A história de Mugur Calinescu, um adolescente romeno, que foi preso pela polícia secreta por pichações de protesto político e cuja morte prematura está envolta em mistério.
Filme que estreou no Festival de Berlim fora de competições. Adorei a montagem do filme, as cenas documentais de uma Romênia marcada historicamente ao mesmo tempo em que se passa a narrativa que está sendo contada deu um tom vibrante ao filme. Talvez funcionasse melhor para algumas pessoas se as interpretações não fossem tão robóticas por conta da escolha artística deles lerem um texto que é totalmente documental, mas para mim a ideia funcionou muito bem. Acho que o filme peca só em contextualizar algumas coisas, como por exemplo a Rádio Free Europe que existe até hoje, completamente financiada pelo governo dos Estados Unidos para países que consideram que não há liberdade de informação, que vai desde países europeus, Ásia e até o Oriente Médio, e que não passa de propaganda imperialista capitalista. Não defendendo a forma de "socialismo" que veio na ramificação do stalinismo em que vivia a Romênia na época. Um filme que me surpreendeu de um diretor que vem me conquistando a cada filme.
Gosto dessa mistura com o teatro. As propagandas reais da época, ao longo da história, mostram a construção de um governo autoritário e todos os recursos que usava ao seu favor. Foram duas horas instigantes de filme.
Interessante como trabalha bem a mistura entre aspectos teatrais, que reconstitui ficcionalmente o caso real do adolescente preso por clamar por liberdade na Romênia de Ceaușescu, e o aspecto documental, onde imagens de arquivo se contrapõem à arbitrariedade cometida pelo governo naquela ocasião. Enquanto somos familiarizados com o triste caso do adolescente e a perseguição política envolta nessa situação, músicas nacionalistas, propagandas espalhafatosas e desfiles patrióticos dão a impressão de grandeza e fidelidade ao regime enquanto o país rui perante a crise econômica e social.
É por vezes um tanto chato e tedioso, mas acima de tudo, “Letra Maiúscula” se mostra um exercício intrigante sobre realidades distintas em um país com pouca liberdade ou direitos civis. Enquanto para uns tudo parece normal, para outros a vida inexiste.
Tive acesso a este magnífico filme nos minutos derradeiros da (pós)disponibilização num festival - e como valeu a pena: amei e fiquei particularmente emocionado e afetado pelo que vi. Em meu primeiro contato com este diretor romeno, tornei-me fã: talento exacerbado. Partindo de uma peça teatral que reconstitui dramaturgicamente uma situação real absurda, a partir dos laudos de vigilância estatal, no qual um adolescente é aprisionado e vigiado por ter realizado uma pichação a giz defendendo o direito à liberdade. Expondo as agruras do comunismo enquanto ditadura, este filme brilhantemente reveza as cenas encenadas - de cariz assumidamente teatral - a imagens televisivas da época, que denunciam subrepticialmente tanto a censura quanto o cerceamento de temas culturais e documentais. Receitas de bolo, números de danças exageradamente 'kitsch', versões socialistas dos rituais natalinos ocidentais, reportagens explícitas sobre membros decepados no trabalho e reuniões de cúpula política são alguns dos excertos televisivos oitentistas (em preto e branco) que entremeiam a trama envolvendo a rebelião inocente do jovem Mugur. Apesar de longo, é sempre interessante e provido de fascínio. Chega a ser engraçado, por distanciamento trágico, nalguns momentos: é inacreditável que aquele tipo de programa tivesse audiência! O trabalho de pesquisa é sublime, os diálogos (ou melhor, monólogos e laudos periciais) recitados para a câmera são magstrais e o elenco foi muito bem escolhido. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida! (WPC>)
Filme que estreou no Festival de Berlim fora de competições. Adorei a montagem do filme, as cenas documentais de uma Romênia marcada historicamente ao mesmo tempo em que se passa a narrativa que está sendo contada deu um tom vibrante ao filme. Talvez funcionasse melhor para algumas pessoas se as interpretações não fossem tão robóticas por conta da escolha artística deles lerem um texto que é totalmente documental, mas para mim a ideia funcionou muito bem. Acho que o filme peca só em contextualizar algumas coisas, como por exemplo a Rádio Free Europe que existe até hoje, completamente financiada pelo governo dos Estados Unidos para países que consideram que não há liberdade de informação, que vai desde países europeus, Ásia e até o Oriente Médio, e que não passa de propaganda imperialista capitalista. Não defendendo a forma de "socialismo" que veio na ramificação do stalinismo em que vivia a Romênia na época. Um filme que me surpreendeu de um diretor que vem me conquistando a cada filme.
BLOG: FILMESTRANGEIROS
INSTAGRAM: @filmestrangeiros
Gosto dessa mistura com o teatro.
As propagandas reais da época, ao longo da história, mostram a construção de um governo autoritário e todos os recursos que usava ao seu favor.
Foram duas horas instigantes de filme.
Interessante como trabalha bem a mistura entre aspectos teatrais, que reconstitui ficcionalmente o caso real do adolescente preso por clamar por liberdade na Romênia de Ceaușescu, e o aspecto documental, onde imagens de arquivo se contrapõem à arbitrariedade cometida pelo governo naquela ocasião. Enquanto somos familiarizados com o triste caso do adolescente e a perseguição política envolta nessa situação, músicas nacionalistas, propagandas espalhafatosas e desfiles patrióticos dão a impressão de grandeza e fidelidade ao regime enquanto o país rui perante a crise econômica e social.
É por vezes um tanto chato e tedioso, mas acima de tudo, “Letra Maiúscula” se mostra um exercício intrigante sobre realidades distintas em um país com pouca liberdade ou direitos civis. Enquanto para uns tudo parece normal, para outros a vida inexiste.
Dia 17/02/2021 irá estrear no Mubi! \o/
Tive acesso a este magnífico filme nos minutos derradeiros da (pós)disponibilização num festival - e como valeu a pena: amei e fiquei particularmente emocionado e afetado pelo que vi. Em meu primeiro contato com este diretor romeno, tornei-me fã: talento exacerbado. Partindo de uma peça teatral que reconstitui dramaturgicamente uma situação real absurda, a partir dos laudos de vigilância estatal, no qual um adolescente é aprisionado e vigiado por ter realizado uma pichação a giz defendendo o direito à liberdade. Expondo as agruras do comunismo enquanto ditadura, este filme brilhantemente reveza as cenas encenadas - de cariz assumidamente teatral - a imagens televisivas da época, que denunciam subrepticialmente tanto a censura quanto o cerceamento de temas culturais e documentais. Receitas de bolo, números de danças exageradamente 'kitsch', versões socialistas dos rituais natalinos ocidentais, reportagens explícitas sobre membros decepados no trabalho e reuniões de cúpula política são alguns dos excertos televisivos oitentistas (em preto e branco) que entremeiam a trama envolvendo a rebelião inocente do jovem Mugur. Apesar de longo, é sempre interessante e provido de fascínio. Chega a ser engraçado, por distanciamento trágico, nalguns momentos: é inacreditável que aquele tipo de programa tivesse audiência! O trabalho de pesquisa é sublime, os diálogos (ou melhor, monólogos e laudos periciais) recitados para a câmera são magstrais e o elenco foi muito bem escolhido. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida! (WPC>)