Este era um dos filmes que mais aguardava para assistir no cinema este ano. Esperei para vê-lo na telona, pois queria ter a melhor experiência possível (mesmo com o arquivo em altíssima qualidade disponível por aí). Considero o conto-base uma das melhores obras contemporâneas de Stephen King, que alcança (pra mim) um casamento magistral entre forma e conteúdo. Ao mesmo tempo, acreditava ser inadaptável para outra mídia, mas depositei minha confiança em Flanagan devido às suas outras adaptações bem-sucedidas de obras consideradas "inadaptáveis": Jogo Perigo (2017) sendo o melhor exemplo. Meu principal problema com o filme reside no ato final (ou ato 1) e na forma como a narrativa restringe de maneira (quase) pedagógica as múltiplas leituras que a história oferece – quase exigindo que todos os elementos acompanhados no primeiro ato (ou ato 3) tenham (obrigatoriamente) algum lastro na realidade do protagonista. Essa abordagem reduz a ambiguidade que torna o conto tão poderoso pra mim. Ainda assim, reconheço que Flanagan é um realizador de mão cheia no melodrama e na construção de relações familiares. A maneira como ele incorpora o elemento fantástico (a partir do cômodo trancado) é tão elegante que quase nos faz acreditar que a realidade funciona dessa exata forma. Contudo, os discursos moralizantes colocados na boca do protagonista, especialmente na sequência final, materializam o que mais me incomoda no roteiro. Essa abordagem chega a ser quase o oposto da figura do narrador, que o diretor constrói tão bem, com seu tom mais leve e livre do didatismo otimista. Apesar dessas ressalvas, prefiro mil vezes filmes que fujam do cinismo contemporâneo. Ainda mais quando produzidos por um realizador tão competente quanto Flanagan.
É um filme que não permite que o espectador sinta o impacto de nada que acontece, né? Eu, que não tinha visto nenhum spoiler (nem sei se seria o termo correto nesse caso), ao menos consegui me "surpreender" com a aparição de alguns personagens (um certo caçador em específico fez eu realmente querer saber detalhes sobre os bastidores). No fim, nada importa. Nem a homenagem a fase cinematográfica da Marvel-Fox durante os créditos. Acho uma pena, porque o Shawn Levy é um diretor de seriados muitíssimo competente, mas que não tem a mesma sorte em sua carreira cinematográfica mais recente. Todos seus filmes parecem faltar estofo, humanidade - O Projeto Adam (2022) quase conseguiu, mas ainda assim se perde em sua própria bagunça. Contudo, indico demais alguns episódios dirigidos por ele: dois episódios do seriado Sinistro, o Piloto e Sacrifice; a dobradinha The Leader - Partes 1 e 2 de Animorphs; e todos os episódios que ele dirigiu para Stranger Things (sempre os melhores ao meu ver) em especial The Pollywog e Will the Wise, os dois da segunda temporada.
Uma das coisas mais alucinantes que esse filme alcança ocorre na mudança de perspectiva de Casey para JLB. Existe uma vida separada por telas, é verdade. O ano de lançamento (e provável ano de produção) pode nos informar algo sobre isso. Contudo, é na transição do ponto de vista da protagonista para o seu voyeur que até o gênero do filme sofre uma metamorfose: do drama intimista para o horror. Nós nos tornamos companhia do JLB, também como voyeurs, e passamos a acompanhar a Casey pelo olhar do jogo, distanciado. Para uns o final ambíguo pode se tornar confuso por conta disso, mas uma das chaves de análise é que, uma vez com o JLB, acompanhamos o homem até o final. O final da Casey, fora do jogo, pode ser bem mais triste e previsível.
