Um filme muito maior do que as tímidas 3.6 estrelas que acumula em 27/07/25! Explorando a realidade distópica de Estado totalitário, a obra nos convida a refletir sobre o desejo de ter filhos. Queremos assumir a responsabilidade por criar uma criança ou só queremos performar o cuidado? Realmente compreendemos que o trabalho de cuidado demanda nosso tempo de vida? Seria possível haver um "teste preparatório à maternidade" ou somente a própria experiência de ser mãe que verdadeiramente nos prepara?
À exceção da idiotização e subalternização racista de elementos da cultura negra dos EUA, acredito que, ainda assim, esta obra preserva certo viés de documentário sobre este nosso tempo de nova ascensão do fascismo. Vale à pena como entretenimento e como crítica à atual corrente anti-intelectualista.
Mas que filme mais delicioso! *.* A metalinguagem presente nesta obra a torna muito divertida e a presença do personagem de Yorgos Tsiantoulas cativa os olhos do espectador -- parece que que dá vida a um monumento, Colosso de Rodes. PS. Este filme é no mínimo 3.5, o pessoal do Filmow por vezes é desarrazoado, curiosamente avaliando filmes LGBT.
Belíssima fotografia e ambientação. Atuações parecem caricaturas sedentas por atenção. A trama é miserável de modo que a maioria dos espectadores vão sentir a obra muito CULT, forçada e arrastada, ainda que se reconheça os elementos do folclore estoniano evocados no filme.
Divertido, porém muito fraco: repetitivo, previsível, cansativo, engraçado em alguns momentos, forçado em outros, enredo miserável e quanto à história, bem, essa mandou lembranças.
FILME EMOCIONANTE sobre maternidade, pertencimento e acolhimento! Sabe aquela sensação de perda de tempo após mais um arco narrativo previsível e enfadonho do Universo Marvel? Pois bem, após perder tempo com Deadpool e Wolverine, fui em busca de entretenimento que preenchesse o vazio deixado pela dupla de heróis. The Wild Robot proporcionou uma experiência incrivelmente divertida que aquece o coração e trata sobre dimensões humanas por meio de uma robô e diversos animais. Repleto de alegorias e metáforas lindas sobre cuidado que somente o gênero sic-fi oferece.
De fato, construíram um filme épico com orçamento de uma Coca e pipoca! O filme é emocionante, explorando por meio de Godzila a monstruosidade da destruição nuclear, após as mazelas da II Guerra Mundial.
Vale pela voz sublime de Diana Ross; Vale pela crítica ao Black face; Vale pela releitura positiva de referenciais da negritude; Mais uma vez, vale pelas interpretações apaixonantes de Diana Ross.
Filme representando drag de um modo extremamente caricato, estereotipado e miseravelmente sub-interpretado por héteros sem qualquer vínculo com a comunidade LGBT. As verdadeiras drags são relegadas à breves participações. Enfim, a cara dos anos 90... Contudo, o filme serve de entretenimento, sim, principalmente se for cotejado para considerar a evolução cinematográfica desse segmento social.
Impressionante como o filme condensa grandes dilemas e contradições da hodierna crise institucional em uma simples animação de enredo previsível. A espiral de violência do "nós contras eles, os diferentes" é esmiuçada através de metáforas com as mazelas do mundo moderno. Cercas e muros em favelas, "Build that wall" nos EUA, muralhas em invasões israelenses, discurso de ódio e aversão à alteridade, às outras formas de existência, armas de destruição em massa para "proteção"...
Fotografia imersiva; brindando os espectador com cenas de estética paradoxal, onde há maldade tétrica e beleza poética! Apesar da previsibilidade da narrativa, a história é surpreendentemente visceral. Menção honrosa à atuação apaixonante da “Capra“ (Maia Morgenstern).
Acredito que a intenção do autor ao apresentar dicotomias profundas era, precisamente, tensionar nossa bússola moral. De um lado, apresenta abusos sexuais perpetrados em uma instituição psiquiátrica total, de outro exibe esses abusos com atenuantes (consideração, convergência de desejos). Conduz o espectador ao ápice dicotômico diante da continuidade dessa espiral de abusos: o abusado se torna abusador, mas, por outro lado, o diretor justifica tais abusos romantizando e com a posterior mudança de posição -- a ora vítima se torna volitivamente interessada.
ADVERTÊNCIA: trata-se de um filme difícil por conta de diversas referências da mitologia grega e analogias mais complexas. Convém visitar o Podcast Noites Gregas do Professor Moreno e ouvir ao episódio que trata da Medusa -- sobretudo seu passado estreitamente ligado ao culto religioso, à pureza e ao seu destino cruel e injusto... Menção honrosa à personagem do enfermeiro; simplesmente trouxe às telas uma versão masculina da "mulher Machadiana". Negativamente, a miscelânea de histórias perpassadas por fantasia, confusão entre o real e o imaginário, atrapalham o todo da mensagem crítica da obra. Ademais, o apelo à suposta epifania geral parece assaz infundado, ou muito ancorado em elementos fantasiosos.
Tive a mesma impressão que outros espectadores: impressiona a habilidade da diretora para condensar a miscelânea de mazelas brasileiras em uma trama com núcleos muito bem concatenados. As analogias dramáticas entre "coisa de novela" e a tétrica realidade do trabalho análogo à escravidão tornam esta obra do cinema nacional ainda mais contemporânea -- o passado escravocrata do século xix ainda vive no moderno século XXI. Ademais, doloroso demais a materialização gráfica dos dados acerca do estupro no Brasil: sabe-se que ocorre no seio da família, mas e as crianças fruto dessa violência eivadas por anomalias neurológicas, problemas de desenvolvimento? Soluciona-se com internação manicomial e hipocrisia moral?
Um arauto do cinema! Assombroso o quanto uma história tétrica retratando o Irã se parece tanto com Ocidente! Este filme é a obra prima do diretor Ali Abbasi! A trilha sonora hipnotizante aliada à sonoplastia e à ambientação sombria nos transportam àquela realidade opressora. A crítica que este filme tece contra o regime teocrático e contra o patriarcalismo desarrazoados renderam-lhe banimento no Irã por “desonrar as crenças sagradas”; parece-me o Ocidente vociferando moralismo religioso na esfera política, condenando filmes LGBT e alimentando o mito “all lives matter”.
O filme Holy Spider foi baseado em fatos reais: na sagrada cidade iraniana Mashhad houve 16 assassinatos em série ocorridos entre 2000 e 2001, nos quais profissionais do sexo, mulheres, eram brutalmente estranguladas pelo serial killer “Aranha Assassina”. Mais aterrorizante do que a violência gráfica emoldurada nos enquadramentos impiedosos é evidenciar a ideologia que desumaniza outros corpos, num duelo brutal com a alteridade, em especial, com a diversidade.
Perturbador constatar como a ideologia fascista seduz pessoas comuns — “cidadãos de bem” — a cair numa espiral de violência que deslegitima a autoridade das instituições e do Estado em prol de suas crenças e narrativas. Mais aterrador ainda: matar o fascista não mata o fascismo; seu ideário tóxico pode facilmente contaminar aqueles ainda no verdor da idade… PS. A cena da entrevista com o filho do serial killer contém a reprodução fidedigna das palavras e gestos utilizados pelo menino na vida real.
Triangle of Sadness, de Ruben Östlund, levou a Palma de Ouro e certamente já merece um Oscar! Elitismo, parasitismo, racismo, papéis sociais, machismo, beligerância, poder e corrupção… Com brilhantismo, esta obra condensa de forma expositiva tantas mazelas sociais no microcosmo de um yacht de alto luxo. Desnuda com sarcasmo grandes contradições do sistema capitalista, trazendo à tona sua natureza desarrazoada. Sem apelo à linguagem narrativa de teorizações, este filme ilustra em nível atômico, fundamental, que o motor da sociedade consiste na capacidade de TRABALHAR em prol da coletividade. Contudo, se este é o elemento basilar que sustenta toda a estrutura social, por que manter relações de poder que premiam a inércia, a futilidade, o prevalecimento e a violência contra a própria sociedade?!
