Nick foge dos mafiosos, temendo por sua vida, refugiando-se em um hotel e sofrendo de úlcera. Ele pede ajuda a seu amigo Mikey, que o tenta ajudar a fugir da cidade.
Muito interessante ver Cassavetes, que é um dos melhores diretores de todos os tempos, atuando num filme de outro diretor ou diretora(que é o caso aqui). Não é algo raro, John possui trabalhos importantes nos quais ele só atua(como "O Bebê de Rosemary", por exemplo), porém ao vê-lo apenas exercendo esse papel lembramos como o mesmo era um competente ator. Essa dupla com o Peter Falk(ótimo aqui, nenhuma novidade) é sempre muito boa de ver em cena.
Um longa que é uma corrida contra o fim. Uma corrida que parece de certa forma perdida. Na mesma proporção, "Mikey & Nicky" é também sobre amizade, uma amizade dona de uma complexidade muito grande. Há tons de rivalidade, desconfiança e traição. Mas também existe uma ligação afetiva inegavelmente muito forte entre os protagonistas. Forte, rara e extremamente direta entre personagens que se conhecem bem demais - até mais do que deveriam.
Essa ligação potente acaba predominando em importância, pois nos envolve e fascina mais do que tudo que cerca os dois e a trama. E mais do que isso: a construção especial dessa relação tão particular enriquece muito e torna mais impactantes os caminhos que a obra percorre e suas respectivas consequências.
Tudo é mostrado através de uma condução muito boa de sua diretora. Há momentos com conversas muito íntimas, particulares, extremamente cotidianas, simples, até bobas. Bobas como aquelas que só temos quando temos muita intimidade com alguém. As mesmas acontecem com uma naturalidade absurda, fluindo assim graças a qualidade enorme do texto e da direção. É fascinante ver esses momentos de cuidado com o outro, de humor e de diálogos com lembranças do passado surgindo no meio de interações confusas/inusitadas e desentendimentos. A tensão, o nervosismo e as dúvidas nunca deixam de estar presentes. Da mesma forma, a sensação iminente de separação entre os dois está sempre no ar.
Muito boa direção de atores, um trabalho com um realismo e crueza trágica que explodem na tela(algo que é a cara dos anos 70, aliás). Esse realismo poderoso e a facilidade para captar com intensidade imensa essa humanidade frágil e profunda tão bem refletida nas telas, pela câmera, pelos olhares e expressões, se assemelham demais com o que vemos nos trabalhos dirigidos por John Cassavetes. Porém, sendo justo, preciso estar mais familiarizado com a filmografia de Elaine May para dizer se essas características/qualidades também não são igualmente a cara do cinema da cineasta.
Podemos fazer paralelos bons(eu fiz, pelo menos) com filmes maravilhosos como "Matar ou Morrer", "Depois de Horas" e "Pat Garrett & Billy the Kid". Em "Matar ou Morrer" é aguardado, minuto a minuto, a hora de um decisivo duelo de vida ou morte. "Depois de Horas" mostra uma madrugada de pesadelo que 'persegue' o personagem. E, por último, vemos em "Pat Garrett & Billy the Kid" um pistoleiro que deve matar seu amigo. "Mikey & Nicky" é um pouco de cada um, mas possui um toque especial que é só seu.
Num universo tão violento cada passo, falha, conduta e escolha são decisivas. Cada abrir e fechar de portas é carimbar um destino sem volta. Um filme muito particular sobre amizade que também é uma história de crime/gângsteres especial.
Já perdi o interesse bem no início e jamais me despertou em momento algum da projeção. Penso que Cassavetes entrega um personagem bastante digno em termos de atuação , ainda que se trate de um personagem bastante asqueroso, ainda mais visto nos quadrados anos 2020. Mas enfim, não me gerou empatia no todo, moroso que só.
O filme tem um clima bacana e boas atuações, mas pelos comentários fui esperando algo muito melhor. O personagem do John Cassavetes não tem como defender, é muito chato. O filme pode ter as suas qualidades, mas não gostei tanto o quanto achei que iria gostar.
"Que diferença faria? Estou morto, de qualquer jeito. Ninguém pode me machucar. Se todo mundo naquele lugar me batesse, não doeria tanto quanto morrer."
Elaine May extrai das certezas do universo policial um slice of life em que a noção de existência por si só já impõe a luta pela sobrevivência, mas os dois protagonistas não buscam superar nenhum vilão ou adversário, e sim eles mesmos, suas crenças e achismos de um passado que ainda não foi vencido. Em determinado momento, Nicky (John Cassavetes, em uma atuação em que é possível ver, nas suas expressões, os rostos de todos os atores que dirigiu) diz para Mikey que está tudo na cabeça deles, a infância de ambos foi uma construção, então ninguém mais a viu. Como as ações desses homens se passam à noite, a passagem do tempo é a única testemunha do que eles fizeram ou deixaram de fazer. Eles estão por eles mesmos, corpos solitários vagando por aí como fantasmas mal resolvidos com o lugar de onde vieram: com a barba por fazer, sem sobrenome, sem um passado definido, e sim um rascunho de várias lembranças. Acredito que esse seja um filme de assombração, acima de tudo.
