Vi uma série de críticas mistas sobre o filme, então procurei não esperar muita coisa, até porque apesar do excelente elenco, trata-se de uma produção da Netflix, então é preciso ser cauteloso quanto às expectativas. Qual não foi a minha surpresa quando depois de pouco mais de 15 minutos, percebi já estar vidrado no filme. Tudo nele funciona. Os personagens são carismáticos, o humor, que eventualmente brinca com aquele estilo típico de The Office, causando desconforto no espectador, é sensacional e bem dosado com algo mais pastelão, que além de servir como uma fuga do eventual cansaço que um filme deste caráter poderia trazer, também funciona como um elemento narrativo. Os eventuais surtos da Kate em rede nacional nos causam vergonha alheia, mesmo sabendo que o que ela diz é verdade. Isso é Adam McKay nos mostrando que embora 99% das pessoas que assistiram se coloquem como entendedores da mensagem, e guardiões do bom senso, no dia-dia estamos sujeitos a ouvir menos e julgar mais, independente do phD que vem antes do nome. Genial. Inclusive, esses surtos são sensacionais. Lawrence e DiCaprio dividem igualmente o protagonismo e o carisma por meio de atuações maravilhosas, juntamente com o excelente elenco de apoio. mas acho que isso não surpreende ninguém, vide a bagagem do pessoal envolvido. Some esses aspectos de entonação tragicômica ao clima de barco afundando que surge da segunda metade em diante, e temos uma obra cheia de personalidade, e acima de tudo, de verdade. Maravilhoso.
Esse filme saiu tem um tempinho já, e acho que por conta do elenco recheado de figurinhas conhecidas no cinema mainstream (só de heróis, temos 3), foi bastante comentado na época, mas é óbvio que como eu vivo em um mundo irônico mundo de consumo exacerbado de cultura popular na mesma medida que fujo de modinhas, eu acabei não assistindo. Até essa semana.
E qual é o veredito? Bom, o filme claramente tem influências tarantinescas, se levando a sério do começo ao fim. Os atores entregam trabalhos decentes, embora seja para mim extremamente difícil ver Tom Holland encarando um papel mais obscuro, mas no geral, é bem legalzinho. Não chega a proporcionar nenhum grande êxtase e é até que previsível depois que você entende a audácia narrativa dos caminhos se cruzando entre seus personagens, mas passa longe de ser algo enfadonho.
Abrindo meu coração sobre No Way Home (sem spoilers).
O filme peca em diversos momentos narrativamente, deixando as motivações de alguns personagens pouco ou nada claras, além de não desenvolver muito bem alguns subplots, culminando em furos bem evidentes no roteiro. Se a gente fosse pegar e avaliar o filme tecnicamente, provavelmente seria um filme nota três.
Entretanto, porém, todavia, existe uma coisa chamada sentimento!
Esse filme foi escrito pros fãs, tanto os de versões anteriores do Aranha quanto da versão atual, e tem consciência disso do começo ao fim. Ele sabe o que os fãs querem, e mais do que isso, sabe como entregar com perfeição
Então o que vai ditar se você vai gostar ou não é o quão fã do Homem Aranha você é.
No meu caso, sendo louco por esse personagem desde que eu era criança, consegui passar o pano para todos os furos sem a menor dificuldade.
E bem, apesar desse filme, pelo menos para a maioria das pessoas, ter tido o mérito de mostrar o quão maravilhoso foi ser fã deste personagem nos últimos 20 anos, comigo foi diferente. Se antes eu era um moleque com cabelinho de tigela louco pelo personagem, durante a sessão, e especialmente durante o epílogo, No Way Home me fez perceber que um dia eu serei um dia serei um velhinho careca ainda animado comprando ingressos para assistir o herói, e isso não tem preço.
Finalmente, após 22 anos (desde meu nascimento e desde a estreia), tive contato com este filme, e bem... Ele é tudo que eu esperava. Conceitualmente, genial, visto ter sido este o filme que fez o gênero found footage atingir o status quo. A nível narrativo, no entanto, não vai além de umas filmagens descartáveis e mal executadas, cujo impacto não se dá pelas cenas gravadas ou suspense criado, e sim por conta da mensagem dizendo que os fatos são reais no início do filme. Propaganda brilhante, produto esquecível.
Filme que aborda o bullying, além de outros sentimentos complexos do espectro humano como perda e culpa com toda aquela sensibilidade intimista que somente os japoneses sabem colocar em suas produções. Sou um pouco suspeito para falar porque quem conhece meus textos e roteiros mais dramáticos sabe o quão grande é a influência dos momentos de respiro para o desenvolvimento da trama, e este filme traz exatamente isso. Não são palavras que trazem a dimensão da culpa que Ishida, o protagonista e ex-bullie, sente, e sim seu olhar contemplando um riacho com algumas carpas. Lindo.
Difícil opinar sobre essa produção, não somente por se tratar de um produto tão singular, mas também pelo fato da minha limitada bagagem não ter absorvido nem 1/3 das referências entregues na obra. Mas isso não significa que eu não tenha gostado.
Andrew Garfield está muito bem, como de praxe, e serve como um totem para o espectador conhecer algumas subculturas de Los Angeles, enquanto um suspense com algumas nuances de filme noir se desenrola. A todo momento pensamos "agora ele descobrirá algo bombástico", apenas para percebemos que não, não existe nada muito bombástico a ser descoberto. Apenas uma ou outra estranheza, mas nada que ressignifique uma vida, como Sam acha.
Mas independente das estranhezas e da narrativa menos mastigada, é inegável que exista uma atmosfera envolvente que jamais impele o espectador a desligar a TV. Ótimo filme.
Não pretendo me estender falando sobre The Room. Creio que todo internauta já tenha esbarrado com este filme em algum momento. A premissa é simples, dramática e a execução, risível. Como já apresentado em outras ocasiões por resenhistas mais gabaritados, The Room se tratou de um fracasso tão esplendoroso, que acabou dando certo.
O que The Disaster Artist faz é explorar os bastidores e os motivos que transformaram esta produção no provável pior filme da história, o que implica em explorar a mente de seu idealizador, Tommy Wiseau. Exploração essa que se dá apenas com base em suas atitudes presenciadas por outras pessoas. Não há aqui uma jornada do herói, ou a construção de uma psique. Tommy é misterioso, surge de repente, e é constante em suas próprias estranhezas e visão de mundo destorcida.
