Nabat e seu marido Iskender, um ex-trabalhador florestal velho e doente, vivem longe da vila. A guerra está crescendo e o filho deles foi morto em batalha. A única fonte de sobrevivência vem do leite da única vaca que possuem. Enquanto as sombras da guerra cobrem a região, a vila vai sendo aos poucos abandonada pelos habitantes. Depois da morte de Iskender, Nabat tem que sobreviver em uma vila abandonada sendo vigiada por uma loba.
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Poeticamente doloroso.
Por falar em realismo, a produção do Azerbaijão Nabat (2014), que representará o país na corrida do Oscar 2015, mergulha-nos no cotidiano da personagem-título da mesma maneira que o romeno Cristian Mungiu faz em suas narrativas: Nabat percorre um caminho árduo para vender o leite ordenhado de sua vaca no vilarejo, realiza compras no mercado com os trocados que recebe, cuida do marido doente e vela o filho morto na guerra - provavelmente contra a Armênia. Entretanto, quando os habitantes do vilarejo são evacuados, Nabat parece confinada em um purgatório de angústia e solidão, juntamente com o espectador que experimenta estas mesmas sensações.
Nesse contexto, as gruas e os trilhos mostram-se opções corretas do diretor Elchin Musaoglu, pois conferem brandura aos movimentos de câmera e fidedignamente retratam a existência morosa da protagonista; pelo contrário, se optasse pela câmera na mão o cineasta conferiria a tensão inexistente na sua rotina. Musaoglu ainda emprega imagens, metafóricas ou não, para retratar aspectos da vida (ou melhor, existência) de Nabat: a loba que protege sua cria a todo custo, a porta que seu filho atravessa antes de ir morrer na guerra - por sinal, sua associação a Che Guevara enriquece os sentimentos de orgulho que sua mãe sente -, os caquis espalhados pelo vilarejo etc. Tudo a serviço de uma narrativa que leva diegese a seu último nível e, com isso, obtém um resultado louvável de imersão e solidariedade do público com o drama retatado.
O primeiro filme que eu vejo na Mostra de SP (de graça!) e a primeira produção que eu vejo do Azerbaijão. E foi um grande acerto!
"Tia Nabat" é uma senhora conhecida de um pequeno povoado que está em guerra. Seu marido está falecendo aos poucos e por causa das bombas que volte e meia eclode no vilarejo seus residentes estão largando tudo e partindo. Mas a senhora Nabat prefere ficar: O túmulo de seu filho está lá e sua alma parece pertencer também aquela terra. O filme vai mostrando muito do seu cotidiano; a venda do leite para comerciantes locais, os cuidados com o marido moribundo e suas longas caminhadas por campos cada vez mais desabitados.
Triste, porém carregado de sutileza em meio a tantas cenas significativas, o andamento do filme e seus silêncios e enquadramentos podem incomodar alguns, mas há muita sensibilidade guardada na história da senhora que faz de tudo para que a chama da existência da terra onde pisa não venha se apagar. Terminei absorto com a última cena.