredo aqui funcionou com uma exímia sintonia entre os atores e personagens emotivos muito bem caracterizados.
A abertura em homenagem a JAWS ficou incrível e hilária até mesmo em seu aspecto artesanal. Yamada sabia como roubar o coração daquele público cinéfilo! Apesar do clássico spielberguiano lançado no verão de 1975 ter demorado meses para chegar ao Japão, este segmento do Tora-san lançado no verão seguinte, aproveitou ainda a sharkmania da época e tornou-se um sucesso de público, assim como nos artigos exigentes da Kinema Junpo.
O título original em japonês faz referência a uma antiga canção infantil que simboliza o fim do dia na escola e as crianças voltando para casa. A razão disso está até na sinopse, pois se trata do primeiro dia na escola de Mitsuo (Hayato Nakamura), o filho da irmã Sakura e Hiroshi. Embora o drama tenha servido apenas para espantar o nosso viajante protagonista, uma cena em questão ficou marcante quando Tora desolado diz que sempre é culpado de tudo.
Atsumi-san não atuava mais aqui, ele incarna de vez a persona do Tora com uma força tremenda e os dois personagens introduzidos no segmento também foram atribuídos a atores de mesma dedicação. Jukichi Uno, um grande nome dos filmes de Kaneto Shindo, mostrou sua presença forte no filme com um personagem que revela a mentalidade da época. Ele é um velho desprezado até quando todos descobrem sua verdadeira identidade e status social.
Depois tem a entrada alegre de Botan (Kiwako Taichi), uma gueixa divertida que revela uma história triste do seu passado e deixa Tora-san emocionado de uma forma que ele decide ajudá-la custe o que custar. A presença dela é teatral com gestos de grande eloquência e sensibilidade, diferenciando a sua figura das outras musas mais discretas. Com o sorriso radiante, Botan combina demais com a flor emoldurada que recebe no fim. Puro deleite!
Dezesseis filmes assistidos e Tora-san segue como o marmota número um do cinema japonês, mas agora ele também quer ser um intelectual?! Imagine tal desafio de escrever este roteiro após o brilhantismo do episódio anterior considerado um dos melhores da série. O diretor Yoji Yamada com o roteirista Yoshitaka Asama fizeram a escolha mais simples e segura, repetindo a ideia do personagem universitário do décimo filme e incluindo uma estrela da época.
Apesar de não ter a qualidade dos filmes com a musa Lily, esse conta com a participação rápida de Junko Sakurada, uma estrela juvenil da música japonesa setentista. A presença dela sendo uma idol extremamente popular deve ter atraído o público jovem. Numa cena bem divertida, o policial do filme anda de bicicleta cantarolando o maior hit da cantora, “Watashi no Aoi Tori”. Passa depressa, mas quem já ouviu vai reconhecer a letra... クック クック~ 🐦
Curiosamente, o ator Masakane Yonekura que tinha interpretado um universitário no décimo filme retorna aqui como o policial. O papel intelectual ficou para Fumie Kashiyama que incarna a musa da vez, a adorável Reiko Kakei. Além de ser a sobrinha do Gozen-sama (Chishu Ryu), ela estuda arqueologia e veio alugar um quarto na casa dos Kuruma para poder se concentrar nos estudos. É claro que Tora se apaixona à primeira vista, mas existe o status que os separa.
Tora-san é um cara orgulhoso e o fato de não ter estudado o incomoda. Ele sempre usa do humor para esconder o seu lado frágil e o seu sentimento de inferioridade diante de intelectuais. Inclusive, uma piada recorrente é quando ele fala de maneira paternalista com alguém que julga pela aparência como sendo um atendente ou um operário até descobrir que se trata de um professor ou um médico, revelando de certa forma a mentalidade da época.
O quid pro quo de classe social gera momentos engraçados. Se não é pelo estudo, é rindo que os dois encontram afinidade. Além disso, o papel social da mulher fica mais uma vez em destaque com a empatia yamadiana. Um homem bem-sucedido podia formar família, mas uma mulher precisava escolher entre trabalhar e ser mãe. Quando Reiko é pedida em casamento, fica confusa, questionando suas próprias escolhas e as barreiras enfrentadas por ser mulher.
O filme também explora bem a dificuldade da figura da musa de se impor em autonomia e independência, pois ela geralmente se arrepende ou pede desculpas ao invés de assumir a própria liberdade de expressão. Ela não permanece na posição intelectual muito tempo, pois através da comédia Tora vira prof da matéria “escola da vida”, reativando as normas paternalistas da mulher obediente. Por conta disso, o fim sem casamento chega a ser irônico.
Quinze filmes para chegar à conclusão que os melhores talvez sejam com a brilhante interpretação de Ruriko Asaoka, atriz e cantora idol no Japão dos anos 60. Na época em que foi chamada para ser uma musa na vida de Tora-san, madame Asaoka já tinha vinte anos de carreira. Com uma vasta experiência de profissão se manifestando aqui em maturidade interpretativa, ela é Lily com a mesma excelência que Kiyoshi Atsumi tornou-se Tora-san.
A química entre os dois é imbatível, pois Lily não aceita calada a arrogância masculina dele. Ela sempre tem um bom sermão para dar. E, sobretudo, a virtude de demonstrar uma grande força de caráter sem esconder a própria vulnerabilidade. Apesar de feitos um para o outro à margem da sociedade, Lily e Tora são parecidos demais para terminar juntos. É nas suas semelhanças que percebem aquilo que os separam, o mais profundo desejo de liberdade.
Viajando por Aomori e Hakodate, Tora-san cruza o caminho de um homem (Eiji Funakoshi) que deixou a família e o trabalho sufocante para tentar renovar o sentido de sua vida. Ele revela a veia filosófica dele e fala com Tora sobre liberdade ao admirar o vôo de um pássaro. Embora pareça rejeitar intelecto e não entender o que ouve, Tora vive em si mesmo o ideal de liberdade que o outro busca e também o paradoxo de sempre fugir nostálgico de onde veio...
No meio do caminho, tinha uma flor. O nome dela era Lily. Eis que Tora-san reencontra sua amada companheira, num trailer de lámen noturno. Em Shibamata, todos começam a fofocar sobre Tora e Lily de mãos dadas. Até o hilário Gozen-sama (Chishu Ryu) fica escandalizado. Desde o início da sessão, a cena genial dos piratas, o cameo da Rainha na TV e as andanças dos três bons-vivants do filme, tudo parecia caminhar para o desfecho glorioso.
Perfeito para o espectador que testemunhou o brilhantismo yamadiano por trás da câmera. Haja elogios para um dos melhores filmes da série! Apesar das cenas esplêndidas sob o guarda-chuva com Lily e da briga pelo melão serem parte dos momentos mais lembrados, também há tristeza na despedida, mas após a tempestade, uma luz esperançosa leva Tora-san ao seu estado habitual de poeta nômade. Sempre resiliente, é a vida que segue 🌷~
Quatorze filmes de Tora-san com o entusiasmo de um nipo-cinéfilo e altas expectativas, pois a década de 70 é considerada a melhor época do personagem. Embora a ideia de um homem rústico cuidando de um bebê seja hilária por si só, o episódio em questão perdeu a oportunidade de retratar o que faria Tora-san se fosse pai solteiro, pois a criança foi apenas uma forma de levá-lo à musa da sessão, a enfermeira Kyoko interpretada pela Yukiyo Toake.
Com muito charme e irreverência, a presença cativante dela vai deixá-lo como um jovem apaixonado e as cenas que ele usa o bebê para impressioná-la são muito divertidas. A cena de sonho no início também funcionou muito bem, trazendo o elemento teatral e popular da figura de Tora-san. Um grande palhaço com humor generoso e universal que precisou dividir aqui a atenção da musa com Yataro, interpretado pelo cantor e dublador Tsunehiko Kamijo.
Este barbudo músico entrou feito “patinho feio” no filme ao lado de Tora, provavelmente pelo fato da barba não ser prioridade nos padrões de beleza nipônicos e isso deve ter aumentado ainda mais a decepção do Tora ao vê-lo conquistar a moça. Um outro personagem que infelizmente destoa muito no elenco é o tio Kuruma. Essa é a terceira e última mudança de ator que o interpreta, mas sua presença aqui deixou muito a desejar. Deve melhorar depois.
O ponto alto da sessão é sem dúvidas o começo, quando Sakura recebe a notícia que o marido Hiroshi teve um acidente no trabalho. A ida dela ao hospital para ver o marido parece profundamente marcada pela influência do olhar social dos dramas autorais yamadianos que ele dirigiu fora dos filmes do Tora. Obras perfeitas que mostravam a vida difícil da classe operária japonesa com uma forma estética linda, politizada e reflexiva. Salve Yamada! ♥ ~
Treze filmes na vida de Tora-san e aqui temos a primeira musa da série fazendo um retorno triunfante no mundo do vagabundo mais amado do cinema japonês. É a segunda e talvez a última aparição da belíssima Sayuri Yoshinaga nos arredores de Shibamata. Sua personagem Utako é a filha encantadora de um escritor frio e taciturno em “Dear Old Home” (1972), o nono filme da franquia, mas agora parece estar num roteiro escrito especialmente para ela.
A fórmula em duas etapas funciona muito bem neste episódio principalmente por terem reduzido o primeiro ato com a decepção amorosa do protagonista. Embora tenha parecido uma desculpa para fazê-lo viajar e reencontrar Utako, a cena de Tora se sentindo rejeitado mais uma vez deixa a irmã com aquele olhar incomparável e profundo de empatia da brilhante Chieko Baisho. E também foi a primeira viagem de trem do vizinho “cara de polvo” 🐙 (!)
Um segmento divertido e irreverente com a manifestação generalizada da estética setentista, menção de ouro para a combinação de estampas da irmã Sakura de avental e lenço na cabeça falando no telefone coberto por um tecido xadrez que lembra aquelas senhoras antigas colocando capa em botijão de gás, samambaia e papel de parede florido. A vibe é manter os objetos do cotidiano protegidos sem perder a oportunidade de espalhar estampas pela casa.
Yamada acerta mesmo no ritmo e na simplicidade de seus filmes. O seu retrato de “Pai e Filha” aqui também funciona bem graças à interpretação de Seiji Miyaguchi como o pai de Utako. A reconciliação entre os dois é um dos momentos mais fortes da sessão. E a gentileza inesquecível dela com a blusinha amarela a preparar bife de hambúrger para Tora que mente dizendo que gosta apenas para paquerá-la com seu coração de eterno abobalhado ♥ ~
Doze filmes antes de chegar à presença da lendária Keiko Kishi na série Tora-san caso julgue necessário ver tudo em ordem cronológica. Apesar de saber que os episódios eram mostrados de maneira independente feito um “slice of life” para não afastar os espectadores que perderam algum filme anterior, o cinéfilo nipônico teimoso quer ser disciplinado. Aviso aos que chegaram até aqui — faça vezes três o número visto para saber quantos faltam. Muitos.
Os filmes do Tora-san estão mais próximos de uma sitcom que de uma novela, mas isso não impedia o diretor Yoji Yamada de entregar momentos de profunda tristeza na vida do seu protagonista vagabundo. Sua natureza nômade é o charme da história, mesmo sabendo que ele sempre arrumava uma maneira de voltar para casa. Dessa vez, ele é pego de surpresa ao descobrir que todo mundo vai viajar, menos ele. Vai ter que ficar cuidando da casa. Coitado.
Será recompensado depois ao paquerar uma das maiores estrelas do cinema japonês — Keiko Kishi. Quem pesquisou sabe que o currículo da musa é brilhante. Além de ter trabalhado com os maiores, ela também ficou conhecida aos olhos do público da época pela sua elegância à la française, incarnando valores que todos julgavam ocidentalizados de uma mulher livre e independente, questionando conservadores ao se casar com um francês.
Uma celebridade feminina no Japão dos anos 50 que se casa com um estrangeiro sem se abdicar da carreira de atriz, deixando com frequência a filha francesa sozinha para poder ir trabalhar. Ela era a figura perfeita para interpretar o estereótipo francês do artista sem rumo na série Tora-san. Inclusive, um dos títulos americanos do filme é TORA-SAN GOES FRENCH em referência direta à vida francesa da atriz que o público da época entenderia. Très chic.
Por conta da alta expectativa, quase fui consumido pela ansiedade de vê-la na tela. Após uma longa sequência de viagem em família com direito a ônibus de turista ozuesco e uma guia falante à la Tokyo Monogatari, entra em cena Keiko Kishi. Uma presença sutil e misteriosa, porém lamento dizer que o roteiro não soube aproveitar o talento dela. Foi agradável, embora tenha deixado um gosto amargo no final. Como sempre, Tora-san, tada no tomodachi desu :-(
Onze filmes de Tora-san assistidos na ordem de exibição e finalmente a entrada de um dos personagens mais carismáticos da série. A cantora de bar Lily, brilhantemente interpretada pela diva sessentista Ruriko Asaoka, aparecendo aqui pela primeira vez. A química entre os dois ficou ótima e a atriz foi uma das poucas musas a retomar o papel em filmes posteriores. Yamada e os roteiristas acertaram em cheio num papel feminino similar ao Tora-san.
Com roupas exuberantes e charme bem-humorado, Lily cruza o caminho do nosso vagabundo predileto por acaso em uma paisagem urbana incrível de Hokkaido. O encontro de Lily e Tora num canal portuário parece de fato ser uma das cenas mais bonitas até agora. Eles trocam anedotas e riem juntos, descobrindo que têm em comum uma vida errante sem rumo. Todavia por trás daquele jeito boêmio e descontraído dela, havia também melancolia em seu olhar.
Uma relação de afeto mútuo começa rapidamente entre eles e o sentimento da cena funciona muito bem graças à sinceridade na interpretação dos atores. Ruriko Asaoka receberia depois o prêmio Mainichi de melhor atriz ao interpretar Lily no décimo quinto filme da série. E a sessão também cairia nas graças da revista de cinema Kinema Junpo que incluiu apenas este segmento além do primeiro na ilustre lista de duzentos melhores filmes do cinema japonês.
Do humor burlesco de Tora-san nos créditos iniciais à metalinguagem dos personagens que citam as musas de filmes anteriores, passando pelas referências às fazendas de Hokkaido do cinema yamadiano e tantas outras neste roteiro exímio. Mereceu sem dúvidas ter recebido o prêmio Mainichi de melhor filme e roteiro naquele ano. Apesar do desfecho questionável, foi um milagre fílmico ouvir Lily dizer que amava Tora-san. Tamanha espontaneidade vale ouro!
Décimo filme de Tora-san foi uma surpresa agradável: além de Yoji Yamada ter recebido o prêmio Mainichi de melhor diretor, a sessão conta com a participação da lendária atriz e diretora Kinuyo Tanaka. O que dizer da experiência de chegar ao décimo segmento da vida de Tora-san? O universo dos personagens parecendo cada vez mais um “slice of life” cuja repetição de acontecimentos é mostrada como o próprio cotidiano da família Kuruma.
A utopia de retratar a vida como ela é — entre momentos efêmeros de alegria, banalidades da rotina e a finitude de todas as coisas. Esse olhar que celebra o “dia a dia” permite a ideia de não ver os filmes em ordem cronológica, pois todos eles até agora tiveram o final em aberto com atrizes e até lugares bem distintos. O tema do cotidiano está no fato de Tora se apaixonar em cada filme por uma musa diferente e causar confusão na vida dos tios.
O nosso vagabundo predileto sempre na estrada, porém quando volta para casa é recebido pelos tios e sua irmã Sakura de braços abertos. Em volta da mesa do jantar, trocam anedotas e alfinetadas. Mas é com seu orgulho ferido que o desbocado Tora costuma sair pela mesma porta que entrou, torcendo para que alguém o impeça de partir. Tem que ir para poder voltar com saudades da terra natal. Eis aqui a fórmula por trás do universo de Tora-san!
Sua família apenas quer o seu bem. Isto é, querem vê-lo “casado, com filhos e um trabalho honesto”, mas a dificuldade de encontrar esposa para alguém tão desajeitado vira piada recorrente. Algo que torna os primeiros segmentos extremamente similares. A vantagem de assistir na ordem é perceber mudanças sutis de um filme para o outro, sobretudo no que diz respeito à personalidade de Tora que muito surpreende nessa décima sessão.
Então, a musa caiu mesmo no charme dele?! Apesar da adorável cabeleireira Chiyo — muito bem interpretada pela talentosa veterana Kaoru Yachigusa — que se mostra interessada por Tora e não pelo personagem quase burlesco do professor universitário, Tora-san revela um pouco mais de sua insegurança e do medo terrível que parece ter de relações sérias. A cena da conversa entre os dois deixa um gosto amargo ao vê-lo perder uma oportunidade de ouro.
Algo que ressignificou de maneira discreta a percepção da vida amorosa dele em relação aos filmes anteriores, ainda que mantendo no fim o retrato de sua vida solitária. Foi um momento tão precioso como a cena de Chiyo vendo filho dela partir com lágrimas nos olhos. Numa cena posterior, ela se emociona novamente no jantar com a família de Tora. Algo imprevisível acontece — o filho de Sakura, Mitsuo, surge por trás dela com um abraço carinhoso.
Mitsuo vai crescendo com o passar dos filmes, mas sua presença infantil já fica marcante por parecer livre para brincar. Ele anda de um lado para o outro e seus brinquedos aparecem no fundo ou até mesmo no chão. Após incontáveis pelúcias, dessa vez foi o boneco do Kamen Rider (1971), personagem do seriado de TV lançado no ano anterior que fazia sucesso. No começo do filme, também tem criança que brinca imitando o motoqueiro mascarado.
Uma sessão yamadiana extraordinária apesar de ter visto pouco da ilustre Kinuyo Tanaka. Foi a cena dela tão curta entre as paisagens naturais e música clássica a refletir sobre o que é ser Tora-san, abordando a solidão daquele andarilho viajante Tamesaburo conhecido por ambos e que morreu sozinho. No fim, como a cena de Tora sentado no quarto após a saída da irmã, a sua solidão se manifesta no eco daquela tragédia. No dia seguinte, a vida continua. ♥
Nove filmes de Tora-san assistidos e o prazer de revisitar Shibamata continua no carisma dos personagens, assim como na curiosidade de descobrir a musa de cada filme. O nono segmento marca uma transição com o falecimento do ator Shin Morikawa que interpretava o tio de Tora e Sakura. As gags do personagem com o novo ator decepcionam, mas o filme já tinha uma carta na manga ao trazer uma das maiores estrelas do Japão na época.
Sayuri Yoshinaga é a musa do filme! Ela que incarnava a garota ideal dentro dos moldes românticos da sociedade japonesa conservadora nos anos 60. Após um contrato prolífico com o estúdio da Nikkatsu onde participou de inúmeros filmes juvenis e o êxito musical como cantora, Yoshinaga já tinha se tornado uma estrela completa nos anos 70 e começou a ter mais autonomia de sua carreira, trabalhando com outros estúdios e também na televisão.
Sua entrada na série de filmes de Tora-san é tão boa que o público pede mais. O próprio filme em si parece ter consciência da importância de tê-la no elenco, quando Tora aparece cantarolando a letra da música “Itsudemo yume wo”, um dos maiores hits dela como cantora. É a combinação perfeita para atrair o público jovem para um verdadeiro filme de verão. As cenas de Tora-san que se diverte com as moças ao som de Strauss são maravilhosas!
Vale à pena reparar que os filmes ficam cada vez mais setentistas. As cores vibrantes, as estampas e os efeitos de zoom mostram bem como até mesmo um cineasta sutil como Yamada acaba precisando contextualizar sua obra. Ela se renova mantendo as características que conhecemos. Tora-san decepciona a família com sua maneira desajeitada e desbocada. Decide ir embora, mas acaba voltando depois de cruzar o caminho de três moças divertidas.
Uma delas é a jovem Utako (Sayuri Yoshinaga) que deixa Tora apaixonado, uma garota infeliz com o pai distante e taciturno à la Ozu. Seu único defeito é ter demorado tanto para falar que queria se casar com um ceramista, mas a essa altura do campeonato não há mais dúvidas que o final será triste para Tora-san. Mesclando muito bem o drama e as alegrias dos personagens, Yamada sempre entrega poesia nas coisas mais simples da vida.
Oitavo filme de Tora-san com quase duas horas ficou mais longo que os anteriores, porém manteve muito bem o ritmo entre as cenas cômicas do nosso vagabundo predileto e o drama familiar do cunhado Hiroshi, o marido de Sakura. O resultado é prestimoso e está à altura do grande Yoji Yamada. Basta (re)ver a tomada de Tora ao lado do magnífico Takashi Shimura no fim de uma ruela de Okayama ao mesmo tempo que um trem atravessa a imagem...
Inútil dizer que a presença de um dos maiores atores do cinema japonês engradeceu o filme. Impossível não se emocionar ao ouvir suas palavras — “Com as gencianas florescendo no quintal e a cozinha bem iluminada para o jantar de uma família feliz, eis-me aqui diante do verdadeiro sentido da vida e com lágrimas nos olhos.” — diz Shimura ao interpretar o pai de Hiroshi numa lição de vida para Tora com uma delicadeza tremenda que caracteriza o filme.
