Até o ano passado, eu sequer havia ouvido falar deste filme. Por mais que eu pesquise pornografia clássica há anos, careci do majestoso seriado que é "The Deuce" para ter acesso a esta jóia. E fiquei desconfiado desde o início: como julgar adequadamente e em pé de igualdade "clássica" um filme pornográfico? Simples, aderindo a ele, analisando-o em razão de suas convenções de gênero, aceitando o "contrato". Assim o fiz: mergulhei!
Adianto uma observação: tive acesso a este filme na versão narrada por seu próprio diretor, o que facilitou e amplificou o seu viés positivamente crítico. E fez-me constatar o quanto o filme é inteligente e, nos limites da pornografia, genial!
São três episódios, mas, antes de chegarmos a ele, os elementos inovadores: foi a primeira vez que um filme pornográfico apresentou créditos de abertura de maneira lúdica e utilizando os nomes de seus intérpretes, alegam os enciclopédicos; melhor ainda: finalmente um filme pornô mereceu a honra de ser resenhado num jornal de grande circulação. "Deve ter algo realmente relevante aqui!", pensei - e tinha!
Na primeira historieta, um pretexto habitual, justificando o título: um rapaz encontrando outro numa praia, na areia. Fodem e, numa guinada à la Francis Leroi, há uma guinada personalística, reiterando a circularidade inequívoca do sexo casual (aqui, quase fortuitamente 'gay', e numa ambientação que adianta muito sobre a obra posterior do Alain Guiraudie. Incrível!)...
Aplaudi: caramba, não é apenas pornô, possui inteligência, quer-nos dizer algo.... Vamos ver se ele se sustenta nos quarenta minutos seguintes. E sim, ele se sustenta!
A segunda trama é realmente inspirada: uma homenagem fantasiosa às carências hollywoodianas de outrora, uma fábula de preenchimento erotógeno para 'gays'ricos, repleta de metáforas que só parecerão completamente cômicas para quem nunca sentiu solidão em meio à bonança aquisitiva. ..."e o sexo flui de maneira atlética!", comemora o diretor. E nós também. Muito bom. desfecho (novamente cíclico, mas agora e abertura sociológica) espetacular!
Neste momento, percebi que estava adorando o filme, que perigava favoritá-lo, conceder-lhe uma nota altíssima. "É necessário encontrar defeitos, ficar nos problemas intraconvencionais!", pensei comigo mesmo. E a terceira estória parecia boboca: o clichê fetichista do encontro interracial utilizando diferenças de classe e benesses empregatícias. vamos ver onde vai dar...
De repente, Wakefield Poole, em seu primeiro trabalho como realizador, câmera na mão do início até o fim, demonstra-nos que sabe realmente o que quer, que mensagem deseja-nos transmitir, para além da contaminação do gozo: utiliza de maneira pioneira o contraste de tons de pele entre os dois atores (um loiro, outro negro); perturba a montagem a fim de reiterar o seu clima de devaneio; adota rimas visuais controversas (palavra que ele mesmo utiliza) ao exibir um vibrador; dota de sentido excitante a profusão de fluído de Cowper nalgumas pessoas (uau! uau! uau!)... Calei a boca e aplaudi ainda mais o filme: favorito. Em seu gênero, quase uma obra-prima. Defenderei e divulgarei este filme com fervor. Incrível: como eu pude ficar tanto tempo sem conhecê-lo?! (WPC>)
Respirando aqui... E indo devagar!
Até o ano passado, eu sequer havia ouvido falar deste filme. Por mais que eu pesquise pornografia clássica há anos, careci do majestoso seriado que é "The Deuce" para ter acesso a esta jóia. E fiquei desconfiado desde o início: como julgar adequadamente e em pé de igualdade "clássica" um filme pornográfico? Simples, aderindo a ele, analisando-o em razão de suas convenções de gênero, aceitando o "contrato". Assim o fiz: mergulhei!
Adianto uma observação: tive acesso a este filme na versão narrada por seu próprio diretor, o que facilitou e amplificou o seu viés positivamente crítico. E fez-me constatar o quanto o filme é inteligente e, nos limites da pornografia, genial!
São três episódios, mas, antes de chegarmos a ele, os elementos inovadores: foi a primeira vez que um filme pornográfico apresentou créditos de abertura de maneira lúdica e utilizando os nomes de seus intérpretes, alegam os enciclopédicos; melhor ainda: finalmente um filme pornô mereceu a honra de ser resenhado num jornal de grande circulação. "Deve ter algo realmente relevante aqui!", pensei - e tinha!
Na primeira historieta, um pretexto habitual, justificando o título: um rapaz encontrando outro numa praia, na areia. Fodem e, numa guinada à la Francis Leroi, há uma guinada personalística, reiterando a circularidade inequívoca do sexo casual (aqui, quase fortuitamente 'gay', e numa ambientação que adianta muito sobre a obra posterior do Alain Guiraudie. Incrível!)...
Aplaudi: caramba, não é apenas pornô, possui inteligência, quer-nos dizer algo.... Vamos ver se ele se sustenta nos quarenta minutos seguintes. E sim, ele se sustenta!
A segunda trama é realmente inspirada: uma homenagem fantasiosa às carências hollywoodianas de outrora, uma fábula de preenchimento erotógeno para 'gays'ricos, repleta de metáforas que só parecerão completamente cômicas para quem nunca sentiu solidão em meio à bonança aquisitiva. ..."e o sexo flui de maneira atlética!", comemora o diretor. E nós também. Muito bom. desfecho (novamente cíclico, mas agora e abertura sociológica) espetacular!
Neste momento, percebi que estava adorando o filme, que perigava favoritá-lo, conceder-lhe uma nota altíssima. "É necessário encontrar defeitos, ficar nos problemas intraconvencionais!", pensei comigo mesmo. E a terceira estória parecia boboca: o clichê fetichista do encontro interracial utilizando diferenças de classe e benesses empregatícias. vamos ver onde vai dar...
De repente, Wakefield Poole, em seu primeiro trabalho como realizador, câmera na mão do início até o fim, demonstra-nos que sabe realmente o que quer, que mensagem deseja-nos transmitir, para além da contaminação do gozo: utiliza de maneira pioneira o contraste de tons de pele entre os dois atores (um loiro, outro negro); perturba a montagem a fim de reiterar o seu clima de devaneio; adota rimas visuais controversas (palavra que ele mesmo utiliza) ao exibir um vibrador; dota de sentido excitante a profusão de fluído de Cowper nalgumas pessoas (uau! uau! uau!)... Calei a boca e aplaudi ainda mais o filme: favorito. Em seu gênero, quase uma obra-prima. Defenderei e divulgarei este filme com fervor. Incrível: como eu pude ficar tanto tempo sem conhecê-lo?! (WPC>)