A execução é totalmente primorosa, e apesar de todos os apesares, não há como não ficar boquiaberto com o trabalho de James Franco, tanto por conta da atuação quanto pela direção.
Inclusive, há um quê metalinguístico na obra. James Franco estrelou e dirigiu um filme sobre um cara que estrelou e dirigiu seu filme, além de que é perfeitamente cabível imaginar que a escolha de seu irmão caçula para interpretar o "baby face" não tenha sido por acaso. Ambos construíram relações diferentes com a fama e com a atuação, assim como Tommy e Greg.
Inclusive este é o único ponto razoavelmente desconfortável. Dave Franco não consegue convencer na pele de Greg Sestero. Até porque eu acredito que seja difícil interpretar alguém que tem a aparência de um galã, mas que mesmo assim é naturalmente inseguro. Dave não tem essa aparência, então tudo se torna mais cabível, se tratando dele. Além de que a maquiagem utilizada é horrorosa e desagradável.
Mas apesar disso, esse filme possui a mesma paixão que motivou a execução de The Room, anos atrás. É um ideal artístico, algo que vai além da execução técnica, e que se você prestar bem a atenção, pode tirar algumas lições extremamente valiosas.
Filme de personalidade admirável, do tipo que não há como esquecer, seja pelas cenas icônicas e marcantes, ou por toda a construção totalmente atípica, mesmo que o roteiro eventualmente desemboque em um ou outro beco sem saída, se preocupando demais em expor a personalidade do protagonista para os espectadores. É o caso, por exemplo, das cenas dos cartões de visitas. A primeira expõe a personalidade neurótica e invejosa de Patrick na mesma medida que solidifica isso como uma característica comum do seu meio, podendo ou não ser produto dele, enquanto que na segunda ocasião, acaba tirando um pouco da grandeza, sem acrescentar muito à história e tornando aquela genialidade de direção algo mais pífio, vide a repetição. Mas é claro que esse é só um detalhe, que causa muito menos desconforto do que a personalidade de Patrick, que em alguns momentos supera Michael Scott na arte de envergonhar o espectador. Mas claro, propositalmente. Inclusive, vale uma menção à atuação maravilhosa de Bale. Eu sempre soube que era um ator excelente, mas esse trabalho conseguiu acrescentar ainda mais créditos a ele. Não é um filme incontestável, mas é um excelente filme. Vale a pena.
A figura de Chorão, para bem ou para mal, marcou a música brasileira. A personalidade forte, explosiva e imponente do cantor e sua filosofia de vida influenciou toda uma geração de jovens, cuja grande maioria, pelo menos do meu ciclo social, viraram alguns dos adultos mais detestáveis e preguiçosos que já tive o desprazer de conhecer, embora eu não possa negar que se tratem de pessoas que vivem à sua própria maneira, coisa cada vez mais rara de se encontrar.
A nível pessoal, sempre achei sua música espetacular e digna de nota, embora no meu contexto de aspirante a escritor e jovem promissor no mercado de trabalho, eu raramente consiga aplicar suas filosofias ao meu cotidiano. Com exceção, claro, das letras que falam dos "playboys filhas da puta", os quais eu lamentavelmente me identifico muito mais do que o eu-lírico. Apesar disso, Alexandre Magno sempre cantou com total convicção, e sabe como é, gente verdadeira encanta, independente do contexto.
Feitas as considerações sobre essa figura emblemática, partamos para o documentário. E bem, para ser sincero, não achei nada demais no quesito produção e direção. Isto é, o storytell aqui é muito confuso, e parece ter um efeito pêndulo. Um ou dois depoimentos positivos, um ou dois depoimentos negativos, e o ciclo se reinicia. Além de que a própria edição é bem fraca, sem trazer muito peso às falas mais marcantes, como é o caso dos depoimentos de Champignon e do melhor amigo de Chorão.
O que salva, a exemplo de praticamente tudo na vida do vocalista do Charlie Brown, é sua personalidade forte e interessantíssima. Mesmo vendo diversas pessoas trazendo suas perspectivas e contando histórias, em momento algum o espectador consegue sentir que de fato o conhece por completo. A todo instante, um novo relato traz uma nova camada e uma nova perspectiva sobre Chorão, mostrando toda a complexidade deste personagem tão marcante.
Ao final, me vi com os olhos marejados, refletindo sobre uma morte ocorrida há 8 anos atrás e que na ocasião não me significou nada, mas que hoje me causa uma certa nostalgia, e que surpreendente, me inspira. Felizmente, posso dizer que nunca faltou amor na minha vida, mas se tem algo que meus amigos mais próximos costumam me dizer sempre que têm a oportunidade é que me falta ódio, e acho que nenhuma figura equilibrou tão bem esses dois sentimentos quanto Chorão.
Eu adiei muito essa sessão, creio que por conta da minha arrogância millennial que dispensa qualquer breguice de efeitos enfadonhos das décadas passadas. Percebo hoje o quão equivocado fui. Isso porque o filme é sim brega em diversos aspectos, mas a magia do Superman está lá do início ao fim. A forma como Cristopher Reeve muda até mesmo a sua postura quando alterna entre o herói e seu alter ego é genial. Em questão de segundos vemos o encurvado, atrapalhado, tímido e ansioso Clark Kent estufar o peito e literalmente se transformar na frente dos nossos olhos. Transformação essa tão convincente que quase esquecemos da eterna piada sobre os óculos de Clark. A direção é fantástica e cumpriu muito bem o seu papel. Cenas de ação com cortes rápidos, planos mais longos e com timing perfeitos durante as trapalhadas do Clark e a memorável entrevista com a Lois Lane na cobertura do seu prédio, que para mim foi o ápice do filme. Cumpre bem o papel de instruir o público, cuja grande maioria era pouco familiarizada com as HQ's e ainda desenvolve a relação entre Superman e Lois, que transbordam aquela química bobinha dos filmes românticos dos anos 70. O roteiro é o ponto mais frágil. Lex, apesar de bem interpretado, é raso e bidimensional. Além disso, é um pouco difícil acompanhar certas soluções. Alguém entendeu aquele papo do Lex deduzindo os efeitos da Kryptonita? Para mim foi medonho. Mas sinceramente, após essa ressaca Snyderiana em que todo herói parece o Batman (exceto o Batman), posso dizer que estou feliz, de coração acalentado e realmente inspirado por esse filme. É o heroísmo em seu estado cristalino, de forma como provavelmente nunca mais veremos, vide essa maré de desconstrução do gênero, mas que é a base que sustenta todas essas narrativas. Sensacional!
