Casey (Haley Lu Richardson) vive com sua mãe em uma cidade pouco conhecida e assombrada pela promessa de modernismo. Jin (John Cho), um visitante do outro lado do mundo, visita seu pai que está quase falecendo. Sobrecarregados pelo peso do futuro, eles encontram refúgio um no outro e na arquitetura que os rodeia.
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Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita
O ritmo é lento e a história não tem pressa de apresentar os seus personagens que aos poucos vão nos sendo revelados. Um dos maiores destaques é a arquitetura. Impossível não se impressionar com as criativas e majestosas obras arquitetônicas da cidade de Columbus que aparecem durante o filme. O roteiro entrega bons diálogos que compensam a quase total falta de história.
Um filme contemplativo, com ótimos diálogos pra relaxar enquanto aproveitamos fotografia perfeita dos arredores de Columbus, Indiana. Dois diálogos do próprio filme o definem:
- I think it could use a bit more spicy...
- I was going for something more subtle.
e
- It's not a matter of attention. It's a matter of interest.
- consegue conversar muito bem sobre traumas geracionais
- como as convivências e escolhas dos pais afetam as vidas dos filhos
- uma bonita amizade que surge em um momento inesperado e que cura
- ótimos diálogos, fortes e necessários
- a fotografia então.. sensacional, fora que encaixa bem com a temática da obra
Columbus é aquele tipo de filme que prova que o cinema não precisa de grandes acontecimentos para emocionar, com uma direção sensível, fotografia impecável e um roteiro contemplativo, a obra transforma conversas simples em momentos profundamente humanos, um filme sobre encontros, escolhas e recomeços, contado com rara delicadeza para quem aprecia cinema autoral, bons personagens e histórias que permanecem na mente.
Em Columbus, Kogonada transforma a arquitetura em linguagem afetiva. Mais do que cenário, os edifícios funcionam como dispositivos de mediação entre personagens que não conseguem, de início, acessar a si mesmos nem aos outros. A cidade surge como uma forma de pensar e sentir.
Logo na abertura, a conversa entre Casey e o amigo introduz um problema central: a falha de atenção como sintoma de desencontro. O exemplo do pai que lê e do filho que joga videogame revela não apenas interesses distintos, mas a impossibilidade de compartilhamento. Cada um habita um “espaço mental” próprio, sem interseção. Essa ideia ecoa ao longo do filme como uma espécie de planta baixa emocional: relações que não se conectam, afetos que não circulam.
É nesse contexto que surge Jin, marcado por uma relação distante com o pai, um renomado teórico da arquitetura agora hospitalizado. A indiferença de Jin em relação ao trabalho do pai não é apenas intelectual; é um bloqueio afetivo. Ele recusa a arquitetura porque ela é também a linguagem do pai e, portanto, de uma intimidade que não se realizou. Sua vontade de ir embora é, antes de tudo, uma tentativa de escapar desse espaço emocional não resolvido.
Casey, por outro lado, encarna o movimento oposto. Ela encontra nos edifícios uma forma de elaboração sensível do mundo. No entanto, sua permanência em Columbus não é simples apego; há também uma estagnação afetiva, ligada à mãe. Se Jin foge, Casey permanece, ambos presos, ainda que em direções contrárias...
Quando começam a circular juntos pela cidade, o filme constrói sua verdadeira dinâmica. Casey guia Jin por edifícios que a emocionam, mas o ponto de virada não está na contemplação em si, e sim na pergunta que ele faz: por que isso te afeta? A partir daí, o que era um saber aparentemente objetivo, a arquitetura como conhecimento, revela-se profundamente subjetivo. Jin, por sua vez, começa a ler os livros do pai, um gesto mínimo, mas decisivo: ele inicia uma aproximação tardia, mediada pelo pensamento.
Essa troca não evolui para um romance convencional, e isso é fundamental. O filme recusa o clichê da resolução afetiva pelo amor. Em vez disso, propõe algo mais interessante: um deslocamento interno. Casey e Jin não se reconfiguram. Cada um passa a ocupar um novo “espaço” dentro de si.
O desfecho explicita essa inversão. Casey finalmente parte, rompendo com sua imobilidade, enquanto Jin permanece, mas agora em estado de espera, o que implica abertura. Aquele que queria fugir aceita ficar; aquela que não conseguia sair decide ir. A arquitetura emocional se reorganiza como possibilidade. Essa recusa de conclusões fáceis dá ao final uma sensação de continuidade, como se a vida dos personagens ainda estivesse em construção.....