Um cão ladra e esgravata uma porta fechada. Uns olhos e uma boca por trás de uma máscara de borracha negra. Sérgio construiu um mundo à sua medida. Perseguido por um desejo insaciável, só joga a ganhar. Indiferente a tudo, passa os dias entre o quarto alugado numa pensão barata, sexo anónimo com outros homens e o trabalho na recolha do lixo na zona norte de Lisboa.
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Pungente, atmosférico e soturno. Assistir “O Fantasma” é como aqueles sonhos que temos onde a aleatoriedade impera e a dissociação da realidade predomina; quando acordamos, tentamos, ao máximo, juntar as peças do quebra-cabeça, como se assim ficassem mais narráveis e consequentemente mais coerentes. A sensação que tive com o filme foi exatamente essa: embora insípido e apático na maior parte do tempo, não consegui não ficar envolvido e curioso com o desenrolar da história — acompanha um jovem de dezenove anos, aventurando-se sexualmente com homens em noites banais enquanto trabalha com limpeza urbana. Nesse ínterim, muitas simbologias e sexualização masculina são postas na mise-en-scène, com cenas e enquadramentos que vão desde o grotesco ao voyeurismo, numa busca incessante por algo que demarque sentido enquanto o protagonista entra numa odisseia de obsessão e fetiche relacionado a sexo e dominação — à medida que passa a se entender como sujeito dotado de desejos e subjetividades. O protagonista indiferente e extremamente atraente é um charme sedutor; seu jeito carrancudo, meio narcísico e brusco emite sensações que permeiam entre tesão, esquisitice e fetichismo (inclusive remete muito às obras de Foucault sobre sexualidade). O corpo do protagonista (belíssimo por sinal) é visto sob uma ótica de hiperssexualização que resulta em cenas belíssimas de nudez masculina — é efervescente, viril e extremamente sensual, mesmo quando apela para algo mais grotesco e explícito. A fotografia também merece destaque por apresentar algo sensorial e ambíguo na maior parte do tempo, juntando-se à narrativa não linear e às vezes até confusa. É um filme com pouquíssimos diálogos, mas que fala muito através do sensorial, do toque e das furtivas e sorrateiras madrugadas; a sensação é que os personagens estão sempre à espreita, performando e induzindo o outro a ceder aos desejos e às emoções mais profundas e brutais. Aliás, assisti-lo de madrugada, com fone de ouvido, luzes apagadas, foi uma experiência muito interessante e imersiva. Indico muito!
Bem transgressor. Adorei o enredo marginal e a cenário ser um aterro sanitário, bem diferente de tudo que se tem no cinema. Soube aproveitar bem os recursos. Boas atuações e bem gravado.
Mais de vinte anos depois, volto a um filme que, quando lançado, foi avidamente consumido por mim (e por alguns de minha geração), por designar um "estado de coisas" em abertura no cinema português e na conjuntura cinematográfica de cariz homossexual perverso. Antes, chocava; outra, obriga-nos a uma reflexão histórica pontual: ajuda a entender o legado político de Pedro Costa à contemporaneidade, por exemplo, pois João Pedro fala de sexo, mas também da cidade, de marginalização social (voluntária?), de solidão inevitável, da noite que penetra nos caracteres dos personagens... Foi uma dor distinta acompanhar este filme, hoje, quando passo dos quarenta, de quando o descobri em minha juventude, e sentia que trechos de minha própria vida passavam diante da tela. Se, por um lado, claro, as cenas e imagens confundiam-se com minhas lembranças (menos traumáticas, felizmente), por outro, a extrema autoralidade de seu realizador revela-se de maneira estonteante, graças a um desenho de som fascinante e minucioso. Prestei atenção aos enquadramentos, à relação do protagonista com uma colega de profissão do sexo oposto, ao tom cíclico da narrativa, à crítica da fetichização como imposição externa... Há orgasmos, aqui e ali, mas, na maior parte das vezes, o sexo compulsivo surge como não provedor de gozo, mas de angústia. O boquete não causa furor nas platéias, como outrora, mas sim o chorume bebido com avidez, com um leporídeo desfalecido ao lado do protagonista. A violência que o filme traz à tona não demonstra-se individualizada, como eu próprio sentia, em meu desamparo anterior, mas como sintoma de uma sociedade em crise, falida, que lucra com a manutenção dos papéis deletérios automaticamente atribuídos a alguns. Fui menos afetado, intimamente, pelo filme, mas o achei ainda mais brilhante e genial. Por dedução, fui diferentemente afetado pelo filme, enquanto cidadão, enquanto ser pensante e sensível, enquanto virgem temporão, enquanto trabalhador infeliz, enquanto apaixonado pelo jovem cinema lusitano contemporâneo... Magnífico! (WPC>)
É algo que pouco aparece no cinema nacional.Esteticamente é um filme interessante e traz um roteiro meio corrido.Vale bastante pelas atuações.
>Assistido em 06 de Março de 2026
É uma obra que divide opiniões — pode parecer confusa ou provocante, talvez experimental. Achei a narrativa fragmentada e a estética grotesca.