O veterano Ruy Guerra é pai de um dos meus filmes prediletos (Os Fuzis), mas tirando Os Cafajestes e o próprio A Queda, nenhuma outra obra sua me chamou atenção. Mas por ser cercado de grandeza, me parece que a escolha pela estética do filme não estaria relacionada com possível falta de recursos. E nem teria nada contra, porque o diretor consegue superar seu formato optativo com muita criatividade. Esse foi feito à base de um texto poderoso mirando um início avassalador, mas senti que depois dos 40 minutos de exibição o filme não evolui, se consolidando numa repetição da mesma cena feita por um discurso que pode ser entendido como corajoso, mas também monocromático - o que seria sempre uma armadilha impenitente. Gosto da investida satírica, mas achei que alguns personagens são lançados em devaneios esquisitos, ou, só estariam pessimamente representados na composição como ocorre com a Simone Spoladore. Sendo ela um exemplo de peça fundamental, lamento que o encerramento seja repentino e sem a força que prometeu no começo... É o cinema também retroagindo em ideias que pareciam superadas. Ao menos, esse tipo de agressividade e fatalismo ainda muito me agrada.
"Não se esqueça que nós estamos de volta ao governo. E desta vez pelas urnas. "
A Fúria (Brasil, 2024) Direção: Ruy Guerra. Com: Ricardo Blat, Lima Duarte, Daniel Filho, Grace Passô, Simone Spoladore, Paulo César Pereio e Lux Nègre.
Que maravilha estrear nos cinemas um filme de Ruy Guerra! Cineasta que resiste e aos 94 anos lança a terceira parte de uma trilogia iniciada em 1964 com "Os Fuzis".
No novo longa, acompanhamos Mário, dado como morto durante a ditadura, retorna das profundezas da terra em busca de vingança após ser traído por antigos aliados.
Em sua jornada, conta com a ajuda de figuras improváveis enquanto confronta um passado marcado por violência e disputas de poder.
Atual, moderno e poético, "A Fúria " é cinema fora da curva. Viva Ruy Guerra!!!
Um bocado corajoso e explícito nos comentários sobre o presente. Uns diálogos forçados mas que compõem com a ousadia e o desapego do realismo. Bem teatro, talvez qq coisa de Dogville no anti- cenário. Que câmera louca.
Do movimento Cinema Novo, somente Ruy Guerra está vivo, e na ativa, aos 94 anos. As produções cinematográficas do cineasta moçambicano radicado no Brasil atravessam sete décadas: do primeiro curta-metragem, “Quand le soleil dort” (1954), e o primeiro longa, o “Os cafajestes” (1962), até chegar à “A fúria” (2024), filme que encerra uma trilogia iniciada no auge do referido Cinema Novo. A “Trilogia dos Fuzis” abria com o hipnotizante “Os fuzis” (1964), cruzava com “A queda” (1978) – ambos premiados no Festival de Berlim, e encerra com “A fúria”, que acaba de estrear nos cinemas, após vencer dois prêmios na edição passada do Festival de Brasília. Seu novo longa é uma obra simbólica que reúne ilustres personagens dos dois trabalhos anteriores - enquanto em “Os fuzis” (um de meus filmes brasileiros preferidos) expunham-se a fome e a repressão no sertão e em “A queda” discutiam-se dilemas morais e corrupção no ambiente urbano e empresarial com as mesmas figuras (vividas por Nelson Xavier, Hugo Carvana e Paulo César Peréio), “A fúria” traz uma ampla discussão sobre o mundo político no Brasil da última década, focando na ganância e a degradação institucional. Personagem central nos anteriores, Mário, um ex-operário da construção civil (antes papel de Nelson Xavier, mas neste aqui interpretado por Ricardo Blat) enfrenta os espectros da ditadura e da corrupção política no país. Ele volta do mundo dos mortos (ele foi assassinado na ditadura) para assombrar o sogro e empreiteiro Salatiel (Lima Duarte), um empresário inescrupuloso, e Feijó (Daniel Filho), um político disposto a tudo para calar as pessoas. Diferente dos dois primeiros filmes, que privilegiavam o realismo e locações abertas, este novo capítulo foi rodado em estúdio, com cenários sombrios e estilizados, que o aproximam à linguagem do teatro, reforçando a atmosfera alegórica. O clima é de devaneios e loucura, com enquadramentos fortes no rosto dos atores, uma pegada meio expressionista. A narrativa é direta, dividindo personagens entre justos e corruptos, num longo embate em plena época de crise moral e institucional (com direito até a um Bolsonaro no desfecho). O elenco entrega o melhor de si: Blat, Duarte e Filho, além de Grace Passô, Simone Spoladore e participações rápidas de Paulo César Pereio, Maria Gladys, Antonio Pitanga e Urutau Guajajara. Misturando drama e thriller político, o filme é uma fábula quase dantesca sobre memória, justiça e as feridas abertas da Ditadura, contando com as experimentações estéticas que Ruy Guerra sempre se apropriou muito bem. Ele dirige a direção com Luciana Mazzotti, sua ex-mulher e roteirista também. Está pela segunda semana em exibição nos cinemas pela Pandora Filmes – antes de ver, recomendo conhecer os anteriores (em “A fúria” há cenas dos filmes “Os fuzis” e “A queda”, que retornam como lembranças dos personagens e serve para o público ter base para o desdobramento daqueles anos todos). POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
- Ruy fecha sua trilogia de forma épica, só um gênio como ele para compensar o baixo orçamento com uma estilização dessas - muito bom rever esses personagens que me são queridos, pereio e lima duarte estão ótimos! pena que perdemos o nelson xavier e o hugo carvana - excelente roteiro, consegue complementar a trama de A Queda e como os anteriores, conversa bastante com o cenário político atual - precisamos de um exército de indígenas como aquele, muitas flechas para salvar o país desses políticos arrombados de extrema direita
IMPRIMATUR - visto no cinema:
O veterano Ruy Guerra é pai de um dos meus filmes prediletos (Os Fuzis), mas tirando Os Cafajestes e o próprio A Queda, nenhuma outra obra sua me chamou atenção. Mas por ser cercado de grandeza, me parece que a escolha pela estética do filme não estaria relacionada com possível falta de recursos. E nem teria nada contra, porque o diretor consegue superar seu formato optativo com muita criatividade. Esse foi feito à base de um texto poderoso mirando um início avassalador, mas senti que depois dos 40 minutos de exibição o filme não evolui, se consolidando numa repetição da mesma cena feita por um discurso que pode ser entendido como corajoso, mas também monocromático - o que seria sempre uma armadilha impenitente. Gosto da investida satírica, mas achei que alguns personagens são lançados em devaneios esquisitos, ou, só estariam pessimamente representados na composição como ocorre com a Simone Spoladore. Sendo ela um exemplo de peça fundamental, lamento que o encerramento seja repentino e sem a força que prometeu no começo... É o cinema também retroagindo em ideias que pareciam superadas. Ao menos, esse tipo de agressividade e fatalismo ainda muito me agrada.
Avaliação em nota: 6.8
"Não se esqueça que nós estamos de volta ao governo. E desta vez pelas urnas. "
A Fúria (Brasil, 2024)
Direção: Ruy Guerra.
Com: Ricardo Blat, Lima Duarte, Daniel Filho, Grace Passô, Simone Spoladore, Paulo César Pereio e Lux Nègre.
Que maravilha estrear nos cinemas um filme de Ruy Guerra! Cineasta que resiste e aos 94 anos lança a terceira parte de uma trilogia iniciada em 1964 com "Os Fuzis".
No novo longa, acompanhamos Mário, dado como morto durante a ditadura, retorna das profundezas da terra em busca de vingança após ser traído por antigos aliados.
Em sua jornada, conta com a ajuda de figuras improváveis enquanto confronta um passado marcado por violência e disputas de poder.
