O caso do Twin Flames evidencia como zonas estruturalmente abertas da constituição da sexualidade feminina , especialmente aquelas ligadas ao laço entre mulheres, à indeterminação do desejo e à busca de reconhecimento podem, quando não sustentadas no plano da elaboração psíquica, ser violentamente instrumentalizadas por esses grupos sectários. Tal como aparece no caso Dora, não se trata de identidade sexual nem de “fragilidade”, mas de campos de elaboração ainda não totalmente constituídos. Enquanto a psicanálise sustenta essas zonas como espaço de pergunta e invenção, o dispositivo sectário opera fechando-as à força. Aquela lista de formação de casais 🤦♀️ Os líderes nomeiam, fixam papéis, transformam indeterminação em falha moral e converte o corpo em prova de obediência. O Twin Flames não revela um excesso do feminino, mas a violência de sistemas que não toleram o não-sabido e colonizam o desejo oferecendo completude, missão e destino onde deveria haver abertura. Aliás, a linguagem parece cada vez mais fechada 😔
Em Fargo quinta temporada, a violência aparece como eco: não um evento isolado, mas uma lógica que se repete. No xerife, o eco surge como colapso narcísico, quando o nome e a autoridade se duplicam, ele reage com agressividade para restaurar a fantasia de posse. Em Dot, o eco é traumático: outras mulheres viveram a mesma perseguição, revelando que não se trata de um homem, mas de um sistema, corpos que se amontoam. Quando Dot se esconde na fossa do rancho Tillman, o lugar onde corpos se amontoam sem nome, ela entra no território do bode expiatório: ali, a violência deposita seus restos para que a ordem siga intacta. É significativo que ela seja resgatada justamente pelo "comedor de pecados", figura que carrega a culpa alheia para que outros possam seguir “puros”. Dot segura um osso e teme, mas aceita a ajuda dele para sair daquele lugar, não porque confie, mas porque reconhece a lógica do lugar. O xerife, antes, fala do “nome escrito nos ossos” que é a ideia de que a identidade pode ser reduzida a um traço final, ao determinismo, fixado até morte. Dot tenta mudar de nome para escapar desse destino; a fossa revela o preço quando essa recusa ocorre. Fargo sugere que a luta de Dot não é só por sobreviver, mas por impedir que seu nome seja inscrito como "culpa" nos ossos de um sistema e por atravessar a sujeira sem se tornar o depósito dela. A temporada expõe a inversão clássica da violência (DARVO): o agressor se apresenta como vítima e tenta empurrar a mulher ao lugar de agressora por resistir. Esse mecanismo ecoa práticas arcaicas como o “comedor de pecados”, onde a culpa é transferida a um corpo para que a ordem se preserve. No plano psíquico, o xerife e a executiva podem ser lidos como núcleos introjetados em Dot: o masculino punitivo que reivindica posse e o polo hiperfuncional que sobrevive por dissociação. O horror máximo emerge quando a violência deixa de perseguir e passa a usurpar o lugar do sujeito, quando o agressor tenta falar desde a posição da vítima, atacando a fronteira do Eu. A cegueira de Gator sela essa lógica: não falta visão, falta reconhecimento. É a ignorância escolhida que o torna inapto e mantém o patriarcado operando por repetição. Fargo mostra que essa violência não quer apenas controlar o outro, quer ocupá-lo. Fargo foi uma série interessante, muito legal o raciocínio.
“Nine Perfect Strangers” funciona muito bem quando a gente acompanha tudo pelo olhar das dinâmicas psicológicas entre os personagens, como se cada um se relacionasse com Masha a partir de um ponto cego próprio. No caso de David Sharpe, o único vínculo possível com a personagem da Nicole Kidman é aquele que preserva o narcisismo dele: ele a mantém congelada na lembrança de uma mulher intrigante que conheceu em Praga.
Essa fixação impede que algo novo entre no seu self. Ele evita a vulnerabilidade, teme perder o controle e se refugia na versão “charmosa e inofensiva” dessa memória. Assim, se distancia não só de Masha real, mas também do próprio filho... Ele não acessa as próprias emoções porque teme descobrir a própria insuficiência. Talvez por isso transforme sua relação com Masha numa tonalidade erotizada: o erotismo ali cria afastamento, funciona como defesa. É mais seguro sexualizar do que encontrar uma pessoa de verdade. O encontro rápido de Praga vira seu lugar “turístico”: idealizado, controlável, distante.
E a continuidade da história da "dinâmica psicológica" dele se dá logo depois de uma experiência persecutória, como se estivesse sido exposto por Masha em um momento de fragilidade. Após esse choque, ele se agarra ainda mais à fantasia de Praga, de algum modo terá que forçar esse "casamento" justamente para não encarar aquilo que o desorganiza.
Não curti o último episódio. A cena da personagem fazendo discurso sobre o universo foi bem chata, cosmos e átomos numa história de vampiros... Bem fora. Alguns diálogos da série são bem arrastados para esse tipo de proposta. O filme de zumbi do Jim Jarmusch pontua mais que essa série.