SUSPENSE e DRAMA formando amálgama perfeito neste filme -- de longe, uma das melhores adaptações da obra de Stephen King! Curioso observarmos que, embora o filme Dolores Claiborne tenha quase 30 anos, as mazelas sociais ali problematizadas ainda estão bem vívidas. Em suma, enquanto as telas de cinema revisitam religiosamente fábulas de super-heróis, o espectador mais afeito à realidade tangível pode encontrar refúgio aqui.
DRAMA -- O filme You won't be alone consiste em um DRAMA existencial cuja ambientação vale-se da atmosfera de terror através do folclore de bruxaria. Então não pense que se trata de um filme para dar medo ou instigar terror psicológico; a proposta ancora-se em uma reflexão poética sobre a condição humana, amor, gênero, propósito existencial. Estando aberto a essa narrativa, o espectador poderá facilmente traçar analogias entre questões da vida no século XIX e a manutenção destas no século XXI: o papel da mulher na sociedade; o suposto "dever-ser" puritano imposto à mulher; as liberdades do homem cis condicionadas ao machismo; como lidamos com a alteridade -- o outro enquanto nosso inferno, ou o outro enquanto possibilidade de significar nosso imanente vazio existencial...
O filme retrata muito bem dilemas existenciais da geração dita cringe realizada materialmente: o que fazer depois de se atingir o ápice do sucesso tangível? Será que precisamos de um amor romântico para dar propósito à vida? Será que uma vida de culto ao individualismo é suficiente, a despeito do vazio existencial? PS. Talvez isso ficasse mais evidente se em 2011 já houvesse Instagram e redes sociais promovendo ideais de sucesso/realização com a força atual (2022).
Perturbador sem apelar para agonia de ferimentos macabros, história bem construída com eventos bem encadeados. Olha, surpreendeu bastante para um filme do gênero slasher! No filme X, tem-se a metalinguagem sobre a realização de uma obra cinematográfica, além de invocar a analogia brilhante entre a realidade aparentemente abismal das personagens. De fato, vê-se o futuro repetir o passado...
Fotografia magnífica do barco que navegava pelo Nilo. Contudo, tenho certeza que os ouvintes assíduos do Podcast -- Não Inviabilize -- resolveram facilmente o mistério...
A Sétima Arte não fez ouvidos moucos à emergência climática como fora na patética COP 21. Vê-se que, ao ganhar recursos e espaço para criar e se expressar livremente, sem medo de desagradar autoridades e patrocinadores, o Cinema nos proporciona MUITO em matéria cultural! De longe, Não Olhe para Cima figura no estreito rol dos melhores filmes que assisti em 2021. Consiste-se em uma alegoria caricatural que retrata fielmente os tempos hodiernos:
1- ascensão do populismo de direita (bolsonarismo e trumpismo); 2- negacionismo (antivacina, conspiracionistas, anti-intelectualismo); 3- mediocridade dos veículos midiáticos na formação de opinião; 4- alienação massiva ( “POP issues”, “trends” estúpidas); 5- sedução por falácias e lendas urbanas neoliberais (grandes capitalistas mitigando as mazelas do mundo através da exploração do mercado); 6- o patético endeusamento da figura dos bilionários — como se riqueza obscena viesse necessariamente acompanhada de alto parâmetro cultural, intelectual e altruísmo digno de super-herói rico e filantropo; 7- Estados a serviço dos cerca de 0,00003% da população global (os bilionários), os quais cooptam todo o aparato da máquina pública estatal, incluindo a vontade nacional, e o utilizam para perpetuar a """lógica""" de acúmulo infinito; 8- a total leniência e indiferença das autoridades públicas frente à hodierna emergência climática (representada pelo cometa Debiasky) tornam ululantes a necessidade de mudanças estruturais nas instituições do Estado — mudanças pautadas na efetivação de políticas públicas que garantam a perpetuação da civilização e do próprio Estado a longo prazo. 9- frente às crises climáticas e catástrofes ambientais, o 1% mais rico do mundo pensa que conservará seus confortos e privilégios em meio às mazelas que se avizinham; permanecendo cruelmente indiferentes. Contudo, trata-se de ledo engano, somente os super-ricos e autoridades que vivem além das possibilidades certamente vão preservar suas prerrogativas como sempre fizeram — locupletando-se do aparelho estatal e, de forma perversa, explorando o trabalho alheio.
