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Duração
Um homem (Antonio Abujamra) fala de um mundo que não mais lhe pertence e que não mais entende. É alguém que caminha da solidão para as trevas. Embora com humor, sarcasmo e permanente ironia fala de perplexidade e desespero. Fragmentado, por vezes dispersivo, esse testemunho de um homem na última meia idade, de boa família, de um bairro nobre, não deixa de ser uma reflexão que diz respeito a todos que moram em SãoPaulo e que freqüentemente é vista como um pesadelo.
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Antônio Abujamra, o eterno Ravengar!
Não, não, não. Mais perigoso do que as emoções que eclodem da nossa alma é a tentativa de negá-las, criando com isso um vazio existencial capaz de destruir a nossa própria existência.
espetacular... Abu é deus
Maravilhoso. Nos prende a atenção do início ao fim. É meio uma crônica falada, com histórias interessantes ao lado de uma atuação magnífica de Abujamra.
Antônio Abujamra faleceu em 28 de abril de 2015... Uma perda lastimável!
Vivo sendo questionado, interceptado, interrompido, no que eu estou pensando. Isso me desequilibra constantemente.
Agora a pouco no supermercado, eu estava entrando. Pensando algo incerto, sobre alguma coisa que precisava decidir se comprava ou não, evidentemente angustiado pela dúvida. Eu estava concentrado nisso. Ai fui abordado, sem nenhuma cerimônia, por uma jovem que me estendeu uma folha de papel e um folheto.
Ela disse:
- o senhor já sabe da nossa promoção?
É claro que eu não sabia. Fiquei na dúvida se dizia que sim, conhecia, e me meter numa armadilha maior; ou confessar que não conhecia, coisa que certamente lhe levaria a explicar a promoção.
Disse que não sabia, e ela começou a explicar a promoção. Me deu a folha em que estavam os produtos da promoção (os quais nenhum me interessava), estendeu o folheto, e disse que concorrendo na promoção eu poderia ganhar uma viagem para Bahamas. Isso me tomou uns minutos, e me deixou levemente apreensivo com a possibilidade de ganhar.
Já me via hesitando entre ir ou não ir para Bahamas. Considerando que não havia nenhum motivo na terra me impelisse para Bahamas.
Então, já entrei no supermercado levemente alterado. Alterado, alterado, bom, digamos: alterado. Fui direto ao açougue do supermercado.
Durante todo o tempo que estive casado eu acompanhei minha mulher em açougues e supermercados, e tinha ouvido sempre ela pedir:
-meio quilo de patinho moído duas vezes.
Eu nunca entendi porque ela pedia para moer duas vezes. Mas eu continuei, contudo, a fazer esse mesmo pedido. Mesmo no momento em que eu, infelizmente, comecei a fazer minhas próprias compras.
Eu me aproximei do açougue, e antes que eu anunciasse o meu costumeiro pedido, uma mulher que estava ao lado disse:
-Eu quero meio quilo de alcatra moído duas vezes.
“Duas vezes”... “duas vezes” naturalmente me soou familiar, mas a palavras “alcatra“ me pós e estado de alerta. E comecei a pensar que eu estivesse comendo, por anos, uma carne inferior. Só porque eu nunca tinha averiguado as verdadeiras qualidades de outras carnes. Ou porque estivesse apenas obedecendo a um cego costume imposto a mim, pela minha mulher. Como, aliás muitas outras coisas, das quais nunca consegui me livrar.
Talvez eu devesse pedir alcatra. .. alcatra...
Quando o açougueiro pós no balcão um pedaço de alcatra, eu realmente achei ele mais bonito que o patinho. Pelo menos do que eu me lembrava do patinho. A sucessão dessas pequenas duvidas, sopradas e que vão se infiltrando no meu cérebro, e sobre as quais eu tenho que pensar, e decidir, são odiosas. Como eu falei deixam marcas. Sim, marcas.
Eu deixei de ir ao açougue decidir não comer mais carne. Nem patinho, nem alcatra. Nem patinho moído duas vezes nem; alcatra moída duas vezes. Pensando bem, por outro lado, essas pequenas privações não são tão penosas assim. Eu vou me recolhendo para dentro de casa. Vou diminuindo minhas necessidades. Eu tenho agora de achar um meio de diminuir alguns pensamentos. Isso é difícil.
Eu gostaria de poder expulsar a meu bel prazer certas ideias certos pensamentos certas lembranças como aquelas que eu relatei a pouco. Mas creio que não temos esse poder. Dentro da minha cabeça parece que algo se move, com vida própria e incontrolável, é esse algo que comanda os pensamentos. Eu tento de alguma forma impor minha vontade, mas é difícil .