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"The Love Witch" traz uma sátira esotérica que chama atenção por seu conceito artístico, mas que se perde quando nos acostumamos com este conceito e precisamos de uma história coesa.
Anna Biller constrói um universo em torno de elementos que remetem a filmes clássicos, incluindo a gravação sendo em 35mm. Toda a estética mais antiga, com cores vibrantes e psicodélicas, é misturada com alguns elementos modernos também, o que pode ser associado a essa pegada mais satírica que a diretora quis transmitir. Eu compreendo o que ela quis fazer, mas, para mim, teria sido melhor se mantivesse apenas a pegada mais clássica e conceitual, essa quebra de conceito tirou um pouco minha imersão no filme.
Outra coisa interessante que eu gostei aqui foi a maneira com que a bruxaria é retratada. Nota-se o carinho que a diretora empregou nestes momentos. Por exemplo, quando a protagonista está fazendo seus feitiços, ou em momentos ritualísticos, a gente consegue comprar a ideia de que aquilo realmente pode acontecer em algum clã de bruxas de verdade.
O roteiro, porém, não dispõe da mesma criatividade e dinamismo. Eu vejo um potencial enorme desperdiçado na protagonista, que não é desenvolvida da maneira correta, e ela própria não sabe se quer ser uma princesa de conto de fadas ou uma clássica femme fatale de filme de terror. Há também voice overs desnecessários e expositivos demais, e o tom do filme é inconsistente quando assume uma proposta mais investigativa, principalmente porque essas partes são resolvidas sempre com muita facilidade.
Samantha Robinson não tem culpa do roteiro desperdiçar sua personagem, e ela entrega uma bruxa muito crível. Seja por sua aparência extremamente atraente para atrair suas vítimas, ou por alguns trejeitos e olhares sempre serenos, como se soubesse que controla a situação. É uma personagem que poderia virar um clássico do cinema e me lembrou, por vezes, a Elvira.
"The Love Witch" é um filme visualmente belíssimo e conceitualmente muito interessante, porém que carrega consigo inconsistências narrativas que acabam não sustentando suas 2 horas de duração da maneira que se espera.
"Dinner in America" não causou tanto alarde desde seu lançamento, porém é uma história original que utiliza de clichês para construir um "conto de fadas subversivo" que cativa e encanta ao mesmo tempo que causa uma estranheza curiosa conforme o assistimos.
A direção faz uma reconstrução de época sensacional. Mesmo sem deixar muito claro em que época o filme se passa, existe uma imersão muito grande naquele universo, principalmente pela ambientação e pela forma como aquele cotidiano é apresentado. Gosto também da maneira como o filme desenvolve seus personagens, por exemplo em diferentes cenas de refeições em família. São umas três ao longo do filme e, apesar de terem uma estrutura parecida, cada uma se desenvolve de uma maneira completamente diferente. A mistura entre humor ácido, humor situacional e crítica à classe média americana também funciona muito bem, principalmente porque o filme consegue fazer isso sem ficar moralista ou pedante.
O roteiro aproveita muito bem esses momentos de humor para deixar a experiência leve, mas também sabe utilizar os momentos emocionantes na hora certa. Ele usa e abusa de alguns clichês, e apesar de funcionarem dentro da proposta do filme, alguns são tão telegrafados que podem incomodar. Alguns personagens também ficam caricatos demais em determinados momentos, mas nada que prejudique a experiência como um todo.
Kyle Gallner e Emily Skeggs formam uma dupla excelente. A química entre os dois é sensacional e é muito satisfatório acompanhar como ambos vão se desenvolvendo com a ