“Não sei o que você ouviu sobre mim, mas vadia nenhuma tira dinheiro de mim. Sem Cadillac, sem permanente, você não pode ver que eu sou um filho da puta...” (50 CENT, 2003)
Anatomia de uma queda conta a história do julgamento de Sandra Voyter, suspeita de assassinar o marido, Samuel Maleski, após uma discussão do casal aparecer como uma gravação durante o julgamento. Sandra e Samuel são retratados como escritores e pais de uma criança de 11 anos, Daniel, portadora de deficiência visual que acabou desenvolvendo essa condição após um acidente, cujo o pai se sentia culpado. A trama se desenvolve a partir do julgamento de Sandra e das hipóteses levantadas pela acusação, mas o ápice do enredo se dá em torno de Daniel e em como ele lida com seus sentimentos acerca dos pais. A diretora tem uma intenção clara em nos fazer enxergar Sandra como a culpada pela morte do marido, seja pelas tomadas no rosto de descontentamento da atriz ou pelo extremo desconforto que a música alta causa no início do filme que se arrasta até a retirada do corpo da neve.
Com o desenrolar do julgamento e exposição de novas fontes, percebemos o quanto o relacionamento dos dois era abusivo, de ambos os lados, mas Samuel acabou desenvolvendo uma forte depressão, tanto pela relação conturbada com a esposa, quanto por se sentir culpado pela tragédia que cegou o filho.
O filme faz a gente refletir em como a mulher carrega o peso de uma “culpa”, mesmo sendo inocente, com um promotor (muito passivo agressivo inclusive aquele carequinha) que tenta a todo custo induzir ela a assumir uma culpa de um crime que não cometeu. Matando o marido ou levando-o a cometer suicídio, independente, a promotoria tenta alegar que a culpa é dela, seja não cumprindo o papel social de mulher cuidando da casa e do filho, seja tento uma orientação sexual que provoque os valores pré-estabelecidos, seja uma posição de não submissão no lar ou ainda, simplesmente sendo melhor sucedida profissionalmente do que o marido. A reflexão que tiro da obra é a maneira como o sexismo norteou o julgamento. Vale mencionar a atuação fantástica de Sandra e Milo.
A infância traz símbolos de pureza. Talvez os gestos mais sublimes que um ser humano pode sentir esteja atrelado ao tempo em que somos crianças. Contudo, esse também é um período de total falta de autonomia. A escolha não pertence à criança, também não pertence ao jovem.... Será que quando adulto temos escolhas? Será que sabemos escolher? Makoto Shinkai explora na sua arte o sentimento puro que provamos na infância, através de símbolos sublimes ele tenta fazer o espectador lembrar de sua própria vida e até mesmo refletir onde alguns caminhos se separaram e o porquê. Na cultura japonesa a flor de cerejeira tem significados relacionados à felicidade e esperança (felicidade de estar com Akari; esperança de sempre estar com Takaki) e a frustração da não realização das expectativas transforma esse símbolo em um misto de saudosismo e (auto) ressentimento. Nietzsche dizia que a “moral de escravos” (adquirida, entre outros fatores, pela incapacidade de esquecer) gera ressentimento e esse nos transforma em seres vazios, que não percebe a vida e a realidade fluindo em cada canto. Takaki não era capaz de enxergar a vida brilhando.
O filme deixa a entender que a liberdade de Takaki estava no carinho que Sumida Kanae o oferecia, mas ele, incapaz de esquecer a utopia criada, ignorava. Sumida não o amava menos. Interessante observar isso pelos símbolos de Shinkai, a flor de cerejeira que cai, uma lembrança delicada, o foguete que ascende, símbolo de uma viagem rumo ao desconhecido, ao inexplorado, ao novo, mas ao mesmo tempo grande. O que a flor de cerejeira é para Takaki, a viagem de um foguete é para Sumida. Memórias de amor e dedicação, mutuamente ignoradas. Takaki busca seu amor perdido em cada canto que seus olhos se fixam. Takaki enxerga Akari em cada esquina, mesmo que ela nunca esteja ali. Ali está Sumida, tentando construir um sorriso, um mundo novo. A obra deixa um espaço em branco para ser preenchido por nós. A sensação que em mim fica é de um vazio, um vazio entre Sumida e Takaki que poderia ser preenchido por um estender de mãos e ali, por uma vida inteira, residiria a felicidade, não em memórias, mas em realidade.
