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Munido de câmera fotográfica e telefone celular, um estrangeiro no Irã profundo é tratado pelos moradores da vila de casas de barro Siah Dareh, no Curdistão iraniano, como o “engenheiro”. No entanto, ele não chegou de Teerã a serviço da engenharia, mas da espera. O real motivo da viagem é uma anciã à beira da morte.
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Há milhões de filmes/diretores que refletem sobre o tempo. O Linklater, por exemplo, fez Boyhood e a trilogia basicamente para tentar mensurar o efeito do tempo sobre as pessoas e relações.
Tem também outras obras, como Primavera, verão, outono, inverno e... Primavera, que falam sobre um aspecto específico da vida no tempo. Nesse caso, sobre como tudo é cíclico e como retornamos para onde viemos.
E entre todos os diretores que falam sobre o tempo, acho que o Kiarostami e a Chantal Akerman são os que mais trazem uma proposta não necessariamente de reflexão ou de dissertação, mas de meditação acerca do tempo.
A Chantal segue muito a linha de esticarmos o tempo ao máximo, mostrar coisas muito próximas a nada acontecendo. Então quando vamos ver a filmografia dela vamos encontrar longuíssimos momentos em que vemos ruas sem rosto algum, hotéis vazios e, principalmente, uma mulher cortando legumes. O nada e o ninguém estão lá, tomando o nosso tempo. Não me parece nem chegar a ser contemplativo porque, afinal, o que estamos contemplando?
O Kiarostami, principalmente em O vento nos levará, também gosta de trazer este tempo esticado, porém de um jeito mais aberto e menos vazio. E aqui falo "vazio" não com o objetivo de esvaziar a obra da Chantal, mas mais como um adjetivo pra falar que as cenas dela muitas vezes não tem ninguém. O Kiarostami traz sim seus personagens, diálogos, histórias, porém estas pessoas não são ninguém frente ao tempo.
Aqui, um homem chega a um local claramente esperando uma morte eminente. Morte que simplesmente não acontece. E enquanto a esperamos, o tempo passa. Não vemos exatamente o dia virar noite nem tantas mudanças conforme as semanas avançam, ao mesmo tempo que vemos.
Explico-me melhor: todo dia parece igual, mas o tempo vai passando e vemos como o ambiente traz essa passagem. Animais andam pra lá e pra cá, alguém que começou a cavar um buraco agora está tão fundo que precisa ser resgatado, crianças nascem, tartarugas se viram, um médico vai pra lá e pra cá filosofando em cima da sua motinha, ordenhas subterrâneas feitas por uma moça que não mostra seu rosto. E o que mais?
O que mais existe nesse filme? Talvez nada. Talvez apenas imagens abertas da paisagem montanhosa e pouco arborizada do interior iraniano. Resta contemplar. Assistir sentindo que o tempo passou e, por mais que tenha parecido arrastado, assim como são os dias, muita coisa se passou, muita coisa indicou essa passagem de tempo.
Pra quem gostou, recomendo tudo o que eu gosto do Kiarostami e da Chantal: a trilogia Koker, Close-up, Gosto de cereja, Jeanne Dielman, Hotel Monterey, Notícias de Casa e tudo mais o que pode ser visto.
Sublime em toda a sua simplicidade.
Mais um filme do diretor Abbas Kiarostami que é uma exaltação à vida simples em comunidade, à bondade do ser humano, à cooperação entre as pessoas e a beleza que há em se estar vivo e estar presente no momento, traduzida na rotina e na repetição de ações como Behzad subindo as colinas de carro para conseguir sinal de celular. ... E, assim como em "Onde fica a casa do meu amigo?" (1987), mais uma vez temos um elenco de não-atores moradores da aldeia em questão, com destaque para um menino carismático muito bem escalado, uma vila rural iraniana e uma relação de amizade que move a narrativa. Aqui, entre o engenheiro e Farzad.
Nos poucos filmes que tive contato de Abbas Kiarostami, sinto que esse diretor tem a habilidade inata de capturar a realidade de forma quase documental, e dramatizá-la mantendo uma pureza e uma simplicidade tão naturais, que me emociona – pois eu considero isso dificílimo. Suas lentes enquadram o ambiente à sua volta com tanta beleza, os planos são tão perfeitos, o zigzag parece ser algo que ele gosta de filmar... E mesmo assim, impressiona o fato de o estilo nunca quebrar o ilusionismo daquela "realidade" recriada pela interferência da produção. Há muitos casos em que o ego de um diretor transparece na tela, ele persegue o plano ideal, a geometria, ou sua câmera se move e sua decupagem e seus cortes nos lembram que estamos vendo um filme... essa busca pela forma, por uma assinatura visual, esse desejo de que o expectador reconheça a figura do 'auteur' junto ao filme, criando diferentes níveis de percepção da obra... É divertido, metalinguístico e eu adoro. Mas por vezes, incomoda, irrita essa coisa meio "egoica" quando sinto que ela é tão estilizada, que me tira da imersão; quebra a diegese.
Com Kiarostami, eu nunca sinto isso (pelo menos no que vi até aqui). Sempre sinto que o assunto, o que ele quer expressar, seu discurso, seu ponto de vista, são sempre a prioridade. Como se o seu olhar particular sobre o mundo, a vida, o tempo, a cultura, o ser humano... precisasse ser convertido em arte, ele sendo apenas o filtro pelo qual essa realidade é recortada; o artesão que vai levar isso às pessoas.
E cá estou eu, emocionado de novo.
#Stremio
Vencedor do Grande Prêmio Especial do Júri, do Prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e de mais um fora da competição oficial no Festival de Veneza. O filme funciona e não funciona, ele faz você prestar atenção redobrada em algumas partes e em outras dispersa completamente o telespectador, há uma insistência em cenas repetitivas, mas logicamente que tudo há uma mensagem, que não será entendida completa e resta ao telespectador ter que lidar com isso. Acho que é um filme para se rever daqui um tempo, não sei muito o que pensar sobre ele. O garotinho Farzad é o grande trunfo do filme, todas as cenas com ele são maravilhosas. A direção e a parte técnica retratando essa região do Curdistão iraniano é maravilhosa, não conheço essa região do Irã, na semana que assisti ao filme descobri que o cara que corta meu cabelo é exatamente desta parte do Irã, sempre achei que ele era um curdo do Iraque. Coincidências.
BLOG: FILMESTRANGEIROS
INSTAGRAM: @filmestrangeiros
- hipnotizante acompanhar as idas e vindas do personagem e ir conhecendo aquele vilarejo e as pessoas que lá vivem
- impressionante como parece que nada acontece, mas a verdade é que acontece tudo
- a mudança do reporter é a maior prova