O primeiro VHS que minha mãe trouxe pra casa depois de comprar o vídeocassete. Não lembro de como me senti assistindo, só de um pouco de estranheza ao ver bules e candelabros cantando. É muito gostoso parar e reassistir isso alguns muitos anos depois e perceber muitos pontos interessantes que a minha versão criança ainda não tinha reparado. A subversão do clichê do príncipe encantando com a fera, que invertem os papéis de herói e vilão, em uma abordagem até que bem progressista, que viraria a marca registrada da Disney anos depois. Além, é claro, de que a Bela é sem dúvida a melhor princesa das animações clássicas, indo muito além da simples donzela em perigo. Ela tem sonhos que não tangem o matrimônio e a vida em família. Lê sobre mundos e lugares distantes e quer conhecê-los. A trilha sonora é incrível e as atuações, também. A Disney é uma empresa gigante que volta e meia vem à tona em alguma reflexão pesada sobre monopólio, e o decaimento da indústria, mas não tem como negar que eles sabem fazer filmes encantadores.
Estou surpreso com o quão singular é esse filme, ainda mais tratando-se de cinema nacional. Isso porque um thriller psicológico sai bastante da bolha que parece sempre girar em torno do brasileirismo clássico (tráfico, ruptura esfera-pública e privada, superação e sexo de péssimo gosto). Se bem que nesse último ponto, Animal Cordial apresenta o esperado. Os personagens tem uma simbologia até que bem clara e que vai muito de encontro ao efervescente caos político de meados de 2017 - o vilão aqui é o empresário que usa a violência sob pretexto de estar apenas defendendo sua propriedade. O ex-policial e o advogado, representando uma totalidade de suas classes, são impotentes. O policial mostra-se dúbio, moralmente, enquanto o advogado não representa nada, se não um leve murmúrio de fundo. Verônica é a caricatura da elite arrogante, Sara representa a fragilidade e falta de autonomia da mulher no contexto caótico e por fim, Djair, o coração da obra, condensa as minorias em um único personagem interessantíssimo: transexual, nordestino, preto. Vale ainda destacar o quão carismática é a performance do ator Iradhir Santos. Apesar do diálogo com temas políticos e sociais nas entrelinhas, o filme não traz de forma nenhuma a militância cool e arrogante que o Twitter nos acostumou. Djair não precisa explicar suas origens, tampouco trazer frases de efeito que girem em torno da sua sexualidade. O roteiro não é sobre isso, e a figura de um travesti em meio ao contexto caótico foi sabiamente inserida com naturalidade, sem necessidade de mensagens pastelonas no maior estilo He-Man (ponto em que muitos filmes sérios pecam). É uma personagem encantadora. Tenho algumas ressalvas quanto ao Murilo Benício, não consigo sentir muita confiança em sua atuação. O ator sempre me pareceu estar em uma constante embriaguez, o que caía bem em papeis como Tufão, mas que aqui causam estranheza em diversas cenas corriqueiras, mas que até que funcionam nos momentos em que o personagem expõe suas maiores idiossincrasias. A direção é competente e até bem Tarantinesca em diversos momentos, uma pena o roteiro não ter acompanhado essa visão. O ponto mais forte é seguramente a trilha sonora, que lembra muito o trabalho de Angelo Badalamenti em Twin Peaks, e que aqui cai como uma luva. É um bom filme, e seguramente vale o tempo de todos os que tem ressalvas quanto ao nosso cinema brazuca.
Tirando o final que ficou um pouco "lugar comum", com um clímax emocionante que não condiz nem um pouco com o mostrado até então, o filme é maravilhoso. Os diálogos são primorosos, até um pouquinho Tarantinescos em alguns momentos, e vale muito a pena assistir.
Assisti para buscar inspiração para um roteiro que estou escrevendo. Certamente trouxe algumas noções, mas principalmente do que não fazer. A trama não é lá muito instigante, e o carisma mórbido de Johnny Depp acaba se apagando no meio de um elenco de atrizes tão espirituosas, o que soa até meio estranho dado o contexto, deixando o filme perdido no próprio tom e nos clichês de roteiro dos quais abusa.
É muito menos diferente do que se propunha a ser. Visualmente, segue a linha dos trabalhos anteriores de Snyder, porém é evidente e indisfarçável o tom mais ameno e bem humorado.
O Flash teve um ou outro bom momento no filme, mas não deixa de ser petulante e pouco carismático. Aquaman e Diana, pobres dos bons, não sabem o porquê de estarem no filme. Cyborg tem profundidade e tridimensionalidade, e consegue ser um personagem muito mais gostável do que o filme parece levar em conta. O Batman é esperançoso e sonhador, e apesar do visual impecável do Ben Affleck, essa descaracterização causa uma estranheza em quem entende minimamente o personagem. O Superman, por fim, com seu carisma de tábua de mármore, surge quando precisa surgir, fazendo basicamente o que os roteiristas conseguiram bolar para evitar que o filme durasse apenas 16 minutos.
E sobre a mitologia e conceitos de Zack Snyder, é nítida como a sua necessidade de inventividade e grandeza, provavelmente pelo fato de se levar a sério demais (vide tweets se enaltecendo), distorce totalmente o conceito de super-heroísmo. É natural que diretores pensem foram da caixa, e ele o fez até que de forma bem interessante em Batman Vs. Superman. Homem Vs. Deus. Depois disso, tudo que vimos foram lampejos de uma mente ansiosa por engrandecer a própria obra com todo tipo de filler, parecendo esquecer que possui o provável maior panteão da história contemporânea ao seu dispor. O filme ora parece uma variação de Senhor dos Anéis, com a união de todos os exércitos para lutar contra o mal comum, ora parece uma distopia como Mad Max ou algum outro pós-apocalíptico qualquer. Está longe de ser o filme que se espera ver da liga.
Isso porque os heróis de Zack Snyder não salvam pessoas. Eles derrotam o vilão, essa parece ser sua prioridade. As vidas humanas, a esperança e a inspiração são apenas consequência.
Mas apesar de não ser o filme que esperávamos da Liga da Justiça, é um filme divertidíssimo se você deixar de lado o carinho que sente por versões mais populares dos personagens ali mostrados. Vale as 4 horas (que poderiam tranquilamente três).
