Nós temos uma necessidade geral de classificar as coisas, de estereotipar tudo, de encaixar toda nossa vida em um molde. É completamente compreensível: tudo é tão difícil, então porque não simplificar as coisas? Pena que a vida não é tão simples assim. É engraçado que eu não consiga classificar Toda forma de amor nem falar com precisão do filme porque justamente isso o tema central do filme: a nossa falha ao querer saber tudo. Alguns meses depois da morte de sua esposa Hal “sai do armário”. Tudo parece ótimo: ele participa de grupos para direitos civis dos homossexuais, arruma um namorado e não enfrenta nenhuma resistência do único filho, Oliver. Pois é, uma parte das pessoas que assistiu Toda forma de amor meio que quebrou a cara aqui: o filme não é sobre a aceitação do filho a homossexualidade do pai. Oliver é bastante tranqüilo com isso – sua preocupação se resume a felicidade da mãe, agora questionada por ter sido casada durante décadas com um homem que não a desejava. Mas Hal logo descobre ter câncer no estágio quatro (não há estágio cinco) e, decepcionando outros tantos espectadores, Toda forma de amor não é um filme sobre a luta forte desse homem pela a sua vida, nem dele aproveitando seus últimos momentos: sabemos desde o início que o pai de Oliver está morto, quando ele encontra-se com Anna, uma moça pela qual o “solteirão” de trinta e tantos anos se apaixona. A mistura dessas histórias, contadas em forma de flashbacks, podem parecer algo extremamente piegas e emotivo, mas não é. Se Toda forma de amor fosse um livro eu diria que ele é um romance de formação, romance de formação sobre um homem (Oliver) que tem que lidar com diversas situações difíceis na vida – como todo mundo. No caminho, ele destrói algumas das premissas sobre si mesmo – aquelas frasezinhas feitas e suposições que inventamos na necessidade de nos entender. Não sou a maior fã do gênero romance pelo mesmo estar demais infiltrado nos livros que leio, mas consegui não rolar os olhos uma vez sequer em Toda forma de amor – um bom sinal de falta de pieguice. Enfim, Oliver tem um olhar fantástico sobre tudo, e sendo ele o narrador, é tal olhar que nos acompanha. Geralmente minhas resenhas tem o dobro desse tamanho, mas não há mais nada que eu possa falar sobre Toda forma de amor além de um ASSISTAM bem grande. Ah, deixem me corrigir a afirmação acima: ainda bem que a vida não é tão simples assim. Ainda bem. Gostou do post? Então acesse meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/
Acabei de chegar do cinema onde assisti com minha irmã Universidade de Monstros, a prequel para o muito famoso Monstros S/A. Adoro assistir animações no cinema por um motivo: o clima em geral é tão feliz (e/ou emocionante) que não consigo me incomodar muito com os freqüentadores extremamente mal-educados, que acham que conversar, atender ao telefone (“to no cinema, cara!!”) ou narrar a história (“aposto que agora ele vai abrir a porta! Abriu! Não disse?”, “Olha o zumbi ali! Não, faz silêncio, idiota!”) sejam boas idéias. Mas seja em casa ou seja no multiplex local, uma coisa é mais do que certa: as animações que assisti recentemente (sobretudo as da Pixar) tem me deixado com uma sensação incrível de vazio. Sim, vazio. Assim como na literatura infanto-juvenil, os desenhos animados (feitos, supostamente, para crianças) são algumas das obras de ficção que mais admiro. Como é possível colocar coisas e ideias tão complexas em algo que até mesmo alguém nas fases mais primárias do desenvolvimento consegue entender? E mais: sem subestimá-los, explicando tim tim por tim tim? Segundo o cineasta dos brilhantes Wall-E e Toy Story nessa palestra que nunca me canso de assistir, o segredo para uma boa história está no princípio mais básico da humanidade: a empatia. Faça com que eu me importe com os personagens – mesmo se for para torcer que ele quebre a cara – e kaboom! Temos uma história de sucesso quase garantido. Cinquenta tons de cinza não vendeu por causa de Christian Grey ou por tratar de um tema “tabu”, e sim porque Anastasia Steele é tão genérica que qualquer leitora destreinada se identificaria com a moça. Eu não sou você, mas poderia ser. Já me senti desajeitada/deslocada/tanto faz um dia também. Não digo que não liguei para os rumos de Sullivan ou Mike em Universidade de Monstros – até porque nós temos um passado juntos que me impediria de tal heresia – mas não houve aquela magia, aquela ligação, aquele desespero que me fez, anteriormente, querer entrar na telinha e resolver as coisas para os que estavam lá dentro. A fórmula usada foi a mesma, a qualidade “técnica” só melhorou, mas não adianta. Não há o respeito ao princípio de Walt Disney de uma lágrima a cada gargalhada. O enredo de Universidade de Monstros é, como esperado, razoavelmente simples: regredimos alguns anos no tempo para ver Mike, o “olho verde”, entrando na Universidade de Monstros, uma muito respeitada instituição de ensino. Assim como o enorme e até então desconhecido Sullivan, Mike se matricula no curso de Sustos, enfrentando uma enorme descrença de todos (inclusive da assustadora coordenadora do curso) por não ser “assustador o suficiente”. Mike se esforça e é o aluno mais aplicado (talvez de toda a Universidade) mas não consegue ser o suficiente. O mesmo acontece com Sullivan, mas por um motivo diferente: sua aparência e histórico familiar (o seu pai é um Assutador bem famoso) ele não vê a necessidade de se esforçar em suas matérias. Os dois são logos expulsos do curso, e se vêem presos entre duas opções: ou continuar na muito entediante carreira de Engenharia de Cilindros ou se unir a um grupo de doces “desajeitados” de uma Fraternidade e ganhar uma competição de sustos, provando assim a coordenadora que a expulsão dos dois foi um erro. Sim, o enredo não é inovador – mas se você pensar bem, nem mesmo o do maravilhoso Wall-E ou do emocionante Up! Altas aventuras é. Sim, eu dei risada e chorei um pouco, além de adorar como os desafios foram espaçados ao longo do filme, mas faltou aquela coisa inominável, que separa o bom do fantástico. O mesmo que faltou em Valente, o mesmo que parece faltar em todo filme da Pixar nos últimos tempos. Onde está aquela sensação de maravilhamento que era garantida assim que eu colocava o pé no cinema? Pixar, seus verdadeiros monstrinhos são seus espectadores – exigentes como um chef francês, querem uma sensação de dejá-vu ao entrar no cinema. Sensação que, infelizmente, não está vindo mais. Gostou da resenha? Então não deixe de passar no meu blog distopicamente.blogspot.com pra saber das novidades!
Kevin já nasceu estranho. Desde o berço, a diferença entre seu comportamento frente à mãe Eva e frente ao pai Franklin (que se estende ao resto da humanidade) é enorme: com ela, um pesadelo – é marcante quando Eva prefere o barulho de uma furadeira ao choro insistente do filho. Com ele, um sonho, comportado e extremamente inteligente. Os anos passam e a coisa piora: o que podíamos denominar de mal-criação persistente vira pura maldade. Como vários psicopatas mirins, as vítimas de Kevin são variadas e seu gosto pela dor (o bichinho de estimação de sua irmã não dura quase nada) é óbvio – mas seu principal alvo não deixa de ser sua mãe. Precisamos falar sobre o Kevin é contado de forma completamente não-linear, com flashbacks da vida de Eva com seu pequeno algoz. É impossível, aliás, não sentir compaixão por essa mulher: toda culpa dos atos do filho cai sobre seus ombros, fazendo-a ser completamente isolada (e diariamente agredida) na cidadezinha onde foi morar – já que, segundo Franklin, o pequeno Kevin precisava de um lugar mais saudável para crescer do que a poluída Nova York. Dizer que Eva foi a culpada pelos atos de Kevin, aliás, parece não ser regra somente no mundo da ficção: quase todas as resenhas que li faziam o mesmo. Ah, peraí! A educação doméstica é sim determinante para o caráter, mas alguns simplesmente são incontroláveis – como Kevin. Eva erra sim, e é bem óbvio que ela muitas vezes deseja não ter aberto mão de sua carreira e sua vida em Nova York para criar o filho – mas culpá-la é não se esforçar um milímetro para se por em seu lugar, sentir o seu sofrimento. Precisamos falar sobre o Kevin é fantástico de forma arrebatadora. Não temos um minuto de sossego: logo quando pensamos que tudo vai se acabar, que Kevin já passou dos limites, um elemento novo é introduzido. Como disse acima, o filme é não-linear – algo perigoso, mais fantástico se der certo e for compreensível para o espectador. E Precisamos falar sobre o Kevin conseguiu isso. Ezra Miller (Kevin) e Tilda Swinton (Eva) não poderiam ter feito melhor seus respectivos papéis: a dissimulação e falta de emoções do primeiro e o desespero (contido, claro – lembremos que para todos os outros, Kevin é um anjinho) da segunda foram perfeitamente encarnados por seus interpretes. Quer convencer alguém a não ter filhos? Simples: faça com que a pessoa assista a esse filme. Só a possibilidade de passar pelo que Eva passa já é assustadora demais. Ei, gostou da resenha? Então por favor acesse meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ para mais conteúdo sobre filmes, livros e séries :D
Quero conhecer – e não falo no sentido turístico superficial, embora este seja o caminho mais fácil – muitos lugares (talvez seja isso a razão pela qual eu leia tanto: que maneira melhor de desbravar novos mundos sem sair de debaixo do meu edredom?). Todo lugar onde eu possa encontrar algo diferente do que tenho no meu quintal (o que pode ser, às vezes, meu próprio quintal) – não importa se a um ou dez mil quilômetros de distância – me encanta. Outros, porém, exercem um fascínio maior, como se sua personificação me chamasse com uma voz atraente, me ditando uma lista de coisas que perco a cada segundo que passo sem ir para lá. No topo dessa seleta lista, está a China. Infelizmente, meu fascínio por esse país é tão grande quanto minha ignorância sobre ele – coisa que venho tentando mudar. Uma surpresa boa é, portanto, encontrar entre os DVDs comprados por minha mãe o filme chinês Nenhum a menos – que me encantou assim como seu país de origem. Gao é professor de uma escola primária em um povoado isolado na China, onde giz é luxo. Mesmo com todas as dificuldades, Gao ama sua profissão, tentando ao máximo manter seus alunos – na maioria, filhos de camponeses pobres – na escola e aprendendo. Quando sua mãe adoece, ele precisa viajar por um mês – mas com quem deixar seus pupilos? A única pessoa disposta a aceitar a dura tarefa de substituí-lo é Wei Minzhi, uma camponesa de treze anos que cursou apenas o primário. Gao então faz uma promessa a Wei: caso o índice de evasão fosse zero, ele lhe daria um extra do seu próprio parco salário. Nenhum a menos. É claro que não é fácil: só para começar, Wei não sabe fazer mais nada além de copiar lições e cantar uma única cantiga popular. Seus alunos – trinta crianças de diversas idades cheias de energia – logo se cansam dessa mesmice. Para completar, uma das garotinhas – que corre dez quilômetros por dia – é levada até a cidade para puder treinar corrida em uma escola maior – a excelência nos esportes é bastante importante na China desde Mao. Acaba acontecendo a mesma coisa com Zhang – o “problemático” da classe – só que por um motivo diferente: por ser muito pobre (seu pai morreu jovem e sua mãe é bastante doente) ele precisa se mudar para a cidade para procurar emprego. Decidida a entregar a escola com o máximo de alunos possível, a garota então parte para a cidade grande – com alguma ajuda de seus estudantes – a fim de achar Zhang. Para aqueles que preferem filmes de ação de Holywood, Nenhum a menos é um ótimo sonífero, seguindo o ritmo quase documental do cinema não-mainstream. Pensei que o filme fosse se propor a discussões maiores (sobre evasão escolar, por exemplo) mas não é isso que acontece: o enredo é bastante simples. Como filme, Nenhum a menos é o que é: uma garota de treze anos, tentando encontrar um dos meninos de quem deveria “tomar conta” em uma cidade gigante – todas as outras abstrações e debates ficam por conta do espectador. Aliás, é a simplicidade que torna o filme fantástico. Os diálogos são somente o absolutamente necessário, sem floreios ou pretensões – não que eu não goste desse último, mas o diferente muitas vezes é bom. Os cenários são bem simples: o vilarejo calmo e isolado nas montanhas e a cidade, lotada e fervilhante – dois dos milhares de contrastes dessa misteriosa e fascinante terra chamada China. Nenhum a menos é um filme lindo. Destruiu todas as expectativas, e as construiu de volta com algo bem melhor – e todo cinéfilo sabe como é bom quando isso acontece. Ei, gostou da resenha? Então por favor acesse o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais por lá :D
A fertilidade humana, no mundo do filme Children of Men, não passa de uma lembrança dolorosa: o último bebê nasceu há pouco mais de dezoito anos e quatro meses e, desde então, nenhuma mulher engravidou. Os cientistas dos mais avançados centros de estudos médicos tentam entender o que aconteceu, mas não parece haver explicação plausível. Como esperado, o desespero toma conta da humanidade, e somente alguns países – geralmente os mais desenvolvidos, usando-se de forte poder militar e autoritarismo – conseguiram manter seus prédios de pé e seus cidadãos vivos – bom, ao menos literalmente vivos – metaforicamente, as pessoas morreram com o choro do último bebê, os sons das últimas cantigas de roda, algo tão forte ao ponto de tornar necessária a distribuição de um kit suicídio, o Quietus, incluído na ração do governo assim como pasta de dente e biscoitos. Theo não liga muito para tudo isso – bom, pelo menos na medida do possível: é difícil ignorar os ataques terroristas de organizações com várias bandeiras, as “jaulas” onde os imigrantes ilegais (fugindo de conflitos devastadores em seus países) foram postos e as lagrimas de seus colegas pelo Bebê Diego – o ser humano mais jovem do mundo – morto recentemente por um fã. A apatia geral de Theo quanto a vida é impressionante, e é isso que cria um fascínio quanto ao personagem – quem é aquele homem que não parece se importar com nada em meio ao caos? Mas, precisando de dinheiro, Theo aceita trabalhar para o grupo Fish – que luta por melhores condições aos imigrantes e do qual sua ex-mulher faz parte. Sua tarefa é ajudar a levar Kee,uma jovem fugitiva, até o litoral – mesmo as fronteiras intermunicipais estão fechadas – mas a aparentemente simples missão se complica por um simples fato: Kee está em estado avançado de gravidez. Repentinamente, tudo muda, e se torna objetivo do antes apático Theo levá-la em segurança até o navio do Projeto Humano, que irá protegê-la de governos tiranos e grupos que querem usar o seu bebê como bandeira. O filme é fantástico: há muito tempo eu não via nada que balanceasse tão bem ação, reflexão e emoção. Children of Men cutuca algumas feridas e curiosamente nenhuma delas tem relação direta com a infertilidade, e sim com suas conseqüências. Como, por exemplo, o fato de que sempre nos voltamos ao lado mais “radical” da coisa em situações ruins – é só ver o crescimento de partidos extremistas em época de crise econômica. As religiões que surgem no filme, por exemplo, ao invés de utilizarem os velhos métodos para o conforto de seus fieis, os transformam em verdadeiros mártires, fazendo com que carreguem “o peso do mundo” nas costas. A imigração é outro tema recorrente: enquanto milhares de imigrantes são expulsos de suas pátrias adotivas de maneira desumana na atualidade, Children of Men faz sua versão distópica, nos apresentando uma situação tão crítica que cidades inteiras são transformadas em campos de refugiados para ilegais. O clima de perseguição é completo: os anúncios alienantes do governo – presentes em cada segundo do dia de seus cidadãos – lembram que alimentar, contratar ou ajudar imigrantes é igual a alimentar, contratar e ajudar terroristas – ironicamente, a maior parte dos “terroristas” do grupo Fish são britânicos. São tantos temas, referências e críticas feitos por Children of Men que refleti por algum tempo se não foi ambicioso demais – são só duas horas de filme! Contudo, cheguei a conclusão que não: de certa forma, sem os flashes do que se tornou a vida em sociedade – que dão curiosidade e vontade de que estes fossem melhor desenvolvidos; ainda que tal feito seja literalmente impossível – haveria o sentimento de estarmos diante de algo incompleto. Children of Men partiu, esfarelou meu coração em mil pedaços, colando-o de volta com pura esperança. Estou ansiosa quanto a ler o livro do qual o filme foi adaptado – afinal, todo bookaholic sabe o quão errado está o ditado que diz que uma imagem vale mais do que mil palavras. Gostou da resenha? Então por favor acesse meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ para mais conteúdo sobre filmes, livros e séries :)
Depois de uma terceira guerra mundial, há um consenso de que o mundo não suportaria uma quarta – para tal, na cidade-estado de Libria (uma selva distópica feita de concreto) é criado o Clero Tetragrammaton, responsável pela eliminação do que torna os seres humanos destrutivos: os sentimentos. Mas é claro que a simples imposição social não funcionaria por si só, então algumas medidas são tomadas, sendo a principal delas o uso do Prozium – uma espécie de droga que suprime qualquer emoção humana. A arte também é considerada uma inimiga (afinal, não há maior gatilho em direção aos sentimentos) e destruída pelo Clero, com cenas de sensibilidade ímpar envolvendo o pouco de beleza restante no universo de Equilibrium: pinturas famosas queimam e gritam; poemas são recitados por personagens à beira da morte e uma crise de choro é deflagrada por alguns simples segundos de uma sinfonia de Beethoven. John Preston é um alto sacerdote do Tetragrammaton, aluno disciplinado e servidor leal ao Pai – o governante de Libria, que possui uma enorme semelhança com o Grande Irmão de 1984. Um dia, Preston acidentalmente deixa sua dose de Prozium cair, fazendo com que tudo se modifique: uma manhã sem a droga já é o suficiente para que ele perceba que por mais alto que seja o preço a pagar pelos sentimentos, vale a pena – “sem amor, sem raiva, sem tristeza, a respiração é como um tictac de um relógio”. A “descoberta” das emoções por parte de Preston se dá de uma forma tão violenta, tão repentina que é quase como uma dor, que é passada ao espectador nos mínimos detalhes. O mundo era a ele limitado mesmo nas menores sensações do dia-a-dia, e agora ele as tem. Como conseqüência da recuperação de seu coração metafórico, vem um enorme desejo por individualidade e uma curiosidade não comum aos librianos – afinal, formigas não podem se desviar do trabalho porque gostariam de saber de que cor são as flores. Só há um problema que faz Equilibrium não merecer nota máxima: as cenas de ação. Embora elas não atrapalhem muito o desenvolvimento ou funcionem como um deus ex machina, algumas delas soaram bastante exageradas (ou até mesmo ridículas) para mim. É uma pena: como mostraram Matrix, Jogos Vorazes e muitos outros, é sim possível reunir reflexão e pancadaria. Gostou da resenha? Então por favor acesse o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ para mais conteúdo sobre filmes, livros e séries :D
Maria tem dezessete anos. Maria é colombiana, pobre e precisa trabalhar para ajudar no sustento da família. Maria está grávida. Este fato, juntamente com ter perdido seu emprego (por não agüentar ser humilhada por seu patrão), terminado com o namorado (pela recusa em casar com alguém que não ama – mesmo que esteja grávida deste alguém) e as brigas constantes em casa fazem com que a garota sinta o peso inteiro do mundo sob seus ombros. Com a família precisando do dinheiro, Maria só tem duas opções: pedir desculpas a seu chefe e recuperar seu trabalho ou ir a uma cidade maior – porque o seu povoado não possui nada além da fábrica de flores para uma jovem sem formação ou experiência – e conseguir alguma coisa por lá. O orgulho e a teimosia – corretos, aliás, embora imprudentes – lhe fazem optar pela segunda opção – ainda que se pôr rumo a Bogotá, batendo de porta em porta, seja mais difícil do que duas frases murmuradas para o seu supervisor. Maria, contudo, não chega a precisar disso tudo – no caminho, ela encontra Franklin (rapaz que conhecera dias antes em uma festa) que lhe oferece algo mais rentável e rápido: trabalhar como mula de drogas. Não sei se isso é devido a algum tipo de ultra sensibilidade minha, mas senti as emoções de Maria em cada pedacinho do filme: o medo de ter que criar um filho diante de condições tão desanimadoras (para dizer o mínimo), a ansiedade para arrumar um trabalho e, finalmente, a tensão, a terrível tensão derivada do fato de que ela, indo rumo ao país mais obsessivo do mundo, tem sessenta cápsulas de cocaína no seu estômago. Maria cheia de graça é magnífico: sutil, com diálogos bem simples e coloquiais, mas isso – aliado a qualidade do elenco – transmite a mensagem de forma perfeita. Os cenários – na maior parte do tempo, vizinhanças pobres colombianas na própria Colômbia – são simples, mas, ainda assim, perfeitos para o que se propõe. O filme mostra que não é só o desespero que leva a atos desesperados e impensados e sim uma vida inteira de privações e “pequenas torturas” acumuladas – uma hora se cansa, se perde a capacidade de pensar nas conseqüências do que se faz e só se pensa em mudar um pouco aquilo. No pôster de divulgação, lê-se: “baseado em mil histórias reais”. Real, real, real. Canso-me de usar essa palavra para os filmes que assisto e livros que leio – corro o risco dela se tornar, para mim, tão vazia quanto “bom” ou “legal” – mas essas quatro letras valem mais do que mil outros adjetivos elogiosos. Gostou da resenha? Então por favor visite o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ para mais conteúdo sobre filmes, livros e séries!
