Acreditando que o estado mental do comandante Queeg colocava o navio em perigo, o tenente Maryk assume o comando, mas terá de enfrentar a corte marcial.
A versão para televisão de O MOTIM DO CAINE é uma boa produção de Robert Altman. Falta-lhe o espírito marítimo do filme - grande parte do qual foi filmado em navios ou no mar (incluindo uma sequência de tufão). Mas é tensa e claustrofóbica durante a maior parte da história - já que se passa na sala do Tribunal Marcial (um pouco do final da peça se passa na festa de absolvição pós-julgamento). O resultado é uma narrativa diferente da história, que depende da avaliação do público sobre a verdade ou mentiras das diferentes testemunhas. Embora ainda termine com a revelação do comportamento de Queeg (Brad Davis) no tribunal, há mais que vem à tona.
Já mencionei isso na minha crítica ao filme. Queeg é
inicialmente repreendido por Greenwald (Eric Bogosian) não por questões de aptidão para o comando, mas sim por sua honestidade. Descobriu-se que Queeg (assim como outros comandantes de navios da Marinha) tinha permissão para fazer compras isentas de impostos de diversos itens de luxo, como bebidas alcoólicas, no Havaí e no continente. Queeg abusou desse direito — na verdade, ultrapassou o limite legal e foi repreendido por isso pelo comando de Pearl Harbor. Queeg nega que isso tenha acontecido, mas Greenwald explica que ele pode pedir um adiamento de uma hora para que os oficiais necessários compareçam e testemunhem, se necessário. Então, Queeg repentinamente "se lembra" de que houve algum tipo de repreensão. Esse é o primeiro deslize
do capitão em seu depoimento.
Greenwald também enfrenta hostilidade secreta (não mostrada no filme, aliás) por ser um oficial judeu.
Há uma corrente subterrânea atuando contra Greenwald e seus clientes no antissemitismo da alta cúpula da Marinha, especialmente do promotor. Ao final do julgamento, ciente de que Greenwald destruiu o que deveria ter sido um caso de motim simples e resolvido, o promotor chega a revelar seus sentimentos antissemitas em relação aos "truques" usados por Greenwald.
A outra grande mudança ocorre na conclusão. No filme,
um Greenwald (José Ferrer) bêbado confronta o Tenente Tom Keefer (Fred MacMurray) na festa de comemoração, acusando-o de ser o verdadeiro manipulador do Motim do Caine, que se manteve íntegro às custas de Maryk e Keith. Depois de jogar uma bebida em seu rosto, Greenwald diz que, se ele quiser resolver a situação, que venha lá fora. Ele também repreende os oficiais da tripulação presentes por não terem dado a Queeg o apoio que este solicitou em determinado momento – que Queeg, apesar de todos os seus defeitos, estava defendendo o país enquanto eles estavam em segurança. Os homens, atônitos, deixam a festa um a um, deixando um Keefer desonrado e sozinho.
e repreende Keefer e os oficiais da tripulação, mas todos os oficiais (exceto Keefer, que está desonrado) já estão bêbados e não dão ouvidos ao que Greenwald diz. Nem mesmo Maryk e Keith (Jeff Daniels e Daniel Jenkins) se importam, pois estão ocupados demais comemorando.
É uma diferença interessante em relação ao final do filme. Uma produção bacana, com um estilo e uma perspectiva diferentes para a história.
CURIOSIDADES:
A Nave da Revolta (The Caine Mutiny, EUA, 1954) – Nota 8 Direção – Edward Dmytryk Elenco – Humphrey Bogart, José Ferrer, Van Johnson, Fred MacMurray, Robert Francis, May Winn, E. G. Marshall, Lee Marvin, Claude Akins.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o capitão Queeg (Humphrey Bogart) assume o comando de um submarino e rapidamente entra em conflito com os oficiais subordinados. Seu jeito forte e perfeccionista, misturado com decisões incoerentes levam o tenente Maryk (Van Johnson) a dispensar o capitão alegando que este sofre de problemas mentais. Maryk termina levado à corte marcial. Esta é a primeira e a melhor das três versões da mesma história. Com um ótimo elenco encabeçado de forma brilhante por Humphrey Bogart, que interpreta um sujeito extremamente complexo e um roteiro com diálogos fortes e uma tensão crescente nas discussões e no julgamento.
