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  • Conrado

    BANDERSNATCH: A 1984 DE ÉDIPO REI
    (Escrito por mim, Conrado Mpl )

    Aviso: Massivos, massivos SPOILERS. E um copo d'água, minha cara. Minhas meias estão pegando fogo. Vocês não sabem como eu dormi ansioso pra escrever isso aqui, SÉRIO.

    "Agora eles têm a ilusão de livre-arbítrio. Mas sou eu quem decide o final."

    Black Mirror, como sempre, é uma série que tem muito o que falar. Amada por uns, desprezada por outros, contudo, nunca silenciada por ambos os lados, é inclusive usada como bordão para algumas pessoas quando notícias distópicas envolvendo tecnologia surgem na mídia. Eu não considero a melhor série da Netflix, mas tenho que dizer que a ousadia e cinismo apresentados por ela em muito me satisfazem. E Bandersnatch é um misto desse sentimento de escárnio inovativo que me traz um sorriso ao rosto.

    O filme da série não é propriamente uma inovação no sentido mais amplo da palavra. Existem outras obras dentro da própria Netflix que já usaram essa estrutura interativa. E muito antes do serviço de streaming, vários meios, principalmente o dos jogos, ainda mais as Visual Novels japonesas vide Fate/stay night e Tsukihime, usaram a ideia de jogos interativos com diversos finais alternativos. A inovação de Black Mirror propriamente é a forma como essa interação é feita, toda atrelada a um simbolismo inerente a tão discutida dualidade destino e livre-arbítrio.

    A existência ou ausência do livre-arbítrio é uma das questões mais discutidas da filosofia. De São Tomás de Aquino à Nietzsche, passando do existencialismo primevo de Kierkegaard até o ateísta de Sartre e o absurdismo de Albert Camus, praticamente todos os filósofos já se posicionaram de alguma forma sobre o assunto, criando inclusive conceitos relativos a essa eterna dúvida, como a ideia de Amor Fati, o amor ao destino.

    Black Mirror, ao usar esse formato conceitual de escolha no filme, discute e ironiza o tema do livre-arbítrio, centrando tudo na visão tecnológica presente na série, mostrando que por mais que você possa escolher o que vai acontecer, em tese não há verdadeira independência: você pode pegar qualquer maçã, mas precisa ser necessariamente daquela macieira.

    Da mesma forma, algumas escolhas que fazemos no jogo-filme acabam causando o mesmo resultado. Você pode aceitar ou não a droga, mas será drogado não importa sua vontade. Você pode enterrar ou decepar, mas cedo ou tarde vai acabar preso do mesmo jeito. Você pode desenvolver o jogo dentro da empresa, mas logo de cara isso vai impedir que seu jogo seja um sucesso e você vai ter que mudar a opção. Ou seja, você tem e não tem livre-arbítrio, é quase um duplipensamento. Não é a toa que a história se passa em 1984, aquela data quase cabalística para quem conhece o bom e velho George Orwell.

    Para os mais leigos, 1984 é a obra literária mais conhecida de Orwell, uma distopia sobre uma sociedade tecnológica onde a todo momento as pessoas são observadas pela figura do Grande Irmão ou Big Brother para os leitores mais anglicanos. 1984 é uma das mães simbólicas de Black Mirror, obviamente, tanto pelas questões tecnológicas que ambas as obras possuem quanto pelo onipresente sentimento de desespero e paranoia. E os anos 80 per se foram uma época onde houve um grande boom dos videogames, então o filme se passar nesse ano foi unir o útil ao agradável, o simbólico ao concreto.

    O Big Brother do protagonista Stefan somos nós, que delimitamos a todo momento sua capacidade de agir com liberdade. E o nosso Grande Irmão é o próprio filme, que delimita nossas ações de forma a impedir que possamos ser livres quando o assunto é tentar, digamos, ajudar o personagem principal. Quanto mais tentamos ajudar, mais parece que arruinamos a situação. Qualquer tentativa de reconciliar pai e filho parece impossível para o determinismo da Netflix. E falando em destino e relação pai-e-filho, a gente logo pensa em Édipo Rei, o clássico das tragédias gregas.

    Uma breve sinopse: Édipo é o filho de Laio e Jocasta que foi destinado pelos deuses a matar o pai e desposar a mãe. Horrorizados com a profecia do oráculo de Delfos, o marido e esposa decidem matar a criança. Contudo, sem coragem para tal feito, decidem deixar que os deuses decidam o destino do garoto, o abandonando a própria sorte em uma montanha. Não dá outra: ele é encontrado, criado por outra família, cresce, descobre seu destino e se afasta da família adotiva pensando que faria isso com eles, encontra o pai verdadeiro, acaba o matando e se tornando o rei de Tebas, casando assim com a própria mãe e tendo vários filhinhos incestuosos, consumando assim seu amaldiçoado destino.

