Dois jesuítas portugueses, padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe, vão clandestinamente ao Japão para continuar a espalhar o cristianismo, que havia sido proibido pelo shogunato. Padre Rodrigues tem ainda outra meta: encontrar seu antigo mentor, padre Cristóvão Ferreira, e descobrir se são verdadeiros os boatos de que ele cometera apostasia.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Tão logo soube do falecimento do diretor, resolvi conferir esta obra, por conta dos sentimentos mistos que me atravessam quanto à versão scorseseana. Na verdade, descobri a existência deste filme mui recentemente - e fiquei impressionado pelo uso consciente da violência, em âmbito martirizante. Soube que essa é uma tônica da obra do diretor, e faz todo sentido que isso aconteça sobre o prisma religioso, em caráter histórico. Provindo de um japonês, o relato em pauta é ainda mais contundente, afinal, a conversão mostrada, por mais bem intencionada que seja, é, sim, um ato de colonização cultural - e, por isso, condenável, em múltiplos aspectos. A despeito do estranhamento ocasionado por personagens portugueses que falam em inglês, as interpretações são tão fascinantes, que nem percebemos isso por muito tempo: o desfecho é um socão. Muito forte! (WPC>)
Um ensaio sobre os limites da fé com crescente clima de tensão. Ótima performance de David Lampson e pequena participação do astro Tetsuro Tanba (sob pesada maquiagem para parecer europeu).
Ainda não assisti a versão do Martin Scorsese, mas essa original é um filme bacana. A história tem um tom triste e ainda tem um bom protagonista (David Lampson em boa atuação). É um filme lento, mas com um tema que não deixa de manter o interesse. Vale ser conhecido!
O maior ato de amor.
Shinoda sabe contar histórias como ninguém. Linda obra.
Silêncio (1971)
JAPÃO E O CRISTIANISMO
Essa semana assisti ao filme Flor Seca, do cineasta Masahiro Shinoda. Achei ótimo. E logo comecei a pesquisar sua filmografia. Assim que descobri que o mesmo tinha uma adaptação do romance Silêncio - cujo remake foi feito recentemente pelo Martin Scorcese - , não pensei duas vezes e corri atrás.
Eu li a obra de Shusaku Endo muitos anos atrás e me lembro de poucos detalhes. Apenas que era uma escrita fluente e bastante crua. Então nem tenho parâmetro para fazer comparações com o longa de 1971. Sei que o roteiro é do próprio autor do romance em quatro mãos com o cineasta.
Silêncio trata da chegada de dois padres portugueses ao Japão em 1630 não só para levar a mensagem da Igreja Católica como para descobrir alguma pista sobre o padre Ferreira, desaparecido na ilha há anos. Acolhidos por uma pequena comunidade cristã, logo são perseguidos, sobrando, claro, para aqueles que o ajudaram.
Silêncio é uma obra complicada. O cristão mais fervoroso vai analisá-la por um viés emocional e logo vai acolher os dois padres como heróis da Palavra. Os mais céticos vão procurar nas entrelinhas alguma crítica ou conceito filosófico. Enfim, posso dizer que me encaixo no segundo grupo e gostei do filme.
Endo era católico, logo seu romance falava de fé. Conceito que o filme também traz, porém de modo espinhoso. Há todo o martírio típico do catolicismo com o padre Rodrigues, o protagonista, claramente assumindo o papel de Cristo em meio a tortura e o sofrimento infligidos pelas autoridades japonesas. Também temos o nosso Judas Iscariotes na figura de um nipônico que entrega a localização do padre em troca de dinheiro e depois se arrepende. Contudo, eu não tive a menor empatia pelo padre Rodrigues e seu martírio. A única coisa a se lamentar são os camponeses torturados e mortos, que estavam sossegados no seu canto, até chegarem esses homens de fora e sua doutrina que, de algum modo, os atraiu. Não há como julgar o inquisidor japonês pelas medidas drásticas que toma para expurgar o cristianismo da ilha já que na Europa, ao mesmo tempo, a Inquisição acusava a torto e a direito - pelos mais esdrúxulos crimes - e matava milhares pessoas em seus altos de fé. A culpa é de quem veio de fora meter o bedelho num país com sua doutrina de fé, política e força muito bem estabelecidas - muito diferente do continente Americano onde os missionários encontraram tribos indígenas, algumas extremamente pacíficas. O ônus das perdas de vidas no Japão é todo da Igreja Católica.
Sobre a qualidade técnica do longa, essa é inquestionável. Shinoda filma muito bem e arranca boas atuações, não só dos atores nativos como também dos gaijins. Seu roteiro do meio para o final deixa de tomar partido a favor dos cristãos e torna-se mais ambíguo ao entregar ótimos diálogos como o do inquisidor japonês com o padre Rodrigues. E um segundo exemplo, quando Rodrigues encontra o padre Ferreira - que deixa claro o porque do título da obra ser Silêncio. A última cena então, é bem polêmica.
Ainda não vi a versão do Scorcese mas ao que parece, ela é emocional e católica (fora que tem quase três horas de duração!) enquanto a de Shinoda busca mais o debate teológico e filosófico. Enfim, quando eu tiver tempo sobrando, verei a versão estadunidense. Enquanto isso, é continuar procurando mais coisas do cinema de Shinoda que, por tudo que apresentou nos dois filmes que vi, é bem rico.