Em duas partes como pede a fórmula yamadiana, o filme divide-se entre o falecimento da mãe de Hiroshi e o encontro esperado de Tora com a musa da sessão, a atriz de doramas Junko Ikeuchi. Primeiro vem em mente o clássico absoluto de Juzo Itami sobre o luto ao mostrar a ritualização do velório em seus costumes solenes que precisam satisfazer as normais sociais. É o momento desconfortavelmente ideal para o alívio cômico de um protagonista trapalhão.
Depois vem a viúva Takako que abre uma cafeteria em Shibamata e trabalha sozinha para sustentar seu menino. Tinha tudo para dar certo com Tora, porém seus dilemas de eterno andarilho o sabotam. A beleza do filme para além dos temas ozuescos, visitar uma trupe de atores, chegar bêbado na casa de parente, também é o não-dito: quando Tora compreende que decepcionou a irmã Sakura ou que não era o melhor pretendente para Takako.
É uma comédia marcada pelo gosto amargo de acompanhar a falta de sorte dele. Apesar de nunca se realizar, Tora-san é um exemplo de perseverança e gentileza por trás de seu look de yakuza caipira. Inspirando confiança até nas crianças, sua empatia enaltece a obra e cada desfecho parece uma despedida, como no caso do ator Shin Morikawa que interpretou o tio pela última vez e faleceu pouco tempo depois da estreia do filme. Sua presença fará falta.
O sétimo filme consolida o universo de Tora-san ao trazer de forma bem-humorada referências às sessões anteriores — o retorno da mãe Okiku (Chocho Miyako) do segundo filme e de Fuyuko (Sachiko Mitsumoto) que foi a musa do primeiro filme. Incluindo cenas engraçadas, como a família relembrando as musas precedentes e o sempre magnífico Gozen-sama (Chishu Ryu) explicando que Tora e Sakura são filhos do mesmo pai com mães diferentes.
Especialmente para os espectadores que pegaram o bonde andando, é o primeiro segmento a citar de modo consciente filmes anteriores, explicando (quase 'desenhando') a história de vida do nosso vagabundo predileto. Embora marcado pela fórmula yamadiana, o tratamento das relações entre os personagens é simples e tende ao “slice of life”, representando até os temas mais sérios de forma delicada. É o caso da deficiência mental de Hanako (Rumi Sakakibara).
Uma “Madonna” que não é perfeita e inalcançável como as outras. É sensível e possui uma deficiência. Por incrível que pareça a abordagem do filme é muito cuidadosa se levarmos em consideração o contexto e público-alvo de uma comédia romântica popular no Japão dos anos 70. Foi a oportunidade de mostrar que por trás da aparência masculina desajeitada de Tora-san há empatia, generosidade e até declaração de amor embaixo de flores de cerejeiras!
Além das estações do ano em destaque e as paisagens japonesas como cenário das andanças de Tora, o filme brilha ao mostrar pessoas na rua com o olhar quase documentarista do Yamada na época. Numa forma de retrato poético das relações humanas, também permite aos atores cada vez mais sintonia com os personagens e a participação ainda que breve do grande Kunie Tanaka foi tão marcante que agora é difícil imaginar o filme sem ele.
O sexto filme de Tora-san não deveria existir, pois o fim do personagem estava previsto para o quinto. Foi o sucesso de público que obrigou a produção a continuar. Imagine perder a oportunidade de trazer a Shibamata uma das personalidades mais conhecidas do star system japonês — Ayako Wakao. Elegância sempre e beleza incomparável ao interpretar Yuko, causando à primeira vista o coração partido do nosso vagabundo preferido Tora-san.
Assim como os segmentos anteriores, o filme reforça a nostalgia por trás da origem do protagonista. Apesar de sempre ir embora no final, Tora se diz “uma criança de quase quarenta anos” que não consegue se tornar adulto por estar profundamente ligado à saudosa Shibamata onde vivem os tios e a irmã Sakura. O início em preto e branco mostra numa TV a sua cidade como lugar de costume e tradição, um retrato do seu sentimento nostálgico.
Se chegou até aqui, já passou por volta de nove horas assistindo. Embora o fim da saga esteja longe, duas ideias podem parecer inevitáveis — a primeira é a repetição se tornando o charme da história, uma maneira de conviver com os personagens. A segunda é o fato de terem muitas lacunas, suas intenções pouco explicadas deixam um mistério no ar, ainda que seja possível a cada filme assistido descobrir uma nova informação sobre o passado de Tora-san.
Um bom exemplo disso seria a cena de Tora e Sakura na estação de trem. Além de ser muito yamadiana, singela e emocionante, a despedida dos dois é também um momento de relembrar que naquele mesmo lugar Tora tinha ido pegar o trem para sair de casa após brigar com o pai quando era apenas um moleque rebelde. Uma lembrança intensa citada em vários segmentos que toma forma na imaginação progressivamente conforme assistimos aos filmes.
Pode-se dizer que a personagem da “musa romântica” incarna o olhar do espectador dentro da história — vivendo um momento divertido com o pessoal de Shibamata e depois indo embora mais cedo ou mais tarde, pois tudo acaba, inclusive o filme. Neste, por sinal, duas mulheres cruzam o caminho do protagonista. A primeira é interpretada por ninguém menos que Nobuko Miyamoto (esposa de Juzo Itami na época, atriz do futuro clássico “Tampopo”).
A segunda é Ayako Wakao, atriz já consagrada com vinte anos de carreira em 1971 e com os diretores Mizoguchi, Ozu, Masumura e Kawashima no currículo. No entanto, a presença de ambas é breve e misteriosa. Algo que lembra os filmes do Yasujiro Ozu, pois não sabemos muita coisa da vida anterior delas ou como será depois. Os detalhes ficam implícitos vide “Pai e Filha” — o banal do cotidiano que aparece em detrimento dos grandes eventos da vida.
Inclusive que cena linda do pai com lágrimas nos olhos ao ouvir a filha no telefone depois de recusar a presença da mesma em sua casa, exatamente como o personagem de Chishu Ryu fez com sua filha interpretada por Setsuko Hara no clássico citado acima. Yamada com uma abordagem familiar elaborada, ainda que marcada por um tom, diga-se de passagem, conservador ao aceitar a relação abusiva no caso das duas mulheres e as piadas do médico.
Então, não era apenas a vida que decepcionava? Referência ozuesca ativada! O mundo yamadiano se revela humano e autêntico até mesmo nas limitações. Outra coisa inusitada foi Tora fazendo o sinal da cruz diante de uma igreja. Para decifrar tamanho delírio é preciso retomar a chegada dos portugueses com o cristianismo no Japão do séc. XVI que ocorreu nos locais onde este Tora-san foi fimado, naquele paraíso das ilhas de Gotô, no sul do Japão.
PS> Eita, coisa boa... feito gato com a bunda suja! 結構毛だらけ 猫灰だらけ お尻の周りはクソだらけ
O quinto filme de Tora-san marca o retorno de Yoji Yamada no papel de diretor que ele assumiu com êxito proporcional ao número de continuações na saga do vagabundo mais amado pelo público japonês. Que êxtase visual! Se comparado com os dois precedentes realizados por Morisaki e Kobayashi, este me pareceu superior até em nível fotográfico, especialmente as paisagens de Urayasu e as ferrovias em planos longos tão yamadianos.
A poesia no rosto iluminado de Tora-san e do parceiro de andanças sem rumo, o jovem Noboru, apreciando a partida do trem aqui eternizada em filme graças à contribuição inestimável do diretor de fotografia Tetsuo Takaha. Suas imagens metafóricas sobre a vida como trajetória em movimento: as passagens de trem e do Tora-san que dorme num barco sendo levado pelo rio alteram a intriga principal como as famosas 'pillow shots' do Ozu.
Que curioso pensar em seus filmes interligados! A presença marcante neste é da Chieko Baisho como Sakura, a irmã de Tora-san. Também tem Hisashi Igawa evocando o magnífico Kazoku (“Família”,1970) do mesmo ano. Muitos notam as coincidências entre os filmes dele fora da saga “Otoko wa Tsurai yo”: como se o começo de uma obra fosse a continuação de outra e, no caso de Tora-san, a dita fórmula do personagem brinca mesmo com a repetição.
E, por falar nisso, a canção tema do filme após cinco sessões fica de fato inesquecível ao trazer aquele momento de emoção tão esperado quando o personagem aceita as próprias limitações. Entre suor e lágrimas do trabalho honesto que tanto pedia a irmã Sakura, Tora-san se engana mais uma vez no que diz respeito aos sentimentos da musa do filme Setsuko, interpretada com muita delicadeza por Aiko Nagayama. A reflexão final é a perseverança de Tora-san ao conseguir ultrapassar o fracasso e terminar sorrindo, contando suas piadas.
É o segundo de dois filmes do Tora-san que não foram dirigidos pelo Yoji Yamada. Talvez seja de fato mais eficaz que o anterior, ainda que não tenha o charme do cineasta sempre associado ao protagonista vagabundo. Principalmente no primeiro ato com os tios, este "grandioso plano do Tora-san" é muito divertido, temos que admitir! Repetindo o roteiro de maneira consciente da fórmula “Yamada”, a intriga da viagem para o Havaí é hilária demais.
Saiba que entre agosto de 1969 e fevereiro de 1970, quatro filmes com Tora-san já tinham sido lançados nos cinemas num período de apenas seis meses. O quinto filme sairia também em 1970, pouco tempo depois. A essa altura do campeonato, Kiyoshi Atsumi já tinha incorporado completamente o personagem. Isso fica evidente na espontaneidade do Tora-san, na sua relação com os outros e nas lágrimas da cena final com seu olhar marcante de tão genuíno!
Enquanto espectadores estrangeiros, é difícil medir a importância que Tora-san deve ter tido para o público da época. No entanto, podemos pelo menos imaginar a empolgação que os japoneses deviam ter ao reencontrar em cada filme lançado aqueles personagens tão divertidos. Sobretudo o fato de que nada mudava em Shibamata, isso devia facilitar sem dúvidas a familiariedade do público com os personagens e o mundo em torno deles.
Os quiprocós de Tora, as piadas escatológicas, o seu humor físico desastrado, os outros ao chamá-lo de besta, as cenas em que sempre tem alguém debochando dele sem saber que ele está por perto escondido, atrás da porta ou até mesmo dentro de algum armário. Diversão garantida sob forma de deleite narrativo. Inclusive a cena dele contando as peripécias das passagens de avião para o Havaí é memorável. Basta pensar na importância da contação de estórias na obra yamadiana, Tora-san ganha uma dimensão criativa popular muito especial.
É o primeiro de dois filmes do Tora-san que não foram dirigidos pelo Yoji Yamada. Apesar de sua presença através do roteiro, pode-se notar algumas variações no tom do filme, inclusive o lado cômico ficou enfatizado desde a abertura da sessão. Dessa vez, o sentido de フーテンの寅, “Tora, um viajante andarilho” no título insiste também no desenraizamento do personagem.
