Dirigido por
Data de lançamento
19 Maio 2015Duração
Na crescente fronteira sem lei entre os Estados Unidos e o México, uma agente do FBI (Emily Blunt) é exposta ao mundo brutal do tráfico internacional de drogas por membros de uma força-tarefa do governo (Josh Brolin, Benicio Del Toro) que a escalam em seu plano para derrotar o chefe de um cartel mexicano.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Denis Villeneuve, meu queridinho, dirige este longa com uma tensão sufocante, explorando a parte selvagem que escondemos da sociedade. A fronteira entre os países se transforma em uma metáfora para o limite da nossa própria sanidade e ética. A atmosfera densa nos faz sentir a constante ameaça no ar, transformando a paisagem desértica em um cenário de puro pesadelo opressivo. Emily Blunt, pra variar (contém ironia), entrega uma atuação brilhante como a agente Kate Macer, que funciona como a nossa própria bússola moral na história. Ela representa a necessidade humana de regras, ordem e justiça em um ambiente caótico e imprevisível. Ao longo do filmea trama, a sua crença inabalável nas leis é brutalmente desconstruída, gerando um trauma profundo e sufocante. É angustiante e fascinante acompanhar a sua queda emocional enquanto ela percebe que a moralidade é completamente inútil naquele universo de violência extrema. Benicio del Toro... ah! del Toro!, encarna a personificação silenciosa dos nossos instintos mais destrutivos. Ele age como o lado sombrio sem amarras, movido apenas por uma vingança fria e quase primitiva. A atuação contida do ator é assustadora justamente por conseguir mostrar muito com pouquíssimas palavras e expressões. Ele nos ensina como o ser humano pode desligar completamente a sua empatia para punir, tornando-se exatamente o mesmo tipo de monstro que um dia jurou combater.
E a cereja do bolo é a trilha sonora magistral de ninguém mais, ninguém menos que Jóhann Jóhannsson, que pulsa no ritmo exato da nossa própria ansiedade. O filme é um soco direto no estômago, questionando até onde vai a fina camada de civilidade que protege a nossa sociedade. É uma experiência perturbadora e obrigatória sobre a corrupção absoluta da alma. Absolute Cinema! "Você deve se mudar para uma cidade pequena onde o estado de direito ainda exista. Você não sobreviverá aqui. Você não é um lobo. E esta é a terra dos lobos agora." - Alejandro (del Toro)
Não é ruim, mas dava pra tirar meia hora fácil desse filme.
Não é ruim, mas dava pra tirar meia hora fácil desse filme.
Tinha visto só uns cortes desse filme, incluindo o spoiler final, e tinha ficado curioso por assistir! Além dos cortes, assisti recentemente Incêndios que é tb do Denis Villeneuve, um diretor que estou cada vez mais fã!
Um bom filme, com thriller, uma violência que lembra muito filmes policiais dos anos 80/90 e sem interesse em passar moral, só vingança! O roteirista Taylor Sheridan é um cara talentoso....acompanho pouco do seu trabalho, mas ele sabe contar uma história!
Assisti Sicário e gostei muito da construção do filme. A tensão é mantida com muita engenhosidade pelo diretor. Mesmo não havendo tiroteio a todo o momento, ele constrói tudo de uma forma que a gente sente a tensão no ar, quase palpável. O filme transforma situações aparentemente banais, como uma espera ou uma viagem de carro, em momentos de enorme tensão. A sequência da fronteira é um ótimo exemplo disso: quase nada acontece durante boa parte da cena, mas o enquadramento, o silêncio, o comportamento dos agentes e a sensação de que existe alguma coisa errada fazem com que tudo pareça prestes a explodir.
Claro que, para isso, ele também precisa usar um certo preconceito que os americanos têm com os mexicanos. O México é tratado quase como um planeta diferente, como a última fronteira, um território próximo geograficamente, mas completamente estrangeiro para os personagens americanos. A própria Kate entra naquele mundo como alguém que não entende as regras e percebe progressivamente que as regras às quais estava acostumada simplesmente não se aplicam ali.