RE-CO-MEN-DA-DÍ-SSI-MO! O documentário conta com a direção incrível de Leandra Leal. Não é demandado do espectador a atenção aguçada e a solenidade que normalmente os documentários requerem. Esta obra costura diversas histórias de maneira fluida e vívida, de fato, Leandra Leal trouxe um pouco do gene do teatro para moldura cinematográfica.
Além da maravilhosa direção, o conteúdo do documentário consiste em recorte histórico importantíssimo. Em se tratando de transformismo, travestis, trans, todos já ouviram a suposta verdade -- "no meu tempo não tinha isso". Pois bem, Leandra Leal nos mostra o quanto tal afirmação é falaciosa. As divas, transformistas, travestis sempre existiram, mesmo "no tempo" dos nossos avós! Resistiram à rigorosa repressão da ditadura, ao preconceito, à indisposição dos veículos midiáticos, à escassez de espaço no mercado de trabalho e, principalmente, resistiram à INVISIBILIZAÇÃO. Divinamente, elas triunfaram com dignidade num mundo que as via como meros objetos de chacota, curiosidade e prazer.
A Avaliação
3.5 156 Assista AgoraUm filme muito maior do que as tímidas 3.6 estrelas que acumula em 27/07/25! Explorando a realidade distópica de Estado totalitário, a obra nos convida a refletir sobre o desejo de ter filhos. Queremos assumir a responsabilidade por criar uma criança ou só queremos performar o cuidado? Realmente compreendemos que o trabalho de cuidado demanda nosso tempo de vida? Seria possível haver um "teste preparatório à maternidade" ou somente a própria experiência de ser mãe que verdadeiramente nos prepara?
Idiocracia
3.1 632À exceção da idiotização e subalternização racista de elementos da cultura negra dos EUA, acredito que, ainda assim, esta obra preserva certo viés de documentário sobre este nosso tempo de nova ascensão do fascismo. Vale à pena como entretenimento e como crítica à atual corrente anti-intelectualista.
Nosso Verão Daria Um Filme
2.9 19 Assista AgoraMas que filme mais delicioso! *.* A metalinguagem presente nesta obra a torna muito divertida e a presença do personagem de Yorgos Tsiantoulas cativa os olhos do espectador -- parece que que dá vida a um monumento, Colosso de Rodes. PS. Este filme é no mínimo 3.5, o pessoal do Filmow por vezes é desarrazoado, curiosamente avaliando filmes LGBT.
Gladiador II
3.3 575 Assista AgoraO que o filme não entrega em matéria de roteiro, entrega em fotografia, ação e figurinos riquíssimos. PS. Pingando testosterona do Paul Mescal.
November
3.8 86Belíssima fotografia e ambientação. Atuações parecem caricaturas sedentas por atenção. A trama é miserável de modo que a maioria dos espectadores vão sentir a obra muito CULT, forçada e arrastada, ainda que se reconheça os elementos do folclore estoniano evocados no filme.
Deadpool & Wolverine
3.7 923 Assista AgoraDivertido, porém muito fraco: repetitivo, previsível, cansativo, engraçado em alguns momentos, forçado em outros, enredo miserável e quanto à história, bem, essa mandou lembranças.
Robô Selvagem
4.3 563FILME EMOCIONANTE sobre maternidade, pertencimento e acolhimento! Sabe aquela sensação de perda de tempo após mais um arco narrativo previsível e enfadonho do Universo Marvel? Pois bem, após perder tempo com Deadpool e Wolverine, fui em busca de entretenimento que preenchesse o vazio deixado pela dupla de heróis. The Wild Robot proporcionou uma experiência incrivelmente divertida que aquece o coração e trata sobre dimensões humanas por meio de uma robô e diversos animais. Repleto de alegorias e metáforas lindas sobre cuidado que somente o gênero sic-fi oferece.
Godzilla: Minus One
4.0 565De fato, construíram um filme épico com orçamento de uma Coca e pipoca! O filme é emocionante, explorando por meio de Godzila a monstruosidade da destruição nuclear, após as mazelas da II Guerra Mundial.
O Mágico Inesquecível
3.4 65Vale pela voz sublime de Diana Ross;
Vale pela crítica ao Black face;
Vale pela releitura positiva de referenciais da negritude;
Mais uma vez, vale pelas interpretações apaixonantes de Diana Ross.
Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar
3.8 361 Assista AgoraFilme representando drag de um modo extremamente caricato, estereotipado e miseravelmente sub-interpretado por héteros sem qualquer vínculo com a comunidade LGBT. As verdadeiras drags são relegadas à breves participações. Enfim, a cara dos anos 90... Contudo, o filme serve de entretenimento, sim, principalmente se for cotejado para considerar a evolução cinematográfica desse segmento social.
Nimona
4.1 248 Assista AgoraImpressionante como o filme condensa grandes dilemas e contradições da hodierna crise institucional em uma simples animação de enredo previsível. A espiral de violência do "nós contras eles, os diferentes" é esmiuçada através de metáforas com as mazelas do mundo moderno. Cercas e muros em favelas, "Build that wall" nos EUA, muralhas em invasões israelenses, discurso de ódio e aversão à alteridade, às outras formas de existência, armas de destruição em massa para "proteção"...
The Goat and Her Three Kids
3.5 16Fotografia imersiva; brindando os espectador com cenas de estética paradoxal, onde há maldade tétrica e beleza poética! Apesar da previsibilidade da narrativa, a história é surpreendentemente visceral. Menção honrosa à atuação apaixonante da “Capra“ (Maia Morgenstern).
Ata-me!
3.7 561Acredito que a intenção do autor ao apresentar dicotomias profundas era, precisamente, tensionar nossa bússola moral. De um lado, apresenta abusos sexuais perpetrados em uma instituição psiquiátrica total, de outro exibe esses abusos com atenuantes (consideração, convergência de desejos). Conduz o espectador ao ápice dicotômico diante da continuidade dessa espiral de abusos: o abusado se torna abusador, mas, por outro lado, o diretor justifica tais abusos romantizando e com a posterior mudança de posição -- a ora vítima se torna volitivamente interessada.
Medusa
3.4 64 Assista AgoraADVERTÊNCIA: trata-se de um filme difícil por conta de diversas referências da mitologia grega e analogias mais complexas. Convém visitar o Podcast Noites Gregas do Professor Moreno e ouvir ao episódio que trata da Medusa -- sobretudo seu passado estreitamente ligado ao culto religioso, à pureza e ao seu destino cruel e injusto...
Menção honrosa à personagem do enfermeiro; simplesmente trouxe às telas uma versão masculina da "mulher Machadiana".
Negativamente, a miscelânea de histórias perpassadas por fantasia, confusão entre o real e o imaginário, atrapalham o todo da mensagem crítica da obra. Ademais, o apelo à suposta epifania geral parece assaz infundado, ou muito ancorado em elementos fantasiosos.
Fogaréu
3.4 24Tive a mesma impressão que outros espectadores: impressiona a habilidade da diretora para condensar a miscelânea de mazelas brasileiras em uma trama com núcleos muito bem concatenados. As analogias dramáticas entre "coisa de novela" e a tétrica realidade do trabalho análogo à escravidão tornam esta obra do cinema nacional ainda mais contemporânea -- o passado escravocrata do século xix ainda vive no moderno século XXI. Ademais, doloroso demais a materialização gráfica dos dados acerca do estupro no Brasil: sabe-se que ocorre no seio da família, mas e as crianças fruto dessa violência eivadas por anomalias neurológicas, problemas de desenvolvimento? Soluciona-se com internação manicomial e hipocrisia moral?
