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O documentário resgata a trajetória da tendência estudantil Liberdade e Luta (Libelu), que militou contra a ditadura militar brasileira a partir de 1974. Trotskistas, simpáticos ao rock, às drogas e à liberdade sexual, os libelus representaram um choque de comportamento na esquerda tradicional. De suas fileiras saíram vozes de todo o espectro político, da esquerda à direita, inclusive figuras que comandariam o país. Quarenta anos depois, onde estão e o que pensam aqueles que viveram a clandestinidade por um ideal e chegaram a ser vistos por seus pares como a vanguarda do movimento estudantil na luta contra a repressão?
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Engraçado notar que o aspecto de derrota moral pra essa geração de militantes era "se vender" pro sistema, só que com uma imagem distorcida do que seria se vender (trabalhar pra uma Folha, Estadão ou Globo). Curioso porque na mesma época existiam bons jornalistas atuando em grupos de comunicação tradicionais e que separavam bem o que pensavam em termos de ideais e o lado profissional. O documentário soube focar nessa visão idealista de mundo dos trotskistas, mas poderia ter explorado um pouco também as raízes dos movimentos trotskistas no Brasil (POLOP e etc.) ou ter falado um pouco mais sobre a OSI. Ponto importante é que deixaram as pessoas contarem a história do movimento por elas próprias.
Se quiser entender por que os trotskistas são tão malquistos dentro da esquerda, assista a este documentário. Veja no que se tornaram os jovens descolados da “Liberdade e Luta”. Os que não se alinharam à ala mais pelega do PT (Brasil 247) abraçaram o neoliberalismo com força e passaram a escrever para a grande imprensa (Folha de S. Paulo, Estadão). Aqui, a dupla Palocci e Demétrio Magnoli merece uma menção honrosa, por aliar a mudança de posição a um cinismo canalha. Aliás, de forma um tanto míope e complacente, Cadão Volpato chega a falar sobre isso:
– Quando eu vejo esses caras bandeados para a direita, um pouco eles guardam aquela verve cínica, que era uma característica dos grandes oradores trotskistas. Então, por isso, eu acho que eles atraem grandes ódios também, né? Porque eles são muito inteligentes...
Produzido para o Canal Brasil, “Libelu: Abaixo a Ditadura” é bem pouco criativo, seguindo o velho lugar-comum de “entrevistas + imagens de arquivo”. Em casos assim, o documentário “vale o quanto pesa”, e a história da Libelu, a princípio, não deixa de ser um excelente tema a ser explorado. No entanto, o roteiro também compromete o conjunto justamente naquilo que ele tinha de mais interessante. Mesmo dentro de uma abordagem tão conservadora, o filme ganharia muito se tivesse algo a dizer sobre a Libelu. É impressionante como Diógenes Muniz desperdiça um excelente acervo de imagens, que, sozinho, deixa entrever o modo como a grande mídia se interessou e buscou cooptar aqueles jovens da “esquerda moderninha”. Não sei se faltou coragem ou formação intelectual para extrair do material tudo o que ele tinha a dizer.
A montagem, por sua vez, encontra alguns poucos momentos muito felizes, como nas duas falas entrecortadas logo após os créditos iniciais:
José Arbex Júnior: A Libelu foi, talvez, a coisa mais importante que aconteceu no Brasil no século XX entre a juventude. (...) Mesmo pegando a Semana da Arte Moderna de 22, eu não conheço nenhuma experiência que tenha produzido tanto impacto e tanta mudança na esfera espiritual da juventude quanto foi a Libelu, eu não conheço.
Ricardo Melo: É, o Arbex sempre foi um cara hiperbólico, né? Então a gente tem que dar um certo desconto...
Mas, quando o assunto é vergonha alheia, temos de dar um passo atrás e reverenciar, com todas as honras e glórias, Reinaldo Azevedo. Suas duas breves aparições causariam constrangimento ao Michael Scott. Primeiro, a brincadeira sobre nunca ter sido chamado para uma suruba nos tempos de faculdade, enquanto tudo nele (a roupa, a afetação ao fumar, o jeito desengonçado) já nos diz o porquê. Depois, mais ao final, quando tenta explicar a farsa biográfica de sua participação na Libelu. O sujeito deve ter participado de uma ou duas reuniões e construiu toda uma história sobre o seu “passado trotskista”. É muito patético!
Terminei o filme com um sentimento de débito em relação àquelas pessoas. Muitas coisas se destacaram, ao meu ver. A coragem dos estudantes, a mudança daqueles antigos militantes ao longo do tempo, o general que, apesar de ser patético, consegue ser muito mais sagaz do que os representantes militares de hj em dia e o depoimento do Palocci que achei ser de uma franqueza brutal. E também foi muito bacana reconhecer alguns rostos que fizeram parte de uma história que até então eu desconhecia.
Interessante principalmente por vermos como as pessoas mudam com o tempo e em muitos casos pra pior.
Hoje no Canal Brasil!!!!