Não podemos deixar de parabenizar a condução de Oz Perkins dessa obra. Esse híbrido entre thriller investigativo e horror sobrenatural deve muito a maneira como Perkins utiliza o enquadramento, proporção, os pontos focais, e o que há dentro e fora de quadro na construção da sua atmosfera insólita. O 4:3 para as reminiscências, destaque para a incômoda sequência inicial, vai gradualmente se aderindo a narrativa. O personagem de Nicolas Cage se beneficia do lento revelar. Contudo, algo não bateu bem para mim, principalmente em relação ao terceiro ato. Estou fazendo uma maratona literária do Stephen King e minha mente acabou realizando o paralelo entre 1) Lee Harker/Holly Gibney e 2) desfechos. Essa relação investigação policial/sobrenatural sempre me anima - e temos variados exemplo em narrativas fantásticas. Holly Gibney (personagem do King) e Lee Harker (protagonista de Perkins) guardam algumas semelhanças como, por exemplo, o relativo grau de clarividência que ajudam em suas investigações e sua inaptidão social. Suas histórias também vão gradualmente do rotineiro para o extraordinário. As maiores críticas das obras de King são relacionadas a maneira como encerra as suas histórias, geralmente de maneira apoteótica e sem condizer com o resto da narrativa - o que, geralmente, sou obrigado a concordar. Em Longlegs, o terceiro ato é destinado a estreitar a relação mãe e filha (o vínculo mortal do subtítulo brasileiro) e a revelar quase a totalidade de qualquer ambiguidade que pudesse ter restado em relação ao sobrenatural. Me incomodou toda essa construção do fantástico para uma conclusão anticlimática (a meu ver) - quase um corte lacaniano em todo o diabólico construído até a sequência final. Fiquei esperando algo mais.
(interessante demais perceber que o mesmo álbum, Electric Warrior, inspirou obras tão distintas como Longlegs e Billy Elliot)
1. Nos escritos sobre a sua exposição Pink Opaque¹, David Daigle propõe uma historiografia para a cor rosa antes de ser tida como um tom feminino pelo senso comum - passando pela década de 1940 onde era uma cor mais relacionada aos meninos, até a ressignificação de um símbolo nazista pela comunidade queer. O mais importante do ensaio é salientando quando Daigle aponta que rosa "também é a cor da nossa carne crua, dos nossos tecidos, dos nossos órgãos". Pink Opaque poderia ser, então, o nosso interior.
2. Em 1986, a banda Cocteau Twins lança uma coletânea chamada The Pink Opaque. Em uma entrevista², Jane Schoenbrun, diretora de I Saw the TV Glow, revela que o seriado fictício dentro da narrativa ganhou o nome por conta da coletânea. A primeira canção do álbum é The Spangle Maker, onde ouvimos: "He's that droplet on my truth, He is that spangle maker (...) Oh, for that's awful that worked it shattering heads. She is his spangle baby and the rest made sure it's the droplet".
3. Em dado momento vemos uma televisão quebrada e em chamas. Ela está em um lugar aberto. Há uma clara ruptura a partir desse momento. Não apenas um salto temporal, mas todos os elementos importantes para o protagonistas se transformam: sua mãe morre, sua melhor amiga desaparece e a sua série favorita é cancelada. Esse seria o final paradigmático de uma narrativa de amadurecimento (coming of age). Lembro-me do monólogo final de Conta Comigo (1986) de Rob Reiner: “Nunca tive amigos como aqueles que tive aos 12 anos. Jesus, mas quem tivera?!”. Nostalgia é tudo.
4. Todo o filme é narrado pelo ponto de vista do protagonista que vez ou outra interrompe o fluxo da história para se dirigir a gente, os espectadores. Owen é um narrador não confiável. E isso é fundamental para que fiquemos tão impactados quanto ele no reencontro com sua amiga Maddy no bar. O lugar, Double Lunch, é citado por Maddy no começo do filme como um lugar fundamental para as protagonistas de Pink Opaque. Isso já nos dá uma dica. A decepção ao assistirmos (de fato) a um episódio do seriado pelo streaming junto com Owen também advém disso. Tudo é nostalgia.
5. O amadurecimento de um indivíduo queer é difícil. E não por conta das figuras de autoridade caricatas que geralmente vemos nesse tipo de filme. Não me entenda mal: elas existem e a maioria de seus atos são tipificados como crimes. Contudo, os pais de Owen (protetivos ao extremo e distantes) contribuem para a árdua batalha que o protagonista precisa enfrentar para descobrir quem realmente é. E nenhuma Pink Opaque ou, no meu caso, Goosebumps, So Weird e O Colégio do Buraco Negro, tratam sobre essa dificuldade para os não-heteronormativos. Pega pesado nas crianças viadas da década de 1990 ou começo dos anos 2000. Como lidarmos com as questões de gênero e/ou sexualidade em nossa formação? Owen recalcou.