Tora-san segue viajando, mas também se questiona sobre a possibilidade de se casar e aderir à vida pacata dos moradores de Shibamata. Nesse aspecto, o filme reproduz perfeitamente a fórmula “Yamada” com a decepção da família, o retorno de Tora-san e a sua desilusão amorosa. Tudo pontuado pelo humor e a presença de uma heroína romântica.
Interpretada com muita elegância por Michiyo Aratama, Oshizu ficou uma “Madonna” menos carismática que as duas precedentes, diga-se de passagem. Pode ser que alguns aficionados do cinema nipônico se surpreendam mais com a presença inusitada de Masumi Harukawa (atriz imamuriana de “Intentions of Murder”) numa cena divertida e o cameo de Kirin Kiki na época de menina, muito antes de se consagrar em papéis maduros. Charme incomparável!
Apesar dos elementos dramáticos não terem a mesma coesão dos dois primeiros filmes, o humor foi muito bem trabalhado. Vale ressaltar a primeira aparição entre muitas ao longo da série de Tora-san vestido à moda japonesa feudal que atribui ao imaginário do personagem um tom teatral e até atemporal para o público japonês. Tora-san é engraçado por natureza e possui um grande coração. Enquanto ajuda no casamento dos outros, acaba esquecendo de si mesmo. Não tem sorte no amor, mas sempre cai nas graças do espectador.
Confirmado, o desfecho com Tora-san na TV faz perdoar qualquer equívoco roteirístico, tão genial quanto o almoço com o chefe da irmã no primeiro filme e a entrada da mãe no segundo.
Poderia se chamar “Mamãezinha Querida” esta continuação, por assim dizer, do Tora-san, e ser algo como slice-of-life de um malandro viajante em busca de sua mãe, retraçando suas origens para melhor compreender o seu desenraizamento da terra natal. Esta que talvez seja o grande tema na poética popular brilhantemente representada no cinema de Yoji Yamada.
Citando um grande cinéfilo alemão que todos adoramos, “os maiores cineastas realizam sempre o mesmo filme”, elogiando o gesto da repetição principalmente no cinema autoral que permite o diretor de elaborar características que o espectador poderia vir a reconhecer de um filme ao outro. E com este olhar a influência de Ozu aqui se torna inevitável.
Yamada começou a carreira no mesmo estúdio de Ozu e dizia sempre cruzar o caminho dele na Shochiku dos anos 50. Também revelou não gostar das narrativas ozuescas que descrevia como herméticas, alienadas da miséria do pós-guerra e das injustiças sociais, pois sonhava com um cinema que representasse a pobreza da época. O resultado foi o inverso, Yamada evoca no público o sentimento de similaridade com o cinema de Yasujiro Ozu.
Até em “É duro ser homem” (tradução literal do título japonês 男はつらいよ), assim como “Que mundo triste” ou “A vida é feita de encontros e despedidas” deste filme lembraram-me “A vida não é decepcionante?” do filme mais conhecido de Ozu. O “estilo Ofuna” dos cineastas da Shochiku acabou por se manifestar no universo de Yamada com a simplicidade das intrigas, o fraseado eloquente e o olhar extremamente sensível para com os seus personagens.
Apesar de buscar exatamente o oposto, Yamada não representava a personalidade vulgar de Tora-san (que o próprio se diz no filme um “yakuza caipira”) de maneira a romper com o classicismo fílmico nipônico (que era o caso da new wave), mas acabou por exaltar o cinema popular e emocionar um grande público. Isso se deve a narrativas repetitivas que deixam o público familiarizado com Tora-san e até ouvem a mesma piada mais de uma vez!
Que proeza escrever uma continuação tão divertida do primeiro filme com estrutura idêntica: ele deixa a família decepcionada, um mês depois retorna apaixonado, pronto para dessa vez se decepcionar a si próprio. A razão do seu drama é o amor não-recíproco da figura feminina dita em japonês “madonna” (マドンナ), interpretada em cada filme por uma atriz diferente, no sentido quase religioso da mulher delicada e pura. Logo, inacessível para o protagonista.
Tora-san, então, vai sonhar ao longo de mais de quarenta filmes com a companhia de uma amada. Inclusive, o onirismo dele se torna um símbolo essencial que se repete na abertura de (quase) todos os filmes. Apenas a figura de sua mãe biológica aqui mereceria um comentário a parte, tamanha a riqueza visual da cena do reencontro com projeção de luzes e cores que ouso dizer de passagem à la D.Sirk-R.Metty. Que mãe eloquente com seu charme avarento!
Tora-san está no fundo do coração do cinema popular japonês. Além de ser a maior série de filmes com o mesmo personagem, as cinquenta sessões em questão são um verdadeiro convite para aqueles que desejam se aprofundar no pensamento e nos paradoxos da sociedade japonesa. Uma fonte inesgotável de material linguístico para estudar o idioma com o nosso vagabundo predileto, Torajiro Kuruma, mais conhecido como Tora-san.
Ele é caracterizado pelo seu lado rústico com um linguajar informal e vocabulário que pode passar rapidamente da simplicidade à grosseria. O seu humor intrínseco aos filmes ressalta com frequência estereótipos do imaginário popular. A presença da figura do caipira se comparada aos outros, na sedução, família ou no trabalho, explora de maneira lúdica contradições sociológicas no interior do dicionário de etiquetas do japonês.
Considerado um sujeito em perigo de extinção, Tora-san simboliza o ser marginalizado numa sociedade pautada em sistemas, códigos e empresas, sentindo-se deslocado onde quer que esteja. Demasiado vulgar para trabalhar em lugares formais, completamente desajeitado deixando os outros com vergonha e até mesmo feio como um cão chupando manga e pronto para espantar as moças ao seu redor, mas por que o perfil do Tora-san deixaria de existir?
De fato, o japonês possui na essência marcadores de polidez, sufixos, pronomes e declinações infinitas para expressar níveis de formalidade inimagináveis. Eles aprendem desde pequeno o funcionamento deste discurso coletivo de nunca incomodar o outro. Até mesmo Tora-san precisa navegar nas sutilezas do idioma e não pode tratar todo mundo da mesma maneira, mas num ambiente de polidez extrema, o mal-educado é o transgressor do código dominante. Poucos desejam ocupar este lugar socialmente marginalizado.
Tora-san ousa dizer e fazer coisas que a maioria não faria por receio das normas sociais. O desconforto que ele causa nas pessoas é a alma do humor em seus filmes e a razão de ter se tornado uma figura amada por espectadores japoneses de diferentes classes sociais. Além de ter um grande coração, é autêntico e não tem medo de se mostrar inteiramente aos outros com vícios e virtudes. Muitos consideram que o falecimento do ator Kiyoshi Atsumi foi como se os japoneses tivessem perdido Tora-san, mas em memória e também com uma bela estátua em Shibamata de Katsushika, Tóquio, ele sempre vai viver no imaginário das pessoas.
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Tora-san 20: Plays Cupid
4.0 1Vigésimo Tora-san retoma o personagem em sua versão “estúpido cupido” — o retorno para ajudar um casal de apaixonados — a garçonete Sachiko e o eletricista Ryosuke recebendo aqui uma importância maior para o enredo do que outros coadjuvantes em segmentos anteriores. O resultado ficou acima da média e me conquistou imediatamente graças à Shinobu Otake que mostra muito bem a sua presença brilhante apesar de ainda tão novinha!
Ao interpretar a garçonete Sachiko em cenas melodramáticas exigentes, a jovem Shinobu Otake já fazia prova de um grande equilíbrio entre sensibilidade e introspecção antes mesmo de arrebatar o prêmio de melhor atriz por “The Incident” de 1978. Ainda que fossem papéis secundários na época, a sua sutileza tinha o potencial de roubar a cena. Foi de fato o caso neste filme de Tora-san trazendo uma musa elegante que para mim passa despercebida.
Então, o cupido protagonista se tornando graças à escola da vida o expert das práticas do amor vai tentar ajudá-la com o inexperiente Ryosuke (Masatoshi Nakamura), um garoto simples e gentil apelidado de Watt em referência ao seu trabalho de eletricista. A interação dos jovens aqui revela muito bem o drama de homens tímidos em sociedade patriarcal e o fim teria sido amargo com a influência da cultura do suicídio se não fosse uma comédia yamadiana.
Diretor magnífico que filmava cenas profundas com humor, inclusive sobre a morte. Lançava apenas dois meses antes o que muitos consideram a sua obra-prima, “The Yellow Handkerchief” em outubro de 1977. Em seguida, na véspera do ano novo, Yamada novamente em cartaz com esta comédia romântica que possuía a sua espontaneidade típica até nos atos mais burlescos e afetados vide Tora-san que nos ensina a amar através do cinema:
É preciso escolher um filme que combina com o amor, explica Kuruma-sensei. Não pode ser estrangeiro, pois ela vai achar o galã americano mais bonito do que você. Não pode ser de Yakuza que vai deixá-la indiferente e também não pode ser de tragédia que dá vontade de ir embora. Tem que ser uma comédia daquelas que a gente ri até ficar com fome para depois convidá-la para jantar. Caro Tora-san, se é rir e comer, já estou diplomado no seu curso!
Tora-san 19: Meets His Lordship
4.2 1Dezenove Tora-san assistidos e a grata surpresa de encontrar um screwball sensacional que segue subestimado pelos fãs da mais longa série cinematográfica do cinema. Assim como na ideia genial do segundo filme quase uma década antes, Yamada e seu roteirista Yoshitaka Asama colocam um personagem idoso no centro da história. O ilustre Kanjuro Arashi com seu charme e humor me deixou nostálgico das cenas com Chocho Miyako, a mãe de Tora-san.
No início da sessão, é possível ver a homenagem yamadiana à arte fílmica em si e ao ator que interpreta o personagem descendente de senhores feudais. O sonho na abertura é uma paródia dos filmes nos quais Kanjuro Arashi interpretava Kurama Tengu desde os anos 20. Temos ainda nos créditos iniciais uma cena deliciosa e parecida, diga-se de passagem, com a do segmento anterior em que Tora-san atrapalha uma equipe nos bastidores de um filme.
Cenas de puro deleite e comédia de costumes preparam o filme para a entrada da musa Mariko (Kyoko Maya) que vai despertar mais um caso de desilusão amorosa na vida do nosso protagonista predileto. É o equilíbrio perfeito entre o humor e a tristeza dos personagens que colocou a obra ao meu ver acima de outros títulos que talvez tenham exagerado um aspecto em detrimento do outro. Conseguiu ser divertido e burlesco mesmo abordando o tema do luto.
