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As metáforas são evidentes e impactantes. O trabalho é cavar incessantemente, buscando produzir algo, mas o buraco é cada vez maior. Como afirma o personagem entomologista Niki, magistralmente interpretado por Eiji Okada, cavar para viver, viver para cavar. Se pararmos, morremos de fome; se continuarmos, morremos de exaustão. Mais uma obra-prima de Hiroshi Teshigahara, que nos confronta com a fragilidade de um sistema que já nasceu condenado ao fracasso.
O filme narra a história de um homem que, após perder o rosto em um acidente, teme pelo fim de seu casamento e decide procurar um audacioso cirurgião, que recentemente desenvolveu um método de transplante facial. O novo rosto revela a profunda verdade de que somos essencialmente um vazio, uma coleção de experiências que nos proporciona a ilusão de um eu. Como disse Buda, somos mudos cujas máscaras circulam incessantemente. Acreditamos em tudo o que vemos no espelho, mas quem somos de fato? O que determina cada passo que damos? Pode uma identidade realmente impedir um homem de adotar atitudes deploráveis?
Este filme levanta muitas perguntas e desafia nossas máscaras a tentar desvendar as respostas. O eu que defendemos tão fervorosamente pode desmoronar com a mesma facilidade de um golpe na cabeça que nos faz perder todas as memórias. Contudo, as máscaras nem sempre conseguem enganar. O filme sugere que um olhar mais apurado pode perceber nuances sutis, como um cheiro, um trejeito, ou até mesmo um olhar único.
Quantos espectros nos perseguem ao longo de nossas vidas. A paixão de Philippe Garrel transparece em cada plano filmado. As sombras e as luzes constituem uma homenagem aos melhores anos da Nouvelle Vague. Existem filmes que transcendem a simples condição de obras à espera de serem vistas; tornam-se verdadeiras cápsulas do tempo, ocultando segredos, seus, meus, nossos. Assim como Carole menciona, quando estamos apaixonados, tornamo-nos um só com a pessoa amada, mas, ao término de tudo, desvanecemos tão facilmente quanto uma bolha de sabão. Um parte e o outro permanece a chorar. Assim é também a nossa relação com a arte.