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Data de lançamento
26 Nov. 2010Duração
A história real de Marcos Rodríguez Pantoja, um menino que tinha sete anos quando foi entregue por seu pai a um pastor de cabras para cuidar do rebanho em um vale isolado de Sierra Morena. Em pouco tempo o pastor morreu e Marcos ficou sozinho e completamente isolado. Nos doze anos que permaneceu no monte, de 1954 a 1965, não teve contato com humanos, e viveu todos estes anos junto a uma matilha de lobos.
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Crônica da Selva: Marcos Rodríguez Pantoja
O garoto espanhol criado por uma alcateia que enfrentou a parte mais difícil da jornada ao voltar para o mundo dos homens.
Marcos nasceu em 7 de junho de 1946, em Añora, na Espanha. A mãe morreu no parto do irmão mais novo. O pai se casou novamente e a infância passou a ser marcada por violência e rejeição. A casa perdeu o sentido de abrigo. O medo ocupou os espaços.
Aos sete anos, o pai o entregou a um cabreiro que vivia isolado na Serra Morena. A justificativa falava em trabalho e aprendizado. O resultado foi afastamento definitivo. Marcos saiu do mundo organizado por regras humanas e entrou na geografia áspera da montanha.
Aprendeu a cuidar de cabras, acender fogo, reconhecer sons à distância. O cabreiro morreu pouco tempo depois. A serra ficou imensa. Marcos permaneceu.
A aproximação com os lobos aconteceu aos poucos. Primeiro a observação. Depois a convivência. Até o dia em que uma loba alfa deixou carne diante dele. O gesto marcou um pacto silencioso. Marcos passou a caminhar com a alcateia, a caçar coelhos, a pescar com as mãos, a encontrar raízes comestíveis, a dormir junto aos animais para conservar calor. A linguagem humana se dissolveu. Outra linguagem ocupou seu lugar. Sons, gestos, instinto e ritmo.
Durante cerca de doze anos, a natureza organizou sua vida. O nascer do sol indicava movimento. A fome determinava prioridade. A montanha oferecia abrigo, alimento e pertencimento. Marcos construiu vínculos com lobos, raposas, cabras selvagens e aprendeu a respeitar as cobras como parte da mesma engrenagem.
Em 1965, aos dezenove anos, guardas civis encontraram um jovem de pele curtida pelo sol, postura encurvada e comunicação gutural. Ele reagiu com o corpo acostumado à fuga. Foi levado de volta ao convívio social.
A reintegração exigiu reaprendizado completo. Pratos, talheres, cama, dinheiro, roupas, horários. Cada objeto carregava uma regra. Cada regra exigia adaptação. Marcos voltou a falar, a andar ereto, a se vestir. O corpo respondeu ao treino. A alma atravessou um processo doloroso.
Ele sofreu.
Na montanha, o pertencimento surgia do instinto e da presença. A matilha funcionava por sinais claros. Fome indicava caça. Perigo convocava alerta coletivo. Hierarquia organizava funções. O grupo protegia porque dependia da força conjunta para sobreviver. A troca era direta. Vida por vida. Vigilância por vigilância. Calor por calor.
Entre humanos, Marcos encontrou códigos invisíveis. Encontrou ironias, promessas, interesses e expectativas. Percebeu que palavras carregam camadas. Descobriu que confiança pode ser usada como instrumento de vantagem. A sociedade exige leitura constante de gestos, subtextos e conveniências.
Vieram os trabalhos simples, o serviço militar, as mudanças de cidade. Ele cumpria tarefas com dedicação. Recebia salário, obedecia horários, vestia uniformes. Ainda assim, carregava uma sensação de deslocamento. Sofreu golpes, perdeu dinheiro, foi enganado com facilidade. A honestidade que na montanha garantia sobrevivência, nas cidades exigia vigilância permanente.
A matilha oferecia um senso de comunidade orgânico. Cada lobo conhecia seu papel e o exercia com clareza funcional. Entre humanos, Marcos percebeu uma dependência mais complexa. Dependemos do outro para reconhecimento, status, validação, segurança econômica e pertencimento simbólico. Criamos redes que sustentam e ao mesmo tempo pressionam. A vida social multiplica possibilidades e também multiplica tensões.
A montanha apresentava riscos concretos. A cidade apresentou riscos emocionais.
Anos depois, estabeleceu-se na Galícia e encontrou em Manuel uma amizade estável. A comunidade passou a reconhecê-lo como parte do lugar.
O antropólogo Gabriel Janer Manila estudou seu caso nos anos 1970 e publicou um livro sobre sua trajetória. Em 2010, a história chegou ao cinema com o filme Entrelobos, no qual Marcos aparece brevemente no final.
Hoje, ele vive de forma simples, participa de encontros, fala sobre respeito à natureza e repete uma frase que resume sua experiência. Na montanha, ninguém mente.
Eu termino essa história sentado à minha mesa, pesquisador, leitor e escritor, cercado por telas, prazos e notificações. Meus cachorros acordam todos os dias para a mesma rotina, a mesma ração, o mesmo quintal. Eles celebram cada manhã como se fosse inédita. Eles vivem com intensidade aquilo que já conhecem. A alegria deles nasce do simples fato de estar ali, presente.
Nós acordamos cercados de possibilidades e cultivamos inquietações. Criamos metas, comparações, expectativas, projeções. Transformamos abundância em ansiedade. Organizamos o mundo para torná-lo mais confortável e aprendemos a torná-lo mais complexo. A civilização amplia horizontes e também amplia vazios.
Marcos conviveu com lobos e depois conviveu conosco. Ele sobreviveu aos dois ambientes.
Todos os filmes deste diretor são excelentes. Um diretor espanhol que consegue captar como ninguém a relação de amor do homem com a natureza, mostrando momentos de extrema intimidade do mundo animal. Existe outro diretor cadastrado como Gerardo Olivares com outras obras maravilhosas aqui no Filmow, que acredito ser o mesmo cineasta espanhol.
É um filme impecável ,A história é bonita e por demais cativante,a fotografia é linda,á amizade de Marcos Rodriguez Pantoja é sublime,não é um filme da disney é pra mim um dos melhores filmes espanhóis dos últimos tempos.