Duas histórias de migração, memórias e fantasmas. Após um desastre em suas terras, Joana vai para São Paulo e tenta recomeçar a vida. Enquanto isso, após a morte de seu pai, Flávia se muda para a fazenda dele com sua esposa Mara.
Na primeira dessas duas histórias de migração, me parece muito importante o início, a causa daquela mudança: uma pessoa é vítima de uma empresa e perde tudo o que tem. Entre as perdas estão, inclusive, as esperanças de reencontrar o filho.
A partir daí, a vida na cidade grande vira o que de melhor ela pode oferecer: o capitalismo tardio. Uma promessa de empreendedorismo que te torna refém de uma empresa que não dá a mínima para ninguém (obviamente) e paisagens cinzentas que parecem todas iguais.
É muito interessante como o êxodo rural é retratado aqui. Hoje, esse assunto é considerado vencido, ultrapassado talvez? coisa das décadas de 70 e 80? Aqui, vemos que não, e é possível ver o que crimes ambientais podem mudar nessas dinâmicas e como apenas outras empresas podem tirar vantagem disso.
De modo geral, é isso o que restou pra essas pessoas. Abandono familiar, perda de propriedade, pesadelos com a tragédia saindo da própria torneira, acordar às 4 da manhã e observar a vizinhança fazendo o mesmo. Aqui, a primeira história não tem um final, acredito que, basicamente, porque não sabemos qual é o final disso tudo. Talvez esteja só começando.
A segunda história se liga à primeira com uma caixa de doações deixadas e traz o outro lado: hoje ainda existe êxodo rural, mas e o êxodo urbano? E quem tenta uma vida mais sossegada no campo, depois de gastar toda a vida em trabalhos que não fazem sentido (assim como todos)?
O casal aqui tenta continuar o legado do pai de uma delas, mesmo que ela não saiba exatamente que legado é esse ou que pai era esse. Tenta estar no meio de animais e outras formas de vida. Mas essa vida não é exatamente encontrada. Os planos mais abertos aqui mostram sempre uma vida perdida ao fundo enquanto o que se vê no chão é uma terra vermelha, seca, morta. Por onde começar a cultivar algo nessa terra? Hoje nem se sabe o que o falecido pai gostaria de fazer e as lavouras ao redor só têm soja, não dão nenhuma pista do que deve ser feito.
A população do campo migrou para as cidades nos últimos 60 anos. Não toda, claro, mas uma grande parcela. Mas sobre o que se construiu a vida rural brasileira nas últimas décadas? Mara aqui fala, desesperada, em uma das melhores cenas do filme, enquanto vemos seu rosto muito de perto: Morte. Tudo aqui se construiu em cima de morte. O pai de Flávia até tentou achar suas raízes. Ele conseguiu um nome e uma foto, nada além. A mata escura e amedrontadora, o ayahuasca talvez tenham uma resposta, mas é difícil de encarar. Ela pode te sugar e te calar.
O início dessa história não é bem elaborado, e nem precisa. Ao contrário do fim. O fim chegou. E agora, o que vem depois?
Esse me lembrou muito O anjo da noite, do Khouri, na maneira em que fala sobre o processo de construção de uma vida rural. No caso do Khouri, ao contrário daqui, falando de uma família latifundiária com séculos de riquezas e terras.
Lendo os comentários e o pessoal me acompanha em achar a primeira história bem melhor do que a segunda.
Se fosse só a 1ª história, levaria 5 estrelas. Que atriz maravilhosa e que conto sensível!
Na primeira dessas duas histórias de migração, me parece muito importante o início, a causa daquela mudança: uma pessoa é vítima de uma empresa e perde tudo o que tem. Entre as perdas estão, inclusive, as esperanças de reencontrar o filho.
A partir daí, a vida na cidade grande vira o que de melhor ela pode oferecer: o capitalismo tardio. Uma promessa de empreendedorismo que te torna refém de uma empresa que não dá a mínima para ninguém (obviamente) e paisagens cinzentas que parecem todas iguais.
É muito interessante como o êxodo rural é retratado aqui. Hoje, esse assunto é considerado vencido, ultrapassado talvez? coisa das décadas de 70 e 80? Aqui, vemos que não, e é possível ver o que crimes ambientais podem mudar nessas dinâmicas e como apenas outras empresas podem tirar vantagem disso.
De modo geral, é isso o que restou pra essas pessoas. Abandono familiar, perda de propriedade, pesadelos com a tragédia saindo da própria torneira, acordar às 4 da manhã e observar a vizinhança fazendo o mesmo. Aqui, a primeira história não tem um final, acredito que, basicamente, porque não sabemos qual é o final disso tudo. Talvez esteja só começando.
A segunda história se liga à primeira com uma caixa de doações deixadas e traz o outro lado: hoje ainda existe êxodo rural, mas e o êxodo urbano? E quem tenta uma vida mais sossegada no campo, depois de gastar toda a vida em trabalhos que não fazem sentido (assim como todos)?
O casal aqui tenta continuar o legado do pai de uma delas, mesmo que ela não saiba exatamente que legado é esse ou que pai era esse. Tenta estar no meio de animais e outras formas de vida. Mas essa vida não é exatamente encontrada. Os planos mais abertos aqui mostram sempre uma vida perdida ao fundo enquanto o que se vê no chão é uma terra vermelha, seca, morta. Por onde começar a cultivar algo nessa terra? Hoje nem se sabe o que o falecido pai gostaria de fazer e as lavouras ao redor só têm soja, não dão nenhuma pista do que deve ser feito.
A população do campo migrou para as cidades nos últimos 60 anos. Não toda, claro, mas uma grande parcela. Mas sobre o que se construiu a vida rural brasileira nas últimas décadas? Mara aqui fala, desesperada, em uma das melhores cenas do filme, enquanto vemos seu rosto muito de perto: Morte. Tudo aqui se construiu em cima de morte. O pai de Flávia até tentou achar suas raízes. Ele conseguiu um nome e uma foto, nada além. A mata escura e amedrontadora, o ayahuasca talvez tenham uma resposta, mas é difícil de encarar. Ela pode te sugar e te calar.
O início dessa história não é bem elaborado, e nem precisa. Ao contrário do fim. O fim chegou. E agora, o que vem depois?
Esse me lembrou muito O anjo da noite, do Khouri, na maneira em que fala sobre o processo de construção de uma vida rural. No caso do Khouri, ao contrário daqui, falando de uma família latifundiária com séculos de riquezas e terras.
Duas bonitas histórias em meio a tragédia ambiental.
Muito bom filme.
Esperava curtir mais toda crítica social que ele carrega, mas as histórias não me prenderam em nada. Uma pena