Um grupo de junkies à espera de heroína. Especialmente controverso, venceu um prémio da crítica em Cannes e é hoje um documento valioso sobre a contracultura do início dos anos 1960 e uma obra importante do cinema experimental. Baseado em um livro de Jack Gelber.
Meu Deus! Meu fascínio por esta diretora magnífica atingiu o seu píncaro aqui: esperava por este filme há anos e, ao vê-lo casualmente, estranhei as suas marcações iniciais e os diálogos improvisados que pareciam forçados. De repente, percebi a genialidade metalingüística e intencional deste recurso. A diretora "anula-se" proposital e denuncistamente através do personagem do diretor branco e esnobe, que é "convidado" a interagir adequadamente com seu objeto de interesse e experimentar heroína. As conseqüências são artisticamente sublimes: a explicação do título, a partir da chegada do surpreendente personagem de Carl Lee - que surpreende ao fazer justamente o que espera-se dele - é algo muitíssimo superior ao seu tempo, que permanece chocante e digno de aplausos ainda hoje, no que tange ao respeito contestatório à marginalidade compositora e ativista do 'jazz'. Os personagens, portanto, desvendam-se como paradigmas ou caricaturas de época, mas são apresentados, sobretudo, em suas facetas mais humanas, convergindo discursivamente sob as exigências obedecidas de critérios de classe, gênero e principalmente raça. As intervenções musicais são excelentes em seu improviso contínuo e a montagem da própria diretora, que joga o tempo inteiro com as duas câmeras exibidas internamente, é absolutamente soberba. No início, admito que algo no filme parecia cansar-me. Mas era a fissura (risos), era o compartilhamento da ansiedade pela aparição do Cowboy que, ao final, corresponde a todas as expectativas depositadas sobre ele. O desfecho é estonteante. Obra-prima revolucionária de uma gênia ainda subestimada, infelizmente! (WPC>)