Assistir filmes do Studio Ghibli se tornou uma espécie de terapia para mim. Isso porque em um contexto cada vez mais marcado pela angústia, pressa e ansiedade, o simples ato de assistir uma dessas cenas de respiro - em que os personagens contemplam o horizonte, preparam uma refeição ou fumam um cigarro - nos faz deixar um pouco de lado esse imediatismo, típico do século XXI, fazendo com que nos sintamos muito mais confortáveis na posição de espectador. E quando digo espectador, não me refiro ao ser que anseia por uma retribuição pela sua atenção, seja ela uma luta, explosão ou frase de efeito. Me refiro ao espectador que olha vagarosamente, e que presta atenção nos detalhes, afinal, é sobre isso que Ghibli é: detalhes. A nível individual, é uma história simplória e tem lá seus momentos até que maçantes, mas eles não me incomodam. São gostosos e relaxantes, mas sem nunca perder a identidade do Studio.
Este filme, à exemplo de outras obras de 1999, resolveu brincar com a realidade. E bem, o tema certamente é instigante, e provoca diversas reflexões, mas acaba não indo muito longe disso. E antes que alguém critique, sim, eu sei que para o contexto em que foi lançado, tratou-se de uma obra inovadora, especialmente no que diz respeito à direção e efeitos, mas eu via muito mais potencial no tema, o que me chateou. A primeira metade é quase perfeita, com exceção do fato de ser meio estranho o plot girar em torno de uma profecia, com direito a um oráculo e um escolhido, em uma pegada bem religiosa mesmo, sendo que o filme é um sci-fi distópico. Mas apesar disso, a primeira hora instiga e mantém focado. Após isso o filme perde-se em uma sucessão de tiroteios, lutas e explosões forçadas, o que não é nem um pouco do meu agrado. Acho que a cena da colher foi o grande ápice. É um filme bacana, cheio de identidade e de extremo valor para o contexto em que foi lançado. Vale a pena assistir para entender um pouco mais sobre cinema e absorver melhor as incansáveis referências que vemos em outras produções.
Gostei do ritmo lento como o filme se desenvolveu. A gente tem cerca de 45 minutos mostrando a vida de merda do Rocky no começo, e sim, isso foi um pouco cansativo. Mas a verdade é que na luta final, ele não precisa provar nada para o treinador, não precisa provar nada para a Adrian, nem para ninguém. Ele só precisa provar para ele mesmo, essa é a chance dele. E a gente não saberia disso se não fossem aqueles 45 minutos de ambientação. A construção do filme foi perfeita, essa sequência de treinamentos é provavelmente a mais marcante da história, tendo virado um clichê do gênero, além de que a trilha sonora é maravilhosa. O Silvester Stallone não é lá um cara muito carismático, mas se fosse, acho que não teríamos comprado a ideia do Garanhão Italiano, chucro que não sabe nem mesmo dar um oi direito em uma entrevista, prestes a encarar o campeão mundial, um homem carismático e engraçado. Excelente filme.
Certa vez, em uma entrevista, Hayao Miyazaki, a mente por trás do Studio Ghibli, bateu palmas. Mas o foco não era o impacto, tampouco o som dos movimentos, mas sim os intervalos de tempo entre elas. Ma é a palavra japonesa para descrever esses intervalos. Vazio. E apesar do Studio Ghibli e Pixar serem frentes totalmente diferentes, Soul não poderia ser definido por outro termo. Não é sobre a vida ou morte, mas sim sobre isso. Vazio. E se tratando de um contexto que cada vez mais nos incentiva a aproveitar a vida de forma uniforme, como se o ato de viver bem se resumisse à mochilões por outros países e frases de gratidão no Instagram, Soul cresce em significado e mérito, pois faz questão de lembrar o espectador que não importa o quanto nos ocupemos com sonhos, obsessões, ou até mesmo com momentos de angústia e anseio, não é sobre isso que a vida se trata. Viver é muito mais sobre esses momentos de respiro. Sentar para olhar o céu, sorrir com sinceridade ou mesmo seguir com o olhar uma pequena folha caindo de uma árvore. São justamente esses pequenos vazios que enchem a nossa existência de significado. Assistam aí.
Possui um roteiro surpreendentemente inteligente e ácido nas críticas à indústria, além de ser calcado na metalinguagem, que é uma paixão particular minha. Além de que Robert Downey Jr. está simplesmente incrível. Comédia muito acima da média!
Um filme que não precisei pesquisar à respeito para perceber tratar-se de uma adaptação de livro, fato que fica muito bem evidenciado nas passagens de tempo um tanto sem noção por parte do roteiro e direção, uma eterna pedra no sapato dos diretores. Chega a ser difícil acompanhar os personagens e suas motivações ao longo de um período tão extenso de tempo, o que certamente se dividira melhor em uma série de TV do que um longa. Além disso, não sei se pela minha recente leitura da HQ Preacher, que apresenta um vampiro muito mais contemporâneo do que os sensíveis, chorosos, melancólicos e egocêntricos mostrados no filme, ou se apenas por sentir que isso não cai mais tão bem no gênero, mas o fato é que me sinto saturado de criaturas que parecem ter saído dos sonhos molhados de adolescentes de 16 anos. As atuações são ótimas, isso eu preciso admitir, especialmente do Tom Cruise e da Kirsten Dunst, além de que o final foi sensacional, mas ainda assim, creio que para a época em que nos encontramos atualmente, o filme seja irrelevante, talvez necessário apenas para compreensão de uma ou outra referência jogada em outras mídias contemporâneas.
Não Olhe para Cima
3.7 1,9K Assista AgoraVi uma série de críticas mistas sobre o filme, então procurei não esperar muita coisa, até porque apesar do excelente elenco, trata-se de uma produção da Netflix, então é preciso ser cauteloso quanto às expectativas.
Qual não foi a minha surpresa quando depois de pouco mais de 15 minutos, percebi já estar vidrado no filme. Tudo nele funciona. Os personagens são carismáticos, o humor, que eventualmente brinca com aquele estilo típico de The Office, causando desconforto no espectador, é sensacional e bem dosado com algo mais pastelão, que além de servir como uma fuga do eventual cansaço que um filme deste caráter poderia trazer, também funciona como um elemento narrativo. Os eventuais surtos da Kate em rede nacional nos causam vergonha alheia, mesmo sabendo que o que ela diz é verdade. Isso é Adam McKay nos mostrando que embora 99% das pessoas que assistiram se coloquem como entendedores da mensagem, e guardiões do bom senso, no dia-dia estamos sujeitos a ouvir menos e julgar mais, independente do phD que vem antes do nome. Genial.
