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Data de lançamento
25 Maio 2017Duração
Depois de um incidente banal em sua aldeia, Shula (Maggie Mulubwa), de 8 anos, é acusada de feitiçaria. Um breve julgamento a considera culpada e ela é levada à guarda do estado e exilada para um campo de bruxas no meio de um deserto. Lá, ela participa de uma cerimônia de iniciação onde aprende as regras em torno de sua nova vida como bruxa. Como os outros residentes, Shula é amarrada a um carretel com uma fita. Dizem-lhe que se cortar a fita, será amaldiçoada e transformada em uma cabra.
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- triste pra carai, tadinha da shula, só queria ser uma criança normal
- não sei se isso é da cultura de lá ou fictício, mas é interessante de ver a história contada por outros povos
- ódio daquele cara arrombado que só queria lucrar com ela
- não esperava um final tão pesado, mas pelo menos proporciona aquela cena linda do caminhão vazio com as fitas e mostra que o que aconteceu com ela mudou as coisas
Deixou-me sem palavras.
Esse filme é uma experiência e tinha que ser contado sob o comando e ótica de uma mulher. Sua indignação e fúria estão expressos nessa produção aparentemente simples mas que carrega consigo um simbolismo muito pesado de passado que não soube acompanhar o futuro, portanto, o presente.
Pensar que, ainda em tempos recentes há um exílio de mulheres consideradas bruxas (percebam que o homem considerado bruxo tem livre caminho e é considerado uma liderança), reprimindo seus direitos básicos de existência enquanto mulheres e cidadãs é devastador. As rédeas que simbolizam as correntes da escravidão que prendem e executam a ordem do biopoder são símbolos de toda uma "cultura" que representa o poder do patriarcado, da opressão e exploração. Acompanhar a história de Shula, tão pequena, porém tão grandiosa e corajosa, é acompanhar as diversas iguais a ela, crianças, jovens, adultas, idosas. Mulheres sem nomes, sem direitos, sem vida. O testemunho de um horror.
São excelentes as metáforas utilizadas para fazer críticas a um sistema medieval que, surpreendentemente, ainda ocorre hoje em dia. Fiquei muito surpreso ao pesquisar e perceber que existem, de fato, pessoas acusadas de bruxaria e que existem inclusive campos de exílio de mulheres acusadas de bruxaria.
O filme é denúncia poética e criativa de uma crença arcaica que carrega diversas violências.
Eu estou abismado com a mão firme e a visão clara de Rungano Nyoni.
Este não é um filme que te conta o que está acontecendo com diálogos. A gente precisa de todo o nosso poder de interpretação semiótica para pegar o que Rungano está dizendo com suas imagens. Claro, há camadas óbvias da denúncia feita aqui, mas há muito no não dito, há muito de ambiguidade, há muito que é deixado para o público interpretar.
Quem é essa garota acusada de bruxaria? De onde ela veio e pra onde ela vai? O quanto desse filme é sobrenatural de fato? Essas perguntas são respondidas em longos silêncios, expressões (que atuação incrível da Maggie Mulubwa!), enquadramentos e cores.
A diretora usa de absurdismos e uma atmosfera meio surrealista pra fazer a denúncia sobre a realidade de mulheres que são acusadas de bruxaria nas zonas rurais da África subsaariana e que acabam vivendo praticamente como escravizadas, sem direitos de cidadania em campos de concentração e marcadas com sinais que as marcam socialmente como bruxas. É muito interessante como ela coloca a gente na perspectiva da garota, que é uma protagonista esperta que consegue ler bem as situações, mas ao mesmo tempo é impotente diante da violência que ela sofre. Em outros momentos, o filme engrandece Shula, e a torna de fato, um ente praticamente sobrenatural.
"Eu não sou uma bruxa" é um exemplar brutal (e ao mesmo tempo engraçado, pois trabalha o humor de forma implacável no meio de uma tragédia) do afrossurrealismo.
Nada pode ser mais absurdo do que a realidade.
Eu nem consegui chorar de tão chocado que eu fiquei com a realidade representada nesse filme, ao mesmo tempo em que permaneci o tempo inteiro encantado com a mágica cinematográfica que foi criada aqui.
Imagino que não seja um filme pra todo mundo, especialmente quem está mais acostumado com o cinema mainstream que propõe entretenimento fácil mesmo quando conta uma história de denúncia.
Não... aqui a mágica do cinema pode ser que passe despercebida nos olhos de muitos. Mas é, de fato, mágica.