Existiam duas Nara Normande para mim: a diretora de animações que tratavam sobre uma vivência bucólica de amizades intensas à beira-mar como em obras como Guaxuma (2018), assim como em produções para oficinas como Garota Bagre (2015) e Corais da costa (2016); e a diretora de narrativas trágicas de uma dureza áspera como em suas primeiras criações: Dia Estrelado (2011) e Sem Coração (2014), o curta-metragem. Fiquei positivamente admirado ao perceber que essa minha imagem mental dupla se revelou como sendo una nesse longa-metragem, dirigido em parceria com Tião, assim como o curta de origem. Sem Coração (2023) vem como um acalanto para um sentimento em mim decorrente do longo período de isolamento ainda recente em nossas memórias, somado a uma política cultura quase nula, e que resultou em uma escassez de imagens de afetos físicos em tela. A importância do encontro de corpos se prova na obra tanto no momento em que Tamara, a protagonista, pede para a mãe um carinho nas costas, quanto em outro, mais a frente, em que os toques entre dois personagens são apontados como os causadores de um conflito em uma festa. O contato se mostra presente em suas mais diversas facetas, positivas e negativas, desde surras de cinto e um soco na cara até a masturbação. As bem demarcadas sequências com músicas me lembraram do conceito de "momentos musicais" da Amy Herzog (2010). Para a autora, certas trilhas sonoras se recusam a permanecer “domesticadas” pela imagem e alçam uma presença dramática nas produções. Em uma sequência de Sem Coração, acompanhamos um diálogo entre mãe e filha sobre mudanças, físicas e emocionais, ao som de Iansã de Maria Bethânia (rainha dos raios; tempo bom, tempo ruim!). Em outro momento, a conversa sobre uma viagem e sobre paixão é embalada ao som de Please Don't Go. Em ambas as ocasiões, eu senti. A maneira com que localizam a história temporalmente no verão de 1996 possibilita também o desenvolvimento de elementos bastante interessantes. O primeiro é a maneira com que o espaço onde a história se desenrola, região litorânea de Alagoas, é congelado no tempo. No princípio, acompanhar os personagens adolescentes assistindo a uma obra do Ivan Cardoso em uma televisão antiga (estou sendo generoso) ou escolhendo obras pornográficas dentre um amontoado de VHS pode causar certo estranhamento. Contudo, mais do que pontuar o roteiro como resultado de reminiscência dos seus realizadores, a década de 1990 agrega um outro ritmo à narrativa, uma outra forma de apreensão do que nos é apresentado. Por conta disso, por exemplo, o agrupamento de moradores na praça para acompanhar a televisão noticiando o assassinato de PC Farias ou a maneira mais liberal (alguns podem entender até como relapsa) que os responsáveis cuidam dos seus filhos, é justificada de certa maneira. Esse arrebatamento temporal também é responsável por construir momentos encantadores como quando duas personagens, dividindo uma bicicleta na chuva, protegem-se com uma grande folha de bananeira — sequência próxima ao arrebatamento causado por alguns trechos animados pelo Studio Ghibli. Outro elemento interessante é a maneira com que ecos da Ditadura Militar podem ser identificados: o caso de um anel com os dizeres “Doei ouro para o bem do brasil - 1964” — servindo como chave de análise para um misterioso crime ao fim da trama, ou uma ponte com o cenário político contemporâneo. O que mais me agradou em Sem Coração foi perceber que é uma narrativa de amadurecimento onde os seus personagens não relutam em amadurecer como é costumeiro. Existe determinado grau de apreensão, é verdade: a protagonista se aflige por ter que se mudar para Brasília e deixar os seus amigos e cidade natal para trás, dois garotos temem pelo que pode acontecer com eles ao andar como casal na rua etc. Contudo, o medo nunca os impede de viverem e se descobrirem. Eu classificaria Sem Coração não como uma narrativa de amadurecimento, mas, sim, uma narrativa de descobrimento.
Fazia tempo que não acompanhava uma obra errar em tantas aspectos. Um filme de classificação R, originalmente, que finge ser PG-13 para se escorar em escolhas genéricas e covardes. Direção desestimulada, atuações cansadas e um roteiro risível. Impressionante!
Um dos precursores em relação a iconoclastia da década de 1990 da juventude direcionada ao "american way of life". Achei uma maravilhosa surpresa! Um dos road movies mais divertidos que já assisti.
Possum (2018) de Matthew Holness é um passeio de montanha-russa por uma mente traumatizada. Melhor: ele é, antes de tudo, uma experiência estética que opta por contar a maior parte de sua história através de imagens (e não por uma narrativa propriamente dita). Eu sou uma pessoa que embarca muito mais em uma produção quando possui uma estrutura narrativa, confesso. Por isso sempre fico muito feliz quando surgem obras outras que conseguem me fisgar mesmo indo de encontro a tudo que eu espero e gosto. Possum, na verdade, sabe muito bem como representar os traumas do passado do protagonista. No caminho oposto de produções medonhas como A Casa dos Sonhos (2011) ou, cruzes!, Número 23 (2007) que se utilizam dos acontecimentos marcantes do passado de seus protagonistas como twists narrativos, a produção vai revelando sem revelar, mostrando sem mostrar e nos fazendo entrar de cabeça na psiquê do personagem principal tal qual Spider - Desafie sua Mente (2002). Holness consegue realizar imagens cheias de significado e, por mais que a sequência final pareça completamente apressada, presenteia o espectador com uma experiência diferente de quase tudo que se assiste por aí atualmente.
