Dirigido por
Data de lançamento
9 Out. 1971Duração
Marselha, França. Um assassino profissional, Pierre Nicoli, mata um detetive francês. Paralelamente em Nova York, Jimmy “Popeye” Doyle, um detetive da polícia, e Buddy “Cloudy” Russo, seu parceiro, investigam discretamente Salvatore “Sal” Boca, um pequeno comerciante, que está tendo gastos muito acima da sua renda. Cada vez existem mais indícios que grande parte da renda de Sal é ganha ilegalmente e, no processo, é ajudado pela esposa, Angie Boca.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Achei superestimado. O Friedkin tem filmes policiais melhores.
Bem legal.
Assistido em 17/03/2026.
Fantástico!! A cidade de NY toda devastada pela pobreza e crimes retratada aqui de forma crua e violenta...cenas perfeitas de perseguições e diálogos afiados entre Gene Hackman e Roy Scheider, filmão de suspense policial!
Existe uma frase muito repetida sobre guerra que diz que a maior parte do tempo é espera, e apenas uma pequena fração realmente parece combate. Não sei se ela se aplica ao trabalho policial, mas The French Connection parece acreditar profundamente nisso. Vigiar. Esperar. Seguir alguém. Comer qualquer coisa numa lanchonete. Entrar no metrô. Sair do metrô. Observar de longe. Esperar mais um pouco. E, no meio de tudo isso, um policial obcecado reclamando de uma micose no pé enquanto tenta derrubar um grande chefão do tráfico internacional.
Em teoria, este deveria ser exatamente o tipo de filme que me ganha. Eu amo personagens obcecados. Personagens consumidos por algo, especialmente quando o filme encontra maneiras de nos aproximar dessa obsessão — pelas fissuras, contradições, diálogos ou pequenos gestos que fazem alguém deixar de ser apenas uma função narrativa e virar pessoa. Popeye Doyle parece ter todos os ingredientes: inconsequente, desagradável, impulsivo, quase patologicamente insistente. O tipo de sujeito que destrói a própria vida enquanto corre atrás de algo maior.
O problema é que The French Connection parece muito menos interessado em nos deixar conhecê-lo do que em observá-lo. Popeye é um personagem de comportamento, não de interioridade. Aprende-se quem ele é pelo modo como anda, persegue, humilha, explode, insiste, vigia e toma decisões irresponsáveis. O filme raramente para para dramatizar suas motivações ou explorar suas contradições internas. Em vez disso, Friedkin parece interessado em outra coisa: ambiente, procedimento e rotina.
Mais do que um filme sobre policiais, The French Connection parece um filme sobre o trabalho policial. Há algo deliberadamente contido em sua construção. Os diálogos são mínimos, muitas vezes banais, quase anticlímax. O filme não quer transformar Popeye num grande personagem trágico nem construir longos mergulhos psicológicos sobre obsessão. Quer mostrar como ela se manifesta no cotidiano: num homem cansado, paranoico, irritadiço, atravessando uma Nova York nervosa e desgastada, transformando perseguição em rotina.
E consigo entender perfeitamente por que tanta gente ama isso. Inclusive consigo entender o Oscar do Gene Hackman. Porque, embora não seja o tipo de performance que mais me move, existe algo impressionante na fisicalidade que ele constrói. O jeito de andar, de reagir, de invadir espaços, de falar atravessado, de parecer constantemente exausto e ligado ao mesmo tempo. É uma atuação muito menos baseada em grandes cenas dramáticas do que numa presença quase corporal.
Ainda assim, talvez seja justamente essa proposta mais observacional que tenha criado uma distância inesperada entre mim e o filme. Em vários momentos, tive dificuldade de entender com clareza quem exatamente ocupava qual lugar dentro daquela engrenagem criminosa. Alain Charnier existe como presença — elegante, escorregadio, quase sempre alguns passos à frente — mas a rede ao seu redor frequentemente me pareceu nebulosa. Quem trabalha para quem? Quem realmente importa? Quem está sendo preparado dramaticamente para ter peso mais adiante?
Isso ficou especialmente evidente no final, quando o filme apresenta o destino de diferentes membros da operação criminosa. Houve momentos em que me peguei pensando: mas esse personagem teve mesmo presença suficiente para eu me importar — ou sequer lembrar claramente de quem se trata? Não precisava ser um filme de grandes monólogos ou aprofundamentos psicológicos — claramente esse não é seu interesse. Mas, às vezes, senti falta de uma delimitação mais forte daquele universo humano, especialmente entre personagens secundários que parecem entrar e sair da história mais como peças de uma operação do que como presenças dramáticas propriamente definidas.
Ainda assim, o curioso é que, quando The French Connection abandona qualquer expectativa de aprofundamento psicológico e se transforma em puro jogo, ele fica excelente. A sequência do metrô entre Popeye e Alain Charnier é brilhante. Alain entra no vagão; Popeye acompanha. Alain sai no último segundo; Popeye hesita. Um volta. O outro observa. Há algo quase divertido naquela coreografia silenciosa de vigilância, como se ambos estivessem improvisando uma partida de xadrez urbana usando portas automáticas, plataformas e pequenos gestos de dissimulação. E então vem a perseguição do trem — provavelmente a sequência mais celebrada do filme, e com razão. Um assassino contratado tenta matar Popeye, o caos explode dentro do metrô elevado, e Friedkin transforma ruas comuns em puro colapso físico. Popeye correndo de carro abaixo dos trilhos, atropelando, desviando, destruindo tudo ao redor enquanto o trem segue acima cria uma tensão incrivelmente material, suja, quase desesperada. Nessas horas, o filme realmente me ganha. Talvez porque ele pare de pedir conexão emocional e simplesmente se imponha como cinema de movimento.
No fim, talvez meu problema com The French Connection seja simples: admiro a ação policial, mas nunca consegui me aproximar muito do homem. Lembro da perseguição no metrô. Lembro do jogo silencioso entre Popeye e Alain Charnier. Lembro do caos absurdo de um carro perseguindo um trem elevado pelas ruas de Nova York. Lembro da atmosfera, da sujeira, do nervosismo urbano. Mas, quando penso em Popeye Doyle, ainda me pergunto se a melhor coisa que o filme conseguiu extrair dele foi mesmo uma obsessão, uma micose e um enorme desejo de pegar um peixe grande.
Às vezes é preciso ser o maior inimigo do Detran para se combater o narcotráfico