Em todas as cenas que Elena aparece no filme Maus Hábitos eu tive a nauseante impressão de que a qualquer segundo ela poderia se desintegrar. Seu corpo é tão frágil e magro que até mesmo um cigarro parecia-me pesado demais para seus braços finos. O motivo é bem simples: Elena é anoréxica. E como geralmente acontece nesses casos, a sua doença acaba não dizendo respeito somente a ela mesma – toda sua família é atingida. Seu marido, Gustavo, é menos do que um colega de casa: as obsessões da mulher a preenchem e ocupam de tal maneira que até mesmo suas conversas e desejos são permeados pela privação de comida e excesso de exercícios. Elena não é mais Elena, ela é a sua doença, ela é preenchida e comandada pela anorexia. Linda, sua filha, é quem mais sofre: Linda é gordinha – mas só daquela maneira na qual crianças às vezes são. Elena, contudo, não aceita nem mesmo um vestígio de gordura infantil: a fim de deixá-la o “melhor possível” para sua primeira comunhão, ela a insulta, forçando a filha tomar remédios, fazer dietas malucas e exercitar-se. Matilde, a prima de Linda, também não come, mas por razões diferentes: quando era criança, desenvolveu uma forte religiosidade – a lembrança de “curar” um engasgo do pai com orações a marcou. Portanto, depois de se formar em medicina – atendendo ao desejo dos pais – Matilde vira freira, abraçando com bom gosto as privações de sua nova vida. Nas suas primeiras semanas no convento, uma tia de Matilde adoece. A noviça faz de tudo para ajudar sua convalesça – inclusive sacrificar-se, jejuando, comendo lixo e bebendo vinagre a fim de reafirmar sua crença de estarem ela e sua tia nas mãos de Deus. Aparentemente seus sacrifícios funcionam, fazendo Matilde usá-los para um bem maior: parar com as chuvas que assolavam o México na época e matavam e desabrigavam milhares de pessoas. Comida, além de sobrevivência, significa prazer, História, coletividade. Nós dividimos nossos dias baseado nos horários das refeições, nos reunimos em torno de pratos, remetemos épocas de nossas vidas a certos gostos. Ao mostrar o quão alterada pode ficar uma relação tão simples e necessária, Maus Hábitos foi profundo e tocante. Não consigo apontar defeitos no filme: a fotografia é linda, o roteiro maravilhoso e o elenco (apesar de desconhecido) idem. O mais impressionante é que o diretor e roteirista, Simon Ross, só desempenhou esses dois papéis em Maus Hábitos: todos seus outros trabalhos na indústria cinematográfica foram na produção. Quem diria – ao menos se você acreditar na máxima de que a prática leva a perfeição – que um filme tão bom é obra de um quase estreante? Quer dar uma forcinha a uma blogueira? Então por favor acesse meu blog: http://distopicamente.blogspot.com.br/ - mais resenhas de filmes além de indicações de livros e séries por lá :)
Desde que foi para Madri, Raimunda evita ao máximo o povoado onde nasceu: os intensos e desconfortáveis ventos de Alcanfor de las Infantas lhe trazem memórias indesejadas. Mas três anos depois da morte de seus pais, Raimunda se vê obrigada (juntamente com sua irmã Soledad e sua filha Paula) a se por na estrada rumo ao povoado a fim de realizar o pitoresco ritual de limpar a sepultura da família – feito pelas mulheres do lugar com uma alegria contida, tomando leves ares de evento social. Depois que brilhou o epitáfio, as três foram visitar a fragilizada tia Paula (irmã da finada Irene, mãe de Raimunda e Soledad) e Agustina – uma velha amiga que lhes segreda entre baforadas de maconha correr em Alcanfor o boato de que tia Paula, depois de adoecer, vem sido amparada pelo fantasma de Irene. Raimunda não dá muita importância ao fato: entre dois empregos, o serviço doméstico e Paco – seu marido desempregado que passa o dia inteiro em frente à TV – o tempo para crendices é limitado. A solitária Soledad, embora mais crente nesse tipo de coisa, também desvia-se para o seu salão de beleza clandestino, não retomando-o até sua próxima visita a Alcanfor. Como Murphy previu, tudo desaba ao mesmo tempo: ao voltar de um dia de trabalho, Raimunda encontra Paula esperando-a na calçada de casa, desesperada. O motivo: ao tentar se defender de uma tentativa de estupro por parte de Paco – que ela acreditava ser seu pai, embora durante o assédio este afirmasse ao contrário – Paula acabou por matá-lo. Uma ligação de Sole algumas horas depois a informa de que sua tia também havia morrido – o que também acontecerá com Agustina (portadora de um câncer terminal) caso ela não consiga um bom tratamento. Há algo de mágico em algumas cenas de Volver: como uma mulher limpando uma cozinha ensangüentada pode parecer algo encantador? Não sei, mas pequenas “banalidades” como essas inseridas durante todo o longa tocaram meu coração profundamente. Qualquer um dos aspectos de Volver – seja roteiro, fotografia ou elenco – poderia carregar o filme nas costas, mas eu elejo esses pequenos recortes de humanidade como meu preferido. É como se esses pedacinhos fossem preenchidos com sentimentos e reflexões individuais, tornando o filme algo tão próximo do espectador que uma visita de Raimunda e Soledad para um café não seria recebida com surpresa por mim. Gosto de livros e filmes que se passem em mundos alternativos bem construídos (resultantes de uma dose cavalar de abstração e uma pitadinha de loucura de seus autores), mas filmes como Volver me fazem perguntar por quê. Por que gosto do distópico, do fantástico e do sobrenatural quando a humanidade por si só já é tão complexa e intensa? Qual a necessidade de criar mundos além se esse daqui foi precariamente explorado? Acredito que haja uma pequena confusão nas sinopses de Volver (a minha inclusa): se tem a impressão de que é Raimunda que protagoniza o filme. Embora a corajosa mulher de fato apareça na maior parte das cenas, é um disparate: há uma personagem que toma as rédeas do enredo completamente – a morte. Sei que soa estranho dar tamanha importância a algo não-personificado mas de forma única, a última partida – e o folclore em torno da mesma – comanda o destino das personagens, estando presente do início ao fim. O tema central de Volver pode soar as vezes como mimimi de novelinha, mas graças a sua ilustre personagem, as voltas do filme são imprevisíveis – embora pareçam lógicas depois que ocorrem. Isso é de todas as qualidades do filme a mais genial: qual melhor protagonista para um filme recheado de humanidade do que a nossa única certeza? Gostou da resenha? Então visite também o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ :D
“As pessoas acham que é tudo sofrimento, desespero, morte... O que não pode se ignorar. Mas elas esquecem que há prazer nisto. Caso contrário, não faríamos isso. Afinal, não somos idiotas. Pelo menos não tanto.”. O dito por Mark Renton sobre seu vício em heroína no filme Trainspotting talvez resuma bem porque é uma tarefa tão infeliz retratar o mundo das drogas. Um erro tão grande quanto esquecer os efeitos devastadores sobre a saúde e a vida em sociedade é ignorar os porquês de existirem tantos viciados: há uma dose cavalar de imbecilidade (ou desespero) em começar a se drogar; mas não parece que a continuação do hábito necessite de muito. Enfim, a linha entre o moralismo chato, repetitivo (e até certo ponto inútil) e a apologia é tênue, mas quando um escritor ou cineasta consegue caminhar em cima dela, sem pender para nenhum dos dois lados, o efeito é (no bom sentido) destruidor. Eu estava decepcionada com o último filme sobre drogas que assisti – Meu nome não é Jonhnny, que resenharei em breve – e nada no enigmático trailer de Paraísos Artificiais chamou de fato a minha atenção. Em geral, trailers costumam ser uma compilação interessante e inteligente dos melhores momentos de um filme – um trailer bem feito faz o pior filme parecer digno de aplausos – mas o de Paraísos Artificiais não me disse nada sobre sua qualidade ou falta de. Mas graças aos bons comentários, fui assisti-lo. Pois bem, há uma razão pela qual o trailer e sinopses são enigmáticos: a maior parte dos spoilers estragaria o pouco de roteiro que o filme dispõe. A sensação de já conhecer a DJ Érika ao encontrá-la em um clube noturno em Amsterdã – onde ele foi à “negócios” - não sai da cabeça de Nando. Não é surpresa que não se lembrasse: ele estava "anestesiado" durante (por ter tomado seu primeiro comprimido de ecstasy) e depois (pela dor da perda do pai) da festa onde se conheceram dois anos antes, a rave Shangri-lá.Mas Érika lembra bem – e carrega as conseqüências e culpa de seus atos durante o que deveria ter sido o seu momento de glória, a primeira rave onde tocou – e se encontra em um impasse: refrescar ou não a memória do rapaz? Paraísos Artificiais não é moralista ou faz apologia; muito menos caminha na gloriosa corda bamba entre ambas instâncias. Se o trailer é vazio, o filme é mais ainda; desprovido de qualquer provocação ou convite a reflexão. É de fato um defeito imperdoável, mas não completamente repelente: a execução geral do filme é magnífica, e se esta não tapa os buracos no roteiro, ao menos desvia a atenção. A combinação de bons atores e uma ótima fotografia fez com que o retrato do efeito das drogas alucinógenas fosse arrebatador: as “viagens” dos personagens com ecstasy e peyote ao mesmo tempo assustam e encantam. Isso sem falar do cenário: se uma rave já é uma explosão de cores, sons e sentidos, uma rave em uma praia paradisiaca de Pernambuco é mais ainda. Um verdadeiro espetáculo visual. É uma pena que não tenha sido também de ideias. Gostou da resenha? Então por favor visite também o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais lá :D
João Guilherme Estrella começou a vida como a típica criança feliz de classe média – com direito a brinquedos, família amorosa e amigos fieis. Depois do divórcio de seus pais, a coisa se torna um pouco mais desregrada: com o pai doente (e prostrado na cama quase que o dia inteiro) o jovem adulto fica com sua casa enorme para si – aproveitando todas as oportunidades possíveis para dar festas regadas a álcool e cocaína. Segundo Draúzio Varella, todo usuário de droga é de alguma forma traficante: sendo a possessão de drogas uma contravenção, não há razão pela qual dez pessoas precisem ir a uma boca se apenas uma pode fazê-lo. A evolução dessa lógica é natural para alguns desses usuários – afinal, pode-se facilmente sustentar o próprio vício cobrando um pouco mais dos amigos pelo serviço, ou, melhor ainda: lucrar com isto. Como seu vício, o status de João Guilherme evolui de forma sutil: o que era simplesmente uma simples divisão de custos se torna um meio de vida e, antes que ele percebesse, já era um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro – sem organização ou modus operandi, movido apenas pela vontade de cheirar cocaína e curtir a vida. Filmes sem um argumento central – que se orientem só pelos erros e acertos de seus personagens – são em geral adoráveis, humanos, reais, mostrando que não são os acontecimentos que tornam uma vida extraordinária, e sim o que se faz nela. Mas em Meu nome não é Johnny isso não aconteceu: o filme é raso feito uma piscininha de plástico, com personagens sem nenhuma profundidade ou carisma. Não há complexidade, não há conflitos psicológicos, simplesmente não há nada além de uma enumeração chata de acontecimentos que soa como um diário desconexo, cor de rosa e brilhante de uma garota de oito anos. Essa bagunça só foi salva (e ainda assim levemente) pela (como sempre) ótima atuação de Selton Mello. Numa era na qual filmes com mais de duas horas são considerados chatos, Meu nome não é Johnny não tenta economizar minutos: a primeira parte do filme – que conta os primeiros anos de vida de João – não me pareceu ter nenhuma utilidade prática, mesmo para uma cine biografia. Seria uma tentativa de absolver ou condenar o personagem por suas atitudes? Não posso responder, mas, em ambos os casos, a tentativa é falha: é bastante ingênuo acreditar que podemos mergulhar nos porquês alheios em apenas alguns minutos, por melhor feitos que estes sejam – o que não é o caso. Gostou da resenha? Então dá uma forcinha e visita meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais por lá :)
Faz pouco tempo que comecei a realmente assistir filmes: só há cerca de um ano, graças ao falecido MegaUpload, meu interesse pela sétima arte tomou forma. Antes, eu era só sessão da tarde e esporádicos blockbusters no cinema; depois, uma verdadeira miscelânea de diferentes filmes começou a encher a memória do meu computador e tomar espaço no meu coração. No início, eu não conseguia suportar filmes europeus: comecei por “clássicos” e, mesmo sabendo que aquilo provavelmente traria algo de bom ou inovador depois que eu me pusesse a refletir a respeito, não conseguia deixar de achá-los insuportavelmente lentos. Com o tempo me acostumei, gostei e consegui até mesmo apontar um culpado para a minha impaciência com a produção cinematográfica do velho mundo: os filmes hollywoodianos. Todos eles são frenéticos, com uma seqüência de acontecimentos planejada de forma tão engenhosa para que o espectador de maneira alguma tenha tempo para tédio. Comparando as versões americana (resenhei aqui) e sueca de Os homens que não amavam as mulheres, isso se torna mais claro ainda. Mikael Blomkvist está enfrentando alguns dos piores dias da sua vida: seguindo uma pista falsa de um ex-colega, o jornalista de economia denuncia o investidor Wennestrom. Por não conseguir apresentar provas perante o juiz, é condenado por difamação – o que consome todas as suas economias e lhe rende alguns meses de prisão. Afastado da revista do qual é sócio, a Millennium, Mikael aceita uma oferta bastante inusitada do industrial Henrik Vanger: investigar a morte de sua sobrinha Harriet, cujo corpo nunca foi encontrado. Ao se associar com a jovem hacker Lisbeth Salander – que tem problemas de socialização tão graves ao ponto de precisar de tutela do estado – Mikael descobre fatos e mortes que vão muito além do mistério da complicada família Vanger. Como disse no início, Os homens que não amavam as mulheres é lento. Embora o livro de Stieg Larsson tenha de fato um potencial para o suspense, isto não se dá sem certo esforço e adaptações no enredo – coisa que os roteiristas suecos não quiseram fazer. Se para um lado pode ser péssimo para aqueles não acostumados a este estilo, por outro, é bem mais fiel ao livro: os elementos principais – sobretudo a gloriosa defesa das mulheres – são preservados. Impliquei com Daniel Craig como Mikael na versão americana, mas dessa vez não tenho sobre o que reclamar no campo de elenco: Michael Nyqvist encarna o jornalista de forma perfeita, sendo somente heróico o suficiente para salvar sua própria pele – não ofuscando assim a verdadeira estrela, Lisbeth. Noomi Rapace, que a interpreta, supera a já maravilhosa Rooney Mara: os aspectos anti-sociais da hacker me pareceram mais reais por sua interpretação. Aliás, real é uma palavra muito boa para descrever Os homens que não amavam as mulheres. Como é de se esperar numa série que tenha misogenia como seu foco principal, cenas e relatos fortes são inevitáveis. Por si só, ver mulheres agredidas é desagradável, mas o diretor conseguiu torná-las mais ainda. Sei que é de função do cinema reproduzir a realidade. Não quero que tudo seja feito em Barbie, a princesa da ilha – mas tem certas coisas das quais eu prefiro ser poupada. Gostou da resenha? Quer dar uma forcinha pra uma blogueira? Então visite http://distopicamente.blogspot.com.br/ que tem muito mais por lá :D
Não sou lá muito fã de Big Brother. Assisti quase toda a temporada em que Jean Wyllis foi o campeão, e, em momentos de tédio e falta de TV a cabo na praia, pesco dois ou três episódios – não com prazer ou desgosto, mas simplesmente com indiferença. Mas mesmo estando longe de ser uma fã do programa, me irrito profundamente com as campanhas anti-BBB que são feitas online antes e durante a sua exibição – além dos incontáveis “graças a deus” e “ufa!” quando o programa acaba. Alegam que o Big Brother não traz cultura ou conhecimento para seus espectadores. Mas quem na terra assiste BBB para ficar mais “culto”? Qual seria o problema de entretenimento só por entretenimento? Essa defesa do BBB acaba funcionando bastante ao meu favor – não pelo reality show da Globo em si, mas sim por outras duzentas coisas que adoro mas que, de fato, não acrescentam em nada no meu “repertório” ou me fazem refletir. Apesar de inconscientemente endossá-la às vezes, odeio essa perspectiva de que tudo na vida tem que ter uma utilidade prática – até mesmo as coisas feitas nos seus momentos de diversão e relaxamento. Nesta lista de “entretenimento por entretenimento” estão os filmes do multiverso Marvel. Comecei a assisti-los por pura falta de opção – na cidade onde moro, só há um cinema, que tem o dom de quase nunca passar filmes que não sejam de criança/de ação/de comédia – e depois, por ter de fato tomado gosto pelas cenas de ação bem-feitas e produção impecável. Alguns deles têm também o poder de surpreender: adorei as referências históricas nos recentes Capitão América e X-Men: Primeira Classe – este último tão legal que é um dos poucos filmes que me fizeram pagar um indecentemente caro ingresso de cinema mais de uma vez. Os Vingadores está sendo bastante elogiado no Tumblr, e, apesar de preferir os supracitados, compartilho em parte da empolgação. O enredo em si é bastante trivial para o universo das HQs: o semi-deus rejeitado Loki planeja a dominação da terra. Para isto, ele necessita do Tesseract, uma fonte inesgotável de energia encontrada pelas Indústrias Stark e estudada pela agência de espionagem SHIELD, com as pesquisas comandadas pelo Dr. Erik Selvig. Depois de capturar o Tesseract, Loki hipnotiza (afinal, ele é um semi-deus bem fraquinho, mas ainda é um semi-deus) o Dr.Selvig e o agente Clint, para que ambos o ajudem no seu propósito de abrir uma fenda no espaço com o mesmo. Fenda esta por onde passariam soldados alienígenas Chitauri que, em troca do Tesseract, fariam com que os terráqueos se prostrassem aos pés de Loki. Diante da ameaça, Nick, diretor da SHIELD, reinicia a iniciativa Vingadores – um time de super heróis usado para defender os Estados Unidos a Terra. Os Vingadores não são exatamente tão heróicos assim: o seu líder, o Capitão América, acaba de acordar de um “sono” de 50 anos e não está habituado ao mundo moderno; o playboy Tony Stark, o Homem de Ferro, tem problemas com modéstia e trabalhar em equipe; o Dr. Bruce, que ao menor sinal de raiva, pode se transformar em Hulk, matando a todos; a assassina profissional da SHIELD Natasha (ou Viúva Negra) vive entre crises de consciência por seu trabalho e Thor, por ser irmão de Loki, não tem certeza se deve ou não se juntar aos Vingadores. Talvez o principal problema do filme – que não o tornou tão bom quanto outros da Marvel que assisti – sejam os personagens. Fora Tony Stark – que brilha por sua imodéstia charmosa e ironia sem limites – todos os outros são muito pouco explorados no tocante as suas personalidades. Desde o início do filme, os seus problemas pessoais e a falta de química entre os Vingadores são bastante enfatizados, e é uma pena tal desperdício. De resto, o filme faz magnificamente bem o que se propõe. As cenas de ação são impecáveis, e ocorrem com uma freqüência que torna impossível o tédio. O que alguns milhões de dólares não podem fazer? Embora de fato não sucite muitas reflexões a primeira vista, Os Vingadores (e outros filmes do gênero) não é exatamente vazio. A defesa as posições americanas perante o resto do mundo é bastante sutil – bem mais sutis do que o ultra-patriotismo em Capitão América, por exemplo – mas estão lá. Através de uma metáfora – onde os inimigos não são seres humanos de países ou etnias diferentes, e sim alienígenas feinhos e poderosos – o indefensável é defendido e justificado. Não sei o quanto essa "mini lavagem cerebral subconsciente" ajudou na construção do império que os EUA são hoje, mas chuto que bastante. O que seria da Terra do Tio Sam sem sua indústria de entretenimento? Ei, gostou da resenha? Então por favor visite o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ para dar uma forcinha :)
Com seus números de cancan megalomaníacos, prostitutas, absinto e drogas, Zidler, dono da casa noturna Moulin Rouge, desafoga a elite parisiense do seu tédio burguês no final do século XIX. Porém, ele e Satine – sua maior e mais bonita estrela – tem planos diferentes para si próprios e para o Moulin Rouge: transformá-lo de um prostíbulo aclamado em um teatro de verdade. Criar um grande espetáculo – que transmita os ideais boêmios de liberdade e amor acima de tudo – também é o sonho de Toulouse e seus amigos, sendo Satine a sua estrela dos sonhos. Quando seu excêntrico roteirista os deixa, tudo parece acabado, até que Christian (escritor inglês que fugiu de seu pai ultra religioso se mudou para Montmare recentemente) aparece. No melhor estilo Bandini, Christian alega falta de experiência com o amor e com a vida, não podendo então escrever uma peça genuinamente boêmia. Depois de ser convencido por Toulouse e seus amigos que isto não era um problema, a primeira parte da alegação é logo sanada: ele conhece Satine, se apaixona perdidamente pela mesma e a usa como musa para sua escrita. Mas não só de paixão vive a arte: para conseguir um bom espetáculo, dinheiro é necessário – neste caso, o dinheiro do repulsivo e fabulosamente rico duque que, assim como Christian, se rende ao encanto de Satine. Usando seu financiamento ao espetáculo como chantagem, o duque se interpõe entre Satine e Christian. Amor, ciúmes e obsessão são os temas centrais de Moulin Rouge – e, infelizmente, tenho que dizer que esta parte do filme não foi bastante inovadora. Embora a maravilhosa atuação de Ewan McGregor (Christian) e Nicole Kidman (Satine) seja de grande ajuda, a tragicomédia não conseguiu romper as barreiras do clichê neste aspecto do enredo. Quando Christian despejou sobre Satine pela milésima vez que o amor deles superaria tudo – desde o fato de que ela viraria semi-escrava do duque até a falta de um centavo dos dois – não pude deixar de me irritar levemente. Isso é um problema - mas não tão grande assim se comparado ao conjunto da obra. Apropriando-se da linguagem dos videoclipes, Moulin Rouge tem uma edição bastante inovadora, com cortes violentos e cenas inacabadas. Somando-se a isto o abuso das cores na cenografia e o exagero na caracterização, não há um segundo de tédio. Não gosto de Glee por causa de seu enredo – toda aquela coisa de aceitação na adolescência, embora bonita, me sufoca – mas sou apaixonada por seus medleys* de músicas famosas. Ver aquelas pessoas talentosas interpretando juntas músicas que sei de cor por osmose faz meus olhos brilharem, e sempre estão na parte de cima da minha playlist. Como não poderia deixar de ser em um bom musical, foram os medleys que me encantaram em Moulin Rouge. A mistura e modificação de músicas pop – nem sempre reconhecíveis – foi feita de maneira sublime, assim como a sua execução – quem diria que Obi Wan Kenobi e a Feiticeira saberiam cantar? Gostou da resenha? Então por favor acesse o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ que tem muito mais por lá :D
Sou pró-Palestina. Compreendo e sinto muito pelo sofrimento dos judeus durante a segunda guerra mundial, mas não acho que isso sirva de justificativa para expulsar, matar, torturar e prender arbitrariamente dentro de campos de refugiados um povo cujo único crime foi ocupar uma região (vazia na época) dita como prometida. Me revolta e me enoja que quem viveu há tão pouco tempo os efeitos do totalitarismo e do preconceito proceda de maneira semelhante. Eu deveria parar de assistir filmes e ler livros que são bons demais – chegará um momento que todos vão crer que sou muito boazinha no meu julgamento e perder completamente (se é que esta já existiu) a fé no mesmo. Infelizmente, isso não é possível, e assisti a um filme que é agora provavelmente meu preferido sobre a questão palestina (superando os incríveis Paradise Now e Promessas de um novo mundo): Lemon Tree. Salma Zidane, uma viúva palestina, leva uma vida pacata e solitária cuidando da plantação de limões no seu quintal. Todos nós temos nossos símbolos pessoais ou coletivos – coisas que não são somente o que parecem, e sim parte de nós mesmos, um pedacinho minúsculo e indispensável de nossas almas. Assim são os limoeiros para Salma: estes foram plantados por seu pai, sendo a ocupação, fonte de renda e parte da história da família desde então. Como é bastante comum na Palestina, a casa de Salma é ao lado de um assentamento israelense. Para quem não sabe, os assentamentos foram uma parte importante para a ocupação de Israel na Palestina, e são como vilas de casinhas bonitas de novas em folha construídas em cima de solo de onde os palestinos foram expulsos covardemente. Morar ao lado de um assentamento não lhe causa muitos problemas até a chegada de novos vizinhos: o ministro da defesa, Israel Navon e sua esposa, Mira. Decidindo que os limoeiros de Salma representavam um perigo à integridade física do ministro (um terrorista poderia se aproximar da cerca que separa a plantação e o assentamento antes que a segurança militar e reforçada da casa notasse) o serviço secreto ordena que estes sejam removidos. Não se espera que uma mulher pobre e sozinha no mundo vá contra a decisão de um estado tirano que subjuga seu povo, mas Salma desobedece a essa lógica e procura o advogado Ziad Daud, que a ajuda prosseguir com o processo. A sua coragem logo chama a atenção de muita gente: a autoridade palestina local, que implora que ela faça o que seu falecido marido faria, ou seja, não batesse de frente com os israelenses; a imprensa, que vê na destemida mulher uma ótima história e Mira, esposa do ministro, que há algum tempo já vem notando os excessos do seu país e entra em crise ao ter que enfrentá-los diretamente. O sofrimento de Salma é visível: logo ela é proibida de sequer tocar em seus limoeiros, e um lampejo de dor quase física passa por seu rosto a cada fruto que cai podre por falta de cuidados. Não sei se balas ou bombas a feririam mais do que ver uma parte tão importante da história de sua família ser destruída, com mínimas possibilidades de defesa. Pegando algo pequeno – afinal, a destruição da plantação de Salma será maléfica apenas a ela – Lemon Tree introduz questões maiores, das quais a mais presente é a impotência dos palestinos perante o “estado” de Israel. Embora o terrorismo continue sendo moralmente reprovavel, é perfeitamente compreensível: é a única maneira encontrada de se ter voz, de sair da invisibilidade. Paus e pedras podem mostrar força, mas não competem com fuzis. A atitude de Salma não foi só inesperada e tida como irracional: foi até mesmo perigosa. Caso a capacidade de fazer barulho da história de Salma não houvesse sido subestimada, prende-la sob uma acusação qualquer não seria muito difícil. Em certo ponto do filme – com um leve tom de ironia – o ministro Navon diz que Israel estará segura enquanto os palestinos tiverem esperança. Pois, palestinos, tenham esperança. Tenham, pois só assim um dia não terão que viver apenas dela. Gostou da resenha? Então por favor acesse o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais por lá :) Não se esqueça também de dar um like na página do Facebook para dar uma forcinha.
