O filme começa em uma pequena cidade no norte da Itália. No campo, junto com algumas amigas, uma mãe amamenta seu filho, mas, por um breve instante, o pânico invade seus pensamentos. Em casa, o pai do menino teme que ele assuma seu lugar na vida e no coração da mãe. À noite, depois de uma festa, os pais dormem em um quatro. O menino repousa em outro. O pai acorda, vai ao quarto ao lado e tenta enforcá-lo. A cena se transfere para a Grécia Antiga, onde se passa originalmente a tragédia de Sófocles. Ali, o oráculo de Delfi prevê: se Laio, rei de Tebas, gerar um filho, esse o matará.
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Pasolini pega a história clássica do Sófoles e conta do jeito dele colocando muitos silêncios, imagens fortes e um clima que me hipnotizou. Para mim serviu mais como uma experiência, pois me fez perceber em coisas bem freudianas: destino, culpa, desejo... dá pra sentir que os personagens são guiados por algo maior, quase inconsciente. Pasolini não facilita, pesa em muitos pontos, masé exatamente por isso que ele permanece.
Uma vez um professor disse, com razão, que ler diferentes traduções e adaptações de uma mesma obra é uma boa maneira de assimilar diferentes perspectivas. Desde então sempre procurei fazê-lo. Nem sempre o resultado é satisfatório.
O grande mérito da tragédia de Sófocles é que embora a estória contenha passagens brutais (bebês com pés perfurados pendidos em árvores à espera da morte, patricídio, incesto, suicídio e o escambau), edulcoram a trama o esmero com a forma, a beleza atemporal do texto e a investigação cuidadosa sobre a inevitabilidade do destino e a necessidade de perscrutar o espírito, em oposição à húbris e à falta de autognose.
Já nessa livre-adaptação semiautobiográfica do Pasolini, todas as escolhas do diretor exacerbam a barbárie, que se estende, intencionalmente, do aspecto temático ao formal: a esterilidade dos cenários marroquinos, a precariedade dos figurinos, o histrionismo desumano dos atores, a onipotência lancinante da trilha sonora, o chacoalhar da câmara que insiste em lembrar-nos de que estamos vendo um filme, a ênfase no aspecto freudiano da relação incestuosa com a mãe. Há, pontualmente, algo de belo e bastante original aqui, mas escamoteado pela mão pesada do italiano.
Tivesse assistido a “Edipo re” desavisado, poderia ter me agradado mais, pois ao fim e ao cabo parece um clipe de 1h44 bem artsy-fartsy do Dead Can Dance, mas tal qual o infausto destino do Édipo, que lapidou, ironicamente, a própria desdita, armei contra mim mesmo: depois de ter alçado Accattone ao panteão dos meus filmes favoritos e ser um entusiasta de mitologia grega, criei rios de expectativa e fiz toda uma pré-cerimônia, que envolveu ler a tragédia do Sófocles no dia anterior e saborear algumas pinturas, em especial a icônica "Oedipus and the Sphinx" do mestre Moreau, que possui uma profusão imagética de detalhes e símbolos.
Aqui, porém, todo o poder do texto do Sófocles se dissipa na busca do Pasolini por uma visão autêntica (pessoal e política) do mito, reduzindo-o a imagens insólitas, rearranjos anistóricos e exageros formais, com algumas escolhas que beiram ao sacrilégio de tão hediondas, como a caracterização precária da Esfinge e o encontro fatídico com Laio na estrada, onde o diretor perverte o mito de forma inexplicável (pobre Citti, tão talentoso, reduzido a um corpo gritante e histérico).
Espero rever no futuro, sem expectativas, e não se desapontar tanto, ou aceitar algo aparentemente extraordinário: o Pasolini é gente, é falível e pode ter errado a mão.
Achei sofrível. Só não dei nota pior pq a história em si se sustenta. A versão literária é incrível, assim como Antígona - filha da relação incestuosa de Édipo e Jocasta. As atuações são estranhas (sei que busca ser teatral, mas não é uma adaptação convincente) e a direção é sôfrega.
Uma abordagem psicanalítica e teatral da tragédia de Sófocles. A fotografia em Marrocos é belíssima, assim como os figurinos idiossincráticos e, provavelmente, anacrônicos. A justaposição de épocas, indo do século XX até a Grécia antiga, revela um tom freudiano - o próprio Pasolini admitiu que as cenas modernas são autobiográficas - e não pude deixar de indagar o quanto esse filme pode ter influenciado Wim Wenders no desenvolvimento de Paris, Texas; haja vista, o perfil do viajante em terras inóspitas, fugindo e, ao mesmo tempo, buscando a si mesmo.
Li recentemente a peça do Édipo Rei e para sacramentar vim conferir sua adaptação cinematográfica por ninguém menos do que Pasolini. Acompanhar o dilema de Édipo no filme é pura angústia, pois cada consulta aos oráculos e adivinhos aponta um destino cada vez mais terrível, e cada revelação traz consigo um teor tenebroso.
Num primeiro momento tive dificuldade de me conectar com os personagens, mas lá no ápice do filme, os personagens entregam tudo junto com uma excelente atuação que definitivamente me convenceu.
A conclusão do filme é sensacional. Pasolini acertou em cheio ao fazer um desfecho que remete ao início de toda aquela história, trazendo toda uma gama de emoções que o filme percorre. "A vida termina onde começa".
Uma adaptação dessas traz toda uma grandiosidade, já que Édipo Rei é um marco na literatura que até hoje é fonte de estudos para ilustrar diferentes ideias e teorias. Essa história influenciou autores renomados como Freud e Nietzsche. Freud utilizou essa história para elaborar o que seria sua teoria do complexo de édipo no qual ele afirma que os indivíduos no fundo do inconsciente tem o interesse de se relacionar com a mãe ou pai e eliminar o rival. Já Nietzsche fez alusão da história para ilustrar sua crítica à moral cristã e ao conceito de culpa. Além de outras teorias, como a teoria da identidade que faz analogia da história de Édipo com o processo pelo qual o indivíduo constrói sua própria identidade e se relaciona com a sociedade.