Durante o confinamento causado pela COVID-19 em 2020, dois casais ficaram em quarentena em uma casa de campo, o que levou a tensões crescentes e revelações sobre seus relacionamentos.
Exibido no Festival de Berlim de 2024, o último trabalho do diretor e roteirista francês Olivier Assayas é mais um exercício do cineasta para tratar de um tema caro em sua obra: as complexidades amorosas. É uma comédia dramática cujo contexto é a pandemia da Covid- 19. Em abril de 2020, no lockdown na França, dois irmãos se isolam na casa de campo da família, um lugar afastado de qualquer traço social. No meio de bosques e riachos, Etienne (Micha Lescot), diretor de cinema, e Paul (Vincent Macaigne), um jornalista musical, curtem o momento ao lado de suas namoradas. Os dois pensam diferente, têm comportamentos opostos e trancafiados na mesma casa, estranham-se. Os conflitos surgem entre eles e respingam nas namoradas, enquanto o mundo está paralisado na quarentena por causa do terrível vírus. É um filme autoral e com traços autobiográficos, do isolamento do diretor durante a pandemia. Ao assistir ao filme no Festival do Rio de 2024, lembrei-me de dois longas anteriores de Assayas, ‘Horas de verão’ (2008) e ‘Vidas duplas’ (2018), e eles parecem formar uma interessante trilogia, pelas histórias entrelaçadas de um grupo de personagens distintos e aspectos experimentais. Assayas é um diretor de altos e baixos, carrega na filmografia fitas boas e alguns desastres, no entanto ‘Tempo suspenso’ é um de seus melhores trabalhos. Um filme de puro diálogo, com momentos ternos e outros engraçados, voltado para um público cinéfilo que segue fitas cult. Está em exibição nos cinemas das principais capitais brasileiras pela Zeta Filmes. POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB
Em termos conjunturais, há muito de HORAS DE VERÃO aqui, só que em chave invertida, como se, ao final - o que, de fato, acontece - a grande preocupação do roteiro fosse a justificação das heranças familiares. Achei muito corajosa a exposição do diretor, através de um alter-ego tão inicialmente antipático, mas isso não é suficiente para validar todos os seus intentos: às vezes, o ímpeto confessional e as boas idéias descritivas não são suficientes para engendrar um bom filme. Enquanto autocrítica, admito que a trama possui momentos interessantíssimos, mas tudo resvala para a autocondescendência - anticlimática, para piorar os tratamentos concedidos a Paul e Etienne não são equânimes. Quando levamos em consideração os registros de suas respectivas namoradas, então... Há algo de ostensivamente presunçoso na composição dos personagens, que contamina o filme, já que ele é narrado em primeira pessoa e com forte acento autobiográfico. Até curti, mas extenua. Sobretudo, em âmbito ideológico: começa como reflexão pandêmica, mas termina como ode ao classismo, em molde francês, urgh! (WPC>)
Exibido no Festival de Berlim de 2024, o último trabalho do diretor e roteirista francês Olivier Assayas é mais um exercício do cineasta para tratar de um tema caro em sua obra: as complexidades amorosas. É uma comédia dramática cujo contexto é a pandemia da Covid- 19. Em abril de 2020, no lockdown na França, dois irmãos se isolam na casa de campo da família, um lugar afastado de qualquer traço social. No meio de bosques e riachos, Etienne (Micha Lescot), diretor de cinema, e Paul (Vincent Macaigne), um jornalista musical, curtem o momento ao lado de suas namoradas. Os dois pensam diferente, têm comportamentos opostos e trancafiados na mesma casa, estranham-se. Os conflitos surgem entre eles e respingam nas namoradas, enquanto o mundo está paralisado na quarentena por causa do terrível vírus. É um filme autoral e com traços autobiográficos, do isolamento do diretor durante a pandemia. Ao assistir ao filme no Festival do Rio de 2024, lembrei-me de dois longas anteriores de Assayas, ‘Horas de verão’ (2008) e ‘Vidas duplas’ (2018), e eles parecem formar uma interessante trilogia, pelas histórias entrelaçadas de um grupo de personagens distintos e aspectos experimentais. Assayas é um diretor de altos e baixos, carrega na filmografia fitas boas e alguns desastres, no entanto ‘Tempo suspenso’ é um de seus melhores trabalhos. Um filme de puro diálogo, com momentos ternos e outros engraçados, voltado para um público cinéfilo que segue fitas cult. Está em exibição nos cinemas das principais capitais brasileiras pela Zeta Filmes.
POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA-NAWEB
Em termos conjunturais, há muito de HORAS DE VERÃO aqui, só que em chave invertida, como se, ao final - o que, de fato, acontece - a grande preocupação do roteiro fosse a justificação das heranças familiares. Achei muito corajosa a exposição do diretor, através de um alter-ego tão inicialmente antipático, mas isso não é suficiente para validar todos os seus intentos: às vezes, o ímpeto confessional e as boas idéias descritivas não são suficientes para engendrar um bom filme. Enquanto autocrítica, admito que a trama possui momentos interessantíssimos, mas tudo resvala para a autocondescendência - anticlimática, para piorar os tratamentos concedidos a Paul e Etienne não são equânimes. Quando levamos em consideração os registros de suas respectivas namoradas, então... Há algo de ostensivamente presunçoso na composição dos personagens, que contamina o filme, já que ele é narrado em primeira pessoa e com forte acento autobiográfico. Até curti, mas extenua. Sobretudo, em âmbito ideológico: começa como reflexão pandêmica, mas termina como ode ao classismo, em molde francês, urgh! (WPC>)