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Data de lançamento
12 Fev. 2013Duração
Em uma casa isolada à beira-mar, com as cortinas fechadas, um roteirista se esconde do mundo tendo apenas seu cachorro como companhia. A tranquilidade é abruptamente interrompida certa noite pela chegada de uma jovem que foge das autoridades. Recusando-se a ir embora, ela se refugia na casa. Mas, ao amanhecer, outra presença inesperada mudará tudo.
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Panahi, eu te venero <3 Esse filme me lembrou muito o Persona, do Bergman.
Interpretei o cachorro como as obras proibidas do Panahi. O senhor, o Panahi diretor, preocupado em preservar suas obras e produzir mais. A mulher, a vida pessoal do Panahi e os sentimentos negativos causados pela perseguição a ele
Filme pouco acessível que utiliza meios de metalinguagem para falar ao espectador. Para entendê-lo e senti-lo, é necessário estar contextualizado com a obra anterior de Panahi após sua prisão domiciliar e suas críticas ao governo iraniano. Do contrário, será chato, monótono e sem sentido.
Filme pretenso enigmático, que não passa de uma proposta vazia, além de ser muito chato, porque o tempo todo ele te instiga que alguma coisa está prestes a acontecer, em vão. O filme literalmente morre na praia.
Ah..o cinema iraniano sempre nos brindando com emoção e reflexão. ...
É bom avisar que o longa “Cortinas Fechadas” do cineasta iraniano Jafar Panahi é um filme que será muito melhor apreciado (e entendido) se o espectador já tiver visto de antemão o seu trabalho anterior, o documentário “Isto Não É Um Filme”. Afinal de contas, estes dois longas funcionam praticamente em conjunto, como se fossem os dois lados da mesma moeda, eles se complementam, um necessita do outro. Assim, se você não conhece o contexto e a importância desse diretor como símbolo político, recomendo fortemente procurar antes o outro filme, do contrário terá uma dificuldade maior em entender “Cortinas Fechadas”.
Bom, aviso dado, vamos ao filme. “Cortinas Fechadas” conta a improvável história de um homem que, certo dia, se refugia com o seu cachorro em uma casa de praia. Inquieto e assustado, o homem veda todas as janelas do imóvel, ocultando a visão do lado de fora da residência. Acreditando estar seguro, o homem é surpreendido, no entanto, com o aparecimento de um casal que, fugindo das autoridades, buscou refúgio na mesma residência. Enquanto que o primeiro homem se questiona internamente sobre a forma com que eles conseguiram entrar na casa, a mulher é deixada pelo segundo homem no local e, a partir daí, passamos a acompanhar o convívio turbulento entre o primeiro homem e a mulher, no mesmo espaço físico.
Se beneficiando de bons atores, o filme brilha com atuação bastante competente daquele que, aparentemente num primeiro momento, é o protagonista. O primeiro homem é vivido pelo ator Kambozia Partovi com bastante competência. Ranzinza, mas ao mesmo tempo intrigado e estranhamente atraído com a presença daquela moça estranha, Partovi consegue transpor com brilhantismo as características de um personagem cuja essência, na verdade, é puramente abstrata (mais sobre isso nos parágrafos seguintes). Mas, surpreendentemente, quem rouba a cena de uma maneira incrivelmente divertida, é o cachorrinho que o acompanha. Sendo um dos melhores “atores caninos” que eu já vi, é interessante a forma misteriosamente “humana” com que olha para a televisão, quando está passando uma reportagem que lhe diz respeito. Ademais, a casa que é utilizada nas filmagens cumpre bem a sua função ao ser bastante ampla e repleta de elementos que remetem a cultura, apesar de estar com a maior parte das janelas - e outras coisas – vedadas por cortinas.
E se eu disse “outras coisas” é porque, em verdade, as janelas não passam de metáforas para algo muito maior e mais amplo. A partir de certo momento do filme (e, recomendo fortemente a quem não viu a projeção não ler as próximas linhas), a moça começa a abrir as cortinas da casa, para o total desespero do primeiro homem, revelando não só as paisagens lindas que estão do lado de fora, como também (em um dos momentos de metalinguagem mais sensacionais da história do cinema), pôsteres de filmes anteriores de Jafar Panahi. Obras culturais que estavam escondidas sob os véus das cortinas.
Assim, se você não conhece Panahi, ou não viu “Isto Não É Um Filme”, permita-me dar uma breve explicação. Jafar Panahi é um diretor de cinema que, após fazer forte propaganda política contra o governo ditatorial de Mahmoud Ahmadinejad, foi condenado à prisão domiciliar, proibido terminantemente de sair do país, dar entrevistas e, principalmente, fazer filmes. Não obstante isso, todos os filmes do diretor passaram a ser tachados como “obscenos”, apenas porque questionavam alguns dogmas da ordem política vigente. Daí a metáfora das cortinas cobrindo os pôsteres. Afinal, o que é o cinema se não janelas que nos permitem olhar além da realidade que nos cerca, e nos permite estudar as supostas “verdades” que nos rodeiam?
Desta forma, a medida que o filme vai brincando com a metalinguagem, a sua metáfora vai se tornando cada vez mais clara. O primeiro homem, vivido pelo já comentado Kambozia Partovi, na realidade é o espírito profissional do próprio Jafar Panahi que, acuado e com medo, se esconde em casa para proteger a vida de seu animal de estimação (aliás, o cachorro poderia ser entendido como uma representação do próprio Panahi). Aquele homem nada mais é do que as tentativas frustradas de Panahi reprimir a sua vocação como cineasta para se proteger, por isso ele esconde seus filmes sob as cortinas. Esforços que são inúteis com a chegada de outra entidade: o espírito artístico, uma encarnação da própria cultura, que é, nada mais nada menos, do que a moça que passa a dividir a casa. A despeito do que querem os ditadores, a arte é essencialmente livre, não tem como se aprisionar a arte em um recipiente, ela não obedece limites físicos; por isso a moça consegue “aparentemente” entrar em lugares fechados e atravessar paredes. O espírito artístico do diretor provoca o seu lado profissional, liberta as obras escondidas, abre as janelas de sua casa e o obriga a olhar para elas. É o espírito artístico de Panahi que deixa a luz entrar em sua casa, e dá coragem ao seu espírito profissional.
E até mesmo a característica “suicida” com que a moça é apresentada é genial. Panahi sabe que ceder ao seu espírito artístico naquela situação em que se encontra é, de certa forma, uma espécie de suicídio. Mas mesmo assim ele vai em frente. Panahi apresenta a coragem necessária para bater de frente contra o próprio sistema que tentou calá-lo. E é por conta disso que “Cortinas Fechadas” é um filme tão importante do ponto de vista político (de certa forma, ainda mais do que o “Isto Não É Um Filme”), pois é um testemunho da coragem e da genialidade de um diretor que, cansado de ver suas cortinas serem fechadas, resolveu enfim abrir as janelas.