Onde a amizade não tem vez.
Sobre salvar. Sobre deixar ir.
Muito interessante ver Cassavetes, que é um dos melhores diretores de todos os tempos, atuando num filme de outro diretor ou diretora(que é o caso aqui). Não é algo raro, John possui trabalhos importantes nos quais ele só atua(como "O Bebê de Rosemary", por exemplo), porém ao vê-lo apenas exercendo esse papel lembramos como o mesmo era um competente ator. Essa dupla com o Peter Falk(ótimo aqui, nenhuma novidade) é sempre muito boa de ver em cena.
Um longa que é uma corrida contra o fim. Uma corrida que parece de certa forma perdida.
Na mesma proporção, "Mikey & Nicky" é também sobre amizade, uma amizade dona de uma complexidade muito grande. Há tons de rivalidade, desconfiança e traição. Mas também existe uma ligação afetiva inegavelmente muito forte entre os protagonistas. Forte, rara e extremamente direta entre personagens que se conhecem bem demais - até mais do que deveriam.
Essa ligação potente acaba predominando em importância, pois nos envolve e fascina mais do que tudo que cerca os dois e a trama. E mais do que isso: a construção especial dessa relação tão particular enriquece muito e torna mais impactantes os caminhos que a obra percorre e suas respectivas consequências.
Tudo é mostrado através de uma condução muito boa de sua diretora. Há momentos com conversas muito íntimas, particulares, extremamente cotidianas, simples, até bobas.
Bobas como aquelas que só temos quando temos muita intimidade com alguém.
As mesmas acontecem com uma naturalidade absurda, fluindo assim graças a qualidade enorme do texto e da direção. É fascinante ver esses momentos de cuidado com o outro, de humor e de diálogos com lembranças do passado surgindo no meio de interações confusas/inusitadas e desentendimentos. A tensão, o nervosismo e as dúvidas nunca deixam de estar presentes. Da mesma forma, a sensação iminente de separação entre os dois está sempre no ar.
Muito boa direção de atores, um trabalho com um realismo e crueza trágica que explodem na tela(algo que é a cara dos anos 70, aliás). Esse realismo poderoso e a facilidade para captar com intensidade imensa essa humanidade frágil e profunda tão bem refletida nas telas, pela câmera, pelos olhares e expressões, se assemelham demais com o que vemos nos trabalhos dirigidos por John Cassavetes. Porém, sendo justo, preciso estar mais familiarizado com a filmografia de Elaine May para dizer se essas características/qualidades também não são igualmente a cara do cinema da cineasta.
Podemos fazer paralelos bons(eu fiz, pelo menos) com filmes maravilhosos como "Matar ou Morrer", "Depois de Horas" e "Pat Garrett & Billy the Kid". Em "Matar ou Morrer" é aguardado, minuto a minuto, a hora de um decisivo duelo de vida ou morte. "Depois de Horas" mostra uma madrugada de pesadelo que 'persegue' o personagem. E, por último, vemos em "Pat Garrett & Billy the Kid" um pistoleiro que deve matar seu amigo.
"Mikey & Nicky" é um pouco de cada um, mas possui um toque especial que é só seu.
Num universo tão violento cada passo, falha, conduta e escolha são decisivas. Cada abrir e fechar de portas é carimbar um destino sem volta.
Um filme muito particular sobre amizade que também é uma história de crime/gângsteres especial.
Final poderoso, inesquecível.
Pérola dos anos 70. Grande filme.
Já perdi o interesse bem no início e jamais me despertou em momento algum da projeção. Penso que Cassavetes entrega um personagem bastante digno em termos de atuação , ainda que se trate de um personagem bastante asqueroso, ainda mais visto nos quadrados anos 2020. Mas enfim, não me gerou empatia no todo, moroso que só.
O filme tem um clima bacana e boas atuações, mas pelos comentários fui esperando algo muito melhor. O personagem do John Cassavetes não tem como defender, é muito chato. O filme pode ter as suas qualidades, mas não gostei tanto o quanto achei que iria gostar.
"Que diferença faria? Estou morto, de qualquer jeito. Ninguém pode me machucar. Se todo mundo naquele lugar me batesse, não doeria tanto quanto morrer."
Elaine May extrai das certezas do universo policial um slice of life em que a noção de existência por si só já impõe a luta pela sobrevivência, mas os dois protagonistas não buscam superar nenhum vilão ou adversário, e sim eles mesmos, suas crenças e achismos de um passado que ainda não foi vencido. Em determinado momento, Nicky (John Cassavetes, em uma atuação em que é possível ver, nas suas expressões, os rostos de todos os atores que dirigiu) diz para Mikey que está tudo na cabeça deles, a infância de ambos foi uma construção, então ninguém mais a viu. Como as ações desses homens se passam à noite, a passagem do tempo é a única testemunha do que eles fizeram ou deixaram de fazer. Eles estão por eles mesmos, corpos solitários vagando por aí como fantasmas mal resolvidos com o lugar de onde vieram: com a barba por fazer, sem sobrenome, sem um passado definido, e sim um rascunho de várias lembranças. Acredito que esse seja um filme de assombração, acima de tudo.
então QUER DIZER que o homem bonito pode tudo