"Casa de Areia e Névoa" é um drama sem culpados. Chega a ser estranho definir como drama um título que retrata o cotidiano de maneira tão explícita. Não falo aqui da questão judicial, que o roteiro demonstra ser legítima de ambas as partes, mas sim dos pequenos pesos que recaem sobre o corpo e a mente humana. A família, a solidão, os vícios. Para responder a esses termos há escolhas... e aqui esta a chave da obra "escolhas".
A má relação entre uma família não basta para causar melancolia, nossa saudosa família nuclear já foi pro saco. Uma bela jovem se casar triste, em dúvida, também não é nenhuma novidade, hollywood, literatura, vida, isso acontece o tempo todo. Então, se a primeira parte da obra quer causar sentimento, melancolia claro, como alcançá-la? Quebrando padrões. E o primeiro é quebrado na cena em que Dunst trai o marido na noite de núpcias, acredito que essa cena incomodou 99% dos expectadores. Outra quebra de padrão é o fato da traição vir delA. Ok, sem machismo, mas seria muito mais "natural" pros padrões um homem canalha, não em melancolia ;). Demissão no dia da promoção em uma carreira de sucesso não incomoda tanto, por enquanto, mas em suma o cenário de melancolia está embasado, abrindo espaço pra segunda parte que é mais um desfecho, um enredo a ser seguido (isso ainda é cinema horas).
O que posso dizer é que estamos habituados com dois tipos de tramas, as que reforçam os padrões (estilo auto-ajuda - vai, você pode, você consegue), e as que quebram os padrões (foda-se tudo). Melancolia não segue nenhum dos dois, pois ao mesmo tempo que nega a estrutura social também afirma que não adianta negá-las, apenas espere o que é comum a tudo e todos, o fim.
Acho que é isso, agora vou ver se trombo a Dunst por ai, vai que.... né?
É difícil encontrar comentários relevantes que possa nos levar a uma reflexão sobre uma obra. Ou, parafraseando o longa, é foda. Principalmente se o filme for do cinema nacional, é incrível como brasileiros tem vergonha e uma certa rejeição ao cinema nacional. Mas são filmes como esse que valem a pena no nosso cinema.
O cinema tem seus padrões, não regras, que variam de acordo com o tempo, já passamos pela fase dos finais felizes e agora vive-se o clichê das tragédias. Isso me preocupa porque de um tempo pra cá já se tornou previsível, contudo "Nossa Vida Não Cabe Num Opala" (2009) me fez sorrir para os desfechos trágicos. O que somos? Somos a luta diária com nossos próprios desejos e sonhos (Magali) que inegavelmente sempre nos surtam por falharmos na luta. Somos a vontade de se acomodar (Lupa) e aproveitar o mundo, quem não é? Somos a vontade de seguir os ídolos (Slide) por mais que esses ídolos estejam mais distantes que o conhecimento que temos de nós mesmos. Essas máscaras que insistem em não se encaixar no rosto, fazendo-o distorcer para se enquadrar ao seu ideal. E claro, somos a nostalgia daquilo que não fizemos, deixamos passar, o arrependimento (Munk) e é esse que prevalece sobre cada um e derruba todos os outros na pancadaria diária.
Se olhar com atenção, os diálogos, a trilha, até mesmo a Silvia (porque não?) faz pensar que por mais que planejamos, compactamos, selecionamos para ter a pleno controle, nunca, nossa vida caberá num opala.... Porque ela vagueia na ira de deus, num disco de jazz... chutando e beijando o diabo no meio da sala... Não, nossa vida não cabe num opala.
Anatomia de uma Queda
4.0 993 Assista Agora“Não sei o que você ouviu sobre mim, mas vadia nenhuma tira dinheiro de mim. Sem Cadillac, sem permanente, você não pode ver que eu sou um filho da puta...”
(50 CENT, 2003)
Anatomia de uma queda conta a história do julgamento de Sandra Voyter, suspeita de assassinar o marido, Samuel Maleski, após uma discussão do casal aparecer como uma gravação durante o julgamento.
