Não vou mentir: a longa duração do filme e meu desconhecimento inicial acerca do músico entrevistado deixaram-me intimidado quanto ao que eu sentiria neste filme, até porque, dizia eu há pouco tempo, tive alguns problemas aparentes de adesão ao estilo um tanto hermético da diretora, sumamente artística. Não é o que ocorre aqui: o filme é sempre atrativo e é inevitável a paixão declarada por Negro Léo ao final da sessão. Musicalmente, fiquei deslumbrado. Discursivamente, mais ainda. No começo, achei esquisito o tom excessivamente "caseiro" da filmagem (o entrevistado é genro da diretora, e sua filha Ava Rocha aparece nos minutos iniciais), mas Paula Gaitán contornou isso magnificamente, vide as camadas superpostas de som quando Negro Léo começa a vocalizar notas musicais em homenagens a grandes nomes do jazz estadunidense. Em seus primeiros depoimentos, incomodei-me com o sobejo de digressões, mas logo isso configurou-se numa demonstração tangencial de genialidade, que atinge píncaros fascinantes quando ele passa a abordar a situação política do Brasil atual e defende enfaticamente as cotas raciais. O modo como ele posiciona-se quanto à religião é incrivelmente subversivo, sublime e muito inteligente. Nalguns aspectos, o filme tem algo que remete ao clássico RETRATO DE JASON, mas Paula Gaitán demonstra-se intimamente autoral. Filme que deixou-me eufórico ao longo de toda a sua projeção: já quero ver novamente. Apesar de ser bastante confinado (a maior parte de sua duração é composta por uma entrevista, de tom familiar), não é nem um pouco chato. É frenético e fascinante: uma aula! (WPC>)
Não vou mentir: a longa duração do filme e meu desconhecimento inicial acerca do músico entrevistado deixaram-me intimidado quanto ao que eu sentiria neste filme, até porque, dizia eu há pouco tempo, tive alguns problemas aparentes de adesão ao estilo um tanto hermético da diretora, sumamente artística. Não é o que ocorre aqui: o filme é sempre atrativo e é inevitável a paixão declarada por Negro Léo ao final da sessão. Musicalmente, fiquei deslumbrado. Discursivamente, mais ainda. No começo, achei esquisito o tom excessivamente "caseiro" da filmagem (o entrevistado é genro da diretora, e sua filha Ava Rocha aparece nos minutos iniciais), mas Paula Gaitán contornou isso magnificamente, vide as camadas superpostas de som quando Negro Léo começa a vocalizar notas musicais em homenagens a grandes nomes do jazz estadunidense. Em seus primeiros depoimentos, incomodei-me com o sobejo de digressões, mas logo isso configurou-se numa demonstração tangencial de genialidade, que atinge píncaros fascinantes quando ele passa a abordar a situação política do Brasil atual e defende enfaticamente as cotas raciais. O modo como ele posiciona-se quanto à religião é incrivelmente subversivo, sublime e muito inteligente. Nalguns aspectos, o filme tem algo que remete ao clássico RETRATO DE JASON, mas Paula Gaitán demonstra-se intimamente autoral. Filme que deixou-me eufórico ao longo de toda a sua projeção: já quero ver novamente. Apesar de ser bastante confinado (a maior parte de sua duração é composta por uma entrevista, de tom familiar), não é nem um pouco chato. É frenético e fascinante: uma aula! (WPC>)