Eu perdoo a sequência final, porque, por mais apressada que pareça, quebra a trope de que pessoas abusadas se tornam abusadores. Acho importantíssimas essas desconstruções de esteriótipos. Ainda mais de um tão nocivo para as vítimas desse tipo de crime.
I hated this movie. Hated hated hated hated hated this movie. Hated it. Hated every simpering stupid vacant audience-insulting moment of it. Hated the sensibility that thought anyone would like it. Hated the implied insult to the audience by its belief that anyone would be entertained by it.
eu não sei o que escrever sobre isso aqui que acabei de assistir. pela classificação de gêneros cinematográficos, ele seria um documentário. contudo, a primeira vista, 'Braguino' (2017) é tão documentário quanto 'Nanook, o Esquimó' (1922). o que mais me assombra é que, por mais que toda a beleza estética clame por uma encenação e pela repetição de takes, a autenticidade dos "personagens" documentados exige uma naturalidade somente alcançada pela não-ficção. essa é a primeira obra que vejo do Clément Cogitore e, pra mim, parece que o diretor é o filho que o Eduardo Coutinho teria com o Andrei Tarkovski depois de um caso com o Kieślowski. tô realmente impacto com a forma brilhante com que a tensão é construída pouco a pouco. a crueza dos registros é chocante — acompanhamos um urso ser abatido e metodicamente desmembrado em frente as câmeras. acho que nunca assisti a um registro tão real e único. talvez o que mais se aproxime é 'High School' (1968) do Wiseman e, mesmo assim, ele é registrado em um ambiente "controlado" (e muito do brilho do Wiseman reside na forma com que ele escancara esse controle institucional da escola); coisa que o Cogitore não teve a sua disposição.
a pergunta que fica ao final é: se nada é controlado, como pode esse viajingle fazer registros TÃO BONITOS MEU DEUS?
A dualidade é a coisa que mais chama atenção durante o filme — efeitos práticos vs. efeitos digitais, por exemplo. O gore surgindo no cenário higienizado dos subúrbios ricos americanos é uma sacada ótima. Sem contar que a direção do Sam Raimi se prova acertadíssima em várias sequências.
Assustadoramente real; delicadamente melancólico; morbidamente direto; além de servir como um registro do final dos anos 1990 e começo dos 2000 no Brasil.
Sério. Todo mundo tem que ver esse filme, pelo amor de deus. Um baita documentário brasileiro que consegue só te dar soco na cara, e mesmo assim ser uma das coisas mais singelas que eu já vi.
Uma espécie de irmã-temática de 'Mistérios da Carne' (2004), onde as reminiscências do passado são postas a prova em um embate imagético entre o que é lembrado e o que realmente aconteceu. Jennifer Fox consegue fazer você entrar de cabeça na psique da protagonista.
A Vida de Chuck
3.7 110 Assista AgoraEste era um dos filmes que mais aguardava para assistir no cinema este ano. Esperei para vê-lo na telona, pois queria ter a melhor experiência possível (mesmo com o arquivo em altíssima qualidade disponível por aí). Considero o conto-base uma das melhores obras contemporâneas de Stephen King, que alcança (pra mim) um casamento magistral entre forma e conteúdo. Ao mesmo tempo, acreditava ser inadaptável para outra mídia, mas depositei minha confiança em Flanagan devido às suas outras adaptações bem-sucedidas de obras consideradas "inadaptáveis": Jogo Perigo (2017) sendo o melhor exemplo.
Meu principal problema com o filme reside no ato final (ou ato 1) e na forma como a narrativa restringe de maneira (quase) pedagógica as múltiplas leituras que a história oferece – quase exigindo que todos os elementos acompanhados no primeiro ato (ou ato 3) tenham (obrigatoriamente) algum lastro na realidade do protagonista. Essa abordagem reduz a ambiguidade que torna o conto tão poderoso pra mim.
Ainda assim, reconheço que Flanagan é um realizador de mão cheia no melodrama e na construção de relações familiares. A maneira como ele incorpora o elemento fantástico (a partir do cômodo trancado) é tão elegante que quase nos faz acreditar que a realidade funciona dessa exata forma. Contudo, os discursos moralizantes colocados na boca do protagonista, especialmente na sequência final, materializam o que mais me incomoda no roteiro. Essa abordagem chega a ser quase o oposto da figura do narrador, que o diretor constrói tão bem, com seu tom mais leve e livre do didatismo otimista. Apesar dessas ressalvas, prefiro mil vezes filmes que fujam do cinismo contemporâneo. Ainda mais quando produzidos por um realizador tão competente quanto Flanagan.
Deadpool & Wolverine
3.7 923 Assista AgoraÉ um filme que não permite que o espectador sinta o impacto de nada que acontece, né? Eu, que não tinha visto nenhum spoiler (nem sei se seria o termo correto nesse caso), ao menos consegui me "surpreender" com a aparição de alguns personagens (um certo caçador em específico fez eu realmente querer saber detalhes sobre os bastidores). No fim, nada importa. Nem a homenagem a fase cinematográfica da Marvel-Fox durante os créditos.
Acho uma pena, porque o Shawn Levy é um diretor de seriados muitíssimo competente, mas que não tem a mesma sorte em sua carreira cinematográfica mais recente. Todos seus filmes parecem faltar estofo, humanidade - O Projeto Adam (2022) quase conseguiu, mas ainda assim se perde em sua própria bagunça. Contudo, indico demais alguns episódios dirigidos por ele: dois episódios do seriado Sinistro, o Piloto e Sacrifice; a dobradinha The Leader - Partes 1 e 2 de Animorphs; e todos os episódios que ele dirigiu para Stranger Things (sempre os melhores ao meu ver) em especial The Pollywog e Will the Wise, os dois da segunda temporada.
We're All Going to the World's Fair
2.8 21 Assista AgoraUma das coisas mais alucinantes que esse filme alcança ocorre na mudança de perspectiva de Casey para JLB. Existe uma vida separada por telas, é verdade. O ano de lançamento (e provável ano de produção) pode nos informar algo sobre isso. Contudo, é na transição do ponto de vista da protagonista para o seu voyeur que até o gênero do filme sofre uma metamorfose: do drama intimista para o horror. Nós nos tornamos companhia do JLB, também como voyeurs, e passamos a acompanhar a Casey pelo olhar do jogo, distanciado. Para uns o final ambíguo pode se tornar confuso por conta disso, mas uma das chaves de análise é que, uma vez com o JLB, acompanhamos o homem até o final. O final da Casey, fora do jogo, pode ser bem mais triste e previsível.
Longlegs: Vínculo Mortal
3.2 937 Assista AgoraNão podemos deixar de parabenizar a condução de Oz Perkins dessa obra. Esse híbrido entre thriller investigativo e horror sobrenatural deve muito a maneira como Perkins utiliza o enquadramento, proporção, os pontos focais, e o que há dentro e fora de quadro na construção da sua atmosfera insólita. O 4:3 para as reminiscências, destaque para a incômoda sequência inicial, vai gradualmente se aderindo a narrativa. O personagem de Nicolas Cage se beneficia do lento revelar.
Contudo, algo não bateu bem para mim, principalmente em relação ao terceiro ato. Estou fazendo uma maratona literária do Stephen King e minha mente acabou realizando o paralelo entre 1) Lee Harker/Holly Gibney e 2) desfechos. Essa relação investigação policial/sobrenatural sempre me anima - e temos variados exemplo em narrativas fantásticas. Holly Gibney (personagem do King) e Lee Harker (protagonista de Perkins) guardam algumas semelhanças como, por exemplo, o relativo grau de clarividência que ajudam em suas investigações e sua inaptidão social. Suas histórias também vão gradualmente do rotineiro para o extraordinário. As maiores críticas das obras de King são relacionadas a maneira como encerra as suas histórias, geralmente de maneira apoteótica e sem condizer com o resto da narrativa - o que, geralmente, sou obrigado a concordar. Em Longlegs, o terceiro ato é destinado a estreitar a relação mãe e filha (o vínculo mortal do subtítulo brasileiro) e a revelar quase a totalidade de qualquer ambiguidade que pudesse ter restado em relação ao sobrenatural. Me incomodou toda essa construção do fantástico para uma conclusão anticlimática (a meu ver) - quase um corte lacaniano em todo o diabólico construído até a sequência final. Fiquei esperando algo mais.
(interessante demais perceber que o mesmo álbum, Electric Warrior, inspirou obras tão distintas como Longlegs e Billy Elliot)
Eu Vi o Brilho da TV
2.8 168 Assista Agora1. Nos escritos sobre a sua exposição Pink Opaque¹, David Daigle propõe uma historiografia para a cor rosa antes de ser tida como um tom feminino pelo senso comum - passando pela década de 1940 onde era uma cor mais relacionada aos meninos, até a ressignificação de um símbolo nazista pela comunidade queer. O mais importante do ensaio é salientando quando Daigle aponta que rosa "também é a cor da nossa carne crua, dos nossos tecidos, dos nossos órgãos". Pink Opaque poderia ser, então, o nosso interior.
2. Em 1986, a banda Cocteau Twins lança uma coletânea chamada The Pink Opaque. Em uma entrevista², Jane Schoenbrun, diretora de I Saw the TV Glow, revela que o seriado fictício dentro da narrativa ganhou o nome por conta da coletânea. A primeira canção do álbum é The Spangle Maker, onde ouvimos: "He's that droplet on my truth, He is that spangle maker (...) Oh, for that's awful that worked it shattering heads. She is his spangle baby and the rest made sure it's the droplet".
3. Em dado momento vemos uma televisão quebrada e em chamas. Ela está em um lugar aberto. Há uma clara ruptura a partir desse momento. Não apenas um salto temporal, mas todos os elementos importantes para o protagonistas se transformam: sua mãe morre, sua melhor amiga desaparece e a sua série favorita é cancelada. Esse seria o final paradigmático de uma narrativa de amadurecimento (coming of age). Lembro-me do monólogo final de Conta Comigo (1986) de Rob Reiner: “Nunca tive amigos como aqueles que tive aos 12 anos. Jesus, mas quem tivera?!”. Nostalgia é tudo.
4. Todo o filme é narrado pelo ponto de vista do protagonista que vez ou outra interrompe o fluxo da história para se dirigir a gente, os espectadores. Owen é um narrador não confiável. E isso é fundamental para que fiquemos tão impactados quanto ele no reencontro com sua amiga Maddy no bar. O lugar, Double Lunch, é citado por Maddy no começo do filme como um lugar fundamental para as protagonistas de Pink Opaque. Isso já nos dá uma dica. A decepção ao assistirmos (de fato) a um episódio do seriado pelo streaming junto com Owen também advém disso. Tudo é nostalgia.
5. O amadurecimento de um indivíduo queer é difícil. E não por conta das figuras de autoridade caricatas que geralmente vemos nesse tipo de filme. Não me entenda mal: elas existem e a maioria de seus atos são tipificados como crimes. Contudo, os pais de Owen (protetivos ao extremo e distantes) contribuem para a árdua batalha que o protagonista precisa enfrentar para descobrir quem realmente é. E nenhuma Pink Opaque ou, no meu caso, Goosebumps, So Weird e O Colégio do Buraco Negro, tratam sobre essa dificuldade para os não-heteronormativos. Pega pesado nas crianças viadas da década de 1990 ou começo dos anos 2000. Como lidarmos com as questões de gênero e/ou sexualidade em nossa formação? Owen recalcou.
Sem Coração
3.5 70 Assista AgoraExistiam duas Nara Normande para mim: a diretora de animações que tratavam sobre uma vivência bucólica de amizades intensas à beira-mar como em obras como Guaxuma (2018), assim como em produções para oficinas como Garota Bagre (2015) e Corais da costa (2016); e a diretora de narrativas trágicas de uma dureza áspera como em suas primeiras criações: Dia Estrelado (2011) e Sem Coração (2014), o curta-metragem. Fiquei positivamente admirado ao perceber que essa minha imagem mental dupla se revelou como sendo una nesse longa-metragem, dirigido em parceria com Tião, assim como o curta de origem.
Sem Coração (2023) vem como um acalanto para um sentimento em mim decorrente do longo período de isolamento ainda recente em nossas memórias, somado a uma política cultura quase nula, e que resultou em uma escassez de imagens de afetos físicos em tela. A importância do encontro de corpos se prova na obra tanto no momento em que Tamara, a protagonista, pede para a mãe um carinho nas costas, quanto em outro, mais a frente, em que os toques entre dois personagens são apontados como os causadores de um conflito em uma festa. O contato se mostra presente em suas mais diversas facetas, positivas e negativas, desde surras de cinto e um soco na cara até a masturbação.
As bem demarcadas sequências com músicas me lembraram do conceito de "momentos musicais" da Amy Herzog (2010). Para a autora, certas trilhas sonoras se recusam a permanecer “domesticadas” pela imagem e alçam uma presença dramática nas produções. Em uma sequência de Sem Coração, acompanhamos um diálogo entre mãe e filha sobre mudanças, físicas e emocionais, ao som de Iansã de Maria Bethânia (rainha dos raios; tempo bom, tempo ruim!). Em outro momento, a conversa sobre uma viagem e sobre paixão é embalada ao som de Please Don't Go. Em ambas as ocasiões, eu senti.
A maneira com que localizam a história temporalmente no verão de 1996 possibilita também o desenvolvimento de elementos bastante interessantes. O primeiro é a maneira com que o espaço onde a história se desenrola, região litorânea de Alagoas, é congelado no tempo. No princípio, acompanhar os personagens adolescentes assistindo a uma obra do Ivan Cardoso em uma televisão antiga (estou sendo generoso) ou escolhendo obras pornográficas dentre um amontoado de VHS pode causar certo estranhamento. Contudo, mais do que pontuar o roteiro como resultado de reminiscência dos seus realizadores, a década de 1990 agrega um outro ritmo à narrativa, uma outra forma de apreensão do que nos é apresentado. Por conta disso, por exemplo, o agrupamento de moradores na praça para acompanhar a televisão noticiando o assassinato de PC Farias ou a maneira mais liberal (alguns podem entender até como relapsa) que os responsáveis cuidam dos seus filhos, é justificada de certa maneira. Esse arrebatamento temporal também é responsável por construir momentos encantadores como quando duas personagens, dividindo uma bicicleta na chuva, protegem-se com uma grande folha de bananeira — sequência próxima ao arrebatamento causado por alguns trechos animados pelo Studio Ghibli. Outro elemento interessante é a maneira com que ecos da Ditadura Militar podem ser identificados: o caso de um anel com os dizeres “Doei ouro para o bem do brasil - 1964” — servindo como chave de análise para um misterioso crime ao fim da trama, ou uma ponte com o cenário político contemporâneo.
O que mais me agradou em Sem Coração foi perceber que é uma narrativa de amadurecimento onde os seus personagens não relutam em amadurecer como é costumeiro. Existe determinado grau de apreensão, é verdade: a protagonista se aflige por ter que se mudar para Brasília e deixar os seus amigos e cidade natal para trás, dois garotos temem pelo que pode acontecer com eles ao andar como casal na rua etc. Contudo, o medo nunca os impede de viverem e se descobrirem. Eu classificaria Sem Coração não como uma narrativa de amadurecimento, mas, sim, uma narrativa de descobrimento.
Vem Brincar
2.7 132 Assista AgoraOh, Britta's in this?
O Exorcismo da Minha Melhor Amiga
2.4 82 Assista AgoraFazia tempo que não acompanhava uma obra errar em tantas aspectos. Um filme de classificação R, originalmente, que finge ser PG-13 para se escorar em escolhas genéricas e covardes. Direção desestimulada, atuações cansadas e um roteiro risível. Impressionante!
A Montanha Enfeitiçada
3.1 63 Assista AgoraTalvez, esse seja um dos live actions mais estilosos da Disney.
Motorama
3.0 5Um dos precursores em relação a iconoclastia da década de 1990 da juventude direcionada ao "american way of life". Achei uma maravilhosa surpresa! Um dos road movies mais divertidos que já assisti.
O Pássaro Azul
4.1 9 Assista AgoraPERFEITO EM TUDO QUE SE PROPÕE
Possum
3.0 70Possum (2018) de Matthew Holness é um passeio de montanha-russa por uma mente traumatizada. Melhor: ele é, antes de tudo, uma experiência estética que opta por contar a maior parte de sua história através de imagens (e não por uma narrativa propriamente dita). Eu sou uma pessoa que embarca muito mais em uma produção quando possui uma estrutura narrativa, confesso. Por isso sempre fico muito feliz quando surgem obras outras que conseguem me fisgar mesmo indo de encontro a tudo que eu espero e gosto. Possum, na verdade, sabe muito bem como representar os traumas do passado do protagonista. No caminho oposto de produções medonhas como A Casa dos Sonhos (2011) ou, cruzes!, Número 23 (2007) que se utilizam dos acontecimentos marcantes do passado de seus protagonistas como twists narrativos, a produção vai revelando sem revelar, mostrando sem mostrar e nos fazendo entrar de cabeça na psiquê do personagem principal tal qual Spider - Desafie sua Mente (2002). Holness consegue realizar imagens cheias de significado e, por mais que a sequência final pareça completamente apressada, presenteia o espectador com uma experiência diferente de quase tudo que se assiste por aí atualmente.
filmaço!
Eu perdoo a sequência final, porque, por mais apressada que pareça, quebra a trope de que pessoas abusadas se tornam abusadores. Acho importantíssimas essas desconstruções de esteriótipos. Ainda mais de um tão nocivo para as vítimas desse tipo de crime.
Caçada ao Presidente
2.5 135 Assista grátisA vida de quem não se divertiu com esse filme deve ser muito triste.
A Morte e Vida de John F. Donovan
3.3 193I hated this movie. Hated hated hated hated hated this movie. Hated it. Hated every simpering stupid vacant audience-insulting moment of it. Hated the sensibility that thought anyone would like it. Hated the implied insult to the audience by its belief that anyone would be entertained by it.
Braguino
3.8 3tá,
pera aí,
vamos lá.
eu não sei o que escrever sobre isso aqui que acabei de assistir. pela classificação de gêneros cinematográficos, ele seria um documentário. contudo, a primeira vista, 'Braguino' (2017) é tão documentário quanto 'Nanook, o Esquimó' (1922). o que mais me assombra é que, por mais que toda a beleza estética clame por uma encenação e pela repetição de takes, a autenticidade dos "personagens" documentados exige uma naturalidade somente alcançada pela não-ficção. essa é a primeira obra que vejo do Clément Cogitore e, pra mim, parece que o diretor é o filho que o Eduardo Coutinho teria com o Andrei Tarkovski depois de um caso com o Kieślowski.
tô realmente impacto com a forma brilhante com que a tensão é construída pouco a pouco. a crueza dos registros é chocante — acompanhamos um urso ser abatido e metodicamente desmembrado em frente as câmeras. acho que nunca assisti a um registro tão real e único. talvez o que mais se aproxime é 'High School' (1968) do Wiseman e, mesmo assim, ele é registrado em um ambiente "controlado" (e muito do brilho do Wiseman reside na forma com que ele escancara esse controle institucional da escola); coisa que o Cogitore não teve a sua disposição.
a pergunta que fica ao final é:
se nada é controlado,
como pode esse viajingle fazer registros TÃO BONITOS MEU DEUS?
Marcha Atlética
3.8 15só vim aqui comentar que fiquei destruído com esse final
É Impossível Aprender a Arar Lendo Livros
3.3 11Um road movie onde o mais importante, acima dos quilômetros percorridos pelo protagonista, é o tempo e os pequenos prazeres cotidianos.
Talvez eu curta mais em uma revisitação futura.
Southland Tales: O Fim do Mundo
2.2 167MEU DEUS QUE FILME RUIM
A Barraca do Beijo
2.9 925 Assista AgoraUm filme dos anos 2000 realizado na época errada. É cafona e divertido — não de forma proporcional na maior parte das vezes, infelizmente.
Enigma do Espaço
2.7 164 Assista Agoravi um resumo do filme em 3 minutos e achei tão ruim que vim aqui só pra falar mal
Arraste-me para o Inferno
2.8 2,8KA dualidade é a coisa que mais chama atenção durante o filme — efeitos práticos vs. efeitos digitais, por exemplo. O gore surgindo no cenário higienizado dos subúrbios ricos americanos é uma sacada ótima. Sem contar que a direção do Sam Raimi se prova acertadíssima em várias sequências.
Então Morri
4.3 5Assustadoramente real;
delicadamente melancólico;
morbidamente direto;
além de servir como um registro do final dos anos 1990 e começo dos 2000 no Brasil.
Sério.
Todo mundo tem que ver esse filme, pelo amor de deus.
Um baita documentário brasileiro que consegue só te dar soco na cara,
e mesmo assim ser uma das coisas mais singelas que eu já vi.
O Conto
4.1 344 Assista AgoraSenhoras e senhores,
agora eu tô no chão.
Uma espécie de irmã-temática de 'Mistérios da Carne' (2004), onde as reminiscências do passado são postas a prova em um embate imagético entre o que é lembrado e o que realmente aconteceu. Jennifer Fox consegue fazer você entrar de cabeça na psique da protagonista.
Han Solo: Uma História Star Wars
3.3 645 Assista AgoraO filme que ninguém pediu;
ninguém nunca quis;
mas a disney foi lá e fez mesmo assim
e ficou uma bela de uma bosta
(mas uma bosta divertida e isso que importa)