É um hábito irritante dos diretores de filmes baseados em bestsellers não explicarem direito certas coisas, certos aspectos do enredo que, se não são essenciais para a história, pelo menos a fariam mais interessante. É como se eles possuíssem a certeza de que apenas fãs ensandecidas pela série assistirão aquele filme, e que nenhum curioso que não sabe que o filme em questão é baseado numa série de sucesso mundial ousará pisar numa sala de cinema onde ele esteja passando. Em menor escala do que o geral, o primeiro filme da série Jogos Vorazes, escrita por Suzanne Collins, sofre desse mal: quando Panem (o país distópico onde a trilogia se passa) é apresentado, senti uma carência muito grande de informações sobre o mesmo. Não é como se não houvessem explicações, mas senti que, caso eu não houvesse lido os livros, não entenderia muito bem porque todo aquele desespero em torno de algo chamado “colheita” ou porque colocar cercas com placas de “não ultrapasse, limites do distrito” em torno de uma vila. Panem se localiza no que já foi a América do Norte que, depois de muitas guerras, foi dividida em treze distritos e uma Capital. Cansadas de trabalhar em prol do luxo e da ostentação da Capital, as pessoas do distrito treze se rebelam – mas são rapidamente vencidas. Para lembrar quem está no comando – e conseguir um bom show para seus habitantes ociosos – a Capital, todos os anos, realiza os Jogos Vorazes, uma espécie de Coliseu onde vinte e quatro jovens de 12 a 18 anos, dois de cada distrito (os chamados tributos) devem lutar até que apenas um sobre. Katniss Everdeen – uma garota de dezesseis anos do distrito doze que garante o sustento de sua família através da caça desde a morte de seu pai – sabia que as chances de que ela fosse sorteada eram grandes: em troca de comida, ela aceitava, ano após ano, que seu nome fosse posto no pote onde os tributos eram sorteados mais vezes que o normal. O que ela não esperava, contudo, era que sua irmã Prim, de apenas doze anos e com o nome no pote apenas uma vez fosse sorteada. Desesperada, Katniss se oferece em seu lugar – cena que, confesso, me emocionou desde os trailers – e assim vai para os Jogos Vorazes. Mesmo sem grandes explicações sobre o mundo onde o filme se passa, uma coisa essencial se entende: os distritos se encontram em um péssimo estado, com bastante pobreza e algumas pessoas vivendo como quando no medievo. Quando Katniss e Peeta (o outro tributo do distrito doze) chegam o contraste entre a vida que ambos costumavam levar é imenso quando eles contemplam a vida cheia de excessos que pessoas dos doze distritos sustentam. O filme é cheio de símbolos e referências, algo é mais possível de forma visual do que no papel: o estandarte onde o Presidente Snow fica, por exemplo, lembra bastante os palcos que eram armados para os comícios de Hitler, numa referência ao totalitarismo que é o governo de Panem. Não havia conseguido formar esta imagem mental durante o livro, mas ao ver Katniss de arco e flecha com uma trança no cabelo, consegui me lembrar das míticas Amazonas que, assim como ela, representavam força e poder femininos. Como adaptação, é bem fiel: as mudanças foram poucas – na verdade, foram mais omissões, e os acréscimos me pareceram necessários para a introdução do segundo filme, Em Chamas. Não consigo imaginar outra que Jannifer Lawrence para fazer Katniss: ela conseguiu capturar aquela essência de menina forte que tanto me encantou quando li os livros. Josh Hutcherson também conseguiu capturar o precioso carisma de Peeta, que é essencial para sobrevivência dele e de Katniss na arena. As cenas das lutas não foram muito sangrentas, mas também não foram muito leves - apenas o suficiente para ser realista sem exagerar na classificação, ou espantar pessoas mais sensíveis do cinema. O único erro grande – além da supracitada falta de informação para quem não leu os livros – foi na sonoplastia, que, na falta, torna alguns filmes mais chatos do que realmente são. Mas Jogos Vorazes não é chato – não mesmo. Lamento muito a série só ter ido até o terceiro livro – sem possibilidade de continuação graças ao seu final – mas agora que não tenho mais livros ou filmes de Harry Potter para ansiar por, posso muito bem me contentar em roer as unhas pelos próximos filmes de Jogos Vorazes. Gostou da resenha? Então por favor acesse o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais por lá :D
Pois bem, aqui está mais uma das discussões nas quais não deveria entrar: a tal da “banalização” do bullying. Não é raro ouvir alguém dizendo “na minha época, todo mundo ganhava apelidos e ninguém se matava por isso” ou “hoje em dia, todo mundo sofre bullying”. Meus caros, o sangue me sobe à cabeça nessas horas. Se ser agredido verbalmente (as vezes fisicamente) repetidas vezes no ambiente escolar fosse algo tão banal, não haveriam casos como o de Columbine. Claro que outros fatores influem e nem toda vítima de bullying tirará a sua própria vida e/ou a alheia, mas não vale a pena correr o risco. Nossos esforços anti-bullying não são exagerados, muito pelo contrário: são, até o momento, ineficazes. A “comparação” (tenho minhas dúvidas se correta ou possível de se provar empiricamente) entre gerações de vítimas de agressões em ambiente escolar também me faz respirar fundo: é óbvio que cada época conta com seus males e angústias, diferentes gerações têm diferentes níveis de sensibilidade – o calo lhes dói de forma completamente distinta das que a precederam. E foi o bullying que instigou a depressão de Dominik, protagonista de Suicide Room: após beijar seu amigo graças a uma aposta, ele começa a ter dúvidas quanto a sua sexualidade. A oportunidade para piadinhas e brincadeirinhas levemente agressivas não é perdida por todos seus colegas na prestigiosa escola que freqüenta: a homofobia corre solta via Facebook, fazendo com que Dominik se isole dentro de seu quarto. Uma família preocupada e presente poderia ter cortado o mal pela raiz, mas não é o que acontece: o pai de Dominik trabalha para o ministro, e sua mãe tem sua própria grife de moda, ocupações que fazem com que eles passem horas e horas fora de casa, malmente retornando a mesma para dormir. Quem na verdade percebe todo o problema de Dominik é a empregada da casa, que vê o garoto rejeitar as refeições e sem ir para escola por vários dias seguidos. Quando esta chama a polícia e Dominik é internado por ter se cortado, seus pais caem na real, mas não tanto assim: ao conversar com um psiquiatra, suas preocupações não parecem estar tão voltadas ao bem estar do seu filho, e sim ao seu desempenho nos exames finais da escola. A situação se agrava ainda mais graças a amizade que Dominik tem com Sylwia, uma garota de cabelo rosa que não saí de casa há três anos e flerta com a ideia de suicidar-se com pílulas e álcool. Sylwia é criadora da Suicide Room, um local no jogo Second Life onde suicidas de todos os tipos conversam e planejam uma maneira de se suicidarem coletivamente. Talvez quem tenha passado por isso se identifique, mas, na primeira metade do filme, eu não conseguia compreender porque a depressão de Dominik era tão forte, tão intensa. Se haviam razões? Sim, com certeza – como disse acima, não banalizo os sentimentos alheios e detesto quem o faz. Mas simplesmente fugiu à minha compreensão – não sei se por ignorância ou por erro do diretor. Mas, a partir de um certo ponto, as causas e efeitos se tornam desnecessárias: Jakub Gierszal, que interpreta Dominik, é tão convincente em retratar a angustia e desespero do garoto que não precisamos de explicações – as coisas simplesmente se tornam, acontecem, são daquele jeito. Não cheguei a gostar de Dominik em nenhum momento (ele é bastante mimado e desagradável) mas a sua dor é tão genuína que, se não fosse a curiosidade por saber o final, eu teria pausado o filme logo no início de sua parte mais agonizante. A relação entre Sylwia é um ponto muito bom: de forma sedutora, porém não intencional, Sylwia agrava a depressão de Dominik. Não sei dizer exatamente se Dominik amava Sylwia, mas, de alguma forma, a sua fragilidade fez com que ela se tornasse extremamente necessária para ele – Dominik simplesmente enlouquece quando ela ameaça o expulsar do Suicide Room. O fato de o diretor não usar esse pseudo-amor como redenção é bastante positivo: sim, eu acredito que o amor supere muitas barreiras, mas não o amor adolescente entre duas pessoas com problemas psiquiátricos graves e mal-trabalhados. O filme é fantástico. Mas eu não quero assisti-lo de novo, sob nenhuma circunstância: Suicide Room é um daqueles filmes que te deixam com um gosto ruim na boca, o gosto amargo de encarar a nossa própria fragilidade. Gostou da resenha? Então por favor visite o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais por lá!
Não sei se isso ocorre com outros filhos de professores, mas, por ver nos meus neles colegas de profissão dos meus pais, detesto representar um problema em classe. Minha extrema preguiça de estudar já me rendeu algumas conseqüências bem inesquecíveis, mas detesto fazer qualquer coisa errada em sala de aula: não converso, não brinco, tento ser participativa e, acima de tudo, detesto deixar de fazer a lição de casa – por isso, dessa vez assistir Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 foi inevitável. Eu tenho uma listinha de discussões em que nunca deveria entrar, mas acabo entrando – e a legitimidade da tortura é uma delas. É um daqueles debates no qual a paciência e a tolerância me faltam – nem tanto pela opinião alheia (de aprovação quase unânime aos nada delicados métodos de coerção e punição empregados, na maior parte do tempo, pelo Estado) de defesa à mesma, e sim pelos argumentos pouco impessoais e irracionais que são usados. Por isso que eu fugi durante esse tempo todo de Tropa de Elite. Não foi uma única descrição que ouvi de pessoas se levantando e aplaudindo para as inúmeras cenas de tortura – cenas que, ironicamente, não podem faltar quando se trata de um filme sobre agentes da lei. Ah, mas eu – e todo mundo que falou comigo sobre o filme, aliás – não poderia estar mais errada. Tropa de Elite não é sobre a quase guerra que ocorre nas favelas, o treinamento desumano do BOPE ou a ação estilo Call of Duty. Sem sair em sua defesa ou condená-los, Tropa de Elite fala sobre os policiais, personagens mais ambíguos que poderiam existir. Há sim bastante mérito em estar disposto a se tornar um profissional que corre riscos imensos de vida recebendo em troca um salário mixo; mas é impossível ignorar as atrocidades cometidas por policiais (só para deixar bem claro: eu sei que nem todos os policiais são desonestos – estou generalizando bonito aqui) dentro de Favelas e da utilidade geral da polícia como instituição repressora. Dizem por aí que você só sabe o que é medo quando se tem filhos e o Capitão Nascimento está sentindo o peso do significado dessa frase: sua esposa está grávida, o que agrava a tensão de ambos pelo emprego perigoso de Nascimento no BOPE. E, como se não bastasse o stress comum do trabalho, há um agravante: o Papa, que estará de visita ao Rio de Janeiro, quer dormir na favela, sendo o trabalho do BOPE pacificá-la – o nosso genocídio diário de jovens pobres e negros parecer não ser nada perto do risco de Vossa Santidade levar uma bala. Por pressão da esposa, Nascimento procura um substituto. Wagner Moura (um dos meus atores preferidos) se superou neste filme: ele está magnífico na pele de um policial tão ambíguo quanto sua profissão – enquanto sentia uma admiração imensa por algumas dos raciocinios por ele apresentados, outras me davam um nojo extremo. Na sua procura por um substituto, seu caminho se cruza com o de Neto e Mathias, dois policiais jovens, honestos e idealistas, mas bem diferentes um do outro: enquanto Neto é impulsivo e bastante fiel à polícia, Mathias é racional e tem o coração dividido entre continuar na carreira policial ou se tornar advogado. Com esta “vida dupla” de Mathias, o filme insere a algumas discussões interessantes: a primeira, e mais repetida, é a de classe e cor. É flagrante o fato de Mathias fugir ao padrão de jovens de classe média brancos na faculdade de Direito onde estuda – algo que, mesmo com as políticas de cotas sociais e raciais se perpetua até hoje, quinze anos depois da data quando o filme se passa. As contradições da classe média também são expostas: enquanto Maria – que se envolve com Mathias até descobrir que ele é policial – se mostra, por um lado, bastante preocupada com a desigualdade social, trabalhando ativamente em uma ONG, ela também fuma maconha, sustentando de forma direta o tráfico. Lógica que não sei se concordo plenamente com: apesar de saber que, de forma direta, o sustento do tráfico é realmente feito pelos usuários de drogas (em sua maioria de classe média, já que as drogas usadas pelos pobres não são caras o suficiente para representar, economicamente, um grande lucro para o tráfico) não acredito que se possa viver em sociedade sem patrocinar, de alguma forma, o tráfico, a exploração ou a miséria. A fim de conseguir algumas peças para viaturas (e sair da entediante função na Oficina da PM) Neto se envolve em um esquema de corrupção. A priori, tudo parece estar bem, mas não acaba dando tão certo assim: um dos envolvidos, um policial corrupto de longa data, é marcado para morrer. Neto e Mathias tentam impedir que isto aconteça mas, graças a um tiro mal-dado, o caos se instala no morro, sendo o BOPE chamado para intervir. No ápice de seu stress – com uma mega operação para comandar, uma esposa grávida e um leve vício em remédios controlados – Nascimento conhece Neto e Mathias, principais candidatos a seu substituto. O filme é sim, de certa forma, perigoso: a partir das situações difíceis vividas pelos policiais, há a explicação do porquê do emprego da violência na ação policial – embora esta explicação não nos conduza, em nenhum momento, para alguma espécie de defesa. Reforcei a conclusão de uma reflexão a qual eu já havia sido induzida pela greve da PM da Bahia em Fevereiro: assim como as péssimas condições de trabalho não justificam a atitude de alguns policiais frente a sua profissão, o atual estado da polícia como agente repressor também não deve ser justificativa para que estes profissionais possuam péssimas condições de trabalho ou recebam carta branca para “manter a ordem” da maneira que bem entenderem. Trabalhar daquele jeito é complicado, mas dormir direito depois de matar e torturar em prol de “um bem maior” (que ninguém sabe qual é) também deveria ser. Gostou da resenha? Quer fazer uma blogueira feliz? Então por favor visite meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais por lá :D
Se a neuromedicina avançasse o suficiente para apagar, de forma definitiva, uma lembrança de sua cabeça, o que você faria? Fosse uma pessoa, situação ou sensação, ela seria para sempre esquecida – e no dia seguinte, o único efeito colateral seria uma dor de cabeça, nada mais do que o experimentado em uma ressaca. Você se poderia se livrar de todos os seus erros, de pessoas que desejava nunca ter conhecido, de palavras que não deveriam ter sido ditas e da culpa de ter deixado de fazer algo. O que você faria diante dessa perspectiva única, maravilhosa e assustadora? Escrutinei minha mente atrás de coisas que eu gostaria de esquecer para sempre e me vieram, com uma rapidez impressionante, as pequenas humilhações da infância. Sei que não pode parecer grande coisa, mas o olhar infantil através do qual foram concebidas as tornam estranhamente intensas, melancólicas e coloridas. Depois, coisas mais recentes: palavras que nunca deveria ter dito e erros (não muito grandes por si só, mas que acumulados, se tornaram imensos e impactantes) da adolescência – que, atipicamente, fazem com que minhas bochechas esquentem de vergonha não de mim mesma; mas de coisas que pensei serem verdades únicas e universais. Mas aí veio o problema: eu simplesmente não podia apagar nenhuma dessas lembranças. Esquecer algo para sempre é esquecer também o aprendizado e auto-consciência que esta lembrança lhe traz, e pessoalmente, digo que cada um dos meus erros foi um pequeno tijolinho para que eu seja quem sou hoje. Não que eu seja grande coisa, aliás, ou almeje a perfeição em meus atos – qualquer coisa que chegue perto de ser completamente irrepreensível é chata – mas a minha eu de hoje é menos propensa a quebrar a cara por besteiras do que a de um, dois, três anos atrás. Cada erro, cada lembrança, leitura, pessoa, tudo isso é um pequeno pedacinho da colcha de retalhos que é a personalidade de cada um, e, mesmo com todos os meus defeitos imperdoáveis, acharia estranho trocar a minha colcha pela de outrem. Enfim, livrar-me das minhas lembranças ruins ou vergonhosas seria negar a mim mesma e a toda trajetória da humanidade, que até hoje, consistiu em errar e (as vezes inutilmente) tentar mostrar às gerações futuras a estupidez do erro. Nunca haveria, de fato, um acerto, já que a minha essência não mudaria, somente minha propensão a errar. De modo geral, a nível pessoal e coletivo, estaríamos todos perdidos. Clementine, personagem principal de O brilho eterno de uma mente sem lembranças, não pensava igual a mim: sem pestanejar, contratou uma clínica para apagar uma de suas lembranças mais adoráveis e dolorosas – o seu relacionamento com Joel. O começo do filme é bastante lento – naquele estilo de filmes Cult bem cansativos, que perdem sua missão de entreter em meio à vontade de parecer legal – mas é estimulante por uma razão: Jim Carrey. É no mínimo estranho o ver sem as piadinhas, sem os personagens mal-construídos (com exceção para o Conde Olaf, da adaptação para os livros da série Desventuras em Série), na pele de Joel. Aliás, como é comum em filmes de romance, os dois são bem diferentes: enquanto Clementine é falante, inconseqüente e complicada; Joel é um daqueles caras introspectivos, bastante tímido, cuja vida e pensamentos parecem bastante sem graça a um primeiro olhar. A fim de tentar mascarar a dor de ter sido esquecido pela mulher que amava, Joel também passa pelo procedimento de “deleta-la” de sua mente, questionando durante o processo se a validade e utilidade do mesmo. Todo esse processo é uma jóia valiosa no filme: enquanto reconstrói seu relacionamento com Clementine – partindo de sua última briga até o dia em que se conheceram – Joel vai questionando seus conceitos e vendo tudo aquilo do que se arrepende. Ao contrário dos filmes de alto orçamento em geral, as lembranças e sonhos não vêm tão perfeitas, em alta qualidade, e sim como na vida real: meio borradas, fracas e com partes faltando. O fato de tudo ser não-linear, com inserções de lembranças anteriores e as “viagens” que a mente humana geralmente dá torna tudo mais legal. Pergunta: só sou eu que me incomodo com essa busca incessante e incansável de muitos adolescentes (e alguns adultos) por uma individualidade artificial? Vestir roupas diferentes, escutar a banda mais desconhecida, ler os livros mais complicados ou fingir ter as emoções e preocupações mais profundas – quando, na verdade, esse esforço por não ser parte de uma multidão resulta numa normalidade mais chata que o comum, por ser forçada, prepotente e arrogante? Esse foi meu porém com o filme: foi assim, desse jeito podremente torto, que a personalidade de Clementine foi construída. O esforço em fazer com que ela pareça legal – não no estilo hollywoodiano, loiro, casto e perfeitinho; mas de um jeito indie, rebelde imperfeito e estranho – foi tudo muito excessivo, muito artificial e infantil. No final, ela era somente mais uma com a tal da síndrome da singularidade, externando suas inseguranças estúpidas e dando pitizinhos sem razão alguma. Além disso, foi falha a tentativa de fazê-la a estrela do filme – no final, foi o tímido Joel (nunca vão me convencer que não foi um alien que abduziu o verdadeiro Jim Carrey durante aquele filme) que brilhou. Se gostou da resenha e quer fazer uma blogueira feliz, por favor visite o meu blog http://distopicamente.blogspot.com.br/ - tem muito mais por lá! ;)
Acho incrivelmente complicada a forma com que relacionamentos são retratados na ficção – não completarei a frase com o clichêzão vago “hoje em dia”: esse problema parece ser atemporal. O quão saudáveis são Romeu e Julieta? Werther, porque você não simplesmente superou Carlota? Bella Swan, onde está a sua vida além de Edward? Milhões e milhões de homens e mulheres (não se enganem pelo machismo, amiguinhos) cresceram com a ideia de que um dia achariam a sua outra metade da laranja, a sua alma gêmea, e a partir dali, tudo seria perfeito. Novelas terminam sempre com casamentos, como se os mesmos fossem o fim e indicativo de uma incrível estabilidade, não o começo de outra jornada (que, como qualquer uma, trará suas dores e alegrias). Essas expectativas, tão idiotas e irreais, não levam só a decepção, mas ao resmungo em massa de “não tem mulher/homem que preste hoje em dia!”. Essa reflexão habita há muito tempo na minha cabeça, quando vi a brilhante vlogueira Tatiana Feltrin dizer que crê que não exista um livro do gênero Young Adult sem romance. Desesperadamente, pausei o vídeo e fui procurar na minha estante, só para constatar que, até o presente momento, a crença é real. E não são só os Young Adult – é difícil encontrar uma história qualquer sem romance. Vejamos só: os personagens (portanto, em maior ou menor nível, toda a sociedade) não estão só engajados em uma busca impossível, mas também quase universal! Todos frustrados porque o cara ou menina legal não se encaixa na forminha de bolo, sem perceber que o problema não é com o outro – é com você. Calvin, protagonista do filme Ruby Sparks, tem esse problema: escritor de um livro só, seu gênio não parece se repetir na segunda obra (que nem começou a ser escrita) ou nas relações sociais – aos vinte e nove anos, seu único contato com o mundo exterior é com o seu irmão mais velho. O perfeccionismo é um problema de cinco entre dez autores (a arrogância é o do resto) e Calvin sofre desse mal, só conseguindo escrever quando seu terapeuta lhe dá permissão de ser ruim (será que ele não conhecia o NaNoWriMo?). A história? Sobre uma garota aparentemente perfeita, uma pintora de Ohio chamada Ruby Sparks que é a maior reunião de clichês que já vi (“eu sou uma bagunça!”) – aqui, felizmente, de propósito. No início, acreditei piamente de que o filme se passava em algum momento da era pré-computador: Calvin usa óculos de aro grosso e uma máquina de escrever. Ao ver um iPhone, porém, constato que o nosso protagonista é só demasiadamente hipster, assim como sua amada – que, aliás, sai do papel e da tinta para a vida real. Sim. Agora, não é como se eu não quisesse bater um papinho com algum de meus personagens (e perguntar porque eles são tão rebeldes e intratáveis as vezes) mas não ligar para um hospital ao ver um deles de fato é um nível abaixo da sanidade – mesmo para um escritor. Há aqui o meu primeiro elogio para Ruby Sparks: Calvin não aceita a presença de sua criação tão fácil assim, e mesmo quando o faz, é facilmente justificável pela personalidade, temperamento e isolamento do mesmo. E mesmo que fosse loucura, seria coletiva – ele checa, milhares de vezes, que não é o único a ver a garota ruiva. Um teste final revela que ela não é uma atriz ou fã louca (redundância) e sim produto de sua própria imaginação, moldável de acordo com o digitado em sua velha máquina de escrever. Como em qualquer filme, há aquele período de felicidade roubada, onde uma musiquinha dá fundo a vários flashes de aventuras e sorrisos. O problema é quando Ruby começa a criar uma personalidade própria, querendo, de fato, uma vida – Calvin, que havia deixado seu manuscrito trancado na gaveta até então, aproveita-se do seu poder semi divino para alterar a disposição de Ruby, fazendo com que ela se torne o que era a priori: uma garota perfeita. Para ele. Calvin é um imbecil completo, mas é tão pateticamente dependente que não consegui detestá-lo. Ruby veio de sua imaginação, e qualquer desvio a isso é rapidamente “corrigido” – ou seja, ele poda qualquer fagulha de individualidade. Ruby diz “é como se fossemos a mesma pessoa” e o triste não é que Calvin, um personagem ficcional, seja e pense desse jeito – o triste é a quantidade de pessoas reais que compartilham disso, sem nem ao menos perceber ou ver problema nisso. Como se a obrigação do parceiro(a) não fosse ser só a metade da laranja, mas sim a extensão de sua vida, a continuação de sua existência. Ah, que coisa traiçoeira é achar que uma pessoa é menos que uma pessoa... As críticas feitas em Ruby Sparks são ácidas, acertando, através da ficção, pontos críticos. Minha única crítica real ao filme reside na trilha sonora, que prometeu fantásticos Kaiser Chiefs e outras maravilhas, parcamente cumpridas. Mas não é ruim, só abaixo das expectativas. Ah, as expectativas... Não é alarmante que na Índia (onde a maior parte dos casamentos são arranjados) os casais sejam mais felizes do que em qualquer lugar do mundo ocidental?? Isso porque não há aquela expectativa imensa – o futuro noivo ou noiva não sabe se o escolhido de seus pais é, de fato, saído diretamente de uma comédia romântica, filme indie ou seja lá o que você goste. Não vejam isso como uma defesa do casamento arranjado (dã) e sim dos pés no chão, os dois, bem postos. Talvez assim como Calvin estejamos perdendo pintoras vivas e cheias de personalidade em prol das (falsas) criações de nossas mentes... 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Para qualquer um que escreve é extremamente complicado pensar em todo mundo como gente de verdade. Gente com experiências, amores e gostos, aquele conjunto fantástico que dá a cada ser humano singularidade e complexidade – os depressivos que acham que suas vidas não são valiosas não poderiam cometer maior erro, ao esquecer que suas memórias são tão únicas e particulares que justificam por si só a sua passagem pela terra. Mas todo personagem é Frankstein – o sorriso daquele cara que você viu no ônibus, o tom de voz de sua amiga, o levantar de sobrancelhas de sua mãe – e se o pensar nisso for permitido, o tal do escritor ou escritora se consumirá de angústia por não poder pegar pedacinhos de todos que cruzam nossos caminhos. É impossível, e isso é uma merda. Se você perguntar em um jardim de infância, porém, serão muitos os que responderão que seus pais se chamam “papai”, “mamãe” ou qualquer outro título que não é obviamente um nome próprio. Mesmo depois das fraldas abandonadas, nunca conversei com um filho que não padecesse, na maior parte do tempo, do estranho egoísmo (algumas vezes justificado, mas vá lá) de achar que as pessoas que o puseram no mundo (ou o criam como se tivessem feito) são menos do que pessoas. Porque eu me impressionei ao descobrir que meu pai levou algumas surras da polícia ou que minha mãe trabalhou por seis meses como telefonista em Porto Seguro antes de entrar na universidade? Porque cargas d’águas eu supus, sem sequer pensar no assunto, que os mais de quarenta anos dos dois eram mais vazios do que os meus dezessete? Não, até mesmo aquele que estremece ao sequer pensar em sair da sua zona de conforto tem mais história para contar do que uma edição completa de As crônicas de gelo e fogo. E aqueles que viveram então – ah! Que vergonha é não poder conversar com eles! Como a maior parte de nós, os gêmeos Simon e Jeanne, protagonistas do filme Incêndios, tiveram uma verdadeira biblioteca de histórias em casa a vida inteira e não aproveitaram – sua mãe, (originada de um país indefinido no Oriente Médio e radicada no Canadá) Nawal, ganha somente o rótulo de “excêntrica”. No melhor estilo de filme de Sessão da tarde o testamento de Nawal traz exigências muito estranhas, na forma de duas cartas: uma a ser entregue ao irmão (de existência desconhecida pelos gêmeos) e a outra ao pai dos dois, que tinha, teoricamente, morrido na guerra entre mulçumanos e cristãos na sua terra natal. Ao contrário dos filminhos repetitivos da Globo, não há uma herança gigantesca como prêmio para tamanho esforço, nem mesmo alguma promessa de satisfação ou felicidade – o tom do testamento é sombrio, não deixando dúvidas quanto ao que estará por vir caso a busca seja concluída. Simon não demora muito a ignorar o testamento, ironizando-o – “Será que temos também um cachorro?”, ele diz. Afinal, uma família grande sempre tem um cachorro. Mas Jeanne, professora assistente de Matemática Pura (aquela que tenta resolver o insolúvel, profissão que se encaixa bem na personagem), não consegue se concentrar nas suas equações e incógnitas e, por sugestão de seu orientador, vai cumprir a missão que lhe foi confiada. Por baixo de panos e mais panos de picuinhas familiares e promessas não cumpridas, ela passa a realmente conhecer Nawal, que como todos os estranhos, conhecidos e amados que fazem parte de nosso cotidiano, tem incontáveis (e dolorosas) histórias para contar. Não encontro palavras para descrever Incêndios – sabe aquela obra para qual “maravilhoso” soa como pouco demais? É isso. Não dá para saber ao certo em momento nenhum qual é o país do qual o filme trata (embora eu jurasse, até checar de fato no IMDB, que se tratasse do Líbano) mas a guerra retratada (na qual Nawal se envolve profundamente) é uma ótima amostra daquelas que fizeram o Oriente Médio ser apelidado como “barril de pólvora”. Isso sem falar no tal do choque cultural, tema do qual não dá para passar longe em um filme de produção estrangeira – não há nenhuma grande questão aqui, só aqueles detalhes aparentemente insignificantes para os locais, mas enormes para os forasteiros, colocados com uma sutileza ímpar Há um trecho de aproximadamente dez minutos no final do filme que é extremamente deslocado – tanto em termo de ritmo quanto de qualidade – mas felizmente o estilo é retomado rapidamente. Passei quase um dia tentando descobrir o tema de Incêndios, e não consegui classificá-lo direito – não é um filme de guerra ou de protesto, muito menos um mero drama familiar. Odeio generalizações, mas este é um daqueles fantásticos filmes sobre as pessoas, seus sentimentos crus, suas promessas desfeitas e sonhos perdidos. A simplicidade alcança o céu. Gostou da resenha? Quer fazer uma blogueira feliz hoje? Então visite o meu blog distopicamente.blogspot.com e curta a página no Facebook facebook.com/blogdistopicamente para saber das novidades ;D
Às vezes parece que todo mundo tem depressão hoje em dia. Não me entenda mal: não estou diminuindo a importância do chamado “mal do século XXI”, nem subestimando a gravidade da doença para os que realmente a possuem. O problema é que aparentemente há diagnóstico em excesso, onde qualquer tristeza um pouquinho mais duradoura ou problema mais complicada deve ser tratado com uma ajudinha química. Sim, a ciência supostamente deve tornar as nossas vidas melhores, mas obstáculos são algo constante na vida e devem ser enfrentados em estado natural. Se você não tem transtorno de déficit de atenção, não deve tomar Ritalina só porque quer um empurrãozinho para passar no vestibular. Esse excesso de diagnóstico fica logo claro nos primeiros minutos do filme americano Terapia de risco: quase todos ao redor da protagonista Emily parecem ter tomado alguma medicação para depressão nos últimos tempos. De marcas que exibem suas propagandas em todo lugar, tratando a doença como um fenômeno geral e dando a entender que as pílulas anti depressivas são tão simples como aspirinas ou sabonetes contra acne. Mas Emily realmente precisa delas. Seu marido, Martin, acaba de sair de uma temporada na prisão, e ainda que sua volta traga uma imensa felicidade, a faz relembrar a época terrível em que ele foi preso quatro anos atrás. Após uma tentativa de suicídio, seu caminho se cruza então com o do psiquiatra Jon Banks, um inglês para quem tudo vai de forma muito tranquila – ele tem vários turnos no Hospital, pacientes em uma clínica particular e ganhará 50 mil dólares para participar da pesquisa de uma nova medicação para depressão. Que não é a mesma, aliás, que ele receita para Emily: a da jovem mulher, apesar de se provar efetiva depois de algumas semanas, lhe dá como efeito colateral o sonambulismo. Em estado de dormência, Emily um dia comete um assassinato. Mesmo não sendo incriminado judicialmente, a carreira e o casamento de Jon vão por água abaixo pelo destaque dado ao ocorrido, e o médico se afunda em dívidas. Sua nova obsessão se torna, naturalmente, ir ao fundo do crime cometido por Emily e encontrar os reais efeitos dos anti depressivos para a ocorrência do mesmo. Terapia de risco é assustador e fantástico. Minhas expectativas para o filme eram bastante altas – eu o vi divulgado em vários veículos de comunicação e li uma ou duas críticas – mas enquanto eu esperava um longuíssimo (mas legal) chá de cadeira sobre os efeitos da depressão na vida de um indivíduo, ganhei um thriller viciante. O filme se usa do recurso da incerteza sobre o que influenciou o ato de Emily, instigando o espectador. Confesso que fiquei um pouquinho decepcionada com Terapia de risco no início: acreditava piamente que ele faria fortes críticas ao sistema existente entre médicos e fabricantes de medicamentos. Me espantei, portanto, ao encontrar o tal mistério. Depois de refletir um pouco, contudo, conclui que isso foi só um recurso para falar justamente do que eu esperava – as conexões complicadas entre gigantes farmacêuticas (que se utilizam de “bonificações” a médicos, programas de TV e revistas e da boa e velha propaganda) e pacientes. Sim, existe um certo auxílio de psiquiatras e da cultura de forma geral para que nós estejamos, no mundo ocidental, cada vez mais falsamente depressivos. Como tudo na sociedade, porém, passa por nossa permissão (voluntária ou não) para acontecer – e, nesse caso, da vontade que todos temos de uma ajudinha química (legal e socialmente aceita) para fugir de nossos próprios problemas...
Ei, publico minhas resenhas (de filmes, livros e séries) no meu blog ( distopicamente.blogspot.com ). Caso você tenha gostado dessa, dê uma passadinha lá, um like na página do Facebook para saber das novidades e faça uma blogueira feliz :)
A lei de Murphy é mais efetiva do que a lei da gravidade: não importa em que época ou mesmo mundo você esteja, tudo que pode de dar errado dará. Sandra experimenta um dia assim no seu trabalho: supervisora de um restaurante de uma cadeia de fast-food, ela acaba de perder 1300 dólares em produtos graças a um funcionário desatento, que deixou a porta do freezer aberta depois do expediente. Somando-se a isso, ela recebe a notícia de que um avaliador disfarçado virá até a lanchonete, para testar a sua qualidade e reportar ao escritório central. Ao chegar, fica logo claro que suas suspeitas recaem em Becky – dos adolescentes inocentemente inconseqüentes que lá trabalham, é ela a que mais irrita Sandra. Uma leve inveja de sua vitalidade, talvez? Não sei, mas tudo fica pior para a garota quando uma suposta cliente a acusa de roubo, e Sandra é notificada via telefone. É óbvio para o espectador que aquilo não passa de um trote: nenhuma polícia no mundo trabalharia de forma tão estranha. Mas graças a tensão, isso não fica claro para os empregados do restaurante, que desaprovam os métodos de trabalho do “policial Daniels”, mas não duvidam que ele seja, de fato, um agente da lei. Isso faz com que as coisas vão de mal a pior para Becky: acusada de um crime que não poderia, possivelmente, ter cometido, ela é submetida a desconfiança e julgamento dos colegas. É estranho haver um sentido positivo para nauseante, mas eu me vejo obrigada a aplicá-lo aqui. É isso que Compliance é, em uma cadeia muito bem feita de atos que exibem pedaços escondidos e terríveis de nossa espécie, com uma dose cavalar de medo. Porque é esse o sentimento que dita a tônica do filme: medo. O mais perigoso dos sentimentos – útil para homens das cavernas e qualquer um em situação extrema, condenável para avanços e convivência social. Li algumas críticas que alegam uma inocência artificial por parte dos personagens, que não perceberam logo de cara a brincadeira de mau gosto feita pelo homem do outro lado da linha. Eu poderia concordar, se o algoz de Compliance não salientasse o tempo inteiro sua suposta autoridade, impondo-se habilidosamente a todos ali. Todos sabiam que aquela investigação era errada e estranha, não era necessário ser um gênio ou viciado em programas criminais da TV para tal – mas com uma muito humana covardia, as palavras são engolidas e os olhos são fechados. Costumava me irritar com a fragilidade humana, com a facilidade com que um animal que constrói computadores e descobre curas destrata os seus semelhantes. Usar o verbo no passado é uma mentira, mas somente parcial – como condenar um crime do qual eu poderia me ver, inesperadamente, culpada?
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Do outro lado é magnífico, mas eu ainda não consegui descobrir muito bem porquê. Entre dois países e três culturas diferentes (a alemã, a turca e dos imigrantes turcos na Alemanha) as imagens e desentendimentos são extraordinários. Mas não, não foi todo esse choque cultural que me encantou em Do outro lado. O filme é, na verdade, primoroso em falar de assuntos universais, como a dor, a solidariedade e a culpa. Embora seja possível ver que todos os personagens são pessoas completas, não sabemos muito sobre eles – só que as situações pelas quais Ayten, Yeter e Lotte passam poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo. Do outro lado me surpreendeu também pelo seu ritmo: ao contrário dos filmes do gênero, não foi excessivamente lento. Só tenho duas pequenas críticas: a primeira quanto a pouca resistência da mãe de Lotte, Susanne, em receber uma completa estranha em casa. Sim, ela reclama, mas não insistentemente o bastante para alguém cuja filha acabou de trazer uma possível criminosa para casa. A segunda crítica também é relacionada a isto: Susanne me pareceu, nos seus poucos minutos em tela, uma personagem fascinante, interpretada por uma ótima atriz. Infelizmente, sua atuação resume-se exatamente nessa palavra – poucos – e fiquei com uma pontinha de curiosidade insatisfeita quanto a ela. No melhor estilo A separação, Do outro lado tem um final em suspenso, aberto a possibilidades e outros caminhos. Aqui há uma tonelada de verossimilhança, sua característica marcante – afinal, nem mesmo a morte tudo resolve. Leia esta resenha na íntegra e outras em distopicamente.blogspot.com
Toda Forma de Amor
4.0 1,0K Assista AgoraNós temos uma necessidade geral de classificar as coisas, de estereotipar tudo, de encaixar toda nossa vida em um molde. É completamente compreensível: tudo é tão difícil, então porque não simplificar as coisas?
