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Data de lançamento
23 Set. 1927Duração
Seduzido por uma moça da cidade, um fazendeiro tenta afogar sua mulher, mas desiste no último momento. Esta foge para a cidade, mas ele a segue para provar o seu amor. Vencedor de 3 Oscar, incluindo melhor atriz para Janet Gaynor (Nasce uma Estrela), Aurora é uma obra poética de grande beleza plástica, repleta de cenas inesquecíveis.
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O que eu mais aprecio no cinema mudo é a forma como as histórias são apresentadas com muita força, o sentimentalismo é trabalhado de um jeito que foge do piegas, ainda que se utilize tons exagerados na representação, se torna algo quase poético.
As atuações precisam dar conta de transmitir essas emoções apenas com as expressões e os elementos visuais que o filme utiliza para dramatização, como se precisasse suprir a falta de diálogos com a expressividade no olhar, nos trejeitos, no posicionamento, tudo o que seria dito em palavras, é dito, mas de outra forma, algo mais elaborado, que exige mais dos atores e nesse aspecto o filme entrega tudo o que é necessário e além, pois Janet Gaynor e George O'Brien estão irretocáveis em suas atuações.
E esse é um filme muito sentimental em toda a amplitude de seu significado, assistimos a trajetória dos personagens que passam por inúmeros situações intensas no seu decorrer e vamos sentindo tudo com eles nesse caminho. Nesse ponto, o filme é muito comovente.
Destaco esse ponto porque é algo absolutamente admirável, hoje em dia seria quase impossível de ser reproduzido, e muitos filmes com cenas e mais cenas de diálogos não conseguem trabalhar com tanto sentimento, principalmente os romances atuais, algo incompreensível.
Toda a forma como o filme é conduzido e todos os recursos utilizados para se chegar a sobreposição de sensações que vão se intercalando na trama, todos os elementos visuais que compõe o cenário sentimental do filme com precisão absurda, e a fotografia sublime, tudo contribui para um aspecto grandioso do filme.
Enquanto assistia percebi que muitos elementos foram usados como base para boa parte dos filmes de romance que vieram depois, é quase como se essa produção fosse o pilar do romance no cinema, o filme que pavimentou o caminho e a fórmula a ser seguida, pena que foi tão banalizado depois.
A história em si trabalha com muita precisão um romance que se perde e se encontra novamente com contornos trágicos, tudo com uma intensidade ímpar.
De fato, esse é um dos melhores e maiores romances do cinema.
Assistido em 30 de setembro de 2026.
Nota: 10/10
Um primor!
Direção impecável do Murnau! Toda a edição e ambientação combinam com o tom do filme, a fonte usada nas letras, a iluminação, os cortes. A trilha sonora ajuda muito a transitar entre sentir ódio pelo protagonista, desespero, ternura, pena, tudo vai se encaixando tão bem. [Spoilers] Dá pra sentir a luta interna do homem. O George O'Brien é muito expressivo, o olhar dele no barco segundos antes de querer matá-la me lembra muito o do Jack em The Shining, contrasta tanto com o olhar dele no final super triste e amuado quando ele acha que a esposa morreu. Um ator muito completo, entregou tantas facetas, um filme que conseguiu explorar todo tipo de gênero no ator, drama, ação, terror, comédia, musical. Não faltou nada, do início ao fim o George entrega com perfeição tudo que o roteiro pede. Janet Gaynor aqui está bem melhor do que em 7th Heaven, a atuação está dramática, mas não tanto a ponto de ser teatral, é mais fluida, mais natural. A direção de arte arrasa tanto, considerando que é 1927, esse povo fez tanto tendo os poucos recursos que tinham. O barco como elemento físico central funciona tão bem. A primeira viagem quando ele quer assassinar ela carrega terror e drama, a segunda com eles voltando da cidade romance e arrependimento genuíno e a terceira quando a tempestade chega carrega caos e desespero, seguido de luto e tristeza, na cena final do velhinho o barco volta à cena carregando esperança. Muito bom! Mérito do roteiro e direção. Outro elemento que indica as mudanças do tom do enredo é o tocar do sino, em todas as vezes que tocou o filme entrou em outra fase. O trem não apareceu muito, mas também teve importância nisso, primeiro eles entram logo após a cena do pântano que também foi ótima e cheia de desespero, o casal está desestruturado, afastado, ela triste, sem laço algum e mais tarde na cidade o casal volta para o mesmo lugar no trem unido, com a confiança restaurada, ela feliz. Claramente proposital o roteiro ter escolhido o mesmo lugar. Cada detalhe nesse filme foi pensado e isso encanta muito. A Margaret Livingston atuou bem, mas não teve muito destaque, comparando com os protagonistas, então