É um clássico indicado para quem gosta de dramas sobre manipulação e poder.
A Nave da Revolta (The Caine Mutiny Court-Martial, EUA, 1988) – Nota 7 Direção – Robert Altman Elenco – Eric Bogosian, Jeff Daniels, Brad Davis, Peter Gallagher, Michael Murphy, Kevin J. O’Connor.
Nesta segunda versão da história sobre a insubordinação no submarino Caine, o roteiro foca no julgamento do tenente Maryk (Jeff Daniels) com seus depoimentos e contradições sobre os conflitos que o levaram à corte marcial após afastar o capitão Queeg (Brad Davis) do comando alegando problemas mentais. Esta versão tem um ar totalmente teatral, tendo como maior destaque a interpretação de Eric Bogosian como o advogado de defesa do protagonista, que com firmeza e seriedade entrega uma de suas melhores atuações da carreira, ao lado do papel como o polêmico locutor do ótimo “Talk Radio – Verdades que Matam”.
A Nave da Revolta (The Caine Mutiny Court-Martial, EUA, 2023) – Nota 7 Direção – William Friedkin Elenco – Kiefer Sutherland, Jason Clarke, Jake L acy, Monica Raymund, Lewis Pullman, Jay Duplass, Tom Riley, Lance Reddick, Elizabeth Anweis, François Battiste, Gabe Kessler.
O oficial imediato (Jake Lacy) de um navio de guerra é levado a corte marcial após dispensar do comando seu superior (Kiefer Sutherland), alegando que o homem sofria de problemas mentais. Durante o julgamento vem à tona diversas atitudes do comandante que levaram o oficial e parte da tripulação a duvidar da sanidade do sujeito. Esta é a terceira versão da mesma história, sendo atualizada para os dias de hoje, porém mantendo o mesmo formato do segundo longa em utilizar somente a corte de justiça militar como cenário. As atuações são convincentes e as discussões prendem a atenção do espectador. O filme tem como triste destaque ser o último trabalho do grande diretor William Friedkin de “O Exorcista” e “Operação França” e também do ator Lance Reddick das séries “Bosch” e “Oz” que faleceram em 2023.
Uma Variante Diferente da História
A versão para televisão de O MOTIM DO CAINE é uma boa produção de Robert Altman. Falta-lhe o espírito marítimo do filme - grande parte do qual foi filmado em navios ou no mar (incluindo uma sequência de tufão). Mas é tensa e claustrofóbica durante a maior parte da história - já que se passa na sala do Tribunal Marcial (um pouco do final da peça se passa na festa de absolvição pós-julgamento). O resultado é uma narrativa diferente da história, que depende da avaliação do público sobre a verdade ou mentiras das diferentes testemunhas. Embora ainda termine com a revelação do comportamento de Queeg (Brad Davis) no tribunal, há mais que vem à tona.
Já mencionei isso na minha crítica ao filme. Queeg é
inicialmente repreendido por Greenwald (Eric Bogosian) não por questões de aptidão para o comando, mas sim por sua honestidade. Descobriu-se que Queeg (assim como outros comandantes de navios da Marinha) tinha permissão para fazer compras isentas de impostos de diversos itens de luxo, como bebidas alcoólicas, no Havaí e no continente. Queeg abusou desse direito — na verdade, ultrapassou o limite legal e foi repreendido por isso pelo comando de Pearl Harbor. Queeg nega que isso tenha acontecido, mas Greenwald explica que ele pode pedir um adiamento de uma hora para que os oficiais necessários compareçam e testemunhem, se necessário. Então, Queeg repentinamente "se lembra" de que houve algum tipo de repreensão. Esse é o primeiro deslize
Greenwald também enfrenta hostilidade secreta (não mostrada no filme, aliás) por ser um oficial judeu.
Há uma corrente subterrânea atuando contra Greenwald e seus clientes no antissemitismo da alta cúpula da Marinha, especialmente do promotor. Ao final do julgamento, ciente de que Greenwald destruiu o que deveria ter sido um caso de motim simples e resolvido, o promotor chega a revelar seus sentimentos antissemitas em relação aos "truques" usados por Greenwald.