Pena que a vida não é tão simples assim.
É engraçado que eu não consiga classificar Toda forma de amor nem falar com precisão do filme porque justamente isso o tema central do filme: a nossa falha ao querer saber tudo.
Alguns meses depois da morte de sua esposa Hal “sai do armário”. Tudo parece ótimo: ele participa de grupos para direitos civis dos homossexuais, arruma um namorado e não enfrenta nenhuma resistência do único filho, Oliver. Pois é, uma parte das pessoas que assistiu Toda forma de amor meio que quebrou a cara aqui: o filme não é sobre a aceitação do filho a homossexualidade do pai. Oliver é bastante tranqüilo com isso – sua preocupação se resume a felicidade da mãe, agora questionada por ter sido casada durante décadas com um homem que não a desejava.
Mas Hal logo descobre ter câncer no estágio quatro (não há estágio cinco) e, decepcionando outros tantos espectadores, Toda forma de amor não é um filme sobre a luta forte desse homem pela a sua vida, nem dele aproveitando seus últimos momentos: sabemos desde o início que o pai de Oliver está morto, quando ele encontra-se com Anna, uma moça pela qual o “solteirão” de trinta e tantos anos se apaixona.
A mistura dessas histórias, contadas em forma de flashbacks, podem parecer algo extremamente piegas e emotivo, mas não é. Se Toda forma de amor fosse um livro eu diria que ele é um romance de formação, romance de formação sobre um homem (Oliver) que tem que lidar com diversas situações difíceis na vida – como todo mundo.
No caminho, ele destrói algumas das premissas sobre si mesmo – aquelas frasezinhas feitas e suposições que inventamos na necessidade de nos entender. Não sou a maior fã do gênero romance pelo mesmo estar demais infiltrado nos livros que leio, mas consegui não rolar os olhos uma vez sequer em Toda forma de amor – um bom sinal de falta de pieguice.
Enfim, Oliver tem um olhar fantástico sobre tudo, e sendo ele o narrador, é tal olhar que nos acompanha. Geralmente minhas resenhas tem o dobro desse tamanho, mas não há mais nada que eu possa falar sobre Toda forma de amor além de um ASSISTAM bem grande.
Ah, deixem me corrigir a afirmação acima: ainda bem que a vida não é tão simples assim. Ainda bem.
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Universidade Monstros
3.9 1,8K Assista AgoraAcabei de chegar do cinema onde assisti com minha irmã Universidade de Monstros, a prequel para o muito famoso Monstros S/A. Adoro assistir animações no cinema por um motivo: o clima em geral é tão feliz (e/ou emocionante) que não consigo me incomodar muito com os freqüentadores extremamente mal-educados, que acham que conversar, atender ao telefone (“to no cinema, cara!!”) ou narrar a história (“aposto que agora ele vai abrir a porta! Abriu! Não disse?”, “Olha o zumbi ali! Não, faz silêncio, idiota!”) sejam boas idéias.
Mas seja em casa ou seja no multiplex local, uma coisa é mais do que certa: as animações que assisti recentemente (sobretudo as da Pixar) tem me deixado com uma sensação incrível de vazio.
Sim, vazio. Assim como na literatura infanto-juvenil, os desenhos animados (feitos, supostamente, para crianças) são algumas das obras de ficção que mais admiro. Como é possível colocar coisas e ideias tão complexas em algo que até mesmo alguém nas fases mais primárias do desenvolvimento consegue entender? E mais: sem subestimá-los, explicando tim tim por tim tim?
Segundo o cineasta dos brilhantes Wall-E e Toy Story nessa palestra que nunca me canso de assistir, o segredo para uma boa história está no princípio mais básico da humanidade: a empatia. Faça com que eu me importe com os personagens – mesmo se for para torcer que ele quebre a cara – e kaboom! Temos uma história de sucesso quase garantido. Cinquenta tons de cinza não vendeu por causa de Christian Grey ou por tratar de um tema “tabu”, e sim porque Anastasia Steele é tão genérica que qualquer leitora destreinada se identificaria com a moça. Eu não sou você, mas poderia ser. Já me senti desajeitada/deslocada/tanto faz um dia também.
Não digo que não liguei para os rumos de Sullivan ou Mike em Universidade de Monstros – até porque nós temos um passado juntos que me impediria de tal heresia – mas não houve aquela magia, aquela ligação, aquele desespero que me fez, anteriormente, querer entrar na telinha e resolver as coisas para os que estavam lá dentro. A fórmula usada foi a mesma, a qualidade “técnica” só melhorou, mas não adianta. Não há o respeito ao princípio de Walt Disney de uma lágrima a cada gargalhada.
O enredo de Universidade de Monstros é, como esperado, razoavelmente simples: regredimos alguns anos no tempo para ver Mike, o “olho verde”, entrando na Universidade de Monstros, uma muito respeitada instituição de ensino. Assim como o enorme e até então desconhecido Sullivan, Mike se matricula no curso de Sustos, enfrentando uma enorme descrença de todos (inclusive da assustadora coordenadora do curso) por não ser “assustador o suficiente”.
Mike se esforça e é o aluno mais aplicado (talvez de toda a Universidade) mas não consegue ser o suficiente. O mesmo acontece com Sullivan, mas por um motivo diferente: sua aparência e histórico familiar (o seu pai é um Assutador bem famoso) ele não vê a necessidade de se esforçar em suas matérias. Os dois são logos expulsos do curso, e se vêem presos entre duas opções: ou continuar na muito entediante carreira de Engenharia de Cilindros ou se unir a um grupo de doces “desajeitados” de uma Fraternidade e ganhar uma competição de sustos, provando assim a coordenadora que a expulsão dos dois foi um erro.
Sim, o enredo não é inovador – mas se você pensar bem, nem mesmo o do maravilhoso Wall-E ou do emocionante Up! Altas aventuras é. Sim, eu dei risada e chorei um pouco, além de adorar como os desafios foram espaçados ao longo do filme, mas faltou aquela coisa inominável, que separa o bom do fantástico. O mesmo que faltou em Valente, o mesmo que parece faltar em todo filme da Pixar nos últimos tempos. Onde está aquela sensação de maravilhamento que era garantida assim que eu colocava o pé no cinema?
Pixar, seus verdadeiros monstrinhos são seus espectadores – exigentes como um chef francês, querem uma sensação de dejá-vu ao entrar no cinema. Sensação que, infelizmente, não está vindo mais.
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Precisamos Falar Sobre o Kevin
4.1 4,3K Assista AgoraKevin já nasceu estranho. Desde o berço, a diferença entre seu comportamento frente à mãe Eva e frente ao pai Franklin (que se estende ao resto da humanidade) é enorme: com ela, um pesadelo – é marcante quando Eva prefere o barulho de uma furadeira ao choro insistente do filho. Com ele, um sonho, comportado e extremamente inteligente.
Os anos passam e a coisa piora: o que podíamos denominar de mal-criação persistente vira pura maldade. Como vários psicopatas mirins, as vítimas de Kevin são variadas e seu gosto pela dor (o bichinho de estimação de sua irmã não dura quase nada) é óbvio – mas seu principal alvo não deixa de ser sua mãe.
Precisamos falar sobre o Kevin é contado de forma completamente não-linear, com flashbacks da vida de Eva com seu pequeno algoz. É impossível, aliás, não sentir compaixão por essa mulher: toda culpa dos atos do filho cai sobre seus ombros, fazendo-a ser completamente isolada (e diariamente agredida) na cidadezinha onde foi morar – já que, segundo Franklin, o pequeno Kevin precisava de um lugar mais saudável para crescer do que a poluída Nova York.
Dizer que Eva foi a culpada pelos atos de Kevin, aliás, parece não ser regra somente no mundo da ficção: quase todas as resenhas que li faziam o mesmo. Ah, peraí! A educação doméstica é sim determinante para o caráter, mas alguns simplesmente são incontroláveis – como Kevin. Eva erra sim, e é bem óbvio que ela muitas vezes deseja não ter aberto mão de sua carreira e sua vida em Nova York para criar o filho – mas culpá-la é não se esforçar um milímetro para se por em seu lugar, sentir o seu sofrimento.
Precisamos falar sobre o Kevin é fantástico de forma arrebatadora. Não temos um minuto de sossego: logo quando pensamos que tudo vai se acabar, que Kevin já passou dos limites, um elemento novo é introduzido. Como disse acima, o filme é não-linear – algo perigoso, mais fantástico se der certo e for compreensível para o espectador. E Precisamos falar sobre o Kevin conseguiu isso.
Ezra Miller (Kevin) e Tilda Swinton (Eva) não poderiam ter feito melhor seus respectivos papéis: a dissimulação e falta de emoções do primeiro e o desespero (contido, claro – lembremos que para todos os outros, Kevin é um anjinho) da segunda foram perfeitamente encarnados por seus interpretes.
Quer convencer alguém a não ter filhos? Simples: faça com que a pessoa assista a esse filme. Só a possibilidade de passar pelo que Eva passa já é assustadora demais.
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Nenhum a Menos
4.2 107 Assista AgoraQuero conhecer – e não falo no sentido turístico superficial, embora este seja o caminho mais fácil – muitos lugares (talvez seja isso a razão pela qual eu leia tanto: que maneira melhor de desbravar novos mundos sem sair de debaixo do meu edredom?). Todo lugar onde eu possa encontrar algo diferente do que tenho no meu quintal (o que pode ser, às vezes, meu próprio quintal) – não importa se a um ou dez mil quilômetros de distância – me encanta.
Outros, porém, exercem um fascínio maior, como se sua personificação me chamasse com uma voz atraente, me ditando uma lista de coisas que perco a cada segundo que passo sem ir para lá.
No topo dessa seleta lista, está a China.
Infelizmente, meu fascínio por esse país é tão grande quanto minha ignorância sobre ele – coisa que venho tentando mudar. Uma surpresa boa é, portanto, encontrar entre os DVDs comprados por minha mãe o filme chinês Nenhum a menos – que me encantou assim como seu país de origem.
Gao é professor de uma escola primária em um povoado isolado na China, onde giz é luxo. Mesmo com todas as dificuldades, Gao ama sua profissão, tentando ao máximo manter seus alunos – na maioria, filhos de camponeses pobres – na escola e aprendendo. Quando sua mãe adoece, ele precisa viajar por um mês – mas com quem deixar seus pupilos?
A única pessoa disposta a aceitar a dura tarefa de substituí-lo é Wei Minzhi, uma camponesa de treze anos que cursou apenas o primário. Gao então faz uma promessa a Wei: caso o índice de evasão fosse zero, ele lhe daria um extra do seu próprio parco salário. Nenhum a menos.
É claro que não é fácil: só para começar, Wei não sabe fazer mais nada além de copiar lições e cantar uma única cantiga popular. Seus alunos – trinta crianças de diversas idades cheias de energia – logo se cansam dessa mesmice. Para completar, uma das garotinhas – que corre dez quilômetros por dia – é levada até a cidade para puder treinar corrida em uma escola maior – a excelência nos esportes é bastante importante na China desde Mao.
Acaba acontecendo a mesma coisa com Zhang – o “problemático” da classe – só que por um motivo diferente: por ser muito pobre (seu pai morreu jovem e sua mãe é bastante doente) ele precisa se mudar para a cidade para procurar emprego. Decidida a entregar a escola com o máximo de alunos possível, a garota então parte para a cidade grande – com alguma ajuda de seus estudantes – a fim de achar Zhang.
Para aqueles que preferem filmes de ação de Holywood, Nenhum a menos é um ótimo sonífero, seguindo o ritmo quase documental do cinema não-mainstream. Pensei que o filme fosse se propor a discussões maiores (sobre evasão escolar, por exemplo) mas não é isso que acontece: o enredo é bastante simples. Como filme, Nenhum a menos é o que é: uma garota de treze anos, tentando encontrar um dos meninos de quem deveria “tomar conta” em uma cidade gigante – todas as outras abstrações e debates ficam por conta do espectador.
Aliás, é a simplicidade que torna o filme fantástico. Os diálogos são somente o absolutamente necessário, sem floreios ou pretensões – não que eu não goste desse último, mas o diferente muitas vezes é bom. Os cenários são bem simples: o vilarejo calmo e isolado nas montanhas e a cidade, lotada e fervilhante – dois dos milhares de contrastes dessa misteriosa e fascinante terra chamada China.
Nenhum a menos é um filme lindo. Destruiu todas as expectativas, e as construiu de volta com algo bem melhor – e todo cinéfilo sabe como é bom quando isso acontece.
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Filhos da Esperança
3.9 960 Assista AgoraA fertilidade humana, no mundo do filme Children of Men, não passa de uma lembrança dolorosa: o último bebê nasceu há pouco mais de dezoito anos e quatro meses e, desde então, nenhuma mulher engravidou. Os cientistas dos mais avançados centros de estudos médicos tentam entender o que aconteceu, mas não parece haver explicação plausível.
Como esperado, o desespero toma conta da humanidade, e somente alguns países – geralmente os mais desenvolvidos, usando-se de forte poder militar e autoritarismo – conseguiram manter seus prédios de pé e seus cidadãos vivos – bom, ao menos literalmente vivos – metaforicamente, as pessoas morreram com o choro do último bebê, os sons das últimas cantigas de roda, algo tão forte ao ponto de tornar necessária a distribuição de um kit suicídio, o Quietus, incluído na ração do governo assim como pasta de dente e biscoitos.
Theo não liga muito para tudo isso – bom, pelo menos na medida do possível: é difícil ignorar os ataques terroristas de organizações com várias bandeiras, as “jaulas” onde os imigrantes ilegais (fugindo de conflitos devastadores em seus países) foram postos e as lagrimas de seus colegas pelo Bebê Diego – o ser humano mais jovem do mundo – morto recentemente por um fã. A apatia geral de Theo quanto a vida é impressionante, e é isso que cria um fascínio quanto ao personagem – quem é aquele homem que não parece se importar com nada em meio ao caos?
Mas, precisando de dinheiro, Theo aceita trabalhar para o grupo Fish – que luta por melhores condições aos imigrantes e do qual sua ex-mulher faz parte. Sua tarefa é ajudar a levar Kee,uma jovem fugitiva, até o litoral – mesmo as fronteiras intermunicipais estão fechadas – mas a aparentemente simples missão se complica por um simples fato: Kee está em estado avançado de gravidez. Repentinamente, tudo muda, e se torna objetivo do antes apático Theo levá-la em segurança até o navio do Projeto Humano, que irá protegê-la de governos tiranos e grupos que querem usar o seu bebê como bandeira.
O filme é fantástico: há muito tempo eu não via nada que balanceasse tão bem ação, reflexão e emoção. Children of Men cutuca algumas feridas e curiosamente nenhuma delas tem relação direta com a infertilidade, e sim com suas conseqüências. Como, por exemplo, o fato de que sempre nos voltamos ao lado mais “radical” da coisa em situações ruins – é só ver o crescimento de partidos extremistas em época de crise econômica. As religiões que surgem no filme, por exemplo, ao invés de utilizarem os velhos métodos para o conforto de seus fieis, os transformam em verdadeiros mártires, fazendo com que carreguem “o peso do mundo” nas costas.
A imigração é outro tema recorrente: enquanto milhares de imigrantes são expulsos de suas pátrias adotivas de maneira desumana na atualidade, Children of Men faz sua versão distópica, nos apresentando uma situação tão crítica que cidades inteiras são transformadas em campos de refugiados para ilegais. O clima de perseguição é completo: os anúncios alienantes do governo – presentes em cada segundo do dia de seus cidadãos – lembram que alimentar, contratar ou ajudar imigrantes é igual a alimentar, contratar e ajudar terroristas – ironicamente, a maior parte dos “terroristas” do grupo Fish são britânicos.
São tantos temas, referências e críticas feitos por Children of Men que refleti por algum tempo se não foi ambicioso demais – são só duas horas de filme! Contudo, cheguei a conclusão que não: de certa forma, sem os flashes do que se tornou a vida em sociedade – que dão curiosidade e vontade de que estes fossem melhor desenvolvidos; ainda que tal feito seja literalmente impossível – haveria o sentimento de estarmos diante de algo incompleto.
Children of Men partiu, esfarelou meu coração em mil pedaços, colando-o de volta com pura esperança. Estou ansiosa quanto a ler o livro do qual o filme foi adaptado – afinal, todo bookaholic sabe o quão errado está o ditado que diz que uma imagem vale mais do que mil palavras.
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Equilibrium
3.5 622 Assista AgoraDepois de uma terceira guerra mundial, há um consenso de que o mundo não suportaria uma quarta – para tal, na cidade-estado de Libria (uma selva distópica feita de concreto) é criado o Clero Tetragrammaton, responsável pela eliminação do que torna os seres humanos destrutivos: os sentimentos.
Mas é claro que a simples imposição social não funcionaria por si só, então algumas medidas são tomadas, sendo a principal delas o uso do Prozium – uma espécie de droga que suprime qualquer emoção humana. A arte também é considerada uma inimiga (afinal, não há maior gatilho em direção aos sentimentos) e destruída pelo Clero, com cenas de sensibilidade ímpar envolvendo o pouco de beleza restante no universo de Equilibrium: pinturas famosas queimam e gritam; poemas são recitados por personagens à beira da morte e uma crise de choro é deflagrada por alguns simples segundos de uma sinfonia de Beethoven.
John Preston é um alto sacerdote do Tetragrammaton, aluno disciplinado e servidor leal ao Pai – o governante de Libria, que possui uma enorme semelhança com o Grande Irmão de 1984. Um dia, Preston acidentalmente deixa sua dose de Prozium cair, fazendo com que tudo se modifique: uma manhã sem a droga já é o suficiente para que ele perceba que por mais alto que seja o preço a pagar pelos sentimentos, vale a pena – “sem amor, sem raiva, sem tristeza, a respiração é como um tictac de um relógio”.
A “descoberta” das emoções por parte de Preston se dá de uma forma tão violenta, tão repentina que é quase como uma dor, que é passada ao espectador nos mínimos detalhes. O mundo era a ele limitado mesmo nas menores sensações do dia-a-dia, e agora ele as tem. Como conseqüência da recuperação de seu coração metafórico, vem um enorme desejo por individualidade e uma curiosidade não comum aos librianos – afinal, formigas não podem se desviar do trabalho porque gostariam de saber de que cor são as flores.
Só há um problema que faz Equilibrium não merecer nota máxima: as cenas de ação. Embora elas não atrapalhem muito o desenvolvimento ou funcionem como um deus ex machina, algumas delas soaram bastante exageradas (ou até mesmo ridículas) para mim. É uma pena: como mostraram Matrix, Jogos Vorazes e muitos outros, é sim possível reunir reflexão e pancadaria.
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Maria Cheia de Graça
3.7 141 Assista AgoraMaria tem dezessete anos. Maria é colombiana, pobre e precisa trabalhar para ajudar no sustento da família.
Maria está grávida.
Este fato, juntamente com ter perdido seu emprego (por não agüentar ser humilhada por seu patrão), terminado com o namorado (pela recusa em casar com alguém que não ama – mesmo que esteja grávida deste alguém) e as brigas constantes em casa fazem com que a garota sinta o peso inteiro do mundo sob seus ombros. Com a família precisando do dinheiro, Maria só tem duas opções: pedir desculpas a seu chefe e recuperar seu trabalho ou ir a uma cidade maior – porque o seu povoado não possui nada além da fábrica de flores para uma jovem sem formação ou experiência – e conseguir alguma coisa por lá.
O orgulho e a teimosia – corretos, aliás, embora imprudentes – lhe fazem optar pela segunda opção – ainda que se pôr rumo a Bogotá, batendo de porta em porta, seja mais difícil do que duas frases murmuradas para o seu supervisor. Maria, contudo, não chega a precisar disso tudo – no caminho, ela encontra Franklin (rapaz que conhecera dias antes em uma festa) que lhe oferece algo mais rentável e rápido: trabalhar como mula de drogas.
Não sei se isso é devido a algum tipo de ultra sensibilidade minha, mas senti as emoções de Maria em cada pedacinho do filme: o medo de ter que criar um filho diante de condições tão desanimadoras (para dizer o mínimo), a ansiedade para arrumar um trabalho e, finalmente, a tensão, a terrível tensão derivada do fato de que ela, indo rumo ao país mais obsessivo do mundo, tem sessenta cápsulas de cocaína no seu estômago.
Maria cheia de graça é magnífico: sutil, com diálogos bem simples e coloquiais, mas isso – aliado a qualidade do elenco – transmite a mensagem de forma perfeita. Os cenários – na maior parte do tempo, vizinhanças pobres colombianas na própria Colômbia – são simples, mas, ainda assim, perfeitos para o que se propõe. O filme mostra que não é só o desespero que leva a atos desesperados e impensados e sim uma vida inteira de privações e “pequenas torturas” acumuladas – uma hora se cansa, se perde a capacidade de pensar nas conseqüências do que se faz e só se pensa em mudar um pouco aquilo.
