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Ananias (Luís Delfino) é um compositor frustrado que trabalha em uma companhia de seguros. Com esposa e 4 filhos e sendo ameaçado de demissão, ele tenta o suicídio tomando uma dose de barbitúricos. Ele entra então em um novo mundo, onde é promovido à vice-presidência da empresa onde trabalha, suas músicas começam a ser gravadas e a fazer sucesso e a secretária do presidente, seu amor secreto, passa a se interessar por ele.
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Ótimos números musicais!!
"Um pais em que o povo não ri da desgraça alheia, somente da sua própria desgraça"
Como já foi comentado, o filme tem um início promissor. Inclusive, é possível que Nelson Pereira dos Santos tenha se inspirado em algumas sequências para os seus dois primeiros filmes, "Rio, 40 Graus" e "Rio, Zona Norte".
Tal como em "Rio, 40 Graus", o filme se inicia com o letreiro dos créditos sobre uma imagem panorâmica do Rio de Janeiro, na qual podemos ver o Corcovado e o Cristo Redentor. Contudo, ao contrário da abertura do clássico de NPS, enquanto o letreiro sobe, a imagem da então capital federal segue estática.
Se NPS procura revirar essa imagem do "cartão-postal" do avesso, logo na primeira sequência já podemos intuir que o filme de Fenelon tratará de reafirmá-la. A voz em off que destaca as maravilhas do Rio de Janeiro, logo descobrimos, não é a de um narrador onisciente, mas a de um apresentador de rádio. É ele quem dará o mote do filme: o programa "Você tem a sua vez" oferece a oportunidade para que compositores inéditos possam ouvir suas composições na voz dos "maiorais do rádio": Marlene, Dalva de Oliveira, Jorge Goulart, Carmélia Alves, Blecaute e Linda Batista.
É a saga de um desses compositores inéditos que acompanharemos ao longo do filme. Ananias, interpretado por Luís Delfino, tem sua primeira aparição como um sujeito humilde e persistente, que tenta, em vão, falar com o diretor artístico da rádio e com o cantor Jorge Goulart para vender uma de suas canções. Ele será o protagonista dessa história, cujo paralelo com a trajetória do sambista Espírito da Luz em "Rio, zona norte" me parece inevitável.
Mas aí, como já dito, vem o básico da chanchada: uma desculpa para uma sucessão de números musicais.
Frustrado no trabalho e no casamento, desrespeitado pelos filhos e humilhado pelo patrão e por seu amor platônico, ele acaba sonhando com o suicídio. O sonho se justifica pela sequência (nada sutil) de conselhos que recebeu para que tirasse a própria vida. No sonho, ele toma o veneno que está no banheiro (e que sabemos se tratar de um veneno por estar escrito, como numa cena cômica de "Chaves"), despede-se de sua filha (na cena mais tocante do filme, com uma fotografia incrível), desce o elevador e caminha em direção aos portões de um jardim.
Após os conselhos de um sábio jardineiro (uma espécie de São Pedro nos portões do paraíso), ele decide retomar a sua vida com mais otimismo. Para o espanto de Ananias, tudo começa a dar certo a partir daquele momento. Recebe um abono junto ao salário, seu aluguel é reduzido pela metade, passa a viver uma espécie de relação poliamorosa com a esposa e a secretária do seu patrão (curiosamente, as crianças desaparecem de qualquer sequência do sonho), é promovido a chefe do departamento de felicidade da empresa (na sequência mais patética do filme) e se torna um compositor de sucesso.
Tudo muito fácil, o desejo alcançado se transforma em tédio e aborrecimento. Ananias logo deixa de sentir prazer em compor. Ao despertar, descobre que será pai do quinto filho e passa a tratar a esposa com afeto, mudando radicalmente após seu sonho, o qual teria revelado - numa espécie de epifania moralista-pequeno-burguesa - que a conquista sem esforço não tem valor.
Antes de se entediar com o sucesso, contudo, ainda durante o sonho, temos uma sequência de mais de 20 minutos de musicais. Descobrimos então que a cantora Marlene (então esposa de Luís Delfino) interpretou dois papeis: o seu próprio, como rainha do rádio, e o de Maria Clara, a secretária por quem Ananias era apaixonado. É curiosa a interpretação desses dois papeis, porque, numa determinada sequência, Maria Clara começa a cantar uma música que Ananias acabara de compor (Lata d'água na cabeça), o que faz com que ele decida transformá-la na intérprete de todas as suas canções. Daí em diante, já não sabemos quando Marlene é Marlene, quando ela é Maria Clara. Mas não tem importância, tudo é apenas um pretexto para que seus sonhos estejam recheados de musicais.
Tem um começo muito promissor, mas aí vira o básico da chanchada: uma desculpa para uma sucessão de números musicais. Pelo menos alguns deles são bons.