Brilhante! Como ri alto deparando-me com o tal cachorro chamado Tora. Simplesmente incrível a maneira com a qual estes personagens nos cativam. Não há artifícios, apenas ideias das mais banais que surpreendem o espectador relembrando alguma situação similar que todos já vivemos. Simples embora triunfante em rigor fílmico, vide a transição de chanbara entre a casa do senhor e a cena de Genko com Mitsuo no templo de Shibamata. Que olhar afiado!
Tora-san 18: Pure Love
3.0 1Dezoito filmes de Tora-san tentando alegrar a vida dos outros e fazê-los sorrir, este pareceu mais um melodrama com toque de humor. A presença teatral de Machiko Kyo (grande atriz dos clássicos Rashomon, Jigokumon, Ugetsu Monogatari) pode não agradar a todos com sua eloquência dramática, porém a tragédia da personagem também remete ao declínio da era de ouro do cinema japonês, à morte de grandes estrelas da época e ao fim dos estúdios.
Foi a penúltima aparição no cinema desta atriz lendária e amada pelo público japonês antes de se aposentar. Em contrapartida, a sua filha no filme interpretada com muita delicadeza por Fumi Dan aposta em dobro no jogo sutil. Parecia mais um rosto bonito no início, mas revela outras camadas ao longo do filme. Mãe e filha, as duas personagens se envolvem ♥ ♥ ♥ ~ afetivamente com Tora-san de formas bem diferentes e o filme aborda a questão do etarismo.
Após a invasão rude e egocêntrica de Tora-san na reunião escolar do sobrinho, fazendo ainda por cima o tristonho que vai embora sofrido, o nosso protagonista recebe verdadeiramente o tapa na cara do etarismo, merecido ou não. Teve que ouvir que era velho demais para a professora e que tinha a idade para ser o pai dela. A piada da cena ocorre quando Sakura diz que a mãe dela é quem deveria estar próxima à idade dele. Resultado, a mãe entra cena.
Por falar na Sakura, impossível imaginar a série sem a irmã de Tora-san interpretada pela magnífica e soberba Chieko Baisho. Uma atriz iluminada pela inteligência do jogo mínimo e do olhar misterioso que merece sempre ser louvado. Quando ela entra em cena, o negócio vira uma aula de atuação. Algo que não pode ser dito de todos, vide a trupe de teatro na primeira parte do filme com alguns excessos e até um ator descrito por Tora-san como "bicha" (!)
O episódio da vez tem várias cenas tristes e até alguns diálogos divertidos, mas fica subestimado perto do filme anterior considerado o melhor Tora-san já feito. Apesar dos altos e baixos, destaca-se em seu olhar sensível do luto e pela poesia que os japoneses atribuem à simplicidade das coisas. Como é bonito vê-los em situações banais como uma despedida na estação ou uma conversa no jantar, a beleza dos momentos onde nada acontece.
Tora-san 17: Sunrise and Sunset
4.5 1Dezessete filmes de Tora-san e eis aqui o título que muitos consideram o melhor para ser assistido por alguém que não pretende ver cinquenta filmes. Isto é, se for o caso de escolher um episódio separado dos outros, porém sigo fiel no culto ao personagem de Lily que brilha ao meu ver em mais de um filme, inclusive no último da série. Dito isso, o enredo aqui funcionou com uma exímia sintonia entre os atores e personagens emotivos muito bem caracterizados.
A abertura em homenagem a JAWS ficou incrível e hilária até mesmo em seu aspecto artesanal. Yamada sabia como roubar o coração daquele público cinéfilo! Apesar do clássico spielberguiano lançado no verão de 1975 ter demorado meses para chegar ao Japão, este segmento do Tora-san lançado no verão seguinte, aproveitou ainda a sharkmania da época e tornou-se um sucesso de público, assim como nos artigos exigentes da Kinema Junpo.
O título original em japonês faz referência a uma antiga canção infantil que simboliza o fim do dia na escola e as crianças voltando para casa. A razão disso está até na sinopse, pois se trata do primeiro dia na escola de Mitsuo (Hayato Nakamura), o filho da irmã Sakura e Hiroshi. Embora o drama tenha servido apenas para espantar o nosso viajante protagonista, uma cena em questão ficou marcante quando Tora desolado diz que sempre é culpado de tudo.
Atsumi-san não atuava mais aqui, ele incarna de vez a persona do Tora com uma força tremenda e os dois personagens introduzidos no segmento também foram atribuídos a atores de mesma dedicação. Jukichi Uno, um grande nome dos filmes de Kaneto Shindo, mostrou sua presença forte no filme com um personagem que revela a mentalidade da época. Ele é um velho desprezado até quando todos descobrem sua verdadeira identidade e status social.
Depois tem a entrada alegre de Botan (Kiwako Taichi), uma gueixa divertida que revela uma história triste do seu passado e deixa Tora-san emocionado de uma forma que ele decide ajudá-la custe o que custar. A presença dela é teatral com gestos de grande eloquência e sensibilidade, diferenciando a sua figura das outras musas mais discretas. Com o sorriso radiante, Botan combina demais com a flor emoldurada que recebe no fim. Puro deleite!
Tora-san 16: The Intellectual
3.5 1Dezesseis filmes assistidos e Tora-san segue como o marmota número um do cinema japonês, mas agora ele também quer ser um intelectual?! Imagine tal desafio de escrever este roteiro após o brilhantismo do episódio anterior considerado um dos melhores da série. O diretor Yoji Yamada com o roteirista Yoshitaka Asama fizeram a escolha mais simples e segura, repetindo a ideia do personagem universitário do décimo filme e incluindo uma estrela da época.
Apesar de não ter a qualidade dos filmes com a musa Lily, esse conta com a participação rápida de Junko Sakurada, uma estrela juvenil da música japonesa setentista. A presença dela sendo uma idol extremamente popular deve ter atraído o público jovem. Numa cena bem divertida, o policial do filme anda de bicicleta cantarolando o maior hit da cantora, “Watashi no Aoi Tori”. Passa depressa, mas quem já ouviu vai reconhecer a letra... クック クック~ 🐦
Curiosamente, o ator Masakane Yonekura que tinha interpretado um universitário no décimo filme retorna aqui como o policial. O papel intelectual ficou para Fumie Kashiyama que incarna a musa da vez, a adorável Reiko Kakei. Além de ser a sobrinha do Gozen-sama (Chishu Ryu), ela estuda arqueologia e veio alugar um quarto na casa dos Kuruma para poder se concentrar nos estudos. É claro que Tora se apaixona à primeira vista, mas existe o status que os separa.
Tora-san é um cara orgulhoso e o fato de não ter estudado o incomoda. Ele sempre usa do humor para esconder o seu lado frágil e o seu sentimento de inferioridade diante de intelectuais. Inclusive, uma piada recorrente é quando ele fala de maneira paternalista com alguém que julga pela aparência como sendo um atendente ou um operário até descobrir que se trata de um professor ou um médico, revelando de certa forma a mentalidade da época.
O quid pro quo de classe social gera momentos engraçados. Se não é pelo estudo, é rindo que os dois encontram afinidade. Além disso, o papel social da mulher fica mais uma vez em destaque com a empatia yamadiana. Um homem bem-sucedido podia formar família, mas uma mulher precisava escolher entre trabalhar e ser mãe. Quando Reiko é pedida em casamento, fica confusa, questionando suas próprias escolhas e as barreiras enfrentadas por ser mulher.
O filme também explora bem a dificuldade da figura da musa de se impor em autonomia e independência, pois ela geralmente se arrepende ou pede desculpas ao invés de assumir a própria liberdade de expressão. Ela não permanece na posição intelectual muito tempo, pois através da comédia Tora vira prof da matéria “escola da vida”, reativando as normas paternalistas da mulher obediente. Por conta disso, o fim sem casamento chega a ser irônico.
Tora-san 15: Rise and Fall
5.0 1Quinze filmes para chegar à conclusão que os melhores talvez sejam com a brilhante interpretação de Ruriko Asaoka, atriz e cantora idol no Japão dos anos 60. Na época em que foi chamada para ser uma musa na vida de Tora-san, madame Asaoka já tinha vinte anos de carreira. Com uma vasta experiência de profissão se manifestando aqui em maturidade interpretativa, ela é Lily com a mesma excelência que Kiyoshi Atsumi tornou-se Tora-san.
A química entre os dois é imbatível, pois Lily não aceita calada a arrogância masculina dele. Ela sempre tem um bom sermão para dar. E, sobretudo, a virtude de demonstrar uma grande força de caráter sem esconder a própria vulnerabilidade. Apesar de feitos um para o outro à margem da sociedade, Lily e Tora são parecidos demais para terminar juntos. É nas suas semelhanças que percebem aquilo que os separam, o mais profundo desejo de liberdade.
Viajando por Aomori e Hakodate, Tora-san cruza o caminho de um homem (Eiji Funakoshi) que deixou a família e o trabalho sufocante para tentar renovar o sentido de sua vida. Ele revela a veia filosófica dele e fala com Tora sobre liberdade ao admirar o vôo de um pássaro. Embora pareça rejeitar intelecto e não entender o que ouve, Tora vive em si mesmo o ideal de liberdade que o outro busca e também o paradoxo de sempre fugir nostálgico de onde veio...
No meio do caminho, tinha uma flor. O nome dela era Lily. Eis que Tora-san reencontra sua amada companheira, num trailer de lámen noturno. Em Shibamata, todos começam a fofocar sobre Tora e Lily de mãos dadas. Até o hilário Gozen-sama (Chishu Ryu) fica escandalizado. Desde o início da sessão, a cena genial dos piratas, o cameo da Rainha na TV e as andanças dos três bons-vivants do filme, tudo parecia caminhar para o desfecho glorioso.
Perfeito para o espectador que testemunhou o brilhantismo yamadiano por trás da câmera. Haja elogios para um dos melhores filmes da série! Apesar das cenas esplêndidas sob o guarda-chuva com Lily e da briga pelo melão serem parte dos momentos mais lembrados, também há tristeza na despedida, mas após a tempestade, uma luz esperançosa leva Tora-san ao seu estado habitual de poeta nômade. Sempre resiliente, é a vida que segue 🌷~
Tora-san 14: Lullaby
3.5 1Quatorze filmes de Tora-san com o entusiasmo de um nipo-cinéfilo e altas expectativas, pois a década de 70 é considerada a melhor época do personagem. Embora a ideia de um homem rústico cuidando de um bebê seja hilária por si só, o episódio em questão perdeu a oportunidade de retratar o que faria Tora-san se fosse pai solteiro, pois a criança foi apenas uma forma de levá-lo à musa da sessão, a enfermeira Kyoko interpretada pela Yukiyo Toake.
Com muito charme e irreverência, a presença cativante dela vai deixá-lo como um jovem apaixonado e as cenas que ele usa o bebê para impressioná-la são muito divertidas. A cena de sonho no início também funcionou muito bem, trazendo o elemento teatral e popular da figura de Tora-san. Um grande palhaço com humor generoso e universal que precisou dividir aqui a atenção da musa com Yataro, interpretado pelo cantor e dublador Tsunehiko Kamijo.
