RECONSTRUÇÃO usa o evento em si - um assassinato local - como ponto de partida para uma visão devastadora de algo muito mais importante: a morte de uma aldeia, de um mundo inteiro.
Os símbolos do cinema de Angelopoulos já estão nítidos em seu filme de estreia, sua câmera estática, seus silêncios desoladores, sua forma de retratar o declínio da Grécia como nação e tudo que envolve a nação em termos culturais e políticos. Diferentemente de seu olhar poético , a Reconstrução paira sobre um olhar muito mais pendente para o neo-realistmo italiano com inserções de cenas documentais e depoimentos. Falta a tão bela coloração de seus filmes posteriores mas o P&B é pra lá de digno.
Discordo radicalmente que Reconstrução/Reconstituição/Anaparastasi é menos Angelopoulos ou é um Angelopoulos menor, a se maturar. Todos os temas principais da carreira angelopoulosiana estão lá: a questão do exílio e dos refugiados, a paisagem nostálgica da aldeia grega, a história grega em si mesma, a panorâmica grandiloquente que foca toda o drama espacial. A única informação discrepante que este filme possui em relação aos outros, o que de forma alguma é prejuízo para a qualidade do filme, é tom de reportagem que cerca a narrativa de reconstituição do crime que abala a aldeia e que foi um caso verídico - o filme intercala ficção e documentário, com trechos de entrevistas do próprio diretor com os aldeãos, evocando o cinema-verdade e o neorealismo italiano. Esta nuance do começo de carreira realmente desloca o relevo que o diretor dá ao intimismo dos personagens, embora a quebra da linearidade nos flashblacks está presente também nesse filme o que relativiza a dicotomia ficção-documentário, tornando o filme mais um exemplo de sua genialidade. Outra novidade é que a paisagem em preto de branco quase como incorporando um luto pela situação de evasão das aldeias pela proletarização urbana é uma situação inédita que aprofunda a poesia lúgubre das bétulas e outras árvores desfolhadas no cenário árido e minimalista das aldeias gregas.
O Angelopoulos menos angelopousiano. A força maior do seu cinema vem aqui marcada pela preocupação com a vida nas aldeias, o que levará a questões muito mais amplas no desenvolvimento da sua filmografia. Reconstrução, contudo, é tecnicamente perfeito.
Tramaticamente, o filme é uma reelaboração do estilo neo-realista crítico de Luchino Visconti, com o qual guarda muitas similaridades. Porém, os quase trinta anos de distância entre um e outro filme conferem às palavras REELABORAÇÃO e CRÍTICA uma verve muito mais autoral: a narração inicial sobre o decréscimo populacional no local onde o filme foi rodado e o modo inovador com que o diretor literalmente reconstrói o que é mostrado me impressionaram! É ainda um filme-teste da genialidade angelopoulosiana que se constataria a posteriori, mas, em diversos aspectos, genial! (WPC>)
Os símbolos do cinema de Angelopoulos já estão nítidos em seu filme de estreia, sua câmera estática, seus silêncios desoladores, sua forma de retratar o declínio da Grécia como nação e tudo que envolve a nação em termos culturais e políticos. Diferentemente de seu olhar poético , a Reconstrução paira sobre um olhar muito mais pendente para o neo-realistmo italiano com inserções de cenas documentais e depoimentos. Falta a tão bela coloração de seus filmes posteriores mas o P&B é pra lá de digno.
Discordo radicalmente que Reconstrução/Reconstituição/Anaparastasi é menos Angelopoulos ou é um Angelopoulos menor, a se maturar. Todos os temas principais da carreira angelopoulosiana estão lá: a questão do exílio e dos refugiados, a paisagem nostálgica da aldeia grega, a história grega em si mesma, a panorâmica grandiloquente que foca toda o drama espacial. A única informação discrepante que este filme possui em relação aos outros, o que de forma alguma é prejuízo para a qualidade do filme, é tom de reportagem que cerca a narrativa de reconstituição do crime que abala a aldeia e que foi um caso verídico - o filme intercala ficção e documentário, com trechos de entrevistas do próprio diretor com os aldeãos, evocando o cinema-verdade e o neorealismo italiano. Esta nuance do começo de carreira realmente desloca o relevo que o diretor dá ao intimismo dos personagens, embora a quebra da linearidade nos flashblacks está presente também nesse filme o que relativiza a dicotomia ficção-documentário, tornando o filme mais um exemplo de sua genialidade. Outra novidade é que a paisagem em preto de branco quase como incorporando um luto pela situação de evasão das aldeias pela proletarização urbana é uma situação inédita que aprofunda a poesia lúgubre das bétulas e outras árvores desfolhadas no cenário árido e minimalista das aldeias gregas.
O Angelopoulos menos angelopousiano. A força maior do seu cinema vem aqui marcada pela preocupação com a vida nas aldeias, o que levará a questões muito mais amplas no desenvolvimento da sua filmografia. Reconstrução, contudo, é tecnicamente perfeito.
Tramaticamente, o filme é uma reelaboração do estilo neo-realista crítico de Luchino Visconti, com o qual guarda muitas similaridades. Porém, os quase trinta anos de distância entre um e outro filme conferem às palavras REELABORAÇÃO e CRÍTICA uma verve muito mais autoral: a narração inicial sobre o decréscimo populacional no local onde o filme foi rodado e o modo inovador com que o diretor literalmente reconstrói o que é mostrado me impressionaram! É ainda um filme-teste da genialidade angelopoulosiana que se constataria a posteriori, mas, em diversos aspectos, genial! (WPC>)