No pôster de divulgação, lê-se: “baseado em mil histórias reais”. Real, real, real. Canso-me de usar essa palavra para os filmes que assisto e livros que leio – corro o risco dela se tornar, para mim, tão vazia quanto “bom” ou “legal” – mas essas quatro letras valem mais do que mil outros adjetivos elogiosos.
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Maus Hábitos
3.6 48Em todas as cenas que Elena aparece no filme Maus Hábitos eu tive a nauseante impressão de que a qualquer segundo ela poderia se desintegrar. Seu corpo é tão frágil e magro que até mesmo um cigarro parecia-me pesado demais para seus braços finos.
O motivo é bem simples: Elena é anoréxica.
E como geralmente acontece nesses casos, a sua doença acaba não dizendo respeito somente a ela mesma – toda sua família é atingida. Seu marido, Gustavo, é menos do que um colega de casa: as obsessões da mulher a preenchem e ocupam de tal maneira que até mesmo suas conversas e desejos são permeados pela privação de comida e excesso de exercícios. Elena não é mais Elena, ela é a sua doença, ela é preenchida e comandada pela anorexia.
Linda, sua filha, é quem mais sofre: Linda é gordinha – mas só daquela maneira na qual crianças às vezes são. Elena, contudo, não aceita nem mesmo um vestígio de gordura infantil: a fim de deixá-la o “melhor possível” para sua primeira comunhão, ela a insulta, forçando a filha tomar remédios, fazer dietas malucas e exercitar-se.
Matilde, a prima de Linda, também não come, mas por razões diferentes: quando era criança, desenvolveu uma forte religiosidade – a lembrança de “curar” um engasgo do pai com orações a marcou. Portanto, depois de se formar em medicina – atendendo ao desejo dos pais – Matilde vira freira, abraçando com bom gosto as privações de sua nova vida.
Nas suas primeiras semanas no convento, uma tia de Matilde adoece. A noviça faz de tudo para ajudar sua convalesça – inclusive sacrificar-se, jejuando, comendo lixo e bebendo vinagre a fim de reafirmar sua crença de estarem ela e sua tia nas mãos de Deus. Aparentemente seus sacrifícios funcionam, fazendo Matilde usá-los para um bem maior: parar com as chuvas que assolavam o México na época e matavam e desabrigavam milhares de pessoas.
Comida, além de sobrevivência, significa prazer, História, coletividade. Nós dividimos nossos dias baseado nos horários das refeições, nos reunimos em torno de pratos, remetemos épocas de nossas vidas a certos gostos. Ao mostrar o quão alterada pode ficar uma relação tão simples e necessária, Maus Hábitos foi profundo e tocante.
Não consigo apontar defeitos no filme: a fotografia é linda, o roteiro maravilhoso e o elenco (apesar de desconhecido) idem. O mais impressionante é que o diretor e roteirista, Simon Ross, só desempenhou esses dois papéis em Maus Hábitos: todos seus outros trabalhos na indústria cinematográfica foram na produção. Quem diria – ao menos se você acreditar na máxima de que a prática leva a perfeição – que um filme tão bom é obra de um quase estreante?
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Volver
4.1 1,1K Assista AgoraDesde que foi para Madri, Raimunda evita ao máximo o povoado onde nasceu: os intensos e desconfortáveis ventos de Alcanfor de las Infantas lhe trazem memórias indesejadas.
Mas três anos depois da morte de seus pais, Raimunda se vê obrigada (juntamente com sua irmã Soledad e sua filha Paula) a se por na estrada rumo ao povoado a fim de realizar o pitoresco ritual de limpar a sepultura da família – feito pelas mulheres do lugar com uma alegria contida, tomando leves ares de evento social.
Depois que brilhou o epitáfio, as três foram visitar a fragilizada tia Paula (irmã da finada Irene, mãe de Raimunda e Soledad) e Agustina – uma velha amiga que lhes segreda entre baforadas de maconha correr em Alcanfor o boato de que tia Paula, depois de adoecer, vem sido amparada pelo fantasma de Irene.
Raimunda não dá muita importância ao fato: entre dois empregos, o serviço doméstico e Paco – seu marido desempregado que passa o dia inteiro em frente à TV – o tempo para crendices é limitado. A solitária Soledad, embora mais crente nesse tipo de coisa, também desvia-se para o seu salão de beleza clandestino, não retomando-o até sua próxima visita a Alcanfor.
Como Murphy previu, tudo desaba ao mesmo tempo: ao voltar de um dia de trabalho, Raimunda encontra Paula esperando-a na calçada de casa, desesperada. O motivo: ao tentar se defender de uma tentativa de estupro por parte de Paco – que ela acreditava ser seu pai, embora durante o assédio este afirmasse ao contrário – Paula acabou por matá-lo. Uma ligação de Sole algumas horas depois a informa de que sua tia também havia morrido – o que também acontecerá com Agustina (portadora de um câncer terminal) caso ela não consiga um bom tratamento.
Há algo de mágico em algumas cenas de Volver: como uma mulher limpando uma cozinha ensangüentada pode parecer algo encantador? Não sei, mas pequenas “banalidades” como essas inseridas durante todo o longa tocaram meu coração profundamente. Qualquer um dos aspectos de Volver – seja roteiro, fotografia ou elenco – poderia carregar o filme nas costas, mas eu elejo esses pequenos recortes de humanidade como meu preferido. É como se esses pedacinhos fossem preenchidos com sentimentos e reflexões individuais, tornando o filme algo tão próximo do espectador que uma visita de Raimunda e Soledad para um café não seria recebida com surpresa por mim.
Gosto de livros e filmes que se passem em mundos alternativos bem construídos (resultantes de uma dose cavalar de abstração e uma pitadinha de loucura de seus autores), mas filmes como Volver me fazem perguntar por quê. Por que gosto do distópico, do fantástico e do sobrenatural quando a humanidade por si só já é tão complexa e intensa? Qual a necessidade de criar mundos além se esse daqui foi precariamente explorado?
Acredito que haja uma pequena confusão nas sinopses de Volver (a minha inclusa): se tem a impressão de que é Raimunda que protagoniza o filme. Embora a corajosa mulher de fato apareça na maior parte das cenas, é um disparate: há uma personagem que toma as rédeas do enredo completamente – a morte. Sei que soa estranho dar tamanha importância a algo não-personificado mas de forma única, a última partida – e o folclore em torno da mesma – comanda o destino das personagens, estando presente do início ao fim. O tema central de Volver pode soar as vezes como mimimi de novelinha, mas graças a sua ilustre personagem, as voltas do filme são imprevisíveis – embora pareçam lógicas depois que ocorrem. Isso é de todas as qualidades do filme a mais genial: qual melhor protagonista para um filme recheado de humanidade do que a nossa única certeza?
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Paraísos Artificiais
3.2 1,8K Assista Agora“As pessoas acham que é tudo sofrimento, desespero, morte... O que não pode se ignorar. Mas elas esquecem que há prazer nisto. Caso contrário, não faríamos isso. Afinal, não somos idiotas. Pelo menos não tanto.”.
O dito por Mark Renton sobre seu vício em heroína no filme Trainspotting talvez resuma bem porque é uma tarefa tão infeliz retratar o mundo das drogas. Um erro tão grande quanto esquecer os efeitos devastadores sobre a saúde e a vida em sociedade é ignorar os porquês de existirem tantos viciados: há uma dose cavalar de imbecilidade (ou desespero) em começar a se drogar; mas não parece que a continuação do hábito necessite de muito. Enfim, a linha entre o moralismo chato, repetitivo (e até certo ponto inútil) e a apologia é tênue, mas quando um escritor ou cineasta consegue caminhar em cima dela, sem pender para nenhum dos dois lados, o efeito é (no bom sentido) destruidor.
Eu estava decepcionada com o último filme sobre drogas que assisti – Meu nome não é Jonhnny, que resenharei em breve – e nada no enigmático trailer de Paraísos Artificiais chamou de fato a minha atenção. Em geral, trailers costumam ser uma compilação interessante e inteligente dos melhores momentos de um filme – um trailer bem feito faz o pior filme parecer digno de aplausos – mas o de Paraísos Artificiais não me disse nada sobre sua qualidade ou falta de.
Mas graças aos bons comentários, fui assisti-lo. Pois bem, há uma razão pela qual o trailer e sinopses são enigmáticos: a maior parte dos spoilers estragaria o pouco de roteiro que o filme dispõe.
A sensação de já conhecer a DJ Érika ao encontrá-la em um clube noturno em Amsterdã – onde ele foi à “negócios” - não sai da cabeça de Nando. Não é surpresa que não se lembrasse: ele estava "anestesiado" durante (por ter tomado seu primeiro comprimido de ecstasy) e depois (pela dor da perda do pai) da festa onde se conheceram dois anos antes, a rave Shangri-lá.Mas Érika lembra bem – e carrega as conseqüências e culpa de seus atos durante o que deveria ter sido o seu momento de glória, a primeira rave onde tocou – e se encontra em um impasse: refrescar ou não a memória do rapaz?
Paraísos Artificiais não é moralista ou faz apologia; muito menos caminha na gloriosa corda bamba entre ambas instâncias. Se o trailer é vazio, o filme é mais ainda; desprovido de qualquer provocação ou convite a reflexão.
É de fato um defeito imperdoável, mas não completamente repelente: a execução geral do filme é magnífica, e se esta não tapa os buracos no roteiro, ao menos desvia a atenção. A combinação de bons atores e uma ótima fotografia fez com que o retrato do efeito das drogas alucinógenas fosse arrebatador: as “viagens” dos personagens com ecstasy e peyote ao mesmo tempo assustam e encantam. Isso sem falar do cenário: se uma rave já é uma explosão de cores, sons e sentidos, uma rave em uma praia paradisiaca de Pernambuco é mais ainda.
Um verdadeiro espetáculo visual. É uma pena que não tenha sido também de ideias.
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Meu Nome Não é Johnny
3.5 1,0K Assista AgoraJoão Guilherme Estrella começou a vida como a típica criança feliz de classe média – com direito a brinquedos, família amorosa e amigos fieis. Depois do divórcio de seus pais, a coisa se torna um pouco mais desregrada: com o pai doente (e prostrado na cama quase que o dia inteiro) o jovem adulto fica com sua casa enorme para si – aproveitando todas as oportunidades possíveis para dar festas regadas a álcool e cocaína.
Segundo Draúzio Varella, todo usuário de droga é de alguma forma traficante: sendo a possessão de drogas uma contravenção, não há razão pela qual dez pessoas precisem ir a uma boca se apenas uma pode fazê-lo. A evolução dessa lógica é natural para alguns desses usuários – afinal, pode-se facilmente sustentar o próprio vício cobrando um pouco mais dos amigos pelo serviço, ou, melhor ainda: lucrar com isto.
Como seu vício, o status de João Guilherme evolui de forma sutil: o que era simplesmente uma simples divisão de custos se torna um meio de vida e, antes que ele percebesse, já era um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro – sem organização ou modus operandi, movido apenas pela vontade de cheirar cocaína e curtir a vida.
Filmes sem um argumento central – que se orientem só pelos erros e acertos de seus personagens – são em geral adoráveis, humanos, reais, mostrando que não são os acontecimentos que tornam uma vida extraordinária, e sim o que se faz nela. Mas em Meu nome não é Johnny isso não aconteceu: o filme é raso feito uma piscininha de plástico, com personagens sem nenhuma profundidade ou carisma. Não há complexidade, não há conflitos psicológicos, simplesmente não há nada além de uma enumeração chata de acontecimentos que soa como um diário desconexo, cor de rosa e brilhante de uma garota de oito anos. Essa bagunça só foi salva (e ainda assim levemente) pela (como sempre) ótima atuação de Selton Mello.
Numa era na qual filmes com mais de duas horas são considerados chatos, Meu nome não é Johnny não tenta economizar minutos: a primeira parte do filme – que conta os primeiros anos de vida de João – não me pareceu ter nenhuma utilidade prática, mesmo para uma cine biografia. Seria uma tentativa de absolver ou condenar o personagem por suas atitudes? Não posso responder, mas, em ambos os casos, a tentativa é falha: é bastante ingênuo acreditar que podemos mergulhar nos porquês alheios em apenas alguns minutos, por melhor feitos que estes sejam – o que não é o caso.
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Os Homens que não Amavam as Mulheres
4.1 1,5KFaz pouco tempo que comecei a realmente assistir filmes: só há cerca de um ano, graças ao falecido MegaUpload, meu interesse pela sétima arte tomou forma. Antes, eu era só sessão da tarde e esporádicos blockbusters no cinema; depois, uma verdadeira miscelânea de diferentes filmes começou a encher a memória do meu computador e tomar espaço no meu coração.
No início, eu não conseguia suportar filmes europeus: comecei por “clássicos” e, mesmo sabendo que aquilo provavelmente traria algo de bom ou inovador depois que eu me pusesse a refletir a respeito, não conseguia deixar de achá-los insuportavelmente lentos.
Com o tempo me acostumei, gostei e consegui até mesmo apontar um culpado para a minha impaciência com a produção cinematográfica do velho mundo: os filmes hollywoodianos. Todos eles são frenéticos, com uma seqüência de acontecimentos planejada de forma tão engenhosa para que o espectador de maneira alguma tenha tempo para tédio. Comparando as versões americana (resenhei aqui) e sueca de Os homens que não amavam as mulheres, isso se torna mais claro ainda.
Mikael Blomkvist está enfrentando alguns dos piores dias da sua vida: seguindo uma pista falsa de um ex-colega, o jornalista de economia denuncia o investidor Wennestrom. Por não conseguir apresentar provas perante o juiz, é condenado por difamação – o que consome todas as suas economias e lhe rende alguns meses de prisão.
Afastado da revista do qual é sócio, a Millennium, Mikael aceita uma oferta bastante inusitada do industrial Henrik Vanger: investigar a morte de sua sobrinha Harriet, cujo corpo nunca foi encontrado. Ao se associar com a jovem hacker Lisbeth Salander – que tem problemas de socialização tão graves ao ponto de precisar de tutela do estado – Mikael descobre fatos e mortes que vão muito além do mistério da complicada família Vanger.
Como disse no início, Os homens que não amavam as mulheres é lento. Embora o livro de Stieg Larsson tenha de fato um potencial para o suspense, isto não se dá sem certo esforço e adaptações no enredo – coisa que os roteiristas suecos não quiseram fazer. Se para um lado pode ser péssimo para aqueles não acostumados a este estilo, por outro, é bem mais fiel ao livro: os elementos principais – sobretudo a gloriosa defesa das mulheres – são preservados.
Impliquei com Daniel Craig como Mikael na versão americana, mas dessa vez não tenho sobre o que reclamar no campo de elenco: Michael Nyqvist encarna o jornalista de forma perfeita, sendo somente heróico o suficiente para salvar sua própria pele – não ofuscando assim a verdadeira estrela, Lisbeth. Noomi Rapace, que a interpreta, supera a já maravilhosa Rooney Mara: os aspectos anti-sociais da hacker me pareceram mais reais por sua interpretação.
Aliás, real é uma palavra muito boa para descrever Os homens que não amavam as mulheres. Como é de se esperar numa série que tenha misogenia como seu foco principal, cenas e relatos fortes são inevitáveis. Por si só, ver mulheres agredidas é desagradável, mas o diretor conseguiu torná-las mais ainda. Sei que é de função do cinema reproduzir a realidade. Não quero que tudo seja feito em Barbie, a princesa da ilha – mas tem certas coisas das quais eu prefiro ser poupada.
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Os Vingadores
4.0 6,9K Assista AgoraNão sou lá muito fã de Big Brother. Assisti quase toda a temporada em que Jean Wyllis foi o campeão, e, em momentos de tédio e falta de TV a cabo na praia, pesco dois ou três episódios – não com prazer ou desgosto, mas simplesmente com indiferença.
Mas mesmo estando longe de ser uma fã do programa, me irrito profundamente com as campanhas anti-BBB que são feitas online antes e durante a sua exibição – além dos incontáveis “graças a deus” e “ufa!” quando o programa acaba. Alegam que o Big Brother não traz cultura ou conhecimento para seus espectadores. Mas quem na terra assiste BBB para ficar mais “culto”? Qual seria o problema de entretenimento só por entretenimento?
Essa defesa do BBB acaba funcionando bastante ao meu favor – não pelo reality show da Globo em si, mas sim por outras duzentas coisas que adoro mas que, de fato, não acrescentam em nada no meu “repertório” ou me fazem refletir. Apesar de inconscientemente endossá-la às vezes, odeio essa perspectiva de que tudo na vida tem que ter uma utilidade prática – até mesmo as coisas feitas nos seus momentos de diversão e relaxamento.
Nesta lista de “entretenimento por entretenimento” estão os filmes do multiverso Marvel. Comecei a assisti-los por pura falta de opção – na cidade onde moro, só há um cinema, que tem o dom de quase nunca passar filmes que não sejam de criança/de ação/de comédia – e depois, por ter de fato tomado gosto pelas cenas de ação bem-feitas e produção impecável. Alguns deles têm também o poder de surpreender: adorei as referências históricas nos recentes Capitão América e X-Men: Primeira Classe – este último tão legal que é um dos poucos filmes que me fizeram pagar um indecentemente caro ingresso de cinema mais de uma vez.
Os Vingadores está sendo bastante elogiado no Tumblr, e, apesar de preferir os supracitados, compartilho em parte da empolgação. O enredo em si é bastante trivial para o universo das HQs: o semi-deus rejeitado Loki planeja a dominação da terra. Para isto, ele necessita do Tesseract, uma fonte inesgotável de energia encontrada pelas Indústrias Stark e estudada pela agência de espionagem SHIELD, com as pesquisas comandadas pelo Dr. Erik Selvig.
Depois de capturar o Tesseract, Loki hipnotiza (afinal, ele é um semi-deus bem fraquinho, mas ainda é um semi-deus) o Dr.Selvig e o agente Clint, para que ambos o ajudem no seu propósito de abrir uma fenda no espaço com o mesmo. Fenda esta por onde passariam soldados alienígenas Chitauri que, em troca do Tesseract, fariam com que os terráqueos se prostrassem aos pés de Loki.
Diante da ameaça, Nick, diretor da SHIELD, reinicia a iniciativa Vingadores – um time de super heróis usado para defender os Estados Unidos a Terra. Os Vingadores não são exatamente tão heróicos assim: o seu líder, o Capitão América, acaba de acordar de um “sono” de 50 anos e não está habituado ao mundo moderno; o playboy Tony Stark, o Homem de Ferro, tem problemas com modéstia e trabalhar em equipe; o Dr. Bruce, que ao menor sinal de raiva, pode se transformar em Hulk, matando a todos; a assassina profissional da SHIELD Natasha (ou Viúva Negra) vive entre crises de consciência por seu trabalho e Thor, por ser irmão de Loki, não tem certeza se deve ou não se juntar aos Vingadores.
Talvez o principal problema do filme – que não o tornou tão bom quanto outros da Marvel que assisti – sejam os personagens. Fora Tony Stark – que brilha por sua imodéstia charmosa e ironia sem limites – todos os outros são muito pouco explorados no tocante as suas personalidades. Desde o início do filme, os seus problemas pessoais e a falta de química entre os Vingadores são bastante enfatizados, e é uma pena tal desperdício.
De resto, o filme faz magnificamente bem o que se propõe. As cenas de ação são impecáveis, e ocorrem com uma freqüência que torna impossível o tédio. O que alguns milhões de dólares não podem fazer?
Embora de fato não sucite muitas reflexões a primeira vista, Os Vingadores (e outros filmes do gênero) não é exatamente vazio. A defesa as posições americanas perante o resto do mundo é bastante sutil – bem mais sutis do que o ultra-patriotismo em Capitão América, por exemplo – mas estão lá. Através de uma metáfora – onde os inimigos não são seres humanos de países ou etnias diferentes, e sim alienígenas feinhos e poderosos – o indefensável é defendido e justificado. Não sei o quanto essa "mini lavagem cerebral subconsciente" ajudou na construção do império que os EUA são hoje, mas chuto que bastante. O que seria da Terra do Tio Sam sem sua indústria de entretenimento?
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Moulin Rouge: Amor em Vermelho
4.1 1,8K Assista AgoraCom seus números de cancan megalomaníacos, prostitutas, absinto e drogas, Zidler, dono da casa noturna Moulin Rouge, desafoga a elite parisiense do seu tédio burguês no final do século XIX. Porém, ele e Satine – sua maior e mais bonita estrela – tem planos diferentes para si próprios e para o Moulin Rouge: transformá-lo de um prostíbulo aclamado em um teatro de verdade.
Criar um grande espetáculo – que transmita os ideais boêmios de liberdade e amor acima de tudo – também é o sonho de Toulouse e seus amigos, sendo Satine a sua estrela dos sonhos. Quando seu excêntrico roteirista os deixa, tudo parece acabado, até que Christian (escritor inglês que fugiu de seu pai ultra religioso se mudou para Montmare recentemente) aparece.
No melhor estilo Bandini, Christian alega falta de experiência com o amor e com a vida, não podendo então escrever uma peça genuinamente boêmia. Depois de ser convencido por Toulouse e seus amigos que isto não era um problema, a primeira parte da alegação é logo sanada: ele conhece Satine, se apaixona perdidamente pela mesma e a usa como musa para sua escrita.
Mas não só de paixão vive a arte: para conseguir um bom espetáculo, dinheiro é necessário – neste caso, o dinheiro do repulsivo e fabulosamente rico duque que, assim como Christian, se rende ao encanto de Satine. Usando seu financiamento ao espetáculo como chantagem, o duque se interpõe entre Satine e Christian.
