Últimas opiniões enviadas
Devoradores de Estrelas: Quando o Entretenimento se Torna Arte!
1. Introdução: Uma Surpresa Deslumbrante
Devoradores de Estrelas é um filme absolutamente surpreendente e incrivelmente deslumbrante. As surpresas aqui vão além da narrativa em si, que entrega a jornada do herói a conta-gotas através de flashbacks enquanto sua aventura no espaço se desenrola em seu presente, mas também por entregar muito cinematograficamente em um projeto que provavelmente aspirava pretensões distintas neste quesito. E talvez essa despretensão seja o seu grande trunfo.
2. A Jornada de Ryland Grace: Solidão e Catarse
O filme conta a história de Ryland Grace, um relutante cientista — interpretado por Ryan Gosling — que se vê em uma jornada fora dos limites do nosso planeta em uma missão que ele não se recorda. Enquanto conhecemos Grace — quase que juntamente com ele próprio — somos empurrados para sua catarse emocional que experimenta diferentes aspectos da solidão total: a negação, o medo, o luto, o terror existencial e, acima de tudo, a luta contra a própria insanidade.
3. O Primeiro Arco: Intimismo e Reflexão
Nesse primeiro arco, temos um longa intimista e sólido, que explora as nuances do isolamento em meio às estrelas, onde os flashbacks ajudam a montar um quebra-cabeça sobre quem é o Dr. Grace e qual é a sua missão. A tomada poética e reflexiva aqui traz levemente à lembrança clássicos existenciais como Solaris, de Andrei Tarkovsky — embora sem a mesma densidade poética, o que não é nenhum demérito.
4. O Segundo Arco: O Encontro com o Inesperado
O arco seguinte se concentra na chegada do inesperado: o encontro entre civilizações, onde uma criatura alienígena captura boa parte das emoções e sorrisos do longa, servindo não só de apoio à jornada de Gosling, como também se tornando um co-protagonista cheio de carisma e com uma impressionante conexão com o ator em cena — o que reforça ainda mais a grande atuação de Ryan.
5. Comunicação, Choque Cultural e Amizade
Os desafios de comunicação são muito bem explorados na primeira parte dessa interação, e não há pressa para entregar o resultado final, o que torna a experiência agradável e lógica — dentro da proposta do longa, obviamente — assim como o choque cultural posterior, já que os hábitos de Rocky — nome dado por Gosling ao novo amigo — são peculiares em relação aos nossos. E essas diferenças são exploradas de maneira suave e divertida, tornando a convivência entre ambos complexa e cômica na medida certa.
6. A Linguagem Visual: Planos, Cores e CGI
Neste ponto, temos uma câmera menos íntima, que vai dos planos fechados para os médios com considerável troca de ângulos e planos, inclusive quando a mesma precisa reforçar ação ou mesmo a contemplação em planos abertos que exploram o CGI de altíssima qualidade, que de fato nos transporta para os confins do universo desconhecido. Aqui, cores, luzes e sombras captam a atenção do espectador e o levam para uma jornada em meio à vastidão do espaço em um vislumbre emocionante, que encontra em sua trilha sonora um parceiro de momentos e que sabe entregar exatamente o que se vê em tela.
7. Conclusão: Uma Jornada Bela e Memorável
O longa transita entre ritmos distintos no seu arco final, de forma que tudo que pensamos saber pode ser alterado num único instante. Essa imprevisibilidade torna a experiência ainda mais gratificante de ser assistida, fazendo de Devoradores de Estrelas uma jornada bela e cheia de carisma de uma dupla improvável e memorável.
A Homérica Odisseia de Nolan: A Ousadia que Dialoga com a Tradição
1. Introdução: A Expectativa e a Histeria Banal
Antes da estreia de A Odisseia, havia o temor considerável do quanto o diretor Christopher Nolan de fato abraçaria a poesia de Homero e também o quanto ele estaria disposto a tirar os pés do chão para fazer jus à Odisseia mitológica. Havia também uma histeria banal em torno da etnia da deusa Atena ou mesmo de Helena, além de rumores cheios de faniquitos de um Elliot Page como Aquiles. Filme lançado e os temores sérios cessaram, assim como os fricotes se aquietaram diante da magnitude que é a adaptação homérica de Nolan. Me arrisco a dizer que é de fato a mais contundente e colossal já produzida em Hollywood, principalmente por ter coragem de abrir mão do simplismo hollywoodiano.
2. A Jornada Heróica e a Narrativa Não Linear
A jornada heróica de Odisseu é entregue através de uma narrativa que foge à linearidade, explorando conflitos passados — com ênfase no fim da Guerra de Tróia — dilemas presentes e desafios espetaculares da Odisseia do protagonista, interpretado por Matt Damon. E o grande mérito aqui é de uma narrativa que acompanha o personagem, mas que tem a ousadia de expandir-se para além dele, trazendo destaque a diversos elementos que compõem os versos de Homero. Heróis, deuses, traidores, feras e mitos dividem tela e importância ao longo de pouco menos de três horas de projeção.