Este barbudo músico entrou feito “patinho feio” no filme ao lado de Tora, provavelmente pelo fato da barba não ser prioridade nos padrões de beleza nipônicos e isso deve ter aumentado ainda mais a decepção do Tora ao vê-lo conquistar a moça. Um outro personagem que infelizmente destoa muito no elenco é o tio Kuruma. Essa é a terceira e última mudança de ator que o interpreta, mas sua presença aqui deixou muito a desejar. Deve melhorar depois.
O ponto alto da sessão é sem dúvidas o começo, quando Sakura recebe a notícia que o marido Hiroshi teve um acidente no trabalho. A ida dela ao hospital para ver o marido parece profundamente marcada pela influência do olhar social dos dramas autorais yamadianos que ele dirigiu fora dos filmes do Tora. Obras perfeitas que mostravam a vida difícil da classe operária japonesa com uma forma estética linda, politizada e reflexiva. Salve Yamada! ♥ ~
Tora-san 13: Lovesick
4.0 1Treze filmes na vida de Tora-san e aqui temos a primeira musa da série fazendo um retorno triunfante no mundo do vagabundo mais amado do cinema japonês. É a segunda e talvez a última aparição da belíssima Sayuri Yoshinaga nos arredores de Shibamata. Sua personagem Utako é a filha encantadora de um escritor frio e taciturno em “Dear Old Home” (1972), o nono filme da franquia, mas agora parece estar num roteiro escrito especialmente para ela.
A fórmula em duas etapas funciona muito bem neste episódio principalmente por terem reduzido o primeiro ato com a decepção amorosa do protagonista. Embora tenha parecido uma desculpa para fazê-lo viajar e reencontrar Utako, a cena de Tora se sentindo rejeitado mais uma vez deixa a irmã com aquele olhar incomparável e profundo de empatia da brilhante Chieko Baisho. E também foi a primeira viagem de trem do vizinho “cara de polvo” 🐙 (!)
Um segmento divertido e irreverente com a manifestação generalizada da estética setentista, menção de ouro para a combinação de estampas da irmã Sakura de avental e lenço na cabeça falando no telefone coberto por um tecido xadrez que lembra aquelas senhoras antigas colocando capa em botijão de gás, samambaia e papel de parede florido. A vibe é manter os objetos do cotidiano protegidos sem perder a oportunidade de espalhar estampas pela casa.
Yamada acerta mesmo no ritmo e na simplicidade de seus filmes. O seu retrato de “Pai e Filha” aqui também funciona bem graças à interpretação de Seiji Miyaguchi como o pai de Utako. A reconciliação entre os dois é um dos momentos mais fortes da sessão. E a gentileza inesquecível dela com a blusinha amarela a preparar bife de hambúrger para Tora que mente dizendo que gosta apenas para paquerá-la com seu coração de eterno abobalhado ♥ ~
Tora-san 12: Loves an Artist
4.0 1Doze filmes antes de chegar à presença da lendária Keiko Kishi na série Tora-san caso julgue necessário ver tudo em ordem cronológica. Apesar de saber que os episódios eram mostrados de maneira independente feito um “slice of life” para não afastar os espectadores que perderam algum filme anterior, o cinéfilo nipônico teimoso quer ser disciplinado. Aviso aos que chegaram até aqui — faça vezes três o número visto para saber quantos faltam. Muitos.
Os filmes do Tora-san estão mais próximos de uma sitcom que de uma novela, mas isso não impedia o diretor Yoji Yamada de entregar momentos de profunda tristeza na vida do seu protagonista vagabundo. Sua natureza nômade é o charme da história, mesmo sabendo que ele sempre arrumava uma maneira de voltar para casa. Dessa vez, ele é pego de surpresa ao descobrir que todo mundo vai viajar, menos ele. Vai ter que ficar cuidando da casa. Coitado.
Será recompensado depois ao paquerar uma das maiores estrelas do cinema japonês — Keiko Kishi. Quem pesquisou sabe que o currículo da musa é brilhante. Além de ter trabalhado com os maiores, ela também ficou conhecida aos olhos do público da época pela sua elegância à la française, incarnando valores que todos julgavam ocidentalizados de uma mulher livre e independente, questionando conservadores ao se casar com um francês.
Uma celebridade feminina no Japão dos anos 50 que se casa com um estrangeiro sem se abdicar da carreira de atriz, deixando com frequência a filha francesa sozinha para poder ir trabalhar. Ela era a figura perfeita para interpretar o estereótipo francês do artista sem rumo na série Tora-san. Inclusive, um dos títulos americanos do filme é TORA-SAN GOES FRENCH em referência direta à vida francesa da atriz que o público da época entenderia. Très chic.
Por conta da alta expectativa, quase fui consumido pela ansiedade de vê-la na tela. Após uma longa sequência de viagem em família com direito a ônibus de turista ozuesco e uma guia falante à la Tokyo Monogatari, entra em cena Keiko Kishi. Uma presença sutil e misteriosa, porém lamento dizer que o roteiro não soube aproveitar o talento dela. Foi agradável, embora tenha deixado um gosto amargo no final. Como sempre, Tora-san, tada no tomodachi desu :-(
Tora-san 11: Forget Me Not
4.5 1Onze filmes de Tora-san assistidos na ordem de exibição e finalmente a entrada de um dos personagens mais carismáticos da série. A cantora de bar Lily, brilhantemente interpretada pela diva sessentista Ruriko Asaoka, aparecendo aqui pela primeira vez. A química entre os dois ficou ótima e a atriz foi uma das poucas musas a retomar o papel em filmes posteriores. Yamada e os roteiristas acertaram em cheio num papel feminino similar ao Tora-san.
Com roupas exuberantes e charme bem-humorado, Lily cruza o caminho do nosso vagabundo predileto por acaso em uma paisagem urbana incrível de Hokkaido. O encontro de Lily e Tora num canal portuário parece de fato ser uma das cenas mais bonitas até agora. Eles trocam anedotas e riem juntos, descobrindo que têm em comum uma vida errante sem rumo. Todavia por trás daquele jeito boêmio e descontraído dela, havia também melancolia em seu olhar.
Uma relação de afeto mútuo começa rapidamente entre eles e o sentimento da cena funciona muito bem graças à sinceridade na interpretação dos atores. Ruriko Asaoka receberia depois o prêmio Mainichi de melhor atriz ao interpretar Lily no décimo quinto filme da série. E a sessão também cairia nas graças da revista de cinema Kinema Junpo que incluiu apenas este segmento além do primeiro na ilustre lista de duzentos melhores filmes do cinema japonês.
Do humor burlesco de Tora-san nos créditos iniciais à metalinguagem dos personagens que citam as musas de filmes anteriores, passando pelas referências às fazendas de Hokkaido do cinema yamadiano e tantas outras neste roteiro exímio. Mereceu sem dúvidas ter recebido o prêmio Mainichi de melhor filme e roteiro naquele ano. Apesar do desfecho questionável, foi um milagre fílmico ouvir Lily dizer que amava Tora-san. Tamanha espontaneidade vale ouro!
Tora-san 10: Dream-Come-True
4.7 1Décimo filme de Tora-san foi uma surpresa agradável: além de Yoji Yamada ter recebido o prêmio Mainichi de melhor diretor, a sessão conta com a participação da lendária atriz e diretora Kinuyo Tanaka. O que dizer da experiência de chegar ao décimo segmento da vida de Tora-san? O universo dos personagens parecendo cada vez mais um “slice of life” cuja repetição de acontecimentos é mostrada como o próprio cotidiano da família Kuruma.
A utopia de retratar a vida como ela é — entre momentos efêmeros de alegria, banalidades da rotina e a finitude de todas as coisas. Esse olhar que celebra o “dia a dia” permite a ideia de não ver os filmes em ordem cronológica, pois todos eles até agora tiveram o final em aberto com atrizes e até lugares bem distintos. O tema do cotidiano está no fato de Tora se apaixonar em cada filme por uma musa diferente e causar confusão na vida dos tios.
O nosso vagabundo predileto sempre na estrada, porém quando volta para casa é recebido pelos tios e sua irmã Sakura de braços abertos. Em volta da mesa do jantar, trocam anedotas e alfinetadas. Mas é com seu orgulho ferido que o desbocado Tora costuma sair pela mesma porta que entrou, torcendo para que alguém o impeça de partir. Tem que ir para poder voltar com saudades da terra natal. Eis aqui a fórmula por trás do universo de Tora-san!
Sua família apenas quer o seu bem. Isto é, querem vê-lo “casado, com filhos e um trabalho honesto”, mas a dificuldade de encontrar esposa para alguém tão desajeitado vira piada recorrente. Algo que torna os primeiros segmentos extremamente similares. A vantagem de assistir na ordem é perceber mudanças sutis de um filme para o outro, sobretudo no que diz respeito à personalidade de Tora que muito surpreende nessa décima sessão.
Então, a musa caiu mesmo no charme dele?! Apesar da adorável cabeleireira Chiyo — muito bem interpretada pela talentosa veterana Kaoru Yachigusa — que se mostra interessada por Tora e não pelo personagem quase burlesco do professor universitário, Tora-san revela um pouco mais de sua insegurança e do medo terrível que parece ter de relações sérias. A cena da conversa entre os dois deixa um gosto amargo ao vê-lo perder uma oportunidade de ouro.
Algo que ressignificou de maneira discreta a percepção da vida amorosa dele em relação aos filmes anteriores, ainda que mantendo no fim o retrato de sua vida solitária. Foi um momento tão precioso como a cena de Chiyo vendo filho dela partir com lágrimas nos olhos. Numa cena posterior, ela se emociona novamente no jantar com a família de Tora. Algo imprevisível acontece — o filho de Sakura, Mitsuo, surge por trás dela com um abraço carinhoso.
Mitsuo vai crescendo com o passar dos filmes, mas sua presença infantil já fica marcante por parecer livre para brincar. Ele anda de um lado para o outro e seus brinquedos aparecem no fundo ou até mesmo no chão. Após incontáveis pelúcias, dessa vez foi o boneco do Kamen Rider (1971), personagem do seriado de TV lançado no ano anterior que fazia sucesso. No começo do filme, também tem criança que brinca imitando o motoqueiro mascarado.
Uma sessão yamadiana extraordinária apesar de ter visto pouco da ilustre Kinuyo Tanaka. Foi a cena dela tão curta entre as paisagens naturais e música clássica a refletir sobre o que é ser Tora-san, abordando a solidão daquele andarilho viajante Tamesaburo conhecido por ambos e que morreu sozinho. No fim, como a cena de Tora sentado no quarto após a saída da irmã, a sua solidão se manifesta no eco daquela tragédia. No dia seguinte, a vida continua. ♥
Tora-san 9: Dear Old Home
4.0 1Nove filmes de Tora-san assistidos e o prazer de revisitar Shibamata continua no carisma dos personagens, assim como na curiosidade de descobrir a musa de cada filme. O nono segmento marca uma transição com o falecimento do ator Shin Morikawa que interpretava o tio de Tora e Sakura. As gags do personagem com o novo ator decepcionam, mas o filme já tinha uma carta na manga ao trazer uma das maiores estrelas do Japão na época.
Sayuri Yoshinaga é a musa do filme! Ela que incarnava a garota ideal dentro dos moldes românticos da sociedade japonesa conservadora nos anos 60. Após um contrato prolífico com o estúdio da Nikkatsu onde participou de inúmeros filmes juvenis e o êxito musical como cantora, Yoshinaga já tinha se tornado uma estrela completa nos anos 70 e começou a ter mais autonomia de sua carreira, trabalhando com outros estúdios e também na televisão.
Sua entrada na série de filmes de Tora-san é tão boa que o público pede mais. O próprio filme em si parece ter consciência da importância de tê-la no elenco, quando Tora aparece cantarolando a letra da música “Itsudemo yume wo”, um dos maiores hits dela como cantora. É a combinação perfeita para atrair o público jovem para um verdadeiro filme de verão. As cenas de Tora-san que se diverte com as moças ao som de Strauss são maravilhosas!
Vale à pena reparar que os filmes ficam cada vez mais setentistas. As cores vibrantes, as estampas e os efeitos de zoom mostram bem como até mesmo um cineasta sutil como Yamada acaba precisando contextualizar sua obra. Ela se renova mantendo as características que conhecemos. Tora-san decepciona a família com sua maneira desajeitada e desbocada. Decide ir embora, mas acaba voltando depois de cruzar o caminho de três moças divertidas.
Uma delas é a jovem Utako (Sayuri Yoshinaga) que deixa Tora apaixonado, uma garota infeliz com o pai distante e taciturno à la Ozu. Seu único defeito é ter demorado tanto para falar que queria se casar com um ceramista, mas a essa altura do campeonato não há mais dúvidas que o final será triste para Tora-san. Mesclando muito bem o drama e as alegrias dos personagens, Yamada sempre entrega poesia nas coisas mais simples da vida.
Tora-san 8: Love Call
3.8 1Oitavo filme de Tora-san com quase duas horas ficou mais longo que os anteriores, porém manteve muito bem o ritmo entre as cenas cômicas do nosso vagabundo predileto e o drama familiar do cunhado Hiroshi, o marido de Sakura. O resultado é prestimoso e está à altura do grande Yoji Yamada. Basta (re)ver a tomada de Tora ao lado do magnífico Takashi Shimura no fim de uma ruela de Okayama ao mesmo tempo que um trem atravessa a imagem...
Inútil dizer que a presença de um dos maiores atores do cinema japonês engradeceu o filme. Impossível não se emocionar ao ouvir suas palavras — “Com as gencianas florescendo no quintal e a cozinha bem iluminada para o jantar de uma família feliz, eis-me aqui diante do verdadeiro sentido da vida e com lágrimas nos olhos.” — diz Shimura ao interpretar o pai de Hiroshi numa lição de vida para Tora com uma delicadeza tremenda que caracteriza o filme.
Em duas partes como pede a fórmula yamadiana, o filme divide-se entre o falecimento da mãe de Hiroshi e o encontro esperado de Tora com a musa da sessão, a atriz de doramas Junko Ikeuchi. Primeiro vem em mente o clássico absoluto de Juzo Itami sobre o luto ao mostrar a ritualização do velório em seus costumes solenes que precisam satisfazer as normais sociais. É o momento desconfortavelmente ideal para o alívio cômico de um protagonista trapalhão.
Depois vem a viúva Takako que abre uma cafeteria em Shibamata e trabalha sozinha para sustentar seu menino. Tinha tudo para dar certo com Tora, porém seus dilemas de eterno andarilho o sabotam. A beleza do filme para além dos temas ozuescos, visitar uma trupe de atores, chegar bêbado na casa de parente, também é o não-dito: quando Tora compreende que decepcionou a irmã Sakura ou que não era o melhor pretendente para Takako.
É uma comédia marcada pelo gosto amargo de acompanhar a falta de sorte dele. Apesar de nunca se realizar, Tora-san é um exemplo de perseverança e gentileza por trás de seu look de yakuza caipira. Inspirando confiança até nas crianças, sua empatia enaltece a obra e cada desfecho parece uma despedida, como no caso do ator Shin Morikawa que interpretou o tio pela última vez e faleceu pouco tempo depois da estreia do filme. Sua presença fará falta.
Tora-san 7: The Good Samaritan
4.5 1O sétimo filme consolida o universo de Tora-san ao trazer de forma bem-humorada referências às sessões anteriores — o retorno da mãe Okiku (Chocho Miyako) do segundo filme e de Fuyuko (Sachiko Mitsumoto) que foi a musa do primeiro filme. Incluindo cenas engraçadas, como a família relembrando as musas precedentes e o sempre magnífico Gozen-sama (Chishu Ryu) explicando que Tora e Sakura são filhos do mesmo pai com mães diferentes.
Especialmente para os espectadores que pegaram o bonde andando, é o primeiro segmento a citar de modo consciente filmes anteriores, explicando (quase 'desenhando') a história de vida do nosso vagabundo predileto. Embora marcado pela fórmula yamadiana, o tratamento das relações entre os personagens é simples e tende ao “slice of life”, representando até os temas mais sérios de forma delicada. É o caso da deficiência mental de Hanako (Rumi Sakakibara).
Uma “Madonna” que não é perfeita e inalcançável como as outras. É sensível e possui uma deficiência. Por incrível que pareça a abordagem do filme é muito cuidadosa se levarmos em consideração o contexto e público-alvo de uma comédia romântica popular no Japão dos anos 70. Foi a oportunidade de mostrar que por trás da aparência masculina desajeitada de Tora-san há empatia, generosidade e até declaração de amor embaixo de flores de cerejeiras!
Além das estações do ano em destaque e as paisagens japonesas como cenário das andanças de Tora, o filme brilha ao mostrar pessoas na rua com o olhar quase documentarista do Yamada na época. Numa forma de retrato poético das relações humanas, também permite aos atores cada vez mais sintonia com os personagens e a participação ainda que breve do grande Kunie Tanaka foi tão marcante que agora é difícil imaginar o filme sem ele.
Tora-san 6: Shattered Romance
3.8 1O sexto filme de Tora-san não deveria existir, pois o fim do personagem estava previsto para o quinto. Foi o sucesso de público que obrigou a produção a continuar. Imagine perder a oportunidade de trazer a Shibamata uma das personalidades mais conhecidas do star system japonês — Ayako Wakao. Elegância sempre e beleza incomparável ao interpretar Yuko, causando à primeira vista o coração partido do nosso vagabundo preferido Tora-san.
Assim como os segmentos anteriores, o filme reforça a nostalgia por trás da origem do protagonista. Apesar de sempre ir embora no final, Tora se diz “uma criança de quase quarenta anos” que não consegue se tornar adulto por estar profundamente ligado à saudosa Shibamata onde vivem os tios e a irmã Sakura. O início em preto e branco mostra numa TV a sua cidade como lugar de costume e tradição, um retrato do seu sentimento nostálgico.
Se chegou até aqui, já passou por volta de nove horas assistindo. Embora o fim da saga esteja longe, duas ideias podem parecer inevitáveis — a primeira é a repetição se tornando o charme da história, uma maneira de conviver com os personagens. A segunda é o fato de terem muitas lacunas, suas intenções pouco explicadas deixam um mistério no ar, ainda que seja possível a cada filme assistido descobrir uma nova informação sobre o passado de Tora-san.
Um bom exemplo disso seria a cena de Tora e Sakura na estação de trem. Além de ser muito yamadiana, singela e emocionante, a despedida dos dois é também um momento de relembrar que naquele mesmo lugar Tora tinha ido pegar o trem para sair de casa após brigar com o pai quando era apenas um moleque rebelde. Uma lembrança intensa citada em vários segmentos que toma forma na imaginação progressivamente conforme assistimos aos filmes.
Pode-se dizer que a personagem da “musa romântica” incarna o olhar do espectador dentro da história — vivendo um momento divertido com o pessoal de Shibamata e depois indo embora mais cedo ou mais tarde, pois tudo acaba, inclusive o filme. Neste, por sinal, duas mulheres cruzam o caminho do protagonista. A primeira é interpretada por ninguém menos que Nobuko Miyamoto (esposa de Juzo Itami na época, atriz do futuro clássico “Tampopo”).
A segunda é Ayako Wakao, atriz já consagrada com vinte anos de carreira em 1971 e com os diretores Mizoguchi, Ozu, Masumura e Kawashima no currículo. No entanto, a presença de ambas é breve e misteriosa. Algo que lembra os filmes do Yasujiro Ozu, pois não sabemos muita coisa da vida anterior delas ou como será depois. Os detalhes ficam implícitos vide “Pai e Filha” — o banal do cotidiano que aparece em detrimento dos grandes eventos da vida.
Inclusive que cena linda do pai com lágrimas nos olhos ao ouvir a filha no telefone depois de recusar a presença da mesma em sua casa, exatamente como o personagem de Chishu Ryu fez com sua filha interpretada por Setsuko Hara no clássico citado acima. Yamada com uma abordagem familiar elaborada, ainda que marcada por um tom, diga-se de passagem, conservador ao aceitar a relação abusiva no caso das duas mulheres e as piadas do médico.
Então, não era apenas a vida que decepcionava? Referência ozuesca ativada! O mundo yamadiano se revela humano e autêntico até mesmo nas limitações. Outra coisa inusitada foi Tora fazendo o sinal da cruz diante de uma igreja. Para decifrar tamanho delírio é preciso retomar a chegada dos portugueses com o cristianismo no Japão do séc. XVI que ocorreu nos locais onde este Tora-san foi fimado, naquele paraíso das ilhas de Gotô, no sul do Japão.
PS> Eita, coisa boa... feito gato com a bunda suja!
結構毛だらけ 猫灰だらけ お尻の周りはクソだらけ
Tora-san 5: Runaway
3.8 1O quinto filme de Tora-san marca o retorno de Yoji Yamada no papel de diretor que ele assumiu com êxito proporcional ao número de continuações na saga do vagabundo mais amado pelo público japonês. Que êxtase visual! Se comparado com os dois precedentes realizados por Morisaki e Kobayashi, este me pareceu superior até em nível fotográfico, especialmente as paisagens de Urayasu e as ferrovias em planos longos tão yamadianos.