Sandra e Samuel são retratados como escritores e pais de uma criança de 11 anos, Daniel, portadora de deficiência visual que acabou desenvolvendo essa condição após um acidente, cujo o pai se sentia culpado.
A trama se desenvolve a partir do julgamento de Sandra e das hipóteses levantadas pela acusação, mas o ápice do enredo se dá em torno de Daniel e em como ele lida com seus sentimentos acerca dos pais.
A diretora tem uma intenção clara em nos fazer enxergar Sandra como a culpada pela morte do marido, seja pelas tomadas no rosto de descontentamento da atriz ou pelo extremo desconforto que a música alta causa no início do filme que se arrasta até a retirada do corpo da neve.
Com o desenrolar do julgamento e exposição de novas fontes, percebemos o quanto o relacionamento dos dois era abusivo, de ambos os lados, mas Samuel acabou desenvolvendo uma forte depressão, tanto pela relação conturbada com a esposa, quanto por se sentir culpado pela tragédia que cegou o filho.
O filme faz a gente refletir em como a mulher carrega o peso de uma “culpa”, mesmo sendo inocente, com um promotor (muito passivo agressivo inclusive aquele carequinha) que tenta a todo custo induzir ela a assumir uma culpa de um crime que não cometeu. Matando o marido ou levando-o a cometer suicídio, independente, a promotoria tenta alegar que a culpa é dela, seja não cumprindo o papel social de mulher cuidando da casa e do filho, seja tento uma orientação sexual que provoque os valores pré-estabelecidos, seja uma posição de não submissão no lar ou ainda, simplesmente sendo melhor sucedida profissionalmente do que o marido.
A reflexão que tiro da obra é a maneira como o sexismo norteou o julgamento.
Vale mencionar a atuação fantástica de Sandra e Milo.
A Vastidão da Noite
3.5 587Assisti com uma amiga que estava em pânico... A experiência acabou sendo 10 x melhor :)))))
Mas falando sério, o filme é ótimo. Com baixo investimento e bons relatos o diretor conseguiu construir uma narrativa bem legal.
5 Centímetros por Segundo
3.9 3865 Centímetros por Segundo
A infância traz símbolos de pureza. Talvez os gestos mais sublimes que um ser humano pode sentir esteja atrelado ao tempo em que somos crianças. Contudo, esse também é um período de total falta de autonomia. A escolha não pertence à criança, também não pertence ao jovem.... Será que quando adulto temos escolhas? Será que sabemos escolher?
Makoto Shinkai explora na sua arte o sentimento puro que provamos na infância, através de símbolos sublimes ele tenta fazer o espectador lembrar de sua própria vida e até mesmo refletir onde alguns caminhos se separaram e o porquê.
Na cultura japonesa a flor de cerejeira tem significados relacionados à felicidade e esperança (felicidade de estar com Akari; esperança de sempre estar com Takaki) e a frustração da não realização das expectativas transforma esse símbolo em um misto de saudosismo e (auto) ressentimento.
Nietzsche dizia que a “moral de escravos” (adquirida, entre outros fatores, pela incapacidade de esquecer) gera ressentimento e esse nos transforma em seres vazios, que não percebe a vida e a realidade fluindo em cada canto. Takaki não era capaz de enxergar a vida brilhando.
O filme deixa a entender que a liberdade de Takaki estava no carinho que Sumida Kanae o oferecia, mas ele, incapaz de esquecer a utopia criada, ignorava.
Sumida não o amava menos. Interessante observar isso pelos símbolos de Shinkai, a flor de cerejeira que cai, uma lembrança delicada, o foguete que ascende, símbolo de uma viagem rumo ao desconhecido, ao inexplorado, ao novo, mas ao mesmo tempo grande. O que a flor de cerejeira é para Takaki, a viagem de um foguete é para Sumida. Memórias de amor e dedicação, mutuamente ignoradas.
Takaki busca seu amor perdido em cada canto que seus olhos se fixam. Takaki enxerga Akari em cada esquina, mesmo que ela nunca esteja ali. Ali está Sumida, tentando construir um sorriso, um mundo novo.
A obra deixa um espaço em branco para ser preenchido por nós. A sensação que em mim fica é de um vazio, um vazio entre Sumida e Takaki que poderia ser preenchido por um estender de mãos e ali, por uma vida inteira, residiria a felicidade, não em memórias, mas em realidade.
Casa de Areia e Névoa
3.9 312"Casa de Areia e Névoa" é um drama sem culpados. Chega a ser estranho definir como drama um título que retrata o cotidiano de maneira tão explícita.
Não falo aqui da questão judicial, que o roteiro demonstra ser legítima de ambas as partes, mas sim dos pequenos pesos que recaem sobre o corpo e a mente humana.
A família, a solidão, os vícios. Para responder a esses termos há escolhas... e aqui esta a chave da obra "escolhas".
Melancolia
3.8 3,1K Assista AgoraEnxergo esse filme como uma explicitação de quebra de padrões, e para alcançar esse objetivo Trier teve de usar seus artifícios.
A má relação entre uma família não basta para causar melancolia, nossa saudosa família nuclear já foi pro saco. Uma bela jovem se casar triste, em dúvida, também não é nenhuma novidade, hollywood, literatura, vida, isso acontece o tempo todo. Então, se a primeira parte da obra quer causar sentimento, melancolia claro, como alcançá-la? Quebrando padrões. E o primeiro é quebrado na cena em que Dunst trai o marido na noite de núpcias, acredito que essa cena incomodou 99% dos expectadores. Outra quebra de padrão é o fato da traição vir delA. Ok, sem machismo, mas seria muito mais "natural" pros padrões um homem canalha, não em melancolia ;). Demissão no dia da promoção em uma carreira de sucesso não incomoda tanto, por enquanto, mas em suma o cenário de melancolia está embasado, abrindo espaço pra segunda parte que é mais um desfecho, um enredo a ser seguido (isso ainda é cinema horas).
O que posso dizer é que estamos habituados com dois tipos de tramas, as que reforçam os padrões (estilo auto-ajuda - vai, você pode, você consegue), e as que quebram os padrões (foda-se tudo). Melancolia não segue nenhum dos dois, pois ao mesmo tempo que nega a estrutura social também afirma que não adianta negá-las, apenas espere o que é comum a tudo e todos, o fim.
Acho que é isso, agora vou ver se trombo a Dunst por ai, vai que.... né?
Nossa Vida Não Cabe Num Opala
3.1 51 Assista AgoraÉ difícil encontrar comentários relevantes que possa nos levar a uma reflexão sobre uma obra. Ou, parafraseando o longa, é foda. Principalmente se o filme for do cinema nacional, é incrível como brasileiros tem vergonha e uma certa rejeição ao cinema nacional. Mas são filmes como esse que valem a pena no nosso cinema.
O cinema tem seus padrões, não regras, que variam de acordo com o tempo, já passamos pela fase dos finais felizes e agora vive-se o clichê das tragédias. Isso me preocupa porque de um tempo pra cá já se tornou previsível, contudo "Nossa Vida Não Cabe Num Opala" (2009) me fez sorrir para os desfechos trágicos. O que somos? Somos a luta diária com nossos próprios desejos e sonhos (Magali) que inegavelmente sempre nos surtam por falharmos na luta. Somos a vontade de se acomodar (Lupa) e aproveitar o mundo, quem não é? Somos a vontade de seguir os ídolos (Slide) por mais que esses ídolos estejam mais distantes que o conhecimento que temos de nós mesmos. Essas máscaras que insistem em não se encaixar no rosto, fazendo-o distorcer para se enquadrar ao seu ideal. E claro, somos a nostalgia daquilo que não fizemos, deixamos passar, o arrependimento (Munk) e é esse que prevalece sobre cada um e derruba todos os outros na pancadaria diária.
Se olhar com atenção, os diálogos, a trilha, até mesmo a Silvia (porque não?) faz pensar que por mais que planejamos, compactamos, selecionamos para ter a pleno controle, nunca, nossa vida caberá num opala.... Porque ela vagueia na ira de deus, num disco de jazz... chutando e beijando o diabo no meio da sala... Não, nossa vida não cabe num opala.