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Data de lançamento
6 Ago. 1993Duração
O filme é uma obra em movimento. David Thewlis interpreta um homem sem lar e sem perspectivas que estupra uma mulher e foge, invadindo e mudando os rumos das vidas de várias pessoas que encontra. Thewlis vira carrasco, bálsamo, incitador, vítima, dependendo de quem cruza seu caminho. Parece um anjo/demônio boêmio que vem para provocar reações. Sua rudeza com uma mulher de meia-idade que se exibe na janela contrasta com seus conselhos metafísicos para o vigilante que a olha. Nu despe o espectador de qualquer procura por coerência narrativa. O que importa aqui é investigar almas.
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Me incomodou o excesso de cenas de
estupro
Curti menos na revisita, mas sinto que agora compreendo melhor. As divagações filosóficas soam demasiadamente pretensiosas em certos momentos, embora possuam contexto - mesmo ele não sendo tão claro às vezes. A violência que irrompe em quase toda cena não me incomodou, ainda que soe arbitrária e gratuita, talvez por eu ter comprado a ideia do Mike Leigh de uma sociedade urbana em que a crueldade é quase imperativa, e para quem vive a realidade brasileira sabe que não estamos nem um pouco distantes disso. Mas entendo também que parte da minha intolerância deve-se justamente à dessensibilização da violência que o entretenimento e a mídia propagam, o que é inclusive uma denúncia na “Trilogia da Frieza” de Michael Haneke. Nesse sentido, penso que desgostar de “Naked” pelo aspecto violento é mais desnecessário que a própria brutalidade representada. A falta de propósito, a pobreza, a mesquinhez, a alienação, o desespero e a ausência de conexão no gélido mundo contemporâneo são praticamente entidades na filmografia de Leigh.
Confesso que “Naked” tornou-se mais agradável a partir do momento em que concebi os personagens como sendo apenas expressões da vontade humana. Cada um deles apresenta uma postura muito bem definida em relação ao absurdo da existência, seja tentando compreender o passado, preocupando-se com o futuro, sendo totalmente apático, preferindo um país distante ao invés de encarar a própria realidade, a necessidade de controlar a própria vida ou dominar os outros.
E o niilista Johnny surge justamente como a personificação do indivíduo que cansou de buscar sentido e escarnece a infrutífera busca dos outros. Assumindo características de anjo caído numa aventura odisseica por uma Londres suja e monocromática, Johnny até vislumbra a redenção, mas a rechaça logo em seguida, como se não merecesse. Um personagem odioso que rejeita a bondade dos outros a fim de manter-se incólume, para que nada nem ninguém explore suas fraquezas; também não muito diferente da nossa realidade, certo?
É o tipo de filme que parece querer ser profundo, mas se afoga na própria pretensão. Um desfile de monólogos existencialistas que soam mais como verborragia do que reflexão, e um protagonista que, longe de ser fascinante, é só um Coringa indie de baixo orçamento: destrutivo, misógino, e vazio.
A romanização do estupro e a violência gratuita não são provocativas, são apenas irresponsáveis. Ao fim, sobra uma sensação incômoda, não por sua densidade, mas pela superficialidade disfarçada de filosofia.
Se o objetivo era mostrar o vazio da existência, parabéns. Conseguiu, mas não por mérito artístico, e sim pelo tédio.
Estou aqui tentando remoer e encontrar algo que faça o mínimo sentido ou justifique toda a gratuidade da violência dos dois personagens principais. É a exploração da violência por si só aglomerado com um texto todo esculhambado abarrotado de filosofias de boteco sem valor e conteúdo algum. Temos um personagem odioso ao qual o filme faz questão de deixar o espectador num limbo de julgamento , pois o romantiza e o julga ao mesmo tempo e que ainda consegue atrair todas as mulheres do mundo com aquela cara de fuinha morta. Sei lá.
foda foi ver o filme e reconhecer, no cara, atitudes de caras conhecidos da vida real, como se fosse um padrão em série com um misto de verborragia, misoginia, ressentimento e se fazer de louco pra passar bem.