Obs: ao ver essa cena me peguei pensando imediatamente no livro do Acemoglu, Por que as nações fracassam. Ele mostra como duas cidades tão próximas são tão diferentes justamente por conta da influência institucional. No filme, é quase uma ilustração dessa tese.
Também há aquele clima de conspiração no ar, especialmente quando várias pessoas de agências do governo aparecem sem dar informações, mas dando ordens, invadindo países estrangeiros e atuando contra a lei para garantir seus objetivos. O filme cria muito bem a sensação de que existem forças enormes operando por trás daquilo que estamos vendo e que os personagens comuns não têm acesso a todas as informações. A fotografia ajuda muito nisso.
Adorei a fotografia subexposta do filme. Me lembrou Roger Deakins, e achei muito semelhante à de Onde os Fracos Não Têm Vez. Não é apenas uma questão de ser uma fotografia escura: há grandes áreas de sombra, pouca informação visual e uma sensação constante de que os personagens estão entrando em lugares que não conseguem compreender completamente. Isso combina perfeitamente com a própria narrativa, porque o espectador também está sempre tentando entender quem está comandando o quê e quais são os verdadeiros objetivos daquela operação.
Obs 2: O Diretor de Fotografia realmente é o Roger Deakins. Acertei! Seu estilo é muito característico. Me lembra a fotografia do Kubrick, mas usando mais 'low-key' nas áreas escuras.
Por fim, fica a crítica ao protagonismo dos dois homens principais. Eles parecem servir para satisfazer o fetiche do homem médio de se ter um protagonista poderoso e infalível para resolver todos os problemas. Alejandro, principalmente, é quase uma figura mitológica. Ele sabe tudo, prevê tudo, mata com facilidade, conhece as regras daquele mundo e parece sempre estar alguns passos à frente de todo mundo. Há algo muito próximo da fantasia de competência absoluta de personagens como John Wick ou Dominic Toretto.
Nisso eu achei o filme fraco. Ele chega muito perto de fazer uma crítica interessante às instituições, à guerra contra as drogas e à atuação clandestina do Estado, mas acaba concentrando esse poder em dois indivíduos extraordinários. Se ele tivesse bebido mais na fonte de *The Wire* e inserido conflitos institucionais reais, tirando o peso do mocinho e colocando o peso nas instituições, aí sim teria sido um filme foda. Em *The Wire*, ninguém consegue simplesmente resolver o problema porque o problema é maior do que qualquer indivíduo. Polícia, tráfico, política, burocracia e interesses econômicos formam uma máquina na qual cada personagem é apenas uma peça. *Sicário* chega perto dessa ideia, mas acaba personificando essa máquina em Matt e Alejandro.
A personagem principal é interessante. Ela e o negro são os únicos personagens realmente realistas. Kate é confusa, assustada, limitada pelas próprias instituições e tenta compreender aquilo que está acontecendo. Reggie também parece um profissional de verdade, com limitações e conflitos próprios. O problema é que, por serem realistas diante de dois personagens à la Dominic Toretto/John Wick, eles perdem brilho. Parecem servir mais para destacar a artificialidade dos dois.
Isso cria uma contradição interessante no filme: ele constrói muito bem a ideia de que existem forças institucionais enormes e clandestinas operando acima dos indivíduos, mas, quando chega a hora de resolver os conflitos, entrega o protagonismo justamente aos indivíduos mais extraordinários. Alejandro e Matt acabam funcionando quase como a manifestação humana dessa máquina institucional.
Talvez por isso eu tenha gostado tanto da direção e menos de algumas escolhas do roteiro. Formalmente, *Sicário* é extremamente sofisticado. Ele sabe construir tensão, atmosfera e sensação de perigo como poucos filmes. Mas seus protagonistas masculinos acabam simplificando uma história que poderia ser muito mais complexa se o verdadeiro protagonista fosse o próprio sistema que eles representam.