A outra grande mudança ocorre na conclusão. No filme,
um Greenwald (José Ferrer) bêbado confronta o Tenente Tom Keefer (Fred MacMurray) na festa de comemoração, acusando-o de ser o verdadeiro manipulador do Motim do Caine, que se manteve íntegro às custas de Maryk e Keith. Depois de jogar uma bebida em seu rosto, Greenwald diz que, se ele quiser resolver a situação, que venha lá fora. Ele também repreende os oficiais da tripulação presentes por não terem dado a Queeg o apoio que este solicitou em determinado momento – que Queeg, apesar de todos os seus defeitos, estava defendendo o país enquanto eles estavam em segurança. Os homens, atônitos, deixam a festa um a um, deixando um Keefer desonrado e sozinho.
Na peça, Greenwald aparece
e repreende Keefer e os oficiais da tripulação, mas todos os oficiais (exceto Keefer, que está desonrado) já estão bêbados e não dão ouvidos ao que Greenwald diz. Nem mesmo Maryk e Keith (Jeff Daniels e Daniel Jenkins) se importam, pois estão ocupados demais comemorando.
CURIOSIDADES:
A Nave da Revolta (The Caine Mutiny, EUA, 1954) – Nota 8
Direção – Edward Dmytryk
Elenco – Humphrey Bogart, José Ferrer, Van Johnson, Fred MacMurray, Robert Francis, May Winn, E. G. Marshall, Lee Marvin, Claude Akins.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o capitão Queeg (Humphrey Bogart) assume o comando de um submarino e rapidamente entra em conflito com os oficiais subordinados. Seu jeito forte e perfeccionista, misturado com decisões incoerentes levam o tenente Maryk (Van Johnson) a dispensar o capitão alegando que este sofre de problemas mentais. Maryk termina levado à corte marcial.
Esta é a primeira e a melhor das três versões da mesma história. Com um ótimo elenco encabeçado de forma brilhante por Humphrey Bogart, que interpreta um sujeito extremamente complexo e um roteiro com diálogos fortes e uma tensão crescente nas discussões e no julgamento.
É um clássico indicado para quem gosta de dramas sobre manipulação e poder.
A Nave da Revolta (The Caine Mutiny Court-Martial, EUA, 1988) – Nota 7
Direção – Robert Altman
Elenco – Eric Bogosian, Jeff Daniels, Brad Davis, Peter Gallagher, Michael Murphy, Kevin J. O’Connor.
Nesta segunda versão da história sobre a insubordinação no submarino Caine, o roteiro foca no julgamento do tenente Maryk (Jeff Daniels) com seus depoimentos e contradições sobre os conflitos que o levaram à corte marcial após afastar o capitão Queeg (Brad Davis) do comando alegando problemas mentais.
Esta versão tem um ar totalmente teatral, tendo como maior destaque a interpretação de Eric Bogosian como o advogado de defesa do protagonista, que com firmeza e seriedade entrega uma de suas melhores atuações da carreira, ao lado do papel como o polêmico locutor do ótimo “Talk Radio – Verdades que Matam”.
A Nave da Revolta (The Caine Mutiny Court-Martial, EUA, 2023) – Nota 7
Direção – William Friedkin
Elenco – Kiefer Sutherland, Jason Clarke, Jake L acy, Monica Raymund, Lewis Pullman, Jay Duplass, Tom Riley, Lance Reddick, Elizabeth Anweis, François Battiste, Gabe Kessler.
O oficial imediato (Jake Lacy) de um navio de guerra é levado a corte marcial após dispensar do comando seu superior (Kiefer Sutherland), alegando que o homem sofria de problemas mentais. Durante o julgamento vem à tona diversas atitudes do comandante que levaram o oficial e parte da tripulação a duvidar da sanidade do sujeito.
Esta é a terceira versão da mesma história, sendo atualizada para os dias de hoje, porém mantendo o mesmo formato do segundo longa em utilizar somente a corte de justiça militar como cenário. As atuações são convincentes e as discussões prendem a atenção do espectador.
O filme tem como triste destaque ser o último trabalho do grande diretor William Friedkin de “O Exorcista” e “Operação França” e também do ator Lance Reddick das séries “Bosch” e “Oz” que faleceram em 2023.