3. O Elenco: Matt Damon e as Performances Robustas
Que Matt Damon é um destaque inegável, não há qualquer dúvida, e sua atuação reforça isso. Porém, o primoroso elenco de apoio entrega performances robustas que reescrevem versos entalhados na história diante do espectador, mas que também são capazes de escrever uma página autêntica — quase autoral — de uma obra milenar. Tom Holland e Robert Pattinson — Telêmaco e Antínous respectivamente — trazem uma rivalidade mortal contida por seus ritos e costumes, o que coloca o antagonista, vivido por Pattinson, sempre um passo à frente. A hermética Penélope, interpretada por Anne Hathaway, que mantém suas intenções protegidas até mesmo das lentes de Nolan, guarda seus sentimentos e expectativas em meio ao declínio de Ítaca, após a partida de seu esposo, o Rei Odisseu. Esta, especificamente, abordada com tamanha sensibilidade que nos leva ao âmago de sua dor e responsabilidade, que tem na confecção do sudário de seu sogro seu maior signo de resiliência e sacrifício, transportando a dor do poema para diante de nossos olhos.
4. As Polêmicas Pregressas e as Atuações Potentes
Aqui, mesmo as polêmicas pregressas contribuem para atribuir a Nolan o status que o mesmo possui. De Elliot Page, que interpreta o servo de Odisseu, Sinon, até as polêmicas étnicas por assim dizer — Zendaya como a deusa Atena e Lupita Nyong'o como Helena e Clitemnestra — o que vemos são atuações dignas e potentes, em especial Zendaya, que é uma das personagens de apoio que mais roubam a cena e se insere com profundo destaque na jornada, apesar do pouco tempo de tela.
5. O Elmo de Agamenon: Da Polêmica ao Sublime
Uma polêmica menor, mas que chamou bastante a atenção, gira em torno da indumentária do Rei Agamenon, em especial seu elmo visualmente estranho no trailer. Porém, o que parecia configurar um erro mostrou-se um aliado sublime da narrativa. O elmo, a capa, além da escolha de nunca revelar seu rosto, criam uma presença incomparável durante o longa. Uma força que desafia os deuses. Seja no plano aberto em que sua silhueta conduz seu exército à capitulação de Tróia, ou à imponência diante de seus comandados, ele é a figura máxima de poder aqui e até mesmo além deste mundo.
6. Mitologia, Fantástico e o Pesadelo Particular de Odisseu
A escolha por abraçar a mitologia passa muito por não tentar justificar o que é fantástico, ou pelo menos permitir ao espectador deleitar-se com o elo mítico da volta para casa do herói micênico. O mundo em que os personagens estão inseridos é o que é, apesar de toda a construção psicológica, traumas pós-guerra e inquietudes que diferem do original no qual se baseia. A Odisseia aqui é sim sobre mitos e lendas, é sobre o Ciclope Polifemo, a Feiticeira Circe, homens transmutados e sereias; é também sobre a astúcia de um herói, mas sobretudo é o pesadelo particular de um homem em dívida com seu passado.
7. Efeitos Práticos e o Uso Contido do CGI
Para dar vida ao fantástico, criaturas, feiticeiras, deuses e gigantes são dignamente recriados em maior parte com o uso de efeitos práticos: dublês, animatrônicos, truques de câmera, maquiagem e próteses. Deixando o CGI apenas para aquilo que mãos humanas não são capazes de criar, sendo o melhor exemplo a apavorante Cila.
8. Trilha Sonora, Fotografia e a Arquitetura do Medo
A escolha por uma trilha sonora que foge ao padrão convencional dá outro sentido à jornada. Assinada por Ludwig Göransson, ela mescla sons de gongos de bronze distorcidos a técnicas digitais avançadas, gerando melodias que ampliam a densidade da trama e ajudam na imersão do espectador, tal como a utilização de elementos cinematográficos que reforçam o horror existencial em um mundo tomado por monstros, conspirações e traumas. O uso contido da luz aqui é quase uma regra, tal como a irregularidade no movimento da câmera e a intensa mudança de planos, que navega juntamente com Odisseu por águas revoltas pela ira de Poseidon ou caminha por florestas tortuosas e sombrias, que abrigam perigos inimagináveis — talvez não tanto quanto o de Penélope, abarrotado de pretendentes conspiradores que tramam e traem entre si, em busca do trono de Ítaca. Luz de velas, câmera próxima que troca planos constantemente, o som do bardo e o clima de conspiração e morte no ar fazem desse o ambiente mais esmagador da trama.