    Fado, destino, fatalidade. Se existe um assunto que os gregos amavam era isso. Oráculo etimologicamente vem de boca, era a voz dos deuses. Se algo era destinado pelas deidades, não havia escape. Se oráculo é boca, você precisava ter um bom ouvido pra entender o que diziam. Não é a toa que a maioria dos oráculos carrega em si a latente ideia da ausência de livre-arbítrio. A astrologia antes de sofrer com o new-wave era toda fatalista e determinista. Se você não vai se casar, não vai. Se você vai morrer amanhã, vai morrer amanhã. Se vai ganhar na mega-sena, vai ganhar. A palavra "não" era uma impossibilidade. E Édipo é o exemplo mais latente da cultura grega acerca dessa ideia. Uma figura mítica tão invariável ao ponto de se tornar assunto da psicanálise freudiana, o famoso Complexo de Édipo.

    A relação pai-e-filho em Bandersnatch é Édipo Rei purinho. Stefan tem um amor latente pela mãe e de certa forma culpa a si mesmo e ao pai pela morte que a ela foi destinada. Essa angústia que carrega transforma sua relação com o pai em algo repleto de um desprezo muitas vezes reprimido, mas que em vários momentos da trama acaba explodindo, por vezes chegando a limites extremos, como surtos psicóticos notáveis. Ah, psicose, doenças psicológicas, isso também não é de certa forma uma questão que está além do livre-arbítrio?

    Existe uma corrente da filosofia no que se refere ao assunto determinismo que diz que estamos determinados biologicamente a certas coisas e por isso não existe um livre-arbítrio verdadeiro. Se você se apaixona, você está destinado a isso, porque são seus hormônios que estão controlando você e não o contrário. Se quisermos nos aprofundar ainda mais, podemos falar até de filosofia budista aqui: os desejos são a causa do sofrimento humano e a única forma de alcançar a liberdade do Nirvana é se livrar dos desejos, fazendo assim com que saíamos do ciclo de reencarnação do samsara, que de certa forma é um destino,

    Budas à parte, acho que estou indo muito pra fora do ponto: Black Mirror é acima de tudo uma obra sobre a influência das tecnologias na nossa sociedade moderna e um filme como Bandersnatch espelha propriamente a questão do livre-arbítrio na era digital. Nessas horas, é fácil lembrar aquela clássica frase dos familiares: você controla a máquina ou a máquina te controla? Bem, hoje em dia isso é algo bem mais denso do que podemos imaginar. Da maneira como as empresas se aproveitam dos nossos dados para vender e divulgar produtos, de certa forma o destino é algo marcante até mesmo quando estamos vendo vídeos de gato tocando piano no Youtube.

    Como assim? Ora, digamos que você vê uma publicidade acerca de uma guitarra e decide comprar o produto. Você decidiu isso ou você foi "destinado" a comprar a guitarra? Porque se você estava assistindo vídeos sobre guitarras no Youtube e os motores de pesquisa se aproveitaram disso para indicar um possível conteúdo que você teria interesse em comprar, de certa forma você não teve propriamente escolha, porque não coube a você comprar a guitarra, mas sim a publicidade de guitarra que veio até você. Resumindo, até que ponto vai nosso livre-arbítrio quando assistimos vídeos de gato tocando piano no Youtube?

    Tenso, pois é, tenso. E pra mim é nisso que reside a genialidade de Bandersnatch. É um filme interessante pelo que está nas entrelinhas do simbolismo. A partir do momento que você decide assistir, você já não tem mais livre arbítrio, mas somente a ilusão disso. Quando o filme começa com a música RELAX, DON'T DO IT, é como se a própria Netflix brincasse com você, dizendo que a única forma de ter livre-arbítrio assistindo Bandersnatch é não assistindo Bandersnatch. De explodir os miolos, não?

    Mas se tem algo que me fez explodir mesmo foram aqueles finais mais escrachados que quebram a quarta, quinta, sexta, nonagésima parede, misturando o filme com a realidade e deixando tudo ainda mais confuso. Tem horas que o filme parecia até mesmo uma obra do David Lynch onde sonho e realidade se confundem. Acho que o final mais agradável que o pobre Stefan pôde ter foi morrer em meio a consulta na terapia, sonhando que morreu junto da mãe no acidente de metrô.

    Porque olha, o garoto foi destinado a se dar mal. E nós, a impotência de não poder agir.

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  • Luis Carlos
    Luis Carlos

    Opa. E aí, Conrado, beleza? Eu queria saber se tu teria interesse em participar de um grupo no face sobre séries. Eu vi que você curte e tal. É um grupo antigo até. Nós gostamos muito de comentar sobre as séries por lá. Quando puder, dê uma olhada. Vou deixar o link aqui: https://www.facebook.com/groups/cronicasdeseries/

    Abraço!

  • Filmow
    Filmow

    O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!

    Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)

    Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
    Boa sorte! :)

    * Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/

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