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Data de lançamento
30 Julho 2023Duração
No show “Antipatriota”, Santineli faz uma crítica perspicaz ao cenário político no Brasil, como o nome já sugere. Com um olhar sagaz sobre os acontecimentos do cotidiano, o comediante aborda temas como política, relacionamentos, tecnologia e muito mais, sempre com sua dose característica de ironia e sagacidade.
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Pra quem curte um humor desse nível de acidez e amargura, deve ser um prato cheio
Eu não dei tanta risada, infelizmente rs
Tiago Santineli subverte o que entendemos como polidez ao usar uma linguagem agressiva e cínica para retratar a realidade política e social do Brasil atual, tudo isso em tom humorístico e crítico, salvaguardado pela liberdade de expressão e pelo contexto da comédia. No show “Antipatriota”(2023), as referências que ele utiliza para suas piadas são algumas vezes indiretas, mas em sua maioria não existe muita dúvida sobre de quem ele está falando. Em “um adulto, no cargo da presidência da República, saiu por aí oferecendo cloroquina pra uma ema”, a alusão é óbvia ao antigo mandatário do cargo e à situação, vexatória por si mesma, protagonizada pelo próprio durante a pandemia de Covid-19. Se a ironia e o sarcasmo são estratégias de se ofender preservando minimamente as faces, não é esse o tipo de humor que vemos aqui.
Outros exemplos que poderíamos extrair da apresentação são ainda mais radicais ao mencionar nome e sobrenome de figuras públicas satirizadas: a deputada Carla Zambelli, o ex-ministro Paulo Guedes, o falecido autoproclamado filosofo e ideólogo de direita Olavo de Carvalho; além de grupos específicos da sociedade com uma identidade muito forte associada a eles: “bolsonaristas” (eleitores e seguidores fanáticos de Jair Bolsonaro), “crentes” (fundamentalistas evangélicos), pessoas “antivacina” (que desacreditam da ciência e se recusavam a se vacinar em meio à mais recente pandemia global), “sulistas” (estereotipicamente mais conservadores/reacionários politicamente e preconceituosos). Cada uma das piadas de Thiago neste show terão a política como tema e o seu viés explicitado sem que ele precise justificar a todo momento a posição que está sendo tomada ou disfarçar a sua parcialidade. A persona pública do comediante, os chamamentos para o seu show, o título, a abertura (com o músico e ativista Djonga protagonizando cena sugestiva de violência a opositores políticos), o cenário (anárquico, “punk”), todos os elementos contextuais “filtram” o público potencial e orientam a expectativa da audiência.
Esses dados contextuais importam, pois os discursos se moldam ao contexto e precisam ser lidos dentro desse contexto. Há especificidades do discurso no espaço da prática da comédia e aqui os elementos contextuais são ainda mais específicos, o bastante para esperarmos algo da comédia “polêmica” e altamente politizada de Santineli diferente de outras que se propõem mais isentas e “suaves”, que buscam um ponto de equilíbrio, recorrem à ironia, em que a violação das faces é mais calculada. Ao imiscuir a comédia com a manifestação política, é possível caracterizar um tipo de discurso que chamaremos de humorístico-ativista. Tenta-se fazer rir através de exemplos retirados diretamente do noticiário político, dos mais absurdos aos mais graves, mas que postos sob a lente de aumento da narrativa do comediante-autor, evidenciam o seu ridículo sob aquela determinada perspectiva. O riso da “idiotice” do outro, que além de tudo se apresenta como adversário político-ideológico, é sobretudo catártico.
Algumas falas proferidas no show ajudam nessa caracterização mais particular que estamos propondo para o discurso em análise. Após defender a descriminalização do aborto e da maconha, ele é recebido com aplausos e risadas sonoras. Há uma cumplicidade e um alinhamento ideológico muito afinados entre o comediante e seus interlocutores (com quem se fala). A deixa para tais defesas é sempre cômica e quase sempre usa como ilustração alguma hipocrisia do outro (de quem se fala).
Vejamos como funciona na prática a construção do discurso humorístico-ativista. Começa com uma narração: uma senhora, da turma que ergue a bandeira da moral e dos bons costumes, além de praticar um atentado contra a democracia no mínimo inusitado e escatológico (ela defecou em banheiro de ministro do STF no dia 8 de janeiro de 2023), é revelada como ex-presidiária e ex-traficante de crack. O comediante vai se demorar nesse caso, explorando todo o potencial cômico da situação bizarra. Suas observações sempre enfatizam aquilo que é sujo e grotesco, também para efeito de humor. Ele então extrapola e pessoaliza a narração, dizendo qual seria o seu paralelo com a senhora num futuro hipotético: o tráfico seria de maconha (e para os próprios netos), o alvo do “ato terrorista” seria o túmulo do ex-presidente. É um discurso pesado, polêmico, talvez engraçado, mas certamente político, que, se por um lado cria uma situação hipotética que alguns entenderiam como comprometedora (de sua própria imagem pública), é impossível negar o absurdo ainda maior dos fatos que o levaram a essa extrapolação.
Existe ainda um adjetivo extra que poderia ser utilizado para caracterizar a comédia e o discurso presentes em “Antipatriota”: autodepreciação. Aliás, seriam a autodepreciação e a autocrítica (voltada a si mesmo tanto quanto aos seus interlocutores-cúmplices) possivelmente os traços que mais sobrepesariam o imenso volume de críticas ao outro (o adversário, de quem se fala). Isso seria o mais próximo que vemos de uma estratégia de preservação da face, uma demonstração de algum tipo de humildade, alguém que se reconhece enquanto falho e que vê problemas naqueles que riem com ele. Busca-se um efeito de humor com o alvo direcionado agora para si mesmo e para elementos da própria audiência. Quebra-se, assim, com a ideia de alguém intocável, arrogante e cego aos próprios erros. Desde o início, na realidade, o comediante se expõe enquanto alguém vulnerável, quando faz piada com a própria depressão. A progressão narrativa e o escalonamento da comédia ocorrem a partir de quando ele se diz medicado e que agora ele consegue rir e tem um motivo para rir: os “patriotas”.
Após inúmeros causos contados sobre os tais “patriotas”, chega a vez de expor ao ridículo os chamados por ele “gratiluz”. É o momento quando ele se refere diretamente às pessoas da plateia que parecem chocadas com a sua agressividade. Ele argumenta a favor do ódio consciente e direcionado e demonstra verdadeiro ódio à passividade e ao excesso de consideração e respeito por quem não lhe trataria da mesma forma. Trata-se de uma crítica “aos seus”, mas que acaba sendo muito mais uma autodefesa, defesa desse seu discurso humorístico-ativista. Afinal, preservação da face (seguida de uma declaração, irônica talvez, de quem diz não se importar).
(texto adaptado de trabalho sobre "violação do princípio da polidez na comédia" feito para a disciplina de Semântica na faculdade de Letras)
TIAGO VC É O PAI QUE A GENTE PEDIU E NUNCA TEVE