9. O Contraste entre Ogígia e a Culpa de Odisseu
O contraste com a suposta paz na Ilha de Ogígia, lar da deusa Calipso, interpretada por Charlize Theron, de areia clara, sol e o mar à frente, traz através das lentes o suposto conforto obtido através da ignorância e do engano e da negação da própria culpa como artimanha mental para fugir de sua dor. Engano autoinduzido que vê na flor de lótus seu mais potente signo, reforçada de maneira contundente através de planos fechados. Já a realidade e a dívida para com o seu passado vêm na forma dos fragmentos de seu navio, que, tal como a mente do protagonista, buscam remontagem para prosseguir a jornada de expiação dos pecados e retorno para casa.
10. Conclusão: A Odisseia de Homero e de Nolan
A construção de uma jornada mítica encontra êxito em todos os arcos propostos — inclusive no intimismo final, que difere da tradição oral grega — e, ao assistirmos, temos a absoluta certeza de que estamos diante da história não só de Odisseu, mas do próprio cinema sendo escrita, seja pela longínqua voz de Homero ou pelas mãos e olhos contemporâneos de Nolan. Temos aqui A Odisseia de Homero e A Odisseia de Nolan.
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Equipe Filmow
O Drama das Expectativas Idealizadas e o Choque com a Realidade: Um Filme que Entrega Mais do que Supõe
1. Introdução: Um Romance Inesperado
O Drama é um romance acima de tudo inesperado. Juntando dois dos principais astros mainstream da atualidade — Zendaya e Robert Pattinson — a expectativa inicial é do típico romance ou comédia romântica hollywoodiana, mas o filme entrega bem mais que isso. A premissa do prólogo é a de um casal feliz, de primeiro encontro cinematográfico, que estão prestes a se casar, até tudo repentinamente ruir...
2. A Desconstrução do Amor Idealizado
Explorando a revelação de um segredo sombrio do passado de Emma, personagem de Zendaya, o filme desconstrói a narrativa idealizada de relacionamento perfeito, típica de Hollywood, e, ao fazê-lo com duas das maiores estrelas do circuito comercial, expõe o público a um choque ainda maior, assim como potencializa o impacto dessa desconstrução no gênero.
3. Questões Sérias em Meio ao Caos
O filme se propõe a discutir questões sérias enquanto aprofunda a paranoia gerada pela revelação de Emma, que deixa Charlie, personagem de Pattinson, à beira de um colapso mental. Questões relacionadas ao estímulo da violência nos Estados Unidos, fácil acesso a armas de fogo por menores de idade, traumas gerados pela violência e até mesmo o papel do governo nesse problema estão no cerne de uma discussão improvável e ao mesmo tempo madura, de um diretor que acredita no roteiro que tem em mãos.
4. A Hipocrisia da Classe Média como Tema Central
Para além disso, há discussões sobre a falsa moralidade da sociedade e críticas ferrenhas à hipocrisia da classe média, que vive alheia a questões sociais, mas parece sempre ter o antídoto para seus sintomas mais graves. Nesse sentido, o drama de Emma é o expositor dessa hipocrisia pequeno-burguesa, que é deflagrado no dia da revelação de seu passado, onde sua madrinha revela um segredo igualmente terrível — com uma potencialidade ainda mais trágica — porém moralmente aceito, a ponto da mesma tornar-se inquisidora do passado alheio.
5. A Linguagem Visual: Planos, Luzes e a Evolução do Desconforto
O trabalho do diretor Kristoffer Borgli neste filme é o de ser o regente do caos e transmitir ao público a quebra de nuances e expectativas do primeiro arco para os seguintes. Planos coesos e estáveis do início do filme são substituídos por um olhar irregular, furtivo e às vezes condenatório. A mesma cena, no mesmo lugar, ganha contornos distintos. Seja o sexo, que parece vibrante e intenso no início — iluminado pela luz do sol sob cortinas — e depois se torna um ritual torturante, à meia-luz, com expressões tensas e vazias de desejo; ou mesmo o jantar no restaurante, que parece leve e divertido no primeiro ato, mas que ganha contornos de drama com o close-up da torta à qual se toca mas não se prova.
6. Tragicomédia, Surrealismo e Humor Ácido
A coleção de eventos trágicos, cômicos ou tragicômicos leva do presente para o passado e de volta para a contemporaneidade, tudo isso com um toque sagaz de surrealismo em momentos específicos, que enriquecem ainda mais a experiência cinematográfica. Outro fator que chama a atenção é a escolha por um humor ácido e provocativo, ao invés da aposta nos batidos clichês de gênero — mais uma aposta ousada que deu muito certo.
7. Atuações, química e conclusão final: Pattinson e Zendaya em Sintonia.
Individualmente falando, temos duas das maiores atuações da carreira de Pattinson e Zendaya. Ambos funcionam muito bem em seus personagens, mas são ainda melhores como dupla, demonstrando uma química fenomenal e uma capacidade ímpar de flagelar um ao outro — proposital ou acidentalmente — que elevam ainda mais a mensagem proposta do longa. Um filme cheio de personalidade e sem receio de ser inconveniente em meio a tanto cinema de conveniência.