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Data de lançamento
1 Ago. 1961Duração
O jovem Jack Barrett (Peter McEnery) é preso pela polícia sob a acusação de ter furtado uma quantia em dinheiro da firma para a qual trabalhava. Com ele, as autoridades encontram um álbum de recortes de jornal sobre o advogado Melville Farr (Dirk Bogarde), profissional respeitado no meio jurídico e que está prestes a obter uma indicação para integrar o Conselho da Rainha. A investigação fará que com que Farr se envolva numa rede de chantagistas contra homossexuais, prática considera criminosa pela lei inglesa.
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Victim (ou Meu Passado Me Condena, na infeliz tradução nacional) se consagra como uma obra-prima de coragem política embalada na tensão impecável do cinema noir. A direção ágil e sensível de Basil Dearden é cirúrgica: em vez de construir um melodrama professoral, ele utiliza a estrutura clássica de um suspense policial de chantagem para prender o público pelo mistério, enquanto joga luz sobre as engrenagens perversas de uma legislação homofóbica. Dearden transforma as ruas sombrias de Londres no cenário perfeito para uma caçada humana, onde o verdadeiro monstro não é apenas o chantagista, mas o próprio Estado britânico da época.
O peso dramático do longa é sustentado por um elenco extraordinário, liderado por uma atuação monumental de Dirk Bogarde. No auge de sua carreira como galã, Bogarde assumiu o papel de Melville Farr com uma bravura rara, entregando um retrato profundamente humano, contido e dilacerante de um homem confrontando seus próprios segredos em uma sociedade intolerante. A química tensa com o restante do elenco e a dignidade com que as minorias marginalizadas são retratadas fogem completamente dos estereótipos caricatos que dominavam o cinema dos anos 1960, conferindo ao filme uma dignidade atemporal.
Agora, sobre o título brasileiro: Meu Passado Me Condena é, sem rodeios, uma escolha editorial vergonhosa. O título original Victim é direto, político e preciso, aponta o dedo na direção certa, para a sociedade e a lei que vitimizava homossexuais. A tradução brasileira inverte completamente essa lógica: joga a culpa no próprio protagonista, como se a sua sexualidade fosse o problema, o peso, a condenação. É o tipo de escolha que revela muito sobre quem a fez e a época em que foi feita, mas que envelheceu péssiamente. Renomear Victim de Meu Passado Me Condena é como traduzir Selma como A Negra Que Causou Problema. O conteúdo do filme resiste e vence; o título, felizmente, ficou para trás.
Dirk Bogarde é um advogado famoso e bem casado que descobre que um rapaz, com o qual havia tido um flerte, se suicida em uma cela de prisão em virtude de estar sendo chantageado. Rodado nos anos 60, é um retrato angustiante da Inglaterra baixo a lei que criminalizava a homossexualidade. Polêmico em seu lançamento - e durante bastante tempo - é um filme que vale mais pelo tema que trata - e da forma como o faz - do que de seu roteiro, às vezes um pouco forçados, com diálogos e soluções que soam forçadas. Tecnicamente é bastante interessante, com uma linda fotografia em branco e preto e elenco bem afiado. É um convite, enfim, à reflexão, importante e pertinente nos dias de hoje.
Na época do lançamento, em 1961, esse filme independente britânico dividiu a opinião por tocar em um tema tabu, pois fala de uma rede (que realmente existiu) que perseguia gays nos anos de 1950 e 1960, cuja prática passou a ser considerada crime no país tempos depois. O filme veio no auge da Nouvelle Vague Britânica, conta com uma história complexa, cheia de detalhes e grandes atores em cena, com destaque para Dirk Bogarde, de “O criado” (1963) e “Morte em Veneza” (1971).
Desafiador, faz uma incisiva crítica social em tom de “filme de denúncia” – a tal rede de chantagistas enxergava os gays como delinquentes e criminosos, portanto poderiam puni-los com as próprias mãos (a “chantagem” aqui seriam ameaças, com grupos organizados que pichavam xingamentos e humilhações contra os homossexuais nas paredes das casas onde moravam, bem como em carros e enviando cartas secretas).
O filme rompeu barreiras, influenciando o comportamento e a mentalidade do público da época. Foi escrito por John McCormick, de “7 mulheres” (1965), e por uma roteirista visionária, que tocava em feridas abertas da sociedade, Janet Green, que antes fez um filme apontando o racismo, “Safira, a mulher sem alma” (1959).
Recebeu indicação ao Bafta de melhor ator (Dirk Bogarde) e roteiro, e ainda ao Leão de Ouro no Festival de Veneza.
O diretor, Basil Dearden, de “Na solidão da noite” (1945), drama de terror sobrenatural codirigido pelo brasileiro Alberto Cavalcanti, morreu prematuramente em 1971 aos 60 anos, vítima de acidente de carro em Londres. Ele é pai do diretor e roteirista James Dearden, de “Um beijo antes de morrer” (1991), e indicado ao Oscar de melhor roteiro por “Atração fatal” (1988).
O filme ganhou uma ótima versão em DVD pela Obras-primas do Cinema, com 1h30 de extras, que incluem entrevista com Dirk Bogarde e um documentário especial.
POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA NA WEB
Mais corajoso do que bom filme, no geral não gostei muito dos aspectos técnicos ou mesmo de todo o conjunto do elenco, a trama me pareceu um pouco fria demais, mas toca em um assunto delicado para a época com uma denúncia super autêntica.
Um filme marcante, corajoso e atualíssimo. Uma direção impecável, com fotografia de encher os olhos e atuações irretocáveis. Pouco lembrado, e um filme importantíssimo em sua temática e que merece ser revisto e divulgado.