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Eu estava lendo um poema de Emily Dickinson e, de repente, lembrei de Stromboli. A associação veio quase automaticamente, por causa da imagem do vulcão. No poema, Dickinson descreve justamente essa quietude que esconde violência:
“Guardam dentro — armamento apavorante,
Fogo, e fumaça, e canhão,
Tomando Vilas para o café da manhã,
E homens apavorantes —”
Há, porém, uma diferença interessante. Em Dickinson, o vulcão está dentro da pessoa; é uma metáfora para emoções comprimidas que talvez um dia irrompam. Já em Stromboli, o vulcão está fora, na paisagem, esmagando psicologicamente a personagem. A natureza torna visível aquilo que, em Dickinson, permanece interior. No final do poema, Dickinson imagina até a possibilidade de uma revelação tardia, como a redescoberta de Pompeia:
“Se algum amoroso Antiquário,
Na Manhã da Retomada,
Não gritará de alegria ‘Pompeia!’
Às Colinas retornar!
A fuga final pelo vulcão, quando ela sobe a montanha atravessando pedra, vento e exaustão até um colapso espiritual, parece à primeira vista o oposto do poema. Dickinson fala de uma contenção. O rosto permanece imóvel enquanto a dor titânica permanece guardada. O filme, ao contrário, leva essa pressão até um ponto de ruptura. Mas talvez não seja exatamente o contrário. Pode ser o mesmo processo em duas fases diferentes. O poema descreve o estado vulcânico latente, a tensão silenciosa que o rosto humano sustenta. Stromboli imagina o que acontece quando essa tensão já não pode mais ser contida. A caminhada no vulcão seria então a erupção espiritual. É certamente uma das minhas cenas favoritas.... Subindo o vulcão, ela entra num espaço onde não há mais nada que organize a experiência. Pela segunda vez, eu compartilhei um estado psicológico de exaustão e desorientação. Estar ali, dentro de um cenário quase lunar. Quando ela finalmente quebra e grita, não é um clímax dramático clássico. É algo mais primitivo... medo, desespero, pedido de ajuda, isso é o que torna a caminhada tão perturbadora. Ela parece menos uma fuga física e mais uma travessia interior, algo entre pânico, revelação e esgotamento.
Em Decálogo I, eu amo a maneira como o som atravessa a imagem. O som antecipa o que a imagem ainda não suporta mostrar. Ele cria uma imagem ausente. O cão e o menino começam a se misturar tragicamente. A morte do animal não é apenas um fato; é um ensaio. Um prenúncio. Kieślowski trabalha com o que não é visto, mas é mostrado de forma oblíqua. Nós sabemos do risco. Sabemos do gelo. Sabemos que a superfície pode ceder. Mas o pai ainda mantém distância dessa realidade que se aproxima. O gelo é uma imagem extraordinária.... ele carrega uma aparência de estabilidade. Quando o gelo cede, não é apenas o lago que se abre. Abre-se a pergunta. Onde estava a falha? O que não é visto (o ponto exato da ruptura) é justamente o que organiza toda a tensão. O diretor não mostra o acidente de maneira explícita. Ele nos coloca na espera. No atraso. Na busca. A imagem ausente é mais devastadora que a imagem explícita... Definitivamente é o meu favorito.
Últimos recados
Tá vendo?! Temos mais uma paixão em comum. Além da literatura, tem o cinema tmbm rs
Mas sim, Hammet é lindo tmbm... e sim, a atuação da Jesse fodástica mesmo.
Obs: dei uma stalkeada nps teus favoritos e adorei o que vi por lá... vários amores e vários q tao na minha lista de desejos rs já até baixei alguns que vi na sua lista :)
Olha só! Você por aqui! rsrs já éramos amigos e eu não sabia haha então és uma cinéfila também! que massa :) Te achei lendo os comentários do filme Sonhos de Trem! que eu acebei de assistir e achei lindo!! confesso que dos indicados ao oscar... esse foi o que eu mais gostei! :)
ooi, parece que restou vc e eu nessa rede, somos a resistência
Gostei dessas “linhas”; funcionam quase como um idioma visual do filme: linhas do corpo (cirurgia no coração), linhas no chão, rachaduras, riscos… tudo aponta para algo que foi cortado, atravessado, transformado, mas não necessariamente destruído. Pelo contrário, são marcas de passagem. A cena dos fósforos é especialmente forte nesse sentido. O gesto de acender e deixar cair cria pequenas luzes efêmeras que encontram essas linhas no chão. E como isso conversa diretamente com o coração operado: uma cicatriz que é também condição de continuidade da vida.