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Data de lançamento
22 Set. 2024Duração
Num pequeno zoológico em Caracas, a chegada do hipopótamo Zafari é comemorada por vizinhos de diferentes classes sociais. Uma família acompanha as comemorações da janela de seu apartamento em um condomínio decadente de classe alta. Em meio ao caos gerado pela escassez de alimentos, água e energia elétrica, a família precisa resolver problemas cotidianos enquanto tenta encontrar uma solução para deixar o país. A mãe, Ana, percorre o prédio à procura de comida nos apartamentos abandonados, mas ruídos estranhos pelos corredores escuros a amedrontam cada vez mais. Num mundo cada vez mais selvagem, Zafari é o único que ainda tem o que comer.
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Sexto filme da cineasta venezuelana Mariana Rondón, de “Pelo malo” (2013), que costuma tratar em seus trabalhos a crise econômica de seu país pelos olhos do povo – e agora, pela primeira vez, faz um filme ampliando o tema, mas num futuro distópico. Quando falamos em distopia, lembramos de fitas scifi de mundo destruído, ocupado por robôs; não, não é isto aqui no cinema dela. Rondón coloca a ambientação numa realidade nítida, mais próxima da atualidade do que de um futuro não-palpável, mantendo-se fiel à sua filmografia marcada pelas tensões sociais e econômicas da Venezuela. Ela constrói em “Zafari” uma distopia que amplifica a desordem cotidiana de um país colapsado, com ausência de regras, escassez de trabalho e, sobretudo, a fome, que moldam um ambiente insólito, onde a civilidade se desfez e a sobrevivência assume contornos brutais. Nesse cenário, um hipopótamo (de nome Zafari) recém-chegado ao zoológico de Caracas torna-se figura central. Ele é o único ser plenamente alimentado, o que contrasta com a privação que atinge duas famílias: uma privilegiada, agora confinada em um condomínio decadente, que planeja fugir do país, e outra empobrecida, que abandona qualquer resquício de ordem social, vivendo a seu modo. A presença do animal desperta desejos, frustrações e impulsos que revelam o limite ético de cada personagem. Pela definição da diretora (que é a roteirista, junto à parceira de trabalho Marité Ugas), o filme é uma fábula social, recorrendo à ironia e metáforas dentro de um típico cinema de gênero. É um filme simbólico, estranho à primeira vista, que vai se encaixando com o desenrolar do tempo. É político, é crítico, nada fácil de entender, sendo uma obra autoral para público específico – e que faz mais sentido agora, após o sequestro e deposição do presidente Nicolás Maduro. Apresentado na seção “Horizontes Latinos” do Festival de San Sebastián, o longa percorreu festivais na Europa, Ásia e América Latina, incluindo a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com elenco formado por atores profissionais e não profissionais, é uma coprodução Brasil, Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana. Em exibição nos cinemas pela Vitrine Filmes. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Ainda não vi o filme mais famoso da diretora, mas, no cotejo temático, presumo que ela tenha mudado bastante de abordagem aqui: estamos diante de uma obra que flerta com o terror psicológico, cujas convenções de suspense atingem um tormento crescente, sendo interessantíssimo o modo como a frágil (e magérrima) protagonista é empoderada, junto a um marido canalha e agressivo e a um filho que se bestializa progressivamente. O modo como a fome é descrita aqui atordoa, sendo o filme muitíssimo político naquilo que expõe e no que oblitera intencionalmente. Não entendemos os porquês daquela conjuntura, mas imergimos no que pode ser feito na lida com um conflito que só piora, sobretudo por conta dos maus caracteres circundantes à protagonista. Filme muito bem roteirizado e interpretado. Sufocante e atordoante (vide a cena em que uma zebra aparece). As menções aos animais verdadeiros, nos créditos finais, deixaram-me intrigado. Filme ótimo e perturbador! (WPC>)