Fugindo do Twin Flames
3.4 40O caso do Twin Flames evidencia como zonas estruturalmente abertas da constituição da sexualidade feminina , especialmente aquelas ligadas ao laço entre mulheres, à indeterminação do desejo e à busca de reconhecimento podem, quando não sustentadas no plano da elaboração psíquica, ser violentamente instrumentalizadas por esses grupos sectários. Tal como aparece no caso Dora, não se trata de identidade sexual nem de “fragilidade”, mas de campos de elaboração ainda não totalmente constituídos. Enquanto a psicanálise sustenta essas zonas como espaço de pergunta e invenção, o dispositivo sectário opera fechando-as à força. Aquela lista de formação de casais 🤦♀️ Os líderes nomeiam, fixam papéis, transformam indeterminação em falha moral e converte o corpo em prova de obediência. O Twin Flames não revela um excesso do feminino, mas a violência de sistemas que não toleram o não-sabido e colonizam o desejo oferecendo completude, missão e destino onde deveria haver abertura. Aliás, a linguagem parece cada vez mais fechada 😔
Fargo (5ª Temporada)
4.1 68 Assista AgoraEm Fargo quinta temporada, a violência aparece como eco: não um evento isolado, mas uma lógica que se repete. No xerife, o eco surge como colapso narcísico, quando o nome e a autoridade se duplicam, ele reage com agressividade para restaurar a fantasia de posse. Em Dot, o eco é traumático: outras mulheres viveram a mesma perseguição, revelando que não se trata de um homem, mas de um sistema, corpos que se amontoam. Quando Dot se esconde na fossa do rancho Tillman, o lugar onde corpos se amontoam sem nome, ela entra no território do bode expiatório: ali, a violência deposita seus restos para que a ordem siga intacta. É significativo que ela seja resgatada justamente pelo "comedor de pecados", figura que carrega a culpa alheia para que outros possam seguir “puros”. Dot segura um osso e teme, mas aceita a ajuda dele para sair daquele lugar, não porque confie, mas porque reconhece a lógica do lugar. O xerife, antes, fala do “nome escrito nos ossos” que é a ideia de que a identidade pode ser reduzida a um traço final, ao determinismo, fixado até morte. Dot tenta mudar de nome para escapar desse destino; a fossa revela o preço quando essa recusa ocorre. Fargo sugere que a luta de Dot não é só por sobreviver, mas por impedir que seu nome seja inscrito como "culpa" nos ossos de um sistema e por atravessar a sujeira sem se tornar o depósito dela.
A temporada expõe a inversão clássica da violência (DARVO): o agressor se apresenta como vítima e tenta empurrar a mulher ao lugar de agressora por resistir. Esse mecanismo ecoa práticas arcaicas como o “comedor de pecados”, onde a culpa é transferida a um corpo para que a ordem se preserve.
No plano psíquico, o xerife e a executiva podem ser lidos como núcleos introjetados em Dot: o masculino punitivo que reivindica posse e o polo hiperfuncional que sobrevive por dissociação. O horror máximo emerge quando a violência deixa de perseguir e passa a usurpar o lugar do sujeito, quando o agressor tenta falar desde a posição da vítima, atacando a fronteira do Eu.
A cegueira de Gator sela essa lógica: não falta visão, falta reconhecimento. É a ignorância escolhida que o torna inapto e mantém o patriarcado operando por repetição. Fargo mostra que essa violência não quer apenas controlar o outro, quer ocupá-lo.
Fargo foi uma série interessante, muito legal o raciocínio.
Nove Desconhecidos (2ª Temporada)
2.7 18“Nine Perfect Strangers” funciona muito bem quando a gente acompanha tudo pelo olhar das dinâmicas psicológicas entre os personagens, como se cada um se relacionasse com Masha a partir de um ponto cego próprio. No caso de David Sharpe, o único vínculo possível com a personagem da Nicole Kidman é aquele que preserva o narcisismo dele: ele a mantém congelada na lembrança de uma mulher intrigante que conheceu em Praga.
Essa fixação impede que algo novo entre no seu self. Ele evita a vulnerabilidade, teme perder o controle e se refugia na versão “charmosa e inofensiva” dessa memória. Assim, se distancia não só de Masha real, mas também do próprio filho... Ele não acessa as próprias emoções porque teme descobrir a própria insuficiência. Talvez por isso transforme sua relação com Masha numa tonalidade erotizada: o erotismo ali cria afastamento, funciona como defesa. É mais seguro sexualizar do que encontrar uma pessoa de verdade. O encontro rápido de Praga vira seu lugar “turístico”: idealizado, controlável, distante.
E a continuidade da história da "dinâmica psicológica" dele se dá logo depois de uma experiência persecutória, como se estivesse sido exposto por Masha em um momento de fragilidade. Após esse choque, ele se agarra ainda mais à fantasia de Praga, de algum modo terá que forçar esse "casamento" justamente para não encarar aquilo que o desorganiza.
True Detective: Terra Noturna (4ª Temporada)
3.4 273 Assista Agora❤️
The Beatles: Get Back
4.7 119Legal o entrosamento e o humor entre eles. Curti muito 😃
Missa da Meia-Noite
3.9 757Não curti o último episódio. A cena da personagem fazendo discurso sobre o universo foi bem chata, cosmos e átomos numa história de vampiros... Bem fora. Alguns diálogos da série são bem arrastados para esse tipo de proposta. O filme de zumbi do Jim Jarmusch pontua mais que essa série.
Vinyl (1ª Temporada)
4.1 146Muito boa, muito longa também.
Servant (2ª Temporada)
3.5 99A série poderia ter terminado na primeira temporada. Foi bastante criativa a primeira temporada.