Inclusive, esses surtos são sensacionais. Lawrence e DiCaprio dividem igualmente o protagonismo e o carisma por meio de atuações maravilhosas, juntamente com o excelente elenco de apoio. mas acho que isso não surpreende ninguém, vide a bagagem do pessoal envolvido.
Some esses aspectos de entonação tragicômica ao clima de barco afundando que surge da segunda metade em diante, e temos uma obra cheia de personalidade, e acima de tudo, de verdade. Maravilhoso.
O Diabo de Cada Dia
3.8 1,1K Assista AgoraEsse filme saiu tem um tempinho já, e acho que por conta do elenco recheado de figurinhas conhecidas no cinema mainstream (só de heróis, temos 3), foi bastante comentado na época, mas é óbvio que como eu vivo em um mundo irônico mundo de consumo exacerbado de cultura popular na mesma medida que fujo de modinhas, eu acabei não assistindo. Até essa semana.
E qual é o veredito? Bom, o filme claramente tem influências tarantinescas, se levando a sério do começo ao fim. Os atores entregam trabalhos decentes, embora seja para mim extremamente difícil ver Tom Holland encarando um papel mais obscuro, mas no geral, é bem legalzinho. Não chega a proporcionar nenhum grande êxtase e é até que previsível depois que você entende a audácia narrativa dos caminhos se cruzando entre seus personagens, mas passa longe de ser algo enfadonho.
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
4.2 1,8K Assista AgoraAbrindo meu coração sobre No Way Home (sem spoilers).
O filme peca em diversos momentos narrativamente, deixando as motivações de alguns personagens pouco ou nada claras, além de não desenvolver muito bem alguns subplots, culminando em furos bem evidentes no roteiro. Se a gente fosse pegar e avaliar o filme tecnicamente, provavelmente seria um filme nota três.
Entretanto, porém, todavia, existe uma coisa chamada sentimento!
Esse filme foi escrito pros fãs, tanto os de versões anteriores do Aranha quanto da versão atual, e tem consciência disso do começo ao fim. Ele sabe o que os fãs querem, e mais do que isso, sabe como entregar com perfeição
Então o que vai ditar se você vai gostar ou não é o quão fã do Homem Aranha você é.
No meu caso, sendo louco por esse personagem desde que eu era criança, consegui passar o pano para todos os furos sem a menor dificuldade.
E bem, apesar desse filme, pelo menos para a maioria das pessoas, ter tido o mérito de mostrar o quão maravilhoso foi ser fã deste personagem nos últimos 20 anos, comigo foi diferente. Se antes eu era um moleque com cabelinho de tigela louco pelo personagem, durante a sessão, e especialmente durante o epílogo, No Way Home me fez perceber que um dia eu serei um dia serei um velhinho careca ainda animado comprando ingressos para assistir o herói, e isso não tem preço.
Homem Aranha é atemporal.
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
4.2 1,8K Assista AgoraNão consigo nem trabalhar de tanto que to ansioso
A Bruxa de Blair
3.1 1,7KFinalmente, após 22 anos (desde meu nascimento e desde a estreia), tive contato com este filme, e bem... Ele é tudo que eu esperava.
Conceitualmente, genial, visto ter sido este o filme que fez o gênero found footage atingir o status quo.
A nível narrativo, no entanto, não vai além de umas filmagens descartáveis e mal executadas, cujo impacto não se dá pelas cenas gravadas ou suspense criado, e sim por conta da mensagem dizendo que os fatos são reais no início do filme. Propaganda brilhante, produto esquecível.
A Voz do Silêncio
4.3 352 Assista AgoraFilme que aborda o bullying, além de outros sentimentos complexos do espectro humano como perda e culpa com toda aquela sensibilidade intimista que somente os japoneses sabem colocar em suas produções.
Sou um pouco suspeito para falar porque quem conhece meus textos e roteiros mais dramáticos sabe o quão grande é a influência dos momentos de respiro para o desenvolvimento da trama, e este filme traz exatamente isso. Não são palavras que trazem a dimensão da culpa que Ishida, o protagonista e ex-bullie, sente, e sim seu olhar contemplando um riacho com algumas carpas. Lindo.
Presságio
3.1 1,8K Assista AgoraCena do avião caindo >>>>>>>>>>>>
O Mistério de Silver Lake
3.0 329 Assista AgoraDifícil opinar sobre essa produção, não somente por se tratar de um produto tão singular, mas também pelo fato da minha limitada bagagem não ter absorvido nem 1/3 das referências entregues na obra. Mas isso não significa que eu não tenha gostado.
Andrew Garfield está muito bem, como de praxe, e serve como um totem para o espectador conhecer algumas subculturas de Los Angeles, enquanto um suspense com algumas nuances de filme noir se desenrola. A todo momento pensamos "agora ele descobrirá algo bombástico", apenas para percebemos que não, não existe nada muito bombástico a ser descoberto. Apenas uma ou outra estranheza, mas nada que ressignifique uma vida, como Sam acha.
Mas independente das estranhezas e da narrativa menos mastigada, é inegável que exista uma atmosfera envolvente que jamais impele o espectador a desligar a TV. Ótimo filme.
Artista do Desastre
3.8 557 Assista AgoraNão pretendo me estender falando sobre The Room. Creio que todo internauta já tenha esbarrado com este filme em algum momento. A premissa é simples, dramática e a execução, risível. Como já apresentado em outras ocasiões por resenhistas mais gabaritados, The Room se tratou de um fracasso tão esplendoroso, que acabou dando certo.
O que The Disaster Artist faz é explorar os bastidores e os motivos que transformaram esta produção no provável pior filme da história, o que implica em explorar a mente de seu idealizador, Tommy Wiseau. Exploração essa que se dá apenas com base em suas atitudes presenciadas por outras pessoas. Não há aqui uma jornada do herói, ou a construção de uma psique. Tommy é misterioso, surge de repente, e é constante em suas próprias estranhezas e visão de mundo destorcida.
A execução é totalmente primorosa, e apesar de todos os apesares, não há como não ficar boquiaberto com o trabalho de James Franco, tanto por conta da atuação quanto pela direção.
Inclusive, há um quê metalinguístico na obra. James Franco estrelou e dirigiu um filme sobre um cara que estrelou e dirigiu seu filme, além de que é perfeitamente cabível imaginar que a escolha de seu irmão caçula para interpretar o "baby face" não tenha sido por acaso. Ambos construíram relações diferentes com a fama e com a atuação, assim como Tommy e Greg.
Inclusive este é o único ponto razoavelmente desconfortável. Dave Franco não consegue convencer na pele de Greg Sestero. Até porque eu acredito que seja difícil interpretar alguém que tem a aparência de um galã, mas que mesmo assim é naturalmente inseguro. Dave não tem essa aparência, então tudo se torna mais cabível, se tratando dele. Além de que a maquiagem utilizada é horrorosa e desagradável.
Mas apesar disso, esse filme possui a mesma paixão que motivou a execução de The Room, anos atrás. É um ideal artístico, algo que vai além da execução técnica, e que se você prestar bem a atenção, pode tirar algumas lições extremamente valiosas.
Psicopata Americano
3.7 2,0K Assista AgoraFilme de personalidade admirável, do tipo que não há como esquecer, seja pelas cenas icônicas e marcantes, ou por toda a construção totalmente atípica, mesmo que o roteiro eventualmente desemboque em um ou outro beco sem saída, se preocupando demais em expor a personalidade do protagonista para os espectadores. É o caso, por exemplo, das cenas dos cartões de visitas. A primeira expõe a personalidade neurótica e invejosa de Patrick na mesma medida que solidifica isso como uma característica comum do seu meio, podendo ou não ser produto dele, enquanto que na segunda ocasião, acaba tirando um pouco da grandeza, sem acrescentar muito à história e tornando aquela genialidade de direção algo mais pífio, vide a repetição.
Mas é claro que esse é só um detalhe, que causa muito menos desconforto do que a personalidade de Patrick, que em alguns momentos supera Michael Scott na arte de envergonhar o espectador. Mas claro, propositalmente.
Inclusive, vale uma menção à atuação maravilhosa de Bale. Eu sempre soube que era um ator excelente, mas esse trabalho conseguiu acrescentar ainda mais créditos a ele.
Não é um filme incontestável, mas é um excelente filme. Vale a pena.
Chorão: Marginal Alado
3.7 179 Assista AgoraA figura de Chorão, para bem ou para mal, marcou a música brasileira. A personalidade forte, explosiva e imponente do cantor e sua filosofia de vida influenciou toda uma geração de jovens, cuja grande maioria, pelo menos do meu ciclo social, viraram alguns dos adultos mais detestáveis e preguiçosos que já tive o desprazer de conhecer, embora eu não possa negar que se tratem de pessoas que vivem à sua própria maneira, coisa cada vez mais rara de se encontrar.
A nível pessoal, sempre achei sua música espetacular e digna de nota, embora no meu contexto de aspirante a escritor e jovem promissor no mercado de trabalho, eu raramente consiga aplicar suas filosofias ao meu cotidiano. Com exceção, claro, das letras que falam dos "playboys filhas da puta", os quais eu lamentavelmente me identifico muito mais do que o eu-lírico. Apesar disso, Alexandre Magno sempre cantou com total convicção, e sabe como é, gente verdadeira encanta, independente do contexto.
Feitas as considerações sobre essa figura emblemática, partamos para o documentário. E bem, para ser sincero, não achei nada demais no quesito produção e direção. Isto é, o storytell aqui é muito confuso, e parece ter um efeito pêndulo. Um ou dois depoimentos positivos, um ou dois depoimentos negativos, e o ciclo se reinicia. Além de que a própria edição é bem fraca, sem trazer muito peso às falas mais marcantes, como é o caso dos depoimentos de Champignon e do melhor amigo de Chorão.
O que salva, a exemplo de praticamente tudo na vida do vocalista do Charlie Brown, é sua personalidade forte e interessantíssima. Mesmo vendo diversas pessoas trazendo suas perspectivas e contando histórias, em momento algum o espectador consegue sentir que de fato o conhece por completo. A todo instante, um novo relato traz uma nova camada e uma nova perspectiva sobre Chorão, mostrando toda a complexidade deste personagem tão marcante.
Ao final, me vi com os olhos marejados, refletindo sobre uma morte ocorrida há 8 anos atrás e que na ocasião não me significou nada, mas que hoje me causa uma certa nostalgia, e que surpreendente, me inspira. Felizmente, posso dizer que nunca faltou amor na minha vida, mas se tem algo que meus amigos mais próximos costumam me dizer sempre que têm a oportunidade é que me falta ódio, e acho que nenhuma figura equilibrou tão bem esses dois sentimentos quanto Chorão.
Todos temos um pouco a aprender com ele.
Superman: O Filme
3.7 539 Assista AgoraEu adiei muito essa sessão, creio que por conta da minha arrogância millennial que dispensa qualquer breguice de efeitos enfadonhos das décadas passadas. Percebo hoje o quão equivocado fui.
Isso porque o filme é sim brega em diversos aspectos, mas a magia do Superman está lá do início ao fim. A forma como Cristopher Reeve muda até mesmo a sua postura quando alterna entre o herói e seu alter ego é genial. Em questão de segundos vemos o encurvado, atrapalhado, tímido e ansioso Clark Kent estufar o peito e literalmente se transformar na frente dos nossos olhos. Transformação essa tão convincente que quase esquecemos da eterna piada sobre os óculos de Clark.
A direção é fantástica e cumpriu muito bem o seu papel. Cenas de ação com cortes rápidos, planos mais longos e com timing perfeitos durante as trapalhadas do Clark e a memorável entrevista com a Lois Lane na cobertura do seu prédio, que para mim foi o ápice do filme. Cumpre bem o papel de instruir o público, cuja grande maioria era pouco familiarizada com as HQ's e ainda desenvolve a relação entre Superman e Lois, que transbordam aquela química bobinha dos filmes românticos dos anos 70.
O roteiro é o ponto mais frágil. Lex, apesar de bem interpretado, é raso e bidimensional. Além disso, é um pouco difícil acompanhar certas soluções. Alguém entendeu aquele papo do Lex deduzindo os efeitos da Kryptonita? Para mim foi medonho.
Mas sinceramente, após essa ressaca Snyderiana em que todo herói parece o Batman (exceto o Batman), posso dizer que estou feliz, de coração acalentado e realmente inspirado por esse filme. É o heroísmo em seu estado cristalino, de forma como provavelmente nunca mais veremos, vide essa maré de desconstrução do gênero, mas que é a base que sustenta todas essas narrativas. Sensacional!
A Bela e a Fera
4.1 1,2K Assista AgoraO primeiro VHS que minha mãe trouxe pra casa depois de comprar o vídeocassete. Não lembro de como me senti assistindo, só de um pouco de estranheza ao ver bules e candelabros cantando. É muito gostoso parar e reassistir isso alguns muitos anos depois e perceber muitos pontos interessantes que a minha versão criança ainda não tinha reparado. A subversão do clichê do príncipe encantando com a fera, que invertem os papéis de herói e vilão, em uma abordagem até que bem progressista, que viraria a marca registrada da Disney anos depois. Além, é claro, de que a Bela é sem dúvida a melhor princesa das animações clássicas, indo muito além da simples donzela em perigo. Ela tem sonhos que não tangem o matrimônio e a vida em família. Lê sobre mundos e lugares distantes e quer conhecê-los.
A trilha sonora é incrível e as atuações, também.
A Disney é uma empresa gigante que volta e meia vem à tona em alguma reflexão pesada sobre monopólio, e o decaimento da indústria, mas não tem como negar que eles sabem fazer filmes encantadores.
O Animal Cordial
3.4 629 Assista AgoraEstou surpreso com o quão singular é esse filme, ainda mais tratando-se de cinema nacional. Isso porque um thriller psicológico sai bastante da bolha que parece sempre girar em torno do brasileirismo clássico (tráfico, ruptura esfera-pública e privada, superação e sexo de péssimo gosto). Se bem que nesse último ponto, Animal Cordial apresenta o esperado.
Os personagens tem uma simbologia até que bem clara e que vai muito de encontro ao efervescente caos político de meados de 2017 - o vilão aqui é o empresário que usa a violência sob pretexto de estar apenas defendendo sua propriedade. O ex-policial e o advogado, representando uma totalidade de suas classes, são impotentes. O policial mostra-se dúbio, moralmente, enquanto o advogado não representa nada, se não um leve murmúrio de fundo. Verônica é a caricatura da elite arrogante, Sara representa a fragilidade e falta de autonomia da mulher no contexto caótico e por fim, Djair, o coração da obra, condensa as minorias em um único personagem interessantíssimo: transexual, nordestino, preto. Vale ainda destacar o quão carismática é a performance do ator Iradhir Santos.
Apesar do diálogo com temas políticos e sociais nas entrelinhas, o filme não traz de forma nenhuma a militância cool e arrogante que o Twitter nos acostumou. Djair não precisa explicar suas origens, tampouco trazer frases de efeito que girem em torno da sua sexualidade. O roteiro não é sobre isso, e a figura de um travesti em meio ao contexto caótico foi sabiamente inserida com naturalidade, sem necessidade de mensagens pastelonas no maior estilo He-Man (ponto em que muitos filmes sérios pecam). É uma personagem encantadora.
Tenho algumas ressalvas quanto ao Murilo Benício, não consigo sentir muita confiança em sua atuação. O ator sempre me pareceu estar em uma constante embriaguez, o que caía bem em papeis como Tufão, mas que aqui causam estranheza em diversas cenas corriqueiras, mas que até que funcionam nos momentos em que o personagem expõe suas maiores idiossincrasias.
A direção é competente e até bem Tarantinesca em diversos momentos, uma pena o roteiro não ter acompanhado essa visão. O ponto mais forte é seguramente a trilha sonora, que lembra muito o trabalho de Angelo Badalamenti em Twin Peaks, e que aqui cai como uma luva.
É um bom filme, e seguramente vale o tempo de todos os que tem ressalvas quanto ao nosso cinema brazuca.
Os 7 de Chicago
4.0 588 Assista AgoraTirando o final que ficou um pouco "lugar comum", com um clímax emocionante que não condiz nem um pouco com o mostrado até então, o filme é maravilhoso. Os diálogos são primorosos, até um pouquinho Tarantinescos em alguns momentos, e vale muito a pena assistir.
Do Inferno
3.6 475 Assista AgoraAssisti para buscar inspiração para um roteiro que estou escrevendo. Certamente trouxe algumas noções, mas principalmente do que não fazer. A trama não é lá muito instigante, e o carisma mórbido de Johnny Depp acaba se apagando no meio de um elenco de atrizes tão espirituosas, o que soa até meio estranho dado o contexto, deixando o filme perdido no próprio tom e nos clichês de roteiro dos quais abusa.
Liga da Justiça de Zack Snyder
4.0 1,3KÉ muito menos diferente do que se propunha a ser. Visualmente, segue a linha dos trabalhos anteriores de Snyder, porém é evidente e indisfarçável o tom mais ameno e bem humorado.
O Flash teve um ou outro bom momento no filme, mas não deixa de ser petulante e pouco carismático. Aquaman e Diana, pobres dos bons, não sabem o porquê de estarem no filme. Cyborg tem profundidade e tridimensionalidade, e consegue ser um personagem muito mais gostável do que o filme parece levar em conta. O Batman é esperançoso e sonhador, e apesar do visual impecável do Ben Affleck, essa descaracterização causa uma estranheza em quem entende minimamente o personagem. O Superman, por fim, com seu carisma de tábua de mármore, surge quando precisa surgir, fazendo basicamente o que os roteiristas conseguiram bolar para evitar que o filme durasse apenas 16 minutos.
E sobre a mitologia e conceitos de Zack Snyder, é nítida como a sua necessidade de inventividade e grandeza, provavelmente pelo fato de se levar a sério demais (vide tweets se enaltecendo), distorce totalmente o conceito de super-heroísmo. É natural que diretores pensem foram da caixa, e ele o fez até que de forma bem interessante em Batman Vs. Superman. Homem Vs. Deus. Depois disso, tudo que vimos foram lampejos de uma mente ansiosa por engrandecer a própria obra com todo tipo de filler, parecendo esquecer que possui o provável maior panteão da história contemporânea ao seu dispor. O filme ora parece uma variação de Senhor dos Anéis, com a união de todos os exércitos para lutar contra o mal comum, ora parece uma distopia como Mad Max ou algum outro pós-apocalíptico qualquer. Está longe de ser o filme que se espera ver da liga.
Isso porque os heróis de Zack Snyder não salvam pessoas. Eles derrotam o vilão, essa parece ser sua prioridade. As vidas humanas, a esperança e a inspiração são apenas consequência.
Mas apesar de não ser o filme que esperávamos da Liga da Justiça, é um filme divertidíssimo se você deixar de lado o carinho que sente por versões mais populares dos personagens ali mostrados. Vale as 4 horas (que poderiam tranquilamente três).
O Tempo e o Vento
3.6 456 Assista AgoraA trilha sonora é impecável.
Vidas ao Vento
4.1 613 Assista AgoraAssistir filmes do Studio Ghibli se tornou uma espécie de terapia para mim. Isso porque em um contexto cada vez mais marcado pela angústia, pressa e ansiedade, o simples ato de assistir uma dessas cenas de respiro - em que os personagens contemplam o horizonte, preparam uma refeição ou fumam um cigarro - nos faz deixar um pouco de lado esse imediatismo, típico do século XXI, fazendo com que nos sintamos muito mais confortáveis na posição de espectador. E quando digo espectador, não me refiro ao ser que anseia por uma retribuição pela sua atenção, seja ela uma luta, explosão ou frase de efeito. Me refiro ao espectador que olha vagarosamente, e que presta atenção nos detalhes, afinal, é sobre isso que Ghibli é: detalhes.
A nível individual, é uma história simplória e tem lá seus momentos até que maçantes, mas eles não me incomodam. São gostosos e relaxantes, mas sem nunca perder a identidade do Studio.
Matrix
4.3 2,6K Assista AgoraEste filme, à exemplo de outras obras de 1999, resolveu brincar com a realidade. E bem, o tema certamente é instigante, e provoca diversas reflexões, mas acaba não indo muito longe disso. E antes que alguém critique, sim, eu sei que para o contexto em que foi lançado, tratou-se de uma obra inovadora, especialmente no que diz respeito à direção e efeitos, mas eu via muito mais potencial no tema, o que me chateou.
A primeira metade é quase perfeita, com exceção do fato de ser meio estranho o plot girar em torno de uma profecia, com direito a um oráculo e um escolhido, em uma pegada bem religiosa mesmo, sendo que o filme é um sci-fi distópico. Mas apesar disso, a primeira hora instiga e mantém focado. Após isso o filme perde-se em uma sucessão de tiroteios, lutas e explosões forçadas, o que não é nem um pouco do meu agrado. Acho que a cena da colher foi o grande ápice.
É um filme bacana, cheio de identidade e de extremo valor para o contexto em que foi lançado. Vale a pena assistir para entender um pouco mais sobre cinema e absorver melhor as incansáveis referências que vemos em outras produções.
Rocky: Um Lutador
4.1 868 Assista AgoraGostei do ritmo lento como o filme se desenvolveu. A gente tem cerca de 45 minutos mostrando a vida de merda do Rocky no começo, e sim, isso foi um pouco cansativo. Mas a verdade é que na luta final, ele não precisa provar nada para o treinador, não precisa provar nada para a Adrian, nem para ninguém. Ele só precisa provar para ele mesmo, essa é a chance dele. E a gente não saberia disso se não fossem aqueles 45 minutos de ambientação.
A construção do filme foi perfeita, essa sequência de treinamentos é provavelmente a mais marcante da história, tendo virado um clichê do gênero, além de que a trilha sonora é maravilhosa.
O Silvester Stallone não é lá um cara muito carismático, mas se fosse, acho que não teríamos comprado a ideia do Garanhão Italiano, chucro que não sabe nem mesmo dar um oi direito em uma entrevista, prestes a encarar o campeão mundial, um homem carismático e engraçado.
Excelente filme.
Soul
4.3 1,4KCerta vez, em uma entrevista, Hayao Miyazaki, a mente por trás do Studio Ghibli, bateu palmas. Mas o foco não era o impacto, tampouco o som dos movimentos, mas sim os intervalos de tempo entre elas. Ma é a palavra japonesa para descrever esses intervalos. Vazio. E apesar do Studio Ghibli e Pixar serem frentes totalmente diferentes, Soul não poderia ser definido por outro termo. Não é sobre a vida ou morte, mas sim sobre isso. Vazio.
E se tratando de um contexto que cada vez mais nos incentiva a aproveitar a vida de forma uniforme, como se o ato de viver bem se resumisse à mochilões por outros países e frases de gratidão no Instagram, Soul cresce em significado e mérito, pois faz questão de lembrar o espectador que não importa o quanto nos ocupemos com sonhos, obsessões, ou até mesmo com momentos de angústia e anseio, não é sobre isso que a vida se trata. Viver é muito mais sobre esses momentos de respiro. Sentar para olhar o céu, sorrir com sinceridade ou mesmo seguir com o olhar uma pequena folha caindo de uma árvore. São justamente esses pequenos vazios que enchem a nossa existência de significado.
Assistam aí.
Trovão Tropical
3.2 990 Assista AgoraPossui um roteiro surpreendentemente inteligente e ácido nas críticas à indústria, além de ser calcado na metalinguagem, que é uma paixão particular minha.
Além de que Robert Downey Jr. está simplesmente incrível. Comédia muito acima da média!
Entrevista Com o Vampiro
4.1 2,2K Assista AgoraUm filme que não precisei pesquisar à respeito para perceber tratar-se de uma adaptação de livro, fato que fica muito bem evidenciado nas passagens de tempo um tanto sem noção por parte do roteiro e direção, uma eterna pedra no sapato dos diretores.
Chega a ser difícil acompanhar os personagens e suas motivações ao longo de um período tão extenso de tempo, o que certamente se dividira melhor em uma série de TV do que um longa.
Além disso, não sei se pela minha recente leitura da HQ Preacher, que apresenta um vampiro muito mais contemporâneo do que os sensíveis, chorosos, melancólicos e egocêntricos mostrados no filme, ou se apenas por sentir que isso não cai mais tão bem no gênero, mas o fato é que me sinto saturado de criaturas que parecem ter saído dos sonhos molhados de adolescentes de 16 anos.
As atuações são ótimas, isso eu preciso admitir, especialmente do Tom Cruise e da Kirsten Dunst, além de que o final foi sensacional, mas ainda assim, creio que para a época em que nos encontramos atualmente, o filme seja irrelevante, talvez necessário apenas para compreensão de uma ou outra referência jogada em outras mídias contemporâneas.