nem merece muita menção. Oscar para o cachorrinho que atuou tão bem. Algumas cenas me fizeram rir, a do velhinho barbeiro que era muito expressivo, a do cozinheiro e o porquinho ficando bêbados e a da casa de fotografias. Diferente de The Racket, aparecem pouquíssimos diálogos em tela, senti essa diferença, não prejudica o filme, pois ele é bom o suficiente para explicar tudo dizendo quase nada. Obviamente, não dá pra ignorar os pontos ruins do filme, se considerarmos 2026, dá pra ignorar certos pontos do roteiro levando em conta o ano 1927, mas incomoda sim ver certas coisas como as personagens femininas são construídas por exemplo e como a violência masculina é tratada. De um lado a esposa que representa a pureza, submissão, a doméstica que não sai de casa e vive em prol do marido (que a ignora o tempo todo), desarrumada, de avental usando um coque de velha. Do outro lado, a mulher da cidade, bonita, arrumada, sedutora, pintada pelo roteiro como a mulher terrível que seduz ele, a corrupta que desvia o pobre homem do seu caminho de "bom esposo". A escolha de trair foi dele, não? O que me incomoda nesse tipo de estrutura no enredo é que tira a responsabilidade moral total do homem, dando a entender que ele é uma pobre vítima passiva que foi influenciada externamente por uma mulher. Claro que o ponto mais crítico aqui é a tentativa de feminicídio, após o marido tentar assassiná-la, houve espaço para romance e reconciliação, o que é um absurdo. Seria hoje em dia considerada a fase da lua-de-mel no ciclo abusivo de um relacionamento, em que há esse morde e assopra entre tratar bem e mal o tempo todo, em loop. A narrativa não leva dias ou meses, mas apenas UM DIA de romance na cidade para a redenção do protagonista. O machismo se manifestando na ideia de que todo esse trauma e violência cometidos podem ser deletados só porque a vítima recebeu gestos de afeto em seguida. É uma red flag enorme. Sei que tem a ver com a cultura da época, mas a mulher é colocada como a que perdoa incondicionalmente, mesmo quando não havia reciprocidade alguma anteriormente. E quem merece viver um relacionamento sem reciprocidade? Onde a pessoa faz o que quer, vem com migalhas de afeto, é perdoada e faz de novo? O ciclo continua. Tudo isso reforça essa expectativa social, que inclusive existe até hoje, de que a mulher deve ter compreensão e ser resiliente, mesmo diante dos abusos. Outro ponto é, ele não conversou sobre o que fez, não teve diálogo, não teve pedido de perdão, não houve uma conversa sobre arrependimento, e muito menos tempo para que fosse provado de que o arrependimento era real. O filme consegue fazer a gente sentir empatia pelo marido e isso acaba sendo um problema (considerando a sociedade atual), ele tendo um conflito interno em dúvida "trair (mais) ou não trair? matar ou não matar? Eis a questão." Oi? Já traía, cogitou matar para viver com a amante, quem quer conviver com alguém depois disso? Não há nada de bom em um marido desse. A esposa fica em segundo plano servindo apenas como escora, como um símbolo. Os desejos e pensamentos dela não são explorados, exceto pelo de ser amada pelo esposo. O filme vem pra reafirmar essa coisa do casamento patriarcal, onde tudo dá certo e a harmonia do casal é restaurada sem que o homem tenha que enfrentar as consequências pelos atos de violência. Claro, o filme não foi feito em 2026 e sim 100 anos antes, por isso não afetou tanto a minha nota (em 7th Heaven afetou, realmente a mulher era escrava ali), mas vale refletir sobre.
Oque falar dessa maravilha de filme!!
Quando assisti "Sunrise: A Song of Two Humans", de F.W. Murnau, parecia que eu estava diante de um poema visual. A história é simples — um homem dividido entre a sua vida familiar ou uma aventura amorosa — mas o que me prendeu foi a forma como essa narrativa foi contada por meio das imagens.
A câmera parece viva, deslizando, espreitando, mergulhando nos sentimentos dos personagens. É impressionante pensar que esse filme foi feito em 1927 e, ainda assim, seus recursos técnicos e estéticos superam muitos filmes contemporâneos. A fotografia, com seus contrastes intensos e composições meticulosas, cria uma atmosfera quase onírica, onde o real e o simbólico se misturam.
O uso de sobreposições, movimentos de câmera e efeitos de luz me impressionou realmente. Há uma cena em que o casal caminha pela cidade e o cenário se transforma ao redor deles — como se o mundo respondesse ao renascimento do amor. Absolute Cinema!
Murnau não apenas conta uma história; ele a esculpe com luz e sombra. A ausência de diálogos falados em nada empobrece a narrativa, pelo contrário: convida o espectador a sentir, a interpretar, a mergulhar nos gestos e olhares. É como se cada enquadramento fosse uma pintura carregada de emoção.