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Data de lançamento
9 Abril 1986Duração
Zorg é um faz-tudo que cuida de vários bangalôs de praia na França. Ele vive uma vida tranquila, trabalhando seriamente e escrevendo no seu tempo livre. Um dia, Betty aparece em sua vida, uma jovem tão linda quanto selvagem e imprevisível. Inesperadamente, o jeito irreverente de Betty começa a fugir do controle. Zorg percebe que a mulher que ama está lentamente ficando louca. Quando o relacionamento dos dois se torna um caos, será que o amor pode prevalecer?
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É um dos filmes mais inteligentes que já vi. Que injeção de adrenalina esse último ato. Aula de como não ser piegas e previsível.
Belo filme, forte mas lindo, com uma fotografia linda
O que Betty possuía não lhe pertencia; era-lhe ofertado como um banquete de vidro, brilhante e cortante, onde o preço de cada entrega era a diluição do ser. O que é dado não se é — apenas se tem, sob o peso de um contrato que exige em troca o papel da esposa devota, da musa submissa, da silhueta que decora o sonho alheio. Há quarenta anos, quando a sociedade me estendia um roteiro pronto, eu decidi rasgar as páginas.<br/>Enquanto meu mundo assistia ao idílio intelectual de *Jules e Jim*, que era amada por vários, eu percebia a armadilha das mentes que tentam colonizar o desejo. Minha escolha, incompreendida pelos que olham apenas a superfície, foi o mergulho no que chamaram de ignorância. "Escolhi" o desprovido de críticas, o avesso do intelecto, não por escassez, mas por estratégia de sobrevivência. <br/>Entendi, com a clareza que só o tempo e a maternidade esculpem, que o escritor ou o crítico de cinema seria o carcereiro dos meus próprios vôos ou dos seus ou sozinha não teria o apoio de caminhar só... Carregar o sonho do outro é caminhar com chumbo nos pés. Antes a brutalidade da ignorância do que a violência refinada do esclarecido, .. . julguei mais fácil a saída, que tb nunca se fez leve. Que inclusive provido de outras violencias tamanhas.<br/>Diferente de Betty, que na sua intensidade cega permitiu que o mundo lhe roubasse a visão, eu escolhi enxergar por conta própria. Tornei-me a Rainha na Terra dos que Insistem em Não Ver. Larguei a mão por diversas vezes no roteiro imposto de quem me mantinha segura em um lugar que não me cabia, para finalmente segurar a minha própria mão.<br/>Hoje, o meu "ufa" não é um suspiro de alívio, mas o grito de quem sustenta a própria intensidade no mundo real. Não sou namorada, não sou troféu, não sou o personagem de um diretor externo. Sou a autora de uma história que ninguém mais se atreve a escrever: a história de uma mulher que se escolheu para não morrer e nem ficar cega!
Mais de 48 horas após a sessão, sigo pensando neste filme, incomodado pelo que ele me causou... Ansiava com muita expectativa pela conferição de uma obra que marcou a minha geração, mas, ainda que soubesse mais ou menos o que encontraria (por já conhecer outros filmes do realizador), fui sobremaneira maltratado por uma abordagem que revela-se machista, ao fazer com que a personagem-título seja coadjuvante em sua própria trama, um mero trampolim para que o macho protagonista converta seus traumas em arte (conforme aconteceu na obra literária que deu origem ao filme, né?). Gostei bastante que os atores estejam nus o tempo quase inteiro e fiquei apaixonadíssimo pela Béatrice Dalle, soberba da primeira à última aparição. Mas é um filme que dói, que esmaga, que rasga - e que não expõe suficientemente estes aspectos enquanto "contingências da época em que foi realizado", tem algo suspeitoso nas entrelinhas produtivas. Seja como for, A fotografia é fantástica e a trilha musical de Gabriel Yared faz jus ao auê que até hoje causa. É um filme que nos inebria que nos faz imergir, que apresenta uma versão mais palatável do 'amor fou' tão persistentemente abordado por Jacques Rivette, Andrzej Zulawski e afins. É um filme bonito, mas que, exatamente por isso, romantiza a toxicidade, a depressão, a degradação de uma mulher que faz de tudo para tornar o seu amado público, conhecido, famoso... Questionável em mensagem, talvez, mas indubitavelmente atrativo. Um paradoxo, conforme esperado do clássico que ele é. Quero ver a versão integral, com três horas de duração, aliás! (WPC>)
E retorna para os cinemas brasileiros neste final de semana um de meus filmes de arte preferidos, que consagrou o falecido cineasta Jean-Jacques Beineix, bem como foi o ponto de partida da carreira dos principais nomes do elenco. O filme está de volta em uma excelente cópia com novo master em 4K pela Pandora Filmes, em edição comemorativa de seus 40 anos. A envolvente trama acompanha Zorg (Jean-Hugues Anglade), um jovem pintor que restaura casas de praia na Riviera Francesa e que pretende ser escritor. Certo dia aparece pelo bairro uma bela moça, de nome Betty (Béatrice Dalle), que desperta a atenção de Zorg. Os dois iniciam um tórrido relacionamento, mas aos poucos o rapaz percebe que Betty é neurótica e violenta. Drama e romance erótico entram com tudo nesse road movie melancólico, de cores quentes vivas, e uma interpretação intensa da atriz Béatrice Dalle, estreante no terceiro filme do diretor Jean-Jacques Beineix (1946-2022), criador do movimento Cinema du Look (“Cinema do Olhar”), ao lado de Leos Carax e Luc Besson. Tal movimento explorava a juventude marginalizada da França das décadas de 80 e 90, por meio de filmes estilizados e de visual elegante. Beineix dirigiu antes, dentro do “Olhar”, “Diva – Paixão perigosa” (1981) e “A lua na sarjeta” (1983), porém “Betty Blue” tornou-se especial no coração dos cinéfilos. Betty entrou para a galeria de personagens marcantes do cinema, uma protagonista de espírito livre, ao mesmo tempo instável e temperamental, que vai enlouquecendo, brigando com quem está ao redor em seus acessos explosivos. Béatrice é uma atriz de estranha beleza, perfeita para o papel dessa jovem irritada quando contrariada, e que depois faria vilãs no cinema francês (dá medo sua interpretação no terror francês “A invasora”, por exemplo). A trilha do libanês Gabriel Yared (vencedor do Oscar por “O paciente inglês”) é inesquecível, com arranjos ecléticos de sax, gaita e música circense, que caem como uma luva nessa fita de arte sensual - na época recebeu classificação 18 anos (há cenas de sexo selvagem, incluindo a abertura de um minuto). Indicado ao Oscar, Bafta e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, “Betty Blue” foi exibido nos festivais de Toronto e Edimburgo e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Montreal. A produção e o roteiro são de Beineix, e a obra é uma adaptação do livro de Philippe Djian, escritor de outros livros eróticos que viraram filmes, como “Elle” (com Isabelle Huppert). A versão que volta aos cinemas é a original apresentada em 1986, de 119 minutos – existe uma versão do diretor, de 185 minutos (ou seja, 66 minutos a mais que a de cinema) que saiu no Brasil em DVD em 2004 pela Columbia Pictures, que recomendo caso não conheçam (versões do diretor, com grande duração, valem a pena pois se tornam outro filme, com cenas extras e até novo corte). POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom