Após um desencontro, uma jovem do interior da França, Marie St. Clair , pensa ter sido abandonada pelo noivo e viaja sozinha para Paris. Mais tarde, já casada com um homem da alta sociedade parisiense, ela reencontra o antigo noivo, Jean
Em seu segundo longa-metragem, Chaplin decide não fazer parte do elenco – e deixa isso bem claro para o público por meio de uma inusitada mensagem logo no início do filme, acrescentando, ainda, que se trata de seu primeiro drama sério (me pergunto se, na época, algum desavisado chegou a pedir o dinheiro do ingresso de volta, alegando que tinha ido ao cinema não só para ver seu ator favorito na tela, como também para vê-lo fazendo comédia).
O enredo é simples: Marie e Jean, dois jovens apaixonados, decidem sair de casa e se mudar para a cidade grande a fim de se casarem e constituírem família longe da desaprovação de seus pais. Um acontecimento trágico impede o rapaz de se encontrar com a moça, e esta, desiludida, resolve ir embora sozinha. Um ano depois eles se reencontram, vivendo vidas completamente diferentes da que viviam (ela, sobretudo), e o antigo amor dá sinais de querer voltar a florescer.
De início, algo que enfraquece um pouco a história é a passagem do tempo entre o primeiro e o segundo ato. Afinal, doze meses parecem pouco para a transformação de Marie, de moça pobre com apenas a roupa do corpo para concubina do solteiro mais rico de Paris, ao mesmo tempo em que esse período não me parece longo o bastante para dar o peso necessário ao reencontro dela com Jean.
Casamento ou Luxo tem vários pontos interessantes, para além dos encontros e desencontros dos personagens principais.
Há uma inversão de papeis sociais entre Marie e Jean: nas cenas iniciais, vemos que a casa dela é bem mais modesta que a dele; já em Paris, enquanto a jovem vive em um apartamento luxuoso – inclusive com empregadas –, o rapaz mora em um espaço pequeno e humilde – onde não consegue encontrar um guardanapo sequer que não esteja furado. Não fica claro por que o pai de Jean desaprovava o casamento, mas a diferença de classe entre as duas famílias poderia ser o motivo. Posteriormente, quando Marie ressurge visivelmente em situação financeira confortável, o que entra em cena, por parte da mãe, é o moralismo: a velha rejeita o relacionamento do filho por não considerar sua amada digna dele.
Na agitação das festas dos habitantes endinheirados da capital francesa um pequeno detalhe chama a atenção: uma bela mulher é lentamente despida do longo tecido branco que envolve seu corpo, para divertimento de uma plateia que bebe, ri e aplaude. Entre as moças do grupo, vemos uma ajeitar um monóculo no rosto para admirar melhor a modelo, e seu rosto transparece inegável desejo pela outra. Um lampejo de representatividade lésbica no cinema da década de 1920? Me parece que sim.
Bem menos sutis são as expressões faciais da massagista que atende Marie em seu apartamento enquanto esta fofoca com suas “amigas”. Sendo obrigada a presenciar a falsidade com que as moças se tratam e ouvir sobre o mundinho de jantares e roupas bonitas em que elas vivem, sua única reação possível é a desaprovação no olhar. E o rosto da mulher, mostrado em sucessivos closes, confere ao drama sério de Chaplin um de seus melhores momentos (inclusive, um dos poucos momentos cômicos).
O namorado/mantenedor da protagonista, o ricaço Pierre, com sua personalidade meio cafajeste-simpático, é uma das figuras mais interessantes do filme. Ao descobrir que sua teúda e manteúda está, supostamente, tendo um caso com outro homem, ele não se mostra ciumento ou possessivo – o que, infelizmente, não seria estranho para os dias de hoje, quem dirá para aquela época. Mas não, ele apenas acha graça e ainda aconselha a moça a ter cuidado com quem se envolve.
Pierre ainda é usado para exemplificar duas visões possíveis sobre o matrimônio.
Por uma manchete de jornal ficamos sabendo que ele está noivo de uma jovem rica, e que o enlace representa a união das duas maiores fortunas do país. Tal fato, de maneira alguma, o impede de ter amantes. Casar-se, para ele, significa apenas consolidar uma relação de negócios. Em outra ocasião, quando Marie diz que quer romper com o namorado para se unir a Jean, aquele a chama até a janela e lhe dá uma amostra do que isso significa para quem não é abastado como ele – mostra-lhe uma família que passa na rua lá embaixo: o marido, carrancudo, andando apressado na frente; a espoca, com a infelicidade estampada no rosto, vem logo atrás, esforçando-se para manter as crianças junto se si. O filme, assim, parece querer apresentar o casamento como uma instituição falida. A burguesia se casa para perpetuar fortunas e manter aparências. A classe trabalhadora o faz para sobreviver. Em nenhum dos casos há felicidade, apenas conveniência.
Uma das cenas mais bem construídas da obra é a do suicídio de Jean, após ser rejeitado por Marie e humilhado por Pierre. O ímpeto inicial de tirar a vida do rival (ou, talvez, da moça, senão de ambos) transforma-se em desejo de morrer. E, na antessala de um restaurante, que delimita até onde ele pode chegar não sendo membro ou convidado da classe alta – sala esta que, ainda que seja apenas um cômodo preliminar, é grande o bastante para fazê-lo parecer tão pequeno e impotente –, o rapaz atira em si mesmo, tombando ao lado de uma bela e indiferente estátua.
Após a morte de Jean e, passado algum tempo, vemos o desfecho do filme com Marie reconciliada com a mãe de seu antigo amor, ambas dividindo uma casa no interior do país e cuidando de crianças órfãs – aparentemente adotadas por elas. É um final que, se por um lado é conservador ao nos dizer que a protagonista só encontra a verdadeira felicidade quando abandona sua vida de luxo e concubinato e abraça a maternidade, por outro é um tanto fora da curva, ao colocar a heroína criando seus filhos não com um homem, mas com outra mulher (aqui, é preciso dizer, sem qualquer aceno aparente à representatividade lésbica, como dito anteriormente sobre a garota com o binóculo).
Algumas curiosidades: * Chaplin situou sua história em Paris para não melindrar os brios puritanos dos espectadores estadunidenses com toda a representação de boemia e relações extraconjugais presentes na obra. Mesmo assim, Casamento ou Luxo não foi muito bem recebido, nem pela crítica nem pelo público. * Por uma escolha estratégica do diretor, todas as cenas foram filmadas na mesma ordem em que aparecem no filme. E ainda que isso tenha encarecido o projeto, vale lembrar que ele era um dos donos da empresa responsável pela produção.
Um filme sobe os encontros e desencontros da vida, com um certo tom moralista da época e uma lição de moral típica do diretor. Bem longe dos melhores do Chaplin, mas pelo menos a trilha sonora é boa. 12/09/2024
Boa história, mas falta algo que provavelmente é o próprio Chaplin. Típico filme que merecia uma nova versão e teria que ser dirigida por Woody Allen. Nota 6,5
Chaplin já avisa no ínicio que não estará no filme e que se trata de um drama sério, já me desanimou mas para completar o filmografia queria ver até o fim, a tradução do filme em português já um spoiler, escolher quem ama ou uma vida de riqueza, Chaplin quis fazer um filme diferente aqui e com certeza fez para que sua musa Edna Purviance se destacasse, mas sem a presença do Vagabundo a produção perde muito.
O final era pra ser feliz? eu terminei o filme com muita dor no coração Algumas coisas que achei ruim nesse filme As mulheres: a atriz principal é uma das mais feias do elenco, não que as outras sejam bonitas, até os homens conseguem ter uma beleza bem acima do esperado, creio que deviam ter achado uma mulher mais bonita, não ficou um casal legal. Atuações: em geral as atuações são até boas, mas a atuação da mãe do cara achei ruim, principalmente na cena que ele morre, não sei se foi o chaplin que quis assim, mas ficou bem estranho essa cena, a mãe recebe a noticia de que o filho morreu e não parece estar tão abalada
Em seu segundo longa-metragem, Chaplin decide não fazer parte do elenco – e deixa isso bem claro para o público por meio de uma inusitada mensagem logo no início do filme, acrescentando, ainda, que se trata de seu primeiro drama sério (me pergunto se, na época, algum desavisado chegou a pedir o dinheiro do ingresso de volta, alegando que tinha ido ao cinema não só para ver seu ator favorito na tela, como também para vê-lo fazendo comédia).
O enredo é simples: Marie e Jean, dois jovens apaixonados, decidem sair de casa e se mudar para a cidade grande a fim de se casarem e constituírem família longe da desaprovação de seus pais. Um acontecimento trágico impede o rapaz de se encontrar com a moça, e esta, desiludida, resolve ir embora sozinha. Um ano depois eles se reencontram, vivendo vidas completamente diferentes da que viviam (ela, sobretudo), e o antigo amor dá sinais de querer voltar a florescer.
De início, algo que enfraquece um pouco a história é a passagem do tempo entre o primeiro e o segundo ato. Afinal, doze meses parecem pouco para a transformação de Marie, de moça pobre com apenas a roupa do corpo para concubina do solteiro mais rico de Paris, ao mesmo tempo em que esse período não me parece longo o bastante para dar o peso necessário ao reencontro dela com Jean.
Casamento ou Luxo tem vários pontos interessantes, para além dos encontros e desencontros dos personagens principais.
Há uma inversão de papeis sociais entre Marie e Jean: nas cenas iniciais, vemos que a casa dela é bem mais modesta que a dele; já em Paris, enquanto a jovem vive em um apartamento luxuoso – inclusive com empregadas –, o rapaz mora em um espaço pequeno e humilde – onde não consegue encontrar um guardanapo sequer que não esteja furado.
Não fica claro por que o pai de Jean desaprovava o casamento, mas a diferença de classe entre as duas famílias poderia ser o motivo. Posteriormente, quando Marie ressurge visivelmente em situação financeira confortável, o que entra em cena, por parte da mãe, é o moralismo: a velha rejeita o relacionamento do filho por não considerar sua amada digna dele.
Na agitação das festas dos habitantes endinheirados da capital francesa um pequeno detalhe chama a atenção: uma bela mulher é lentamente despida do longo tecido branco que envolve seu corpo, para divertimento de uma plateia que bebe, ri e aplaude. Entre as moças do grupo, vemos uma ajeitar um monóculo no rosto para admirar melhor a modelo, e seu rosto transparece inegável desejo pela outra. Um lampejo de representatividade lésbica no cinema da década de 1920? Me parece que sim.
Bem menos sutis são as expressões faciais da massagista que atende Marie em seu apartamento enquanto esta fofoca com suas “amigas”. Sendo obrigada a presenciar a falsidade com que as moças se tratam e ouvir sobre o mundinho de jantares e roupas bonitas em que elas vivem, sua única reação possível é a desaprovação no olhar. E o rosto da mulher, mostrado em sucessivos closes, confere ao drama sério de Chaplin um de seus melhores momentos (inclusive, um dos poucos momentos cômicos).
O namorado/mantenedor da protagonista, o ricaço Pierre, com sua personalidade meio cafajeste-simpático, é uma das figuras mais interessantes do filme. Ao descobrir que sua teúda e manteúda está, supostamente, tendo um caso com outro homem, ele não se mostra ciumento ou possessivo – o que, infelizmente, não seria estranho para os dias de hoje, quem dirá para aquela época. Mas não, ele apenas acha graça e ainda aconselha a moça a ter cuidado com quem se envolve.
Pierre ainda é usado para exemplificar duas visões possíveis sobre o matrimônio.
Por uma manchete de jornal ficamos sabendo que ele está noivo de uma jovem rica, e que o enlace representa a união das duas maiores fortunas do país. Tal fato, de maneira alguma, o impede de ter amantes. Casar-se, para ele, significa apenas consolidar uma relação de negócios.
Em outra ocasião, quando Marie diz que quer romper com o namorado para se unir a Jean, aquele a chama até a janela e lhe dá uma amostra do que isso significa para quem não é abastado como ele – mostra-lhe uma família que passa na rua lá embaixo: o marido, carrancudo, andando apressado na frente; a espoca, com a infelicidade estampada no rosto, vem logo atrás, esforçando-se para manter as crianças junto se si.
O filme, assim, parece querer apresentar o casamento como uma instituição falida. A burguesia se casa para perpetuar fortunas e manter aparências. A classe trabalhadora o faz para sobreviver. Em nenhum dos casos há felicidade, apenas conveniência.
Uma das cenas mais bem construídas da obra é a do suicídio de Jean, após ser rejeitado por Marie e humilhado por Pierre. O ímpeto inicial de tirar a vida do rival (ou, talvez, da moça, senão de ambos) transforma-se em desejo de morrer. E, na antessala de um restaurante, que delimita até onde ele pode chegar não sendo membro ou convidado da classe alta – sala esta que, ainda que seja apenas um cômodo preliminar, é grande o bastante para fazê-lo parecer tão pequeno e impotente –, o rapaz atira em si mesmo, tombando ao lado de uma bela e indiferente estátua.
Após a morte de Jean e, passado algum tempo, vemos o desfecho do filme com Marie reconciliada com a mãe de seu antigo amor, ambas dividindo uma casa no interior do país e cuidando de crianças órfãs – aparentemente adotadas por elas.
É um final que, se por um lado é conservador ao nos dizer que a protagonista só encontra a verdadeira felicidade quando abandona sua vida de luxo e concubinato e abraça a maternidade, por outro é um tanto fora da curva, ao colocar a heroína criando seus filhos não com um homem, mas com outra mulher (aqui, é preciso dizer, sem qualquer aceno aparente à representatividade lésbica, como dito anteriormente sobre a garota com o binóculo).
Algumas curiosidades:
* Chaplin situou sua história em Paris para não melindrar os brios puritanos dos espectadores estadunidenses com toda a representação de boemia e relações extraconjugais presentes na obra. Mesmo assim, Casamento ou Luxo não foi muito bem recebido, nem pela crítica nem pelo público.
* Por uma escolha estratégica do diretor, todas as cenas foram filmadas na mesma ordem em que aparecem no filme. E ainda que isso tenha encarecido o projeto, vale lembrar que ele era um dos donos da empresa responsável pela produção.
Um filme sobe os encontros e desencontros da vida, com um certo tom moralista da época e uma lição de moral típica do diretor. Bem longe dos melhores do Chaplin, mas pelo menos a trilha sonora é boa. 12/09/2024
Boa história, mas falta algo que provavelmente é o próprio Chaplin. Típico filme que merecia uma nova versão e teria que ser dirigida por Woody Allen. Nota 6,5
Chaplin já avisa no ínicio que não estará no filme e que se trata de um drama sério, já me desanimou mas para completar o filmografia queria ver até o fim, a tradução do filme em português já um spoiler, escolher quem ama ou uma vida de riqueza, Chaplin quis fazer um filme diferente aqui e com certeza fez para que sua musa Edna Purviance se destacasse, mas sem a presença do Vagabundo a produção perde muito.
O final era pra ser feliz? eu terminei o filme com muita dor no coração
Algumas coisas que achei ruim nesse filme
As mulheres: a atriz principal é uma das mais feias do elenco, não que as outras sejam bonitas, até os homens conseguem ter uma beleza bem acima do esperado, creio que deviam ter achado uma mulher mais bonita, não ficou um casal legal.
Atuações: em geral as atuações são até boas, mas a atuação da mãe do cara achei ruim, principalmente na cena que ele morre, não sei se foi o chaplin que quis assim, mas ficou bem estranho essa cena, a mãe recebe a noticia de que o filho morreu e não parece estar tão abalada