Atual, moderno e poético, "A Fúria " é cinema fora da curva. Viva Ruy Guerra!!!
Um bocado corajoso e explícito nos comentários sobre o presente. Uns diálogos forçados mas que compõem com a ousadia e o desapego do realismo. Bem teatro, talvez qq coisa de Dogville no anti- cenário. Que câmera louca.
A fúria
Do movimento Cinema Novo, somente Ruy Guerra está vivo, e na ativa, aos 94 anos. As produções cinematográficas do cineasta moçambicano radicado no Brasil atravessam sete décadas: do primeiro curta-metragem, “Quand le soleil dort” (1954), e o primeiro longa, o “Os cafajestes” (1962), até chegar à “A fúria” (2024), filme que encerra uma trilogia iniciada no auge do referido Cinema Novo. A “Trilogia dos Fuzis” abria com o hipnotizante “Os fuzis” (1964), cruzava com “A queda” (1978) – ambos premiados no Festival de Berlim, e encerra com “A fúria”, que acaba de estrear nos cinemas, após vencer dois prêmios na edição passada do Festival de Brasília. Seu novo longa é uma obra simbólica que reúne ilustres personagens dos dois trabalhos anteriores - enquanto em “Os fuzis” (um de meus filmes brasileiros preferidos) expunham-se a fome e a repressão no sertão e em “A queda” discutiam-se dilemas morais e corrupção no ambiente urbano e empresarial com as mesmas figuras (vividas por Nelson Xavier, Hugo Carvana e Paulo César Peréio), “A fúria” traz uma ampla discussão sobre o mundo político no Brasil da última década, focando na ganância e a degradação institucional. Personagem central nos anteriores, Mário, um ex-operário da construção civil (antes papel de Nelson Xavier, mas neste aqui interpretado por Ricardo Blat) enfrenta os espectros da ditadura e da corrupção política no país. Ele volta do mundo dos mortos (ele foi assassinado na ditadura) para assombrar o sogro e empreiteiro Salatiel (Lima Duarte), um empresário inescrupuloso, e Feijó (Daniel Filho), um político disposto a tudo para calar as pessoas. Diferente dos dois primeiros filmes, que privilegiavam o realismo e locações abertas, este novo capítulo foi rodado em estúdio, com cenários sombrios e estilizados, que o aproximam à linguagem do teatro, reforçando a atmosfera alegórica. O clima é de devaneios e loucura, com enquadramentos fortes no rosto dos atores, uma pegada meio expressionista. A narrativa é direta, dividindo personagens entre justos e corruptos, num longo embate em plena época de crise moral e institucional (com direito até a um Bolsonaro no desfecho). O elenco entrega o melhor de si: Blat, Duarte e Filho, além de Grace Passô, Simone Spoladore e participações rápidas de Paulo César Pereio, Maria Gladys, Antonio Pitanga e Urutau Guajajara. Misturando drama e thriller político, o filme é uma fábula quase dantesca sobre memória, justiça e as feridas abertas da Ditadura, contando com as experimentações estéticas que Ruy Guerra sempre se apropriou muito bem. Ele dirige a direção com Luciana Mazzotti, sua ex-mulher e roteirista também. Está pela segunda semana em exibição nos cinemas pela Pandora Filmes – antes de ver, recomendo conhecer os anteriores (em “A fúria” há cenas dos filmes “Os fuzis” e “A queda”, que retornam como lembranças dos personagens e serve para o público ter base para o desdobramento daqueles anos todos). POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
- Ruy fecha sua trilogia de forma épica, só um gênio como ele para compensar o baixo orçamento com uma estilização dessas
- muito bom rever esses personagens que me são queridos, pereio e lima duarte estão ótimos! pena que perdemos o nelson xavier e o hugo carvana
- excelente roteiro, consegue complementar a trama de A Queda e como os anteriores, conversa bastante com o cenário político atual
- precisamos de um exército de indígenas como aquele, muitas flechas para salvar o país desses políticos arrombados de extrema direita