Amor, ciúmes e obsessão são os temas centrais de Moulin Rouge – e, infelizmente, tenho que dizer que esta parte do filme não foi bastante inovadora. Embora a maravilhosa atuação de Ewan McGregor (Christian) e Nicole Kidman (Satine) seja de grande ajuda, a tragicomédia não conseguiu romper as barreiras do clichê neste aspecto do enredo. Quando Christian despejou sobre Satine pela milésima vez que o amor deles superaria tudo – desde o fato de que ela viraria semi-escrava do duque até a falta de um centavo dos dois – não pude deixar de me irritar levemente.
Isso é um problema - mas não tão grande assim se comparado ao conjunto da obra. Apropriando-se da linguagem dos videoclipes, Moulin Rouge tem uma edição bastante inovadora, com cortes violentos e cenas inacabadas. Somando-se a isto o abuso das cores na cenografia e o exagero na caracterização, não há um segundo de tédio.
Não gosto de Glee por causa de seu enredo – toda aquela coisa de aceitação na adolescência, embora bonita, me sufoca – mas sou apaixonada por seus medleys* de músicas famosas. Ver aquelas pessoas talentosas interpretando juntas músicas que sei de cor por osmose faz meus olhos brilharem, e sempre estão na parte de cima da minha playlist.
Como não poderia deixar de ser em um bom musical, foram os medleys que me encantaram em Moulin Rouge. A mistura e modificação de músicas pop – nem sempre reconhecíveis – foi feita de maneira sublime, assim como a sua execução – quem diria que Obi Wan Kenobi e a Feiticeira saberiam cantar?
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Limoeiro
4.1 105 Assista AgoraSou pró-Palestina. Compreendo e sinto muito pelo sofrimento dos judeus durante a segunda guerra mundial, mas não acho que isso sirva de justificativa para expulsar, matar, torturar e prender arbitrariamente dentro de campos de refugiados um povo cujo único crime foi ocupar uma região (vazia na época) dita como prometida. Me revolta e me enoja que quem viveu há tão pouco tempo os efeitos do totalitarismo e do preconceito proceda de maneira semelhante.
Eu deveria parar de assistir filmes e ler livros que são bons demais – chegará um momento que todos vão crer que sou muito boazinha no meu julgamento e perder completamente (se é que esta já existiu) a fé no mesmo. Infelizmente, isso não é possível, e assisti a um filme que é agora provavelmente meu preferido sobre a questão palestina (superando os incríveis Paradise Now e Promessas de um novo mundo): Lemon Tree.
Salma Zidane, uma viúva palestina, leva uma vida pacata e solitária cuidando da plantação de limões no seu quintal. Todos nós temos nossos símbolos pessoais ou coletivos – coisas que não são somente o que parecem, e sim parte de nós mesmos, um pedacinho minúsculo e indispensável de nossas almas. Assim são os limoeiros para Salma: estes foram plantados por seu pai, sendo a ocupação, fonte de renda e parte da história da família desde então.
Como é bastante comum na Palestina, a casa de Salma é ao lado de um assentamento israelense. Para quem não sabe, os assentamentos foram uma parte importante para a ocupação de Israel na Palestina, e são como vilas de casinhas bonitas de novas em folha construídas em cima de solo de onde os palestinos foram expulsos covardemente. Morar ao lado de um assentamento não lhe causa muitos problemas até a chegada de novos vizinhos: o ministro da defesa, Israel Navon e sua esposa, Mira.
Decidindo que os limoeiros de Salma representavam um perigo à integridade física do ministro (um terrorista poderia se aproximar da cerca que separa a plantação e o assentamento antes que a segurança militar e reforçada da casa notasse) o serviço secreto ordena que estes sejam removidos.
Não se espera que uma mulher pobre e sozinha no mundo vá contra a decisão de um estado tirano que subjuga seu povo, mas Salma desobedece a essa lógica e procura o advogado Ziad Daud, que a ajuda prosseguir com o processo. A sua coragem logo chama a atenção de muita gente: a autoridade palestina local, que implora que ela faça o que seu falecido marido faria, ou seja, não batesse de frente com os israelenses; a imprensa, que vê na destemida mulher uma ótima história e Mira, esposa do ministro, que há algum tempo já vem notando os excessos do seu país e entra em crise ao ter que enfrentá-los diretamente.
O sofrimento de Salma é visível: logo ela é proibida de sequer tocar em seus limoeiros, e um lampejo de dor quase física passa por seu rosto a cada fruto que cai podre por falta de cuidados. Não sei se balas ou bombas a feririam mais do que ver uma parte tão importante da história de sua família ser destruída, com mínimas possibilidades de defesa.
Pegando algo pequeno – afinal, a destruição da plantação de Salma será maléfica apenas a ela – Lemon Tree introduz questões maiores, das quais a mais presente é a impotência dos palestinos perante o “estado” de Israel. Embora o terrorismo continue sendo moralmente reprovavel, é perfeitamente compreensível: é a única maneira encontrada de se ter voz, de sair da invisibilidade. Paus e pedras podem mostrar força, mas não competem com fuzis. A atitude de Salma não foi só inesperada e tida como irracional: foi até mesmo perigosa. Caso a capacidade de fazer barulho da história de Salma não houvesse sido subestimada, prende-la sob uma acusação qualquer não seria muito difícil.
Em certo ponto do filme – com um leve tom de ironia – o ministro Navon diz que Israel estará segura enquanto os palestinos tiverem esperança. Pois, palestinos, tenham esperança. Tenham, pois só assim um dia não terão que viver apenas dela.
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Jogos Vorazes
3.8 5,0K Assista AgoraÉ um hábito irritante dos diretores de filmes baseados em bestsellers não explicarem direito certas coisas, certos aspectos do enredo que, se não são essenciais para a história, pelo menos a fariam mais interessante. É como se eles possuíssem a certeza de que apenas fãs ensandecidas pela série assistirão aquele filme, e que nenhum curioso que não sabe que o filme em questão é baseado numa série de sucesso mundial ousará pisar numa sala de cinema onde ele esteja passando.
Em menor escala do que o geral, o primeiro filme da série Jogos Vorazes, escrita por Suzanne Collins, sofre desse mal: quando Panem (o país distópico onde a trilogia se passa) é apresentado, senti uma carência muito grande de informações sobre o mesmo. Não é como se não houvessem explicações, mas senti que, caso eu não houvesse lido os livros, não entenderia muito bem porque todo aquele desespero em torno de algo chamado “colheita” ou porque colocar cercas com placas de “não ultrapasse, limites do distrito” em torno de uma vila.
Panem se localiza no que já foi a América do Norte que, depois de muitas guerras, foi dividida em treze distritos e uma Capital. Cansadas de trabalhar em prol do luxo e da ostentação da Capital, as pessoas do distrito treze se rebelam – mas são rapidamente vencidas. Para lembrar quem está no comando – e conseguir um bom show para seus habitantes ociosos – a Capital, todos os anos, realiza os Jogos Vorazes, uma espécie de Coliseu onde vinte e quatro jovens de 12 a 18 anos, dois de cada distrito (os chamados tributos) devem lutar até que apenas um sobre.
Katniss Everdeen – uma garota de dezesseis anos do distrito doze que garante o sustento de sua família através da caça desde a morte de seu pai – sabia que as chances de que ela fosse sorteada eram grandes: em troca de comida, ela aceitava, ano após ano, que seu nome fosse posto no pote onde os tributos eram sorteados mais vezes que o normal.
O que ela não esperava, contudo, era que sua irmã Prim, de apenas doze anos e com o nome no pote apenas uma vez fosse sorteada. Desesperada, Katniss se oferece em seu lugar – cena que, confesso, me emocionou desde os trailers – e assim vai para os Jogos Vorazes.
Mesmo sem grandes explicações sobre o mundo onde o filme se passa, uma coisa essencial se entende: os distritos se encontram em um péssimo estado, com bastante pobreza e algumas pessoas vivendo como quando no medievo. Quando Katniss e Peeta (o outro tributo do distrito doze) chegam o contraste entre a vida que ambos costumavam levar é imenso quando eles contemplam a vida cheia de excessos que pessoas dos doze distritos sustentam.
O filme é cheio de símbolos e referências, algo é mais possível de forma visual do que no papel: o estandarte onde o Presidente Snow fica, por exemplo, lembra bastante os palcos que eram armados para os comícios de Hitler, numa referência ao totalitarismo que é o governo de Panem. Não havia conseguido formar esta imagem mental durante o livro, mas ao ver Katniss de arco e flecha com uma trança no cabelo, consegui me lembrar das míticas Amazonas que, assim como ela, representavam força e poder femininos.
Como adaptação, é bem fiel: as mudanças foram poucas – na verdade, foram mais omissões, e os acréscimos me pareceram necessários para a introdução do segundo filme, Em Chamas. Não consigo imaginar outra que Jannifer Lawrence para fazer Katniss: ela conseguiu capturar aquela essência de menina forte que tanto me encantou quando li os livros. Josh Hutcherson também conseguiu capturar o precioso carisma de Peeta, que é essencial para sobrevivência dele e de Katniss na arena. As cenas das lutas não foram muito sangrentas, mas também não foram muito leves - apenas o suficiente para ser realista sem exagerar na classificação, ou espantar pessoas mais sensíveis do cinema. O único erro grande – além da supracitada falta de informação para quem não leu os livros – foi na sonoplastia, que, na falta, torna alguns filmes mais chatos do que realmente são.
Mas Jogos Vorazes não é chato – não mesmo. Lamento muito a série só ter ido até o terceiro livro – sem possibilidade de continuação graças ao seu final – mas agora que não tenho mais livros ou filmes de Harry Potter para ansiar por, posso muito bem me contentar em roer as unhas pelos próximos filmes de Jogos Vorazes.
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Sala do Suicídio
3.8 282Pois bem, aqui está mais uma das discussões nas quais não deveria entrar: a tal da “banalização” do bullying. Não é raro ouvir alguém dizendo “na minha época, todo mundo ganhava apelidos e ninguém se matava por isso” ou “hoje em dia, todo mundo sofre bullying”.
Meus caros, o sangue me sobe à cabeça nessas horas. Se ser agredido verbalmente (as vezes fisicamente) repetidas vezes no ambiente escolar fosse algo tão banal, não haveriam casos como o de Columbine. Claro que outros fatores influem e nem toda vítima de bullying tirará a sua própria vida e/ou a alheia, mas não vale a pena correr o risco. Nossos esforços anti-bullying não são exagerados, muito pelo contrário: são, até o momento, ineficazes. A “comparação” (tenho minhas dúvidas se correta ou possível de se provar empiricamente) entre gerações de vítimas de agressões em ambiente escolar também me faz respirar fundo: é óbvio que cada época conta com seus males e angústias, diferentes gerações têm diferentes níveis de sensibilidade – o calo lhes dói de forma completamente distinta das que a precederam.
E foi o bullying que instigou a depressão de Dominik, protagonista de Suicide Room: após beijar seu amigo graças a uma aposta, ele começa a ter dúvidas quanto a sua sexualidade. A oportunidade para piadinhas e brincadeirinhas levemente agressivas não é perdida por todos seus colegas na prestigiosa escola que freqüenta: a homofobia corre solta via Facebook, fazendo com que Dominik se isole dentro de seu quarto.
Uma família preocupada e presente poderia ter cortado o mal pela raiz, mas não é o que acontece: o pai de Dominik trabalha para o ministro, e sua mãe tem sua própria grife de moda, ocupações que fazem com que eles passem horas e horas fora de casa, malmente retornando a mesma para dormir. Quem na verdade percebe todo o problema de Dominik é a empregada da casa, que vê o garoto rejeitar as refeições e sem ir para escola por vários dias seguidos. Quando esta chama a polícia e Dominik é internado por ter se cortado, seus pais caem na real, mas não tanto assim: ao conversar com um psiquiatra, suas preocupações não parecem estar tão voltadas ao bem estar do seu filho, e sim ao seu desempenho nos exames finais da escola.
A situação se agrava ainda mais graças a amizade que Dominik tem com Sylwia, uma garota de cabelo rosa que não saí de casa há três anos e flerta com a ideia de suicidar-se com pílulas e álcool. Sylwia é criadora da Suicide Room, um local no jogo Second Life onde suicidas de todos os tipos conversam e planejam uma maneira de se suicidarem coletivamente.
Talvez quem tenha passado por isso se identifique, mas, na primeira metade do filme, eu não conseguia compreender porque a depressão de Dominik era tão forte, tão intensa. Se haviam razões? Sim, com certeza – como disse acima, não banalizo os sentimentos alheios e detesto quem o faz. Mas simplesmente fugiu à minha compreensão – não sei se por ignorância ou por erro do diretor.
Mas, a partir de um certo ponto, as causas e efeitos se tornam desnecessárias: Jakub Gierszal, que interpreta Dominik, é tão convincente em retratar a angustia e desespero do garoto que não precisamos de explicações – as coisas simplesmente se tornam, acontecem, são daquele jeito. Não cheguei a gostar de Dominik em nenhum momento (ele é bastante mimado e desagradável) mas a sua dor é tão genuína que, se não fosse a curiosidade por saber o final, eu teria pausado o filme logo no início de sua parte mais agonizante.
A relação entre Sylwia é um ponto muito bom: de forma sedutora, porém não intencional, Sylwia agrava a depressão de Dominik. Não sei dizer exatamente se Dominik amava Sylwia, mas, de alguma forma, a sua fragilidade fez com que ela se tornasse extremamente necessária para ele – Dominik simplesmente enlouquece quando ela ameaça o expulsar do Suicide Room. O fato de o diretor não usar esse pseudo-amor como redenção é bastante positivo: sim, eu acredito que o amor supere muitas barreiras, mas não o amor adolescente entre duas pessoas com problemas psiquiátricos graves e mal-trabalhados.
O filme é fantástico. Mas eu não quero assisti-lo de novo, sob nenhuma circunstância: Suicide Room é um daqueles filmes que te deixam com um gosto ruim na boca, o gosto amargo de encarar a nossa própria fragilidade.
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Tropa de Elite
4.0 1,9K Assista AgoraNão sei se isso ocorre com outros filhos de professores, mas, por ver nos meus neles colegas de profissão dos meus pais, detesto representar um problema em classe. Minha extrema preguiça de estudar já me rendeu algumas conseqüências bem inesquecíveis, mas detesto fazer qualquer coisa errada em sala de aula: não converso, não brinco, tento ser participativa e, acima de tudo, detesto deixar de fazer a lição de casa – por isso, dessa vez assistir Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 foi inevitável.
Eu tenho uma listinha de discussões em que nunca deveria entrar, mas acabo entrando – e a legitimidade da tortura é uma delas. É um daqueles debates no qual a paciência e a tolerância me faltam – nem tanto pela opinião alheia (de aprovação quase unânime aos nada delicados métodos de coerção e punição empregados, na maior parte do tempo, pelo Estado) de defesa à mesma, e sim pelos argumentos pouco impessoais e irracionais que são usados.
Por isso que eu fugi durante esse tempo todo de Tropa de Elite. Não foi uma única descrição que ouvi de pessoas se levantando e aplaudindo para as inúmeras cenas de tortura – cenas que, ironicamente, não podem faltar quando se trata de um filme sobre agentes da lei.
Ah, mas eu – e todo mundo que falou comigo sobre o filme, aliás – não poderia estar mais errada. Tropa de Elite não é sobre a quase guerra que ocorre nas favelas, o treinamento desumano do BOPE ou a ação estilo Call of Duty. Sem sair em sua defesa ou condená-los, Tropa de Elite fala sobre os policiais, personagens mais ambíguos que poderiam existir. Há sim bastante mérito em estar disposto a se tornar um profissional que corre riscos imensos de vida recebendo em troca um salário mixo; mas é impossível ignorar as atrocidades cometidas por policiais (só para deixar bem claro: eu sei que nem todos os policiais são desonestos – estou generalizando bonito aqui) dentro de Favelas e da utilidade geral da polícia como instituição repressora.
Dizem por aí que você só sabe o que é medo quando se tem filhos e o Capitão Nascimento está sentindo o peso do significado dessa frase: sua esposa está grávida, o que agrava a tensão de ambos pelo emprego perigoso de Nascimento no BOPE. E, como se não bastasse o stress comum do trabalho, há um agravante: o Papa, que estará de visita ao Rio de Janeiro, quer dormir na favela, sendo o trabalho do BOPE pacificá-la – o nosso genocídio diário de jovens pobres e negros parecer não ser nada perto do risco de Vossa Santidade levar uma bala.
Por pressão da esposa, Nascimento procura um substituto. Wagner Moura (um dos meus atores preferidos) se superou neste filme: ele está magnífico na pele de um policial tão ambíguo quanto sua profissão – enquanto sentia uma admiração imensa por algumas dos raciocinios por ele apresentados, outras me davam um nojo extremo. Na sua procura por um substituto, seu caminho se cruza com o de Neto e Mathias, dois policiais jovens, honestos e idealistas, mas bem diferentes um do outro: enquanto Neto é impulsivo e bastante fiel à polícia, Mathias é racional e tem o coração dividido entre continuar na carreira policial ou se tornar advogado.
Com esta “vida dupla” de Mathias, o filme insere a algumas discussões interessantes: a primeira, e mais repetida, é a de classe e cor. É flagrante o fato de Mathias fugir ao padrão de jovens de classe média brancos na faculdade de Direito onde estuda – algo que, mesmo com as políticas de cotas sociais e raciais se perpetua até hoje, quinze anos depois da data quando o filme se passa.
As contradições da classe média também são expostas: enquanto Maria – que se envolve com Mathias até descobrir que ele é policial – se mostra, por um lado, bastante preocupada com a desigualdade social, trabalhando ativamente em uma ONG, ela também fuma maconha, sustentando de forma direta o tráfico. Lógica que não sei se concordo plenamente com: apesar de saber que, de forma direta, o sustento do tráfico é realmente feito pelos usuários de drogas (em sua maioria de classe média, já que as drogas usadas pelos pobres não são caras o suficiente para representar, economicamente, um grande lucro para o tráfico) não acredito que se possa viver em sociedade sem patrocinar, de alguma forma, o tráfico, a exploração ou a miséria.
A fim de conseguir algumas peças para viaturas (e sair da entediante função na Oficina da PM) Neto se envolve em um esquema de corrupção. A priori, tudo parece estar bem, mas não acaba dando tão certo assim: um dos envolvidos, um policial corrupto de longa data, é marcado para morrer. Neto e Mathias tentam impedir que isto aconteça mas, graças a um tiro mal-dado, o caos se instala no morro, sendo o BOPE chamado para intervir. No ápice de seu stress – com uma mega operação para comandar, uma esposa grávida e um leve vício em remédios controlados – Nascimento conhece Neto e Mathias, principais candidatos a seu substituto.
O filme é sim, de certa forma, perigoso: a partir das situações difíceis vividas pelos policiais, há a explicação do porquê do emprego da violência na ação policial – embora esta explicação não nos conduza, em nenhum momento, para alguma espécie de defesa.
Reforcei a conclusão de uma reflexão a qual eu já havia sido induzida pela greve da PM da Bahia em Fevereiro: assim como as péssimas condições de trabalho não justificam a atitude de alguns policiais frente a sua profissão, o atual estado da polícia como agente repressor também não deve ser justificativa para que estes profissionais possuam péssimas condições de trabalho ou recebam carta branca para “manter a ordem” da maneira que bem entenderem. Trabalhar daquele jeito é complicado, mas dormir direito depois de matar e torturar em prol de “um bem maior” (que ninguém sabe qual é) também deveria ser.
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Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças
4.3 4,7K Assista AgoraSe a neuromedicina avançasse o suficiente para apagar, de forma definitiva, uma lembrança de sua cabeça, o que você faria? Fosse uma pessoa, situação ou sensação, ela seria para sempre esquecida – e no dia seguinte, o único efeito colateral seria uma dor de cabeça, nada mais do que o experimentado em uma ressaca. Você se poderia se livrar de todos os seus erros, de pessoas que desejava nunca ter conhecido, de palavras que não deveriam ter sido ditas e da culpa de ter deixado de fazer algo. O que você faria diante dessa perspectiva única, maravilhosa e assustadora?
Escrutinei minha mente atrás de coisas que eu gostaria de esquecer para sempre e me vieram, com uma rapidez impressionante, as pequenas humilhações da infância. Sei que não pode parecer grande coisa, mas o olhar infantil através do qual foram concebidas as tornam estranhamente intensas, melancólicas e coloridas. Depois, coisas mais recentes: palavras que nunca deveria ter dito e erros (não muito grandes por si só, mas que acumulados, se tornaram imensos e impactantes) da adolescência – que, atipicamente, fazem com que minhas bochechas esquentem de vergonha não de mim mesma; mas de coisas que pensei serem verdades únicas e universais.
Mas aí veio o problema: eu simplesmente não podia apagar nenhuma dessas lembranças. Esquecer algo para sempre é esquecer também o aprendizado e auto-consciência que esta lembrança lhe traz, e pessoalmente, digo que cada um dos meus erros foi um pequeno tijolinho para que eu seja quem sou hoje. Não que eu seja grande coisa, aliás, ou almeje a perfeição em meus atos – qualquer coisa que chegue perto de ser completamente irrepreensível é chata – mas a minha eu de hoje é menos propensa a quebrar a cara por besteiras do que a de um, dois, três anos atrás. Cada erro, cada lembrança, leitura, pessoa, tudo isso é um pequeno pedacinho da colcha de retalhos que é a personalidade de cada um, e, mesmo com todos os meus defeitos imperdoáveis, acharia estranho trocar a minha colcha pela de outrem.