Holy Spider
4.0 153 Assista AgoraUm arauto do cinema! Assombroso o quanto uma história tétrica retratando o Irã se parece tanto com Ocidente! Este filme é a obra prima do diretor Ali Abbasi! A trilha sonora hipnotizante aliada à sonoplastia e à ambientação sombria nos transportam àquela realidade opressora. A crítica que este filme tece contra o regime teocrático e contra o patriarcalismo desarrazoados renderam-lhe banimento no Irã por “desonrar as crenças sagradas”; parece-me o Ocidente vociferando moralismo religioso na esfera política, condenando filmes LGBT e alimentando o mito “all lives matter”.
O filme Holy Spider foi baseado em fatos reais: na sagrada cidade iraniana Mashhad houve 16 assassinatos em série ocorridos entre 2000 e 2001, nos quais profissionais do sexo, mulheres, eram brutalmente estranguladas pelo serial killer “Aranha Assassina”. Mais aterrorizante do que a violência gráfica emoldurada nos enquadramentos impiedosos é evidenciar a ideologia que desumaniza outros corpos, num duelo brutal com a alteridade, em especial, com a diversidade.
Perturbador constatar como a ideologia fascista seduz pessoas comuns — “cidadãos de bem” — a cair numa espiral de violência que deslegitima a autoridade das instituições e do Estado em prol de suas crenças e narrativas. Mais aterrador ainda: matar o fascista não mata o fascismo; seu ideário tóxico pode facilmente contaminar aqueles ainda no verdor da idade…
PS. A cena da entrevista com o filho do serial killer contém a reprodução fidedigna das palavras e gestos utilizados pelo menino na vida real.
Triângulo da Tristeza
3.6 777 Assista AgoraTriangle of Sadness, de Ruben Östlund, levou a Palma de Ouro e certamente já merece um Oscar! Elitismo, parasitismo, racismo, papéis sociais, machismo, beligerância, poder e corrupção… Com brilhantismo, esta obra condensa de forma expositiva tantas mazelas sociais no microcosmo de um yacht de alto luxo. Desnuda com sarcasmo grandes contradições do sistema capitalista, trazendo à tona sua natureza desarrazoada. Sem apelo à linguagem narrativa de teorizações, este filme ilustra em nível atômico, fundamental, que o motor da sociedade consiste na capacidade de TRABALHAR em prol da coletividade. Contudo, se este é o elemento basilar que sustenta toda a estrutura social, por que manter relações de poder que premiam a inércia, a futilidade, o prevalecimento e a violência contra a própria sociedade?!
Eclipse Total
4.0 193 Assista AgoraSUSPENSE e DRAMA formando amálgama perfeito neste filme -- de longe, uma das melhores adaptações da obra de Stephen King! Curioso observarmos que, embora o filme Dolores Claiborne tenha quase 30 anos, as mazelas sociais ali problematizadas ainda estão bem vívidas. Em suma, enquanto as telas de cinema revisitam religiosamente fábulas de super-heróis, o espectador mais afeito à realidade tangível pode encontrar refúgio aqui.
Você Não Estará Só
3.6 138 Assista AgoraDRAMA -- O filme You won't be alone consiste em um DRAMA existencial cuja ambientação vale-se da atmosfera de terror através do folclore de bruxaria. Então não pense que se trata de um filme para dar medo ou instigar terror psicológico; a proposta ancora-se em uma reflexão poética sobre a condição humana, amor, gênero, propósito existencial. Estando aberto a essa narrativa, o espectador poderá facilmente traçar analogias entre questões da vida no século XIX e a manutenção destas no século XXI: o papel da mulher na sociedade; o suposto "dever-ser" puritano imposto à mulher; as liberdades do homem cis condicionadas ao machismo; como lidamos com a alteridade -- o outro enquanto nosso inferno, ou o outro enquanto possibilidade de significar nosso imanente vazio existencial...
Jovens Adultos
3.0 876 Assista AgoraO filme retrata muito bem dilemas existenciais da geração dita cringe realizada materialmente: o que fazer depois de se atingir o ápice do sucesso tangível? Será que precisamos de um amor romântico para dar propósito à vida? Será que uma vida de culto ao individualismo é suficiente, a despeito do vazio existencial?
PS. Talvez isso ficasse mais evidente se em 2011 já houvesse Instagram e redes sociais promovendo ideais de sucesso/realização com a força atual (2022).
X: A Marca da Morte
3.4 1,3K Assista AgoraPerturbador sem apelar para agonia de ferimentos macabros, história bem construída com eventos bem encadeados. Olha, surpreendeu bastante para um filme do gênero slasher! No filme X, tem-se a metalinguagem sobre a realização de uma obra cinematográfica, além de invocar a analogia brilhante entre a realidade aparentemente abismal das personagens. De fato, vê-se o futuro repetir o passado...
Morte no Nilo
3.1 372 Assista AgoraFotografia magnífica do barco que navegava pelo Nilo. Contudo, tenho certeza que os ouvintes assíduos do Podcast -- Não Inviabilize -- resolveram facilmente o mistério...
Não Olhe para Cima
3.7 1,9K Assista AgoraA Sétima Arte não fez ouvidos moucos à emergência climática como fora na patética COP 21. Vê-se que, ao ganhar recursos e espaço para criar e se expressar livremente, sem medo de desagradar autoridades e patrocinadores, o Cinema nos proporciona MUITO em matéria cultural!
De longe, Não Olhe para Cima figura no estreito rol dos melhores filmes que assisti em 2021. Consiste-se em uma alegoria caricatural que retrata fielmente os tempos hodiernos:
1- ascensão do populismo de direita (bolsonarismo e trumpismo);
2- negacionismo (antivacina, conspiracionistas, anti-intelectualismo);
3- mediocridade dos veículos midiáticos na formação de opinião;
4- alienação massiva ( “POP issues”, “trends” estúpidas);
5- sedução por falácias e lendas urbanas neoliberais (grandes capitalistas mitigando as mazelas do mundo através da exploração do mercado);
6- o patético endeusamento da figura dos bilionários — como se riqueza obscena viesse necessariamente acompanhada de alto parâmetro cultural, intelectual e altruísmo digno de super-herói rico e filantropo;
7- Estados a serviço dos cerca de 0,00003% da população global (os bilionários), os quais cooptam todo o aparato da máquina pública estatal, incluindo a vontade nacional, e o utilizam para perpetuar a """lógica""" de acúmulo infinito;
8- a total leniência e indiferença das autoridades públicas frente à hodierna emergência climática (representada pelo cometa Debiasky) tornam ululantes a necessidade de mudanças estruturais nas instituições do Estado — mudanças pautadas na efetivação de políticas públicas que garantam a perpetuação da civilização e do próprio Estado a longo prazo.
9- frente às crises climáticas e catástrofes ambientais, o 1% mais rico do mundo pensa que conservará seus confortos e privilégios em meio às mazelas que se avizinham; permanecendo cruelmente indiferentes. Contudo, trata-se de ledo engano, somente os super-ricos e autoridades que vivem além das possibilidades certamente vão preservar suas prerrogativas como sempre fizeram — locupletando-se do aparelho estatal e, de forma perversa, explorando o trabalho alheio.
Divinas Divas
4.3 136RE-CO-MEN-DA-DÍ-SSI-MO! O documentário conta com a direção incrível de Leandra Leal. Não é demandado do espectador a atenção aguçada e a solenidade que normalmente os documentários requerem. Esta obra costura diversas histórias de maneira fluida e vívida, de fato, Leandra Leal trouxe um pouco do gene do teatro para moldura cinematográfica.
Além da maravilhosa direção, o conteúdo do documentário consiste em recorte histórico importantíssimo. Em se tratando de transformismo, travestis, trans, todos já ouviram a suposta verdade -- "no meu tempo não tinha isso". Pois bem, Leandra Leal nos mostra o quanto tal afirmação é falaciosa. As divas, transformistas, travestis sempre existiram, mesmo "no tempo" dos nossos avós! Resistiram à rigorosa repressão da ditadura, ao preconceito, à indisposição dos veículos midiáticos, à escassez de espaço no mercado de trabalho e, principalmente, resistiram à INVISIBILIZAÇÃO. Divinamente, elas triunfaram com dignidade num mundo que as via como meros objetos de chacota, curiosidade e prazer.