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Uma jovem chamada Florentina, que sofre com a perda de memória, reúne todas suas forças para contar a história de sua vida a ouvintes. Apesar de sofrer nas mãos de seu pai abusivo, ela encontra consolo lembrando-se da época em que passava tempo com seu avô e irmã, explorando a cidade sozinha pela noite e brincando com gigantes que a visitaram durante um Natal. Sua história se desenrola ao lado da de dois jovens que vieram até sua região, cavando em busca de um tesouro perdido. Os personagens todos vivem na sombra de um vulcão que recentemente entrou em erupção e pode logo entrar novamente; ele os ameaça enquanto reforça a frágil preciosidade da vida. O filme conta a história de Florentina largamente através do rosto sincero da atriz Hazel Orencio. Enquanto outros personagens observam Florentina, perguntam coisas que sempre rondavam pelos filmes de Diaz: porque a maldade existe no mundo? Por que as pessoas boas sofrem?
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Lav Diaz é notoriamente conhecido por seu cinema contestador em terras filipinas. Crítico em todas as formas das desigualdades sociais de seu país e um consquente flagelo assolado por um esquecimento e descaso das comunidades internacionais atrelado a um regime ditarorial que colocou seu povo em um estado constante de penúria.
Esta obra parece trazer algo diferente, mas se olhado a fundo, nem tanto.
A saga aborda sua personagem central, Florentina, uma jovem que constantemente sobre os abusos de seu pai, um bêbado que demonstra uma personalidade da maior perversidade possível. O desenrolar agrega Hector, um camponês que recebe parentes afastados já há algum tempo.
Como todas as longas tramas do diretor, não se faz possível traçar com precisão quem é quem e o porquê de suas histórias estarem sendo cruzadas (Evolução de uma Família Filipina é um dos maiores exemplos desse tipo de construção), contudo, é de uma satisfação impressionante quando com muita primazia o corpo da trama ganha forma e começamos a entender seus desfechos que usualmente se fazem em uma espécie de vortex, onde o espectador vai sendo envolvido e, sem perceber, se encontra em um funil.
As simbologias são poucas, mas são importantíssimas. As entediantes cenas dos familiares cavando um buraco dia e noite representam a inocente esperança de sair de uma realidade implacável e cruel, mesmo que isso custe passar fome, se enfiar na lama até enlouquecer.
Hector é um personagem que serve também como narrador (antes mesmo dele ser apresentado) e até 4 horas de filme parece insignificante, no entanto, é um pilar da narrativa. Ele representaria a segurança, um sujeito que une a comunidade e se dispõe a transpor as adversidades, ainda que ele também se encontre em uma realidade extremamente desesperançosa e depressiva.
Os bonecos gigantes apareceram somente à Florentina, e em uma cena em específico as realidades dela criança e adulta se misturem. Creio que aí fique a dica de que se trata de algo que ela presenciou ainda em sua infância na cidade grande (ao que vi, Antipolo se trata de uma cidade com quase 1 milhão de habitantes). Possivelmente, foi algo que a marcou muito e essa imagem lhe traz segurança e conforto. Dessa maneira, a partir do momento que se iniciaram os traumas com seu pai, ela buscava essas imagens na esperança de ser confortada e até mesmo socorrida por eles. Não obstante, é tecnicamente brilhante a atuação de Hazel Orencio nestes momentos. A quebra parcial da quarta-parede traz consigo um apelo ativo da busca de ajuda não só aos bonecos, que na realidade são inexistentes, e se estende ao próprio espectador!
De um modo geral eu achei um filme fácil de se assistir do diretor, talvez dos mais acessíveis, mas vejo que a sua profundidade não para apenas por aí.
Apesar de eu considerar Lav Diaz um especialista em retratar o sofrimento individual de um sujeito, ele igualmente o é, como dito anterirlmente, também um ferrenho militante dos direitos humanos de seu povo. Florentina Hubaldo é um filme que retrata o sofrimento de uma mulher em uma sociedade bruta e desigual. Uma sociedade sem direitos e sem resguardo. Em minha opinião, Lav Diaz amplifica essa análise em um âmbito social completo, onde o povo filipino, tal como a personagem central, prossegue à míngua e busca desesperadamente por sua liberdade, mas não sem que sofra todas as sequelas de seus traumas passados.
Ai, como algumas mulheres sofrem MUITO nas mãos de determinados homens... Há pais e maridos medonhos! Filme M-A-R-A-V-I-L-H-O-SO!!! Super recomendo!! O Lav Diaz é meu "ídalo"!!!
"Florentina conta a história de uma jovem de mesmo nome que passa por horríveis atrocidades cometidas por seu pai e pelos homens para os quais ele a vende. Ela é repetidamente estuprada e espancada. Ela desenvolveu CTE (encefalopatia traumática crônica), uma condição degenerativa do cérebro, que - como podemos ver no filme - provoca perda de memória e dores de cabeça graves, e leva a uma morte muito lenta".
Recomendo, ainda, este ótimo artigo.
( https: //theartsofslowcinema.com/2013/12/05/day-5-florentina-hubaldo-cte-diaz/)