A poesia no rosto iluminado de Tora-san e do parceiro de andanças sem rumo, o jovem Noboru, apreciando a partida do trem aqui eternizada em filme graças à contribuição inestimável do diretor de fotografia Tetsuo Takaha. Suas imagens metafóricas sobre a vida como trajetória em movimento: as passagens de trem e do Tora-san que dorme num barco sendo levado pelo rio alteram a intriga principal como as famosas 'pillow shots' do Ozu.
Que curioso pensar em seus filmes interligados! A presença marcante neste é da Chieko Baisho como Sakura, a irmã de Tora-san. Também tem Hisashi Igawa evocando o magnífico Kazoku (“Família”,1970) do mesmo ano. Muitos notam as coincidências entre os filmes dele fora da saga “Otoko wa Tsurai yo”: como se o começo de uma obra fosse a continuação de outra e, no caso de Tora-san, a dita fórmula do personagem brinca mesmo com a repetição.
E, por falar nisso, a canção tema do filme após cinco sessões fica de fato inesquecível ao trazer aquele momento de emoção tão esperado quando o personagem aceita as próprias limitações. Entre suor e lágrimas do trabalho honesto que tanto pedia a irmã Sakura, Tora-san se engana mais uma vez no que diz respeito aos sentimentos da musa do filme Setsuko, interpretada com muita delicadeza por Aiko Nagayama. A reflexão final é a perseverança de Tora-san ao conseguir ultrapassar o fracasso e terminar sorrindo, contando suas piadas.
Tora-san 4: Grand Scheme
3.3 1É o segundo de dois filmes do Tora-san que não foram dirigidos pelo Yoji Yamada. Talvez seja de fato mais eficaz que o anterior, ainda que não tenha o charme do cineasta sempre associado ao protagonista vagabundo. Principalmente no primeiro ato com os tios, este "grandioso plano do Tora-san" é muito divertido, temos que admitir! Repetindo o roteiro de maneira consciente da fórmula “Yamada”, a intriga da viagem para o Havaí é hilária demais.
Saiba que entre agosto de 1969 e fevereiro de 1970, quatro filmes com Tora-san já tinham sido lançados nos cinemas num período de apenas seis meses. O quinto filme sairia também em 1970, pouco tempo depois. A essa altura do campeonato, Kiyoshi Atsumi já tinha incorporado completamente o personagem. Isso fica evidente na espontaneidade do Tora-san, na sua relação com os outros e nas lágrimas da cena final com seu olhar marcante de tão genuíno!
Enquanto espectadores estrangeiros, é difícil medir a importância que Tora-san deve ter tido para o público da época. No entanto, podemos pelo menos imaginar a empolgação que os japoneses deviam ter ao reencontrar em cada filme lançado aqueles personagens tão divertidos. Sobretudo o fato de que nada mudava em Shibamata, isso devia facilitar sem dúvidas a familiariedade do público com os personagens e o mundo em torno deles.
Os quiprocós de Tora, as piadas escatológicas, o seu humor físico desastrado, os outros ao chamá-lo de besta, as cenas em que sempre tem alguém debochando dele sem saber que ele está por perto escondido, atrás da porta ou até mesmo dentro de algum armário. Diversão garantida sob forma de deleite narrativo. Inclusive a cena dele contando as peripécias das passagens de avião para o Havaí é memorável. Basta pensar na importância da contação de estórias na obra yamadiana, Tora-san ganha uma dimensão criativa popular muito especial.
Tora-san 3: His Tender Love
3.2 1É o primeiro de dois filmes do Tora-san que não foram dirigidos pelo Yoji Yamada. Apesar de sua presença através do roteiro, pode-se notar algumas variações no tom do filme, inclusive o lado cômico ficou enfatizado desde a abertura da sessão. Dessa vez, o sentido de フーテンの寅, “Tora, um viajante andarilho” no título insiste também no desenraizamento do personagem.
Tora-san segue viajando, mas também se questiona sobre a possibilidade de se casar e aderir à vida pacata dos moradores de Shibamata. Nesse aspecto, o filme reproduz perfeitamente a fórmula “Yamada” com a decepção da família, o retorno de Tora-san e a sua desilusão amorosa. Tudo pontuado pelo humor e a presença de uma heroína romântica.
Interpretada com muita elegância por Michiyo Aratama, Oshizu ficou uma “Madonna” menos carismática que as duas precedentes, diga-se de passagem. Pode ser que alguns aficionados do cinema nipônico se surpreendam mais com a presença inusitada de Masumi Harukawa (atriz imamuriana de “Intentions of Murder”) numa cena divertida e o cameo de Kirin Kiki na época de menina, muito antes de se consagrar em papéis maduros. Charme incomparável!
Apesar dos elementos dramáticos não terem a mesma coesão dos dois primeiros filmes, o humor foi muito bem trabalhado. Vale ressaltar a primeira aparição entre muitas ao longo da série de Tora-san vestido à moda japonesa feudal que atribui ao imaginário do personagem um tom teatral e até atemporal para o público japonês. Tora-san é engraçado por natureza e possui um grande coração. Enquanto ajuda no casamento dos outros, acaba esquecendo de si mesmo. Não tem sorte no amor, mas sempre cai nas graças do espectador.
Confirmado, o desfecho com Tora-san na TV faz perdoar qualquer equívoco roteirístico, tão genial quanto o almoço com o chefe da irmã no primeiro filme e a entrada da mãe no segundo.
Tora-san 2: Cherished Mother
4.7 1Poderia se chamar “Mamãezinha Querida” esta continuação, por assim dizer, do Tora-san, e ser algo como slice-of-life de um malandro viajante em busca de sua mãe, retraçando suas origens para melhor compreender o seu desenraizamento da terra natal. Esta que talvez seja o grande tema na poética popular brilhantemente representada no cinema de Yoji Yamada.
Citando um grande cinéfilo alemão que todos adoramos, “os maiores cineastas realizam sempre o mesmo filme”, elogiando o gesto da repetição principalmente no cinema autoral que permite o diretor de elaborar características que o espectador poderia vir a reconhecer de um filme ao outro. E com este olhar a influência de Ozu aqui se torna inevitável.
Yamada começou a carreira no mesmo estúdio de Ozu e dizia sempre cruzar o caminho dele na Shochiku dos anos 50. Também revelou não gostar das narrativas ozuescas que descrevia como herméticas, alienadas da miséria do pós-guerra e das injustiças sociais, pois sonhava com um cinema que representasse a pobreza da época. O resultado foi o inverso, Yamada evoca no público o sentimento de similaridade com o cinema de Yasujiro Ozu.
Até em “É duro ser homem” (tradução literal do título japonês 男はつらいよ), assim como “Que mundo triste” ou “A vida é feita de encontros e despedidas” deste filme lembraram-me “A vida não é decepcionante?” do filme mais conhecido de Ozu. O “estilo Ofuna” dos cineastas da Shochiku acabou por se manifestar no universo de Yamada com a simplicidade das intrigas, o fraseado eloquente e o olhar extremamente sensível para com os seus personagens.
Apesar de buscar exatamente o oposto, Yamada não representava a personalidade vulgar de Tora-san (que o próprio se diz no filme um “yakuza caipira”) de maneira a romper com o classicismo fílmico nipônico (que era o caso da new wave), mas acabou por exaltar o cinema popular e emocionar um grande público. Isso se deve a narrativas repetitivas que deixam o público familiarizado com Tora-san e até ouvem a mesma piada mais de uma vez!
Que proeza escrever uma continuação tão divertida do primeiro filme com estrutura idêntica: ele deixa a família decepcionada, um mês depois retorna apaixonado, pronto para dessa vez se decepcionar a si próprio. A razão do seu drama é o amor não-recíproco da figura feminina dita em japonês “madonna” (マドンナ), interpretada em cada filme por uma atriz diferente, no sentido quase religioso da mulher delicada e pura. Logo, inacessível para o protagonista.
Tora-san, então, vai sonhar ao longo de mais de quarenta filmes com a companhia de uma amada. Inclusive, o onirismo dele se torna um símbolo essencial que se repete na abertura de (quase) todos os filmes. Apenas a figura de sua mãe biológica aqui mereceria um comentário a parte, tamanha a riqueza visual da cena do reencontro com projeção de luzes e cores que ouso dizer de passagem à la D.Sirk-R.Metty. Que mãe eloquente com seu charme avarento!
Tora-san 1: Our Lovable Tramp
3.9 3Tora-san está no fundo do coração do cinema popular japonês. Além de ser a maior série de filmes com o mesmo personagem, as cinquenta sessões em questão são um verdadeiro convite para aqueles que desejam se aprofundar no pensamento e nos paradoxos da sociedade japonesa. Uma fonte inesgotável de material linguístico para estudar o idioma com o nosso vagabundo predileto, Torajiro Kuruma, mais conhecido como Tora-san.
Ele é caracterizado pelo seu lado rústico com um linguajar informal e vocabulário que pode passar rapidamente da simplicidade à grosseria. O seu humor intrínseco aos filmes ressalta com frequência estereótipos do imaginário popular. A presença da figura do caipira se comparada aos outros, na sedução, família ou no trabalho, explora de maneira lúdica contradições sociológicas no interior do dicionário de etiquetas do japonês.
Considerado um sujeito em perigo de extinção, Tora-san simboliza o ser marginalizado numa sociedade pautada em sistemas, códigos e empresas, sentindo-se deslocado onde quer que esteja. Demasiado vulgar para trabalhar em lugares formais, completamente desajeitado deixando os outros com vergonha e até mesmo feio como um cão chupando manga e pronto para espantar as moças ao seu redor, mas por que o perfil do Tora-san deixaria de existir?
De fato, o japonês possui na essência marcadores de polidez, sufixos, pronomes e declinações infinitas para expressar níveis de formalidade inimagináveis. Eles aprendem desde pequeno o funcionamento deste discurso coletivo de nunca incomodar o outro. Até mesmo Tora-san precisa navegar nas sutilezas do idioma e não pode tratar todo mundo da mesma maneira, mas num ambiente de polidez extrema, o mal-educado é o transgressor do código dominante. Poucos desejam ocupar este lugar socialmente marginalizado.
Tora-san ousa dizer e fazer coisas que a maioria não faria por receio das normas sociais. O desconforto que ele causa nas pessoas é a alma do humor em seus filmes e a razão de ter se tornado uma figura amada por espectadores japoneses de diferentes classes sociais. Além de ter um grande coração, é autêntico e não tem medo de se mostrar inteiramente aos outros com vícios e virtudes. Muitos consideram que o falecimento do ator Kiyoshi Atsumi foi como se os japoneses tivessem perdido Tora-san, mas em memória e também com uma bela estátua em Shibamata de Katsushika, Tóquio, ele sempre vai viver no imaginário das pessoas.