Enfim, livrar-me das minhas lembranças ruins ou vergonhosas seria negar a mim mesma e a toda trajetória da humanidade, que até hoje, consistiu em errar e (as vezes inutilmente) tentar mostrar às gerações futuras a estupidez do erro. Nunca haveria, de fato, um acerto, já que a minha essência não mudaria, somente minha propensão a errar. De modo geral, a nível pessoal e coletivo, estaríamos todos perdidos.
Clementine, personagem principal de O brilho eterno de uma mente sem lembranças, não pensava igual a mim: sem pestanejar, contratou uma clínica para apagar uma de suas lembranças mais adoráveis e dolorosas – o seu relacionamento com Joel.
O começo do filme é bastante lento – naquele estilo de filmes Cult bem cansativos, que perdem sua missão de entreter em meio à vontade de parecer legal – mas é estimulante por uma razão: Jim Carrey. É no mínimo estranho o ver sem as piadinhas, sem os personagens mal-construídos (com exceção para o Conde Olaf, da adaptação para os livros da série Desventuras em Série), na pele de Joel.
Aliás, como é comum em filmes de romance, os dois são bem diferentes: enquanto Clementine é falante, inconseqüente e complicada; Joel é um daqueles caras introspectivos, bastante tímido, cuja vida e pensamentos parecem bastante sem graça a um primeiro olhar. A fim de tentar mascarar a dor de ter sido esquecido pela mulher que amava, Joel também passa pelo procedimento de “deleta-la” de sua mente, questionando durante o processo se a validade e utilidade do mesmo.
Todo esse processo é uma jóia valiosa no filme: enquanto reconstrói seu relacionamento com Clementine – partindo de sua última briga até o dia em que se conheceram – Joel vai questionando seus conceitos e vendo tudo aquilo do que se arrepende. Ao contrário dos filmes de alto orçamento em geral, as lembranças e sonhos não vêm tão perfeitas, em alta qualidade, e sim como na vida real: meio borradas, fracas e com partes faltando. O fato de tudo ser não-linear, com inserções de lembranças anteriores e as “viagens” que a mente humana geralmente dá torna tudo mais legal.
Pergunta: só sou eu que me incomodo com essa busca incessante e incansável de muitos adolescentes (e alguns adultos) por uma individualidade artificial? Vestir roupas diferentes, escutar a banda mais desconhecida, ler os livros mais complicados ou fingir ter as emoções e preocupações mais profundas – quando, na verdade, esse esforço por não ser parte de uma multidão resulta numa normalidade mais chata que o comum, por ser forçada, prepotente e arrogante?
Esse foi meu porém com o filme: foi assim, desse jeito podremente torto, que a personalidade de Clementine foi construída. O esforço em fazer com que ela pareça legal – não no estilo hollywoodiano, loiro, casto e perfeitinho; mas de um jeito indie, rebelde imperfeito e estranho – foi tudo muito excessivo, muito artificial e infantil. No final, ela era somente mais uma com a tal da síndrome da singularidade, externando suas inseguranças estúpidas e dando pitizinhos sem razão alguma.
Além disso, foi falha a tentativa de fazê-la a estrela do filme – no final, foi o tímido Joel (nunca vão me convencer que não foi um alien que abduziu o verdadeiro Jim Carrey durante aquele filme) que brilhou.
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Ruby Sparks - A Namorada Perfeita
3.8 1,4KAcho incrivelmente complicada a forma com que relacionamentos são retratados na ficção – não completarei a frase com o clichêzão vago “hoje em dia”: esse problema parece ser atemporal. O quão saudáveis são Romeu e Julieta? Werther, porque você não simplesmente superou Carlota? Bella Swan, onde está a sua vida além de Edward?
Milhões e milhões de homens e mulheres (não se enganem pelo machismo, amiguinhos) cresceram com a ideia de que um dia achariam a sua outra metade da laranja, a sua alma gêmea, e a partir dali, tudo seria perfeito. Novelas terminam sempre com casamentos, como se os mesmos fossem o fim e indicativo de uma incrível estabilidade, não o começo de outra jornada (que, como qualquer uma, trará suas dores e alegrias). Essas expectativas, tão idiotas e irreais, não levam só a decepção, mas ao resmungo em massa de “não tem mulher/homem que preste hoje em dia!”.
Essa reflexão habita há muito tempo na minha cabeça, quando vi a brilhante vlogueira Tatiana Feltrin dizer que crê que não exista um livro do gênero Young Adult sem romance. Desesperadamente, pausei o vídeo e fui procurar na minha estante, só para constatar que, até o presente momento, a crença é real. E não são só os Young Adult – é difícil encontrar uma história qualquer sem romance. Vejamos só: os personagens (portanto, em maior ou menor nível, toda a sociedade) não estão só engajados em uma busca impossível, mas também quase universal! Todos frustrados porque o cara ou menina legal não se encaixa na forminha de bolo, sem perceber que o problema não é com o outro – é com você.
Calvin, protagonista do filme Ruby Sparks, tem esse problema: escritor de um livro só, seu gênio não parece se repetir na segunda obra (que nem começou a ser escrita) ou nas relações sociais – aos vinte e nove anos, seu único contato com o mundo exterior é com o seu irmão mais velho.
O perfeccionismo é um problema de cinco entre dez autores (a arrogância é o do resto) e Calvin sofre desse mal, só conseguindo escrever quando seu terapeuta lhe dá permissão de ser ruim (será que ele não conhecia o NaNoWriMo?). A história? Sobre uma garota aparentemente perfeita, uma pintora de Ohio chamada Ruby Sparks que é a maior reunião de clichês que já vi (“eu sou uma bagunça!”) – aqui, felizmente, de propósito.
No início, acreditei piamente de que o filme se passava em algum momento da era pré-computador: Calvin usa óculos de aro grosso e uma máquina de escrever. Ao ver um iPhone, porém, constato que o nosso protagonista é só demasiadamente hipster, assim como sua amada – que, aliás, sai do papel e da tinta para a vida real.
Sim.
Agora, não é como se eu não quisesse bater um papinho com algum de meus personagens (e perguntar porque eles são tão rebeldes e intratáveis as vezes) mas não ligar para um hospital ao ver um deles de fato é um nível abaixo da sanidade – mesmo para um escritor. Há aqui o meu primeiro elogio para Ruby Sparks: Calvin não aceita a presença de sua criação tão fácil assim, e mesmo quando o faz, é facilmente justificável pela personalidade, temperamento e isolamento do mesmo. E mesmo que fosse loucura, seria coletiva – ele checa, milhares de vezes, que não é o único a ver a garota ruiva. Um teste final revela que ela não é uma atriz ou fã louca (redundância) e sim produto de sua própria imaginação, moldável de acordo com o digitado em sua velha máquina de escrever.
Como em qualquer filme, há aquele período de felicidade roubada, onde uma musiquinha dá fundo a vários flashes de aventuras e sorrisos. O problema é quando Ruby começa a criar uma personalidade própria, querendo, de fato, uma vida – Calvin, que havia deixado seu manuscrito trancado na gaveta até então, aproveita-se do seu poder semi divino para alterar a disposição de Ruby, fazendo com que ela se torne o que era a priori: uma garota perfeita. Para ele.
Calvin é um imbecil completo, mas é tão pateticamente dependente que não consegui detestá-lo. Ruby veio de sua imaginação, e qualquer desvio a isso é rapidamente “corrigido” – ou seja, ele poda qualquer fagulha de individualidade. Ruby diz “é como se fossemos a mesma pessoa” e o triste não é que Calvin, um personagem ficcional, seja e pense desse jeito – o triste é a quantidade de pessoas reais que compartilham disso, sem nem ao menos perceber ou ver problema nisso. Como se a obrigação do parceiro(a) não fosse ser só a metade da laranja, mas sim a extensão de sua vida, a continuação de sua existência. Ah, que coisa traiçoeira é achar que uma pessoa é menos que uma pessoa...
As críticas feitas em Ruby Sparks são ácidas, acertando, através da ficção, pontos críticos. Minha única crítica real ao filme reside na trilha sonora, que prometeu fantásticos Kaiser Chiefs e outras maravilhas, parcamente cumpridas. Mas não é ruim, só abaixo das expectativas. Ah, as expectativas...
Não é alarmante que na Índia (onde a maior parte dos casamentos são arranjados) os casais sejam mais felizes do que em qualquer lugar do mundo ocidental?? Isso porque não há aquela expectativa imensa – o futuro noivo ou noiva não sabe se o escolhido de seus pais é, de fato, saído diretamente de uma comédia romântica, filme indie ou seja lá o que você goste. Não vejam isso como uma defesa do casamento arranjado (dã) e sim dos pés no chão, os dois, bem postos. Talvez assim como Calvin estejamos perdendo pintoras vivas e cheias de personalidade em prol das (falsas) criações de nossas mentes...
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Incêndios
4.5 2,0K Assista AgoraPara qualquer um que escreve é extremamente complicado pensar em todo mundo como gente de verdade. Gente com experiências, amores e gostos, aquele conjunto fantástico que dá a cada ser humano singularidade e complexidade – os depressivos que acham que suas vidas não são valiosas não poderiam cometer maior erro, ao esquecer que suas memórias são tão únicas e particulares que justificam por si só a sua passagem pela terra.
Mas todo personagem é Frankstein – o sorriso daquele cara que você viu no ônibus, o tom de voz de sua amiga, o levantar de sobrancelhas de sua mãe – e se o pensar nisso for permitido, o tal do escritor ou escritora se consumirá de angústia por não poder pegar pedacinhos de todos que cruzam nossos caminhos. É impossível, e isso é uma merda.
Se você perguntar em um jardim de infância, porém, serão muitos os que responderão que seus pais se chamam “papai”, “mamãe” ou qualquer outro título que não é obviamente um nome próprio. Mesmo depois das fraldas abandonadas, nunca conversei com um filho que não padecesse, na maior parte do tempo, do estranho egoísmo (algumas vezes justificado, mas vá lá) de achar que as pessoas que o puseram no mundo (ou o criam como se tivessem feito) são menos do que pessoas. Porque eu me impressionei ao descobrir que meu pai levou algumas surras da polícia ou que minha mãe trabalhou por seis meses como telefonista em Porto Seguro antes de entrar na universidade? Porque cargas d’águas eu supus, sem sequer pensar no assunto, que os mais de quarenta anos dos dois eram mais vazios do que os meus dezessete?
Não, até mesmo aquele que estremece ao sequer pensar em sair da sua zona de conforto tem mais história para contar do que uma edição completa de As crônicas de gelo e fogo. E aqueles que viveram então – ah! Que vergonha é não poder conversar com eles!
Como a maior parte de nós, os gêmeos Simon e Jeanne, protagonistas do filme Incêndios, tiveram uma verdadeira biblioteca de histórias em casa a vida inteira e não aproveitaram – sua mãe, (originada de um país indefinido no Oriente Médio e radicada no Canadá) Nawal, ganha somente o rótulo de “excêntrica”.
No melhor estilo de filme de Sessão da tarde o testamento de Nawal traz exigências muito estranhas, na forma de duas cartas: uma a ser entregue ao irmão (de existência desconhecida pelos gêmeos) e a outra ao pai dos dois, que tinha, teoricamente, morrido na guerra entre mulçumanos e cristãos na sua terra natal.
Ao contrário dos filminhos repetitivos da Globo, não há uma herança gigantesca como prêmio para tamanho esforço, nem mesmo alguma promessa de satisfação ou felicidade – o tom do testamento é sombrio, não deixando dúvidas quanto ao que estará por vir caso a busca seja concluída. Simon não demora muito a ignorar o testamento, ironizando-o – “Será que temos também um cachorro?”, ele diz. Afinal, uma família grande sempre tem um cachorro.
Mas Jeanne, professora assistente de Matemática Pura (aquela que tenta resolver o insolúvel, profissão que se encaixa bem na personagem), não consegue se concentrar nas suas equações e incógnitas e, por sugestão de seu orientador, vai cumprir a missão que lhe foi confiada. Por baixo de panos e mais panos de picuinhas familiares e promessas não cumpridas, ela passa a realmente conhecer Nawal, que como todos os estranhos, conhecidos e amados que fazem parte de nosso cotidiano, tem incontáveis (e dolorosas) histórias para contar.
Não encontro palavras para descrever Incêndios – sabe aquela obra para qual “maravilhoso” soa como pouco demais? É isso. Não dá para saber ao certo em momento nenhum qual é o país do qual o filme trata (embora eu jurasse, até checar de fato no IMDB, que se tratasse do Líbano) mas a guerra retratada (na qual Nawal se envolve profundamente) é uma ótima amostra daquelas que fizeram o Oriente Médio ser apelidado como “barril de pólvora”.
Isso sem falar no tal do choque cultural, tema do qual não dá para passar longe em um filme de produção estrangeira – não há nenhuma grande questão aqui, só aqueles detalhes aparentemente insignificantes para os locais, mas enormes para os forasteiros, colocados com uma sutileza ímpar
Há um trecho de aproximadamente dez minutos no final do filme que é extremamente deslocado – tanto em termo de ritmo quanto de qualidade – mas felizmente o estilo é retomado rapidamente. Passei quase um dia tentando descobrir o tema de Incêndios, e não consegui classificá-lo direito – não é um filme de guerra ou de protesto, muito menos um mero drama familiar. Odeio generalizações, mas este é um daqueles fantásticos filmes sobre as pessoas, seus sentimentos crus, suas promessas desfeitas e sonhos perdidos. A simplicidade alcança o céu.
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Terapia de Risco
3.6 1,0K Assista AgoraÀs vezes parece que todo mundo tem depressão hoje em dia.
Não me entenda mal: não estou diminuindo a importância do chamado “mal do século XXI”, nem subestimando a gravidade da doença para os que realmente a possuem. O problema é que aparentemente há diagnóstico em excesso, onde qualquer tristeza um pouquinho mais duradoura ou problema mais complicada deve ser tratado com uma ajudinha química. Sim, a ciência supostamente deve tornar as nossas vidas melhores, mas obstáculos são algo constante na vida e devem ser enfrentados em estado natural. Se você não tem transtorno de déficit de atenção, não deve tomar Ritalina só porque quer um empurrãozinho para passar no vestibular.
Esse excesso de diagnóstico fica logo claro nos primeiros minutos do filme americano Terapia de risco: quase todos ao redor da protagonista Emily parecem ter tomado alguma medicação para depressão nos últimos tempos. De marcas que exibem suas propagandas em todo lugar, tratando a doença como um fenômeno geral e dando a entender que as pílulas anti depressivas são tão simples como aspirinas ou sabonetes contra acne.
Mas Emily realmente precisa delas. Seu marido, Martin, acaba de sair de uma temporada na prisão, e ainda que sua volta traga uma imensa felicidade, a faz relembrar a época terrível em que ele foi preso quatro anos atrás.
Após uma tentativa de suicídio, seu caminho se cruza então com o do psiquiatra Jon Banks, um inglês para quem tudo vai de forma muito tranquila – ele tem vários turnos no Hospital, pacientes em uma clínica particular e ganhará 50 mil dólares para participar da pesquisa de uma nova medicação para depressão. Que não é a mesma, aliás, que ele receita para Emily: a da jovem mulher, apesar de se provar efetiva depois de algumas semanas, lhe dá como efeito colateral o sonambulismo.
Em estado de dormência, Emily um dia comete um assassinato. Mesmo não sendo incriminado judicialmente, a carreira e o casamento de Jon vão por água abaixo pelo destaque dado ao ocorrido, e o médico se afunda em dívidas. Sua nova obsessão se torna, naturalmente, ir ao fundo do crime cometido por Emily e encontrar os reais efeitos dos anti depressivos para a ocorrência do mesmo.
Terapia de risco é assustador e fantástico. Minhas expectativas para o filme eram bastante altas – eu o vi divulgado em vários veículos de comunicação e li uma ou duas críticas – mas enquanto eu esperava um longuíssimo (mas legal) chá de cadeira sobre os efeitos da depressão na vida de um indivíduo, ganhei um thriller viciante. O filme se usa do recurso da incerteza sobre o que influenciou o ato de Emily, instigando o espectador.
Confesso que fiquei um pouquinho decepcionada com Terapia de risco no início: acreditava piamente que ele faria fortes críticas ao sistema existente entre médicos e fabricantes de medicamentos. Me espantei, portanto, ao encontrar o tal mistério. Depois de refletir um pouco, contudo, conclui que isso foi só um recurso para falar justamente do que eu esperava – as conexões complicadas entre gigantes farmacêuticas (que se utilizam de “bonificações” a médicos, programas de TV e revistas e da boa e velha propaganda) e pacientes.
Sim, existe um certo auxílio de psiquiatras e da cultura de forma geral para que nós estejamos, no mundo ocidental, cada vez mais falsamente depressivos. Como tudo na sociedade, porém, passa por nossa permissão (voluntária ou não) para acontecer – e, nesse caso, da vontade que todos temos de uma ajudinha química (legal e socialmente aceita) para fugir de nossos próprios problemas...
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Obediência
3.3 380 Assista AgoraA lei de Murphy é mais efetiva do que a lei da gravidade: não importa em que época ou mesmo mundo você esteja, tudo que pode de dar errado dará.
Sandra experimenta um dia assim no seu trabalho: supervisora de um restaurante de uma cadeia de fast-food, ela acaba de perder 1300 dólares em produtos graças a um funcionário desatento, que deixou a porta do freezer aberta depois do expediente. Somando-se a isso, ela recebe a notícia de que um avaliador disfarçado virá até a lanchonete, para testar a sua qualidade e reportar ao escritório central.
Ao chegar, fica logo claro que suas suspeitas recaem em Becky – dos adolescentes inocentemente inconseqüentes que lá trabalham, é ela a que mais irrita Sandra. Uma leve inveja de sua vitalidade, talvez? Não sei, mas tudo fica pior para a garota quando uma suposta cliente a acusa de roubo, e Sandra é notificada via telefone.
É óbvio para o espectador que aquilo não passa de um trote: nenhuma polícia no mundo trabalharia de forma tão estranha. Mas graças a tensão, isso não fica claro para os empregados do restaurante, que desaprovam os métodos de trabalho do “policial Daniels”, mas não duvidam que ele seja, de fato, um agente da lei.
Isso faz com que as coisas vão de mal a pior para Becky: acusada de um crime que não poderia, possivelmente, ter cometido, ela é submetida a desconfiança e julgamento dos colegas.
É estranho haver um sentido positivo para nauseante, mas eu me vejo obrigada a aplicá-lo aqui. É isso que Compliance é, em uma cadeia muito bem feita de atos que exibem pedaços escondidos e terríveis de nossa espécie, com uma dose cavalar de medo.
Porque é esse o sentimento que dita a tônica do filme: medo. O mais perigoso dos sentimentos – útil para homens das cavernas e qualquer um em situação extrema, condenável para avanços e convivência social. Li algumas críticas que alegam uma inocência artificial por parte dos personagens, que não perceberam logo de cara a brincadeira de mau gosto feita pelo homem do outro lado da linha. Eu poderia concordar, se o algoz de Compliance não salientasse o tempo inteiro sua suposta autoridade, impondo-se habilidosamente a todos ali. Todos sabiam que aquela investigação era errada e estranha, não era necessário ser um gênio ou viciado em programas criminais da TV para tal – mas com uma muito humana covardia, as palavras são engolidas e os olhos são fechados.
Costumava me irritar com a fragilidade humana, com a facilidade com que um animal que constrói computadores e descobre curas destrata os seus semelhantes. Usar o verbo no passado é uma mentira, mas somente parcial – como condenar um crime do qual eu poderia me ver, inesperadamente, culpada?
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Do Outro Lado
4.1 81Do outro lado é magnífico, mas eu ainda não consegui descobrir muito bem porquê. Entre dois países e três culturas diferentes (a alemã, a turca e dos imigrantes turcos na Alemanha) as imagens e desentendimentos são extraordinários.
Mas não, não foi todo esse choque cultural que me encantou em Do outro lado. O filme é, na verdade, primoroso em falar de assuntos universais, como a dor, a solidariedade e a culpa. Embora seja possível ver que todos os personagens são pessoas completas, não sabemos muito sobre eles – só que as situações pelas quais Ayten, Yeter e Lotte passam poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo.
Do outro lado me surpreendeu também pelo seu ritmo: ao contrário dos filmes do gênero, não foi excessivamente lento. Só tenho duas pequenas críticas: a primeira quanto a pouca resistência da mãe de Lotte, Susanne, em receber uma completa estranha em casa. Sim, ela reclama, mas não insistentemente o bastante para alguém cuja filha acabou de trazer uma possível criminosa para casa. A segunda crítica também é relacionada a isto: Susanne me pareceu, nos seus poucos minutos em tela, uma personagem fascinante, interpretada por uma ótima atriz. Infelizmente, sua atuação resume-se exatamente nessa palavra – poucos – e fiquei com uma pontinha de curiosidade insatisfeita quanto a ela.
No melhor estilo A separação, Do outro lado tem um final em suspenso, aberto a possibilidades e outros caminhos. Aqui há uma tonelada de verossimilhança, sua característica marcante – afinal, nem mesmo a morte tudo resolve.
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