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Michel é um homem amargurado e depressivo que tenta sua sorte nas ruas de Paris, roubando bolsas e carteiras. Filmada de uma forma inteiramente impessoal e controlada, como um teatro de marionetes, toda a tensão do filme não está no que ocorre durante as cenas, mas no que não ocorre.
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Esse método do Robert Bresson de pegar atores não-profissionais e suprimir toda e qualquer expressão de emoção me desconecta completamente de seus filmes. Ainda que as premissas sejam interessantes, o resultado é frio, incolor e distante. Perde-se até o propósito de um filme quando assisto cenas que deveriam ser carregadas de emoção e a entrega dos atores é robótica.
O neorrealismo italiano prezou, muitas vezes, pela utilização de pessoas comuns em seus filmes, como no caso de Vittorio De Sica e seu trabalho em retratar as penúrias da classe trabalhadora italiana no pós-guerra. Seu propósito é capturar a real emoção de um indivíduo que provavelmente experimentou na pele o roteiro. Mas aqui, ao tentar impedir que uma possível reação exagerada de um ator profissional contaminasse a busca pelo real, Bresson extingue algo fundamental no cinema: o elemento humano. Infelizmente, acontece algo com o diretor que tornou-se característico do cinema francês, particularmente a nouvelle vague - sua visão de mundo é mais importante que tudo. E para proteger sua abordagem ascética, Bresson sacrifica a espontaneidade dos atores e a vida de seus personagens.
As tomadas filmadas pelo Bresson nas cenas de roubos são muito boas, Michel explicando como ele faz os movimentos também, ele sentia vazio, sem propósito e teve que ser preso para perceber que tudo aquilo que ele almejava estava próximo dele.
Só faltou uma velha aparecer do nada e gritar: Pickpocket!!!!!
O protagonista usa o ato de roubar como uma maneira de criar um significado para a sua vida. Ele procura por isso e é levado até para outros lugares a partir desse ato. A sua vida é sufocante, sem brilho, sem significado. Os detalhes do lugar onde ele mora aparecem o tempo inteiro como um complemento para mostrar como o que ele tem ali é esvaziado de significado. É um personagem que não só não sabe o que fazer, como também tem essa dificuldade de conexão com outra pessoa. Até o momento em que isso acontece de maneira inesperada.
Temos um homem que rouba tanto por necessidade financeira quanto pelo prazer da adrenalina, algo que lhe completa existencialmente, um vício que lhe é incapaz de desfazer. Aos poucos Michel vai adquirindo mais experiência e habilidade na arte de roubar e sua vida é cada vez mais consumida por isso. Michel vai perdendo contato com pessoas antes importantes para ele e simultaneamente se vê num grupo de ladrões e perseguido pela polícia.
Começando na filmografia de Robert Bresson, já com esse grande filme, bem minimalista, mas bastante verossímil. A narrativa do filme se constrói através de um jogo de câmera preciso, com um foco expressivos nas mãos e cortes rápidos, transformando a repetição dos movimentos de Michel em um balé silencioso e hipnótico. As sequências de furtos na estação de trem são explêndidas.
O protagonista se afunda cada vez mais nos furtos, tornando isso uma verdadeira obsessão. A cada roubo, ele se prende ainda mais nesse ciclo, e a chance de redenção parece cada vez mais distante. No entanto, no fim, quando finalmente é preso, algo muda. É na prisão que ele encontra a redenção que sempre evitou, ao finalmente reconhecer o amor e a conexão humana que rejeitava.