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Um filme sobre jornalismo que não tem herói, não tem discurso inflamado e não tem trilha dizendo quando emocionar. Só gente cansada batendo em porta e cruzando lista de nomes até a coisa toda desabar.
Ao narrar a investigação do Boston Globe sobre os abusos da Igreja Católica, Tom McCarthy expõe a violência simbólica da religião e a banalidade do mal de uma sociedade inteira que preferiu olhar para o outro lado. Uma verdadeira aula sobre como o jornalismo pode, de fato, mudar o mundo, sustentada por um elenco formidável.
O filme abdica da transcendência estética e da invenção visual para se manter em uma gramática cinematográfica utilitária e funcional. É uma escolha que serve perfeitamente à história, mas que o mantém a um milímetro da perfeição formal absoluta. No entanto, como narrativa, estudo de personagem e cinema de denúncia, Spotlight é o herdeiro definitivo do clássico Todos os Homens do Presidente (1976).
O momento que resume o núcleo filosófico de todo o filme vem através do exausto advogado das vítimas, Mitchell Garabedian (vivido de forma brilhante por Stanley Tucci), que nos joga na cara o peso da cumplicidade sistêmica:
"Se é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança, é preciso uma aldeia inteira para abusar de uma."
“Pecadores” usa o mito do vampiro para fazer a autópsia mais afiada já realizada sobre a apropriação cultural. Ryan Coogler e Michael B. Jordan entregam não apenas um thriller de terror absurdo, mas um espetáculo sociológico banhado a sangue, poeira e blues no Mississippi dos anos 1930.
O que começa como drama de época vira terror quando aparece um vampiro que não quer sangue, quer as canções. A sequência musical do meio do filme é uma das melhores coisas do cinema recente.
Remmick, o irlandês, não é um monstro burro. Ele não quer apenas saciar a sede fisiológica de sangue; o objetivo principal do monstro é capturar o jovem guitarrista Sammie (Miles Caton) para roubar o seu talento e consumi-lo em rituais ancestrais. Quer as histórias, quer as canções, quer que todo mundo cante junto a mesma melodia e vire uma coisa só. É difícil pensar em metáfora mais precisa para apropriação cultural, e ela tem parentesco direto com aquela imagem do Marx sobre o capital como trabalho morto que só vive sugando trabalho vivo. O horror do filme não é a mordida. É a oferta gentil.
Onde ele escorrega? O terceiro ato vira cerco. Gente trancada em um prédio, regras de vampiro sendo testadas, e o filme perde um pouco da estranheza gloriosa que tinha construído.
"O sangue de vocês apenas me mantém vivo. Mas é o blues de vocês que me impede de morrer." - Remmick
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Bons filmes!
Equipe Filmow
Um retrato hipnótico e melancólico sobre o colapso das regras e valores morais em uma comunidade, deixando os indivíduos sem norte ou limites. Com uma direção estilosa e sensível de Gia Coppola, o filme explora o tédio, a falta de limites e a busca por conexão em uma sociedade onde os adultos são meros fantasmas.
Os adolescentes de “Palo Alto” não sofrem por falta de recursos. Eles sofrem porque ninguém ocupa o lugar de adulto. Todo mundo à volta deles é adolescente prolongado. Não há a quem se opor, e sem isso não dá para crescer.
Os adultos são sombras distantes, egoístas ou abertamente irresponsáveis. Sem a presença de guias ou barreiras impostas pelo mundo adulto, esses jovens habitam um vácuo ético. Eles não usam drogas ou cometem atos inconsequentes por rebeldia pura, mas numa tentativa desesperada de testar os limites do próprio corpo e sentir qualquer coisa em meio ao tédio sufocante do privilégio.
É um filme honesto, sensível no tema mais delicado que ele tinha em mãos, e visualmente seguro. Vale muito, especialmente para quem trabalha com adolescente. É uma pérola do cinema indie que captura bem o sentimento de estar perdido no mundo. Erra por parecer demais com o cinema da tia e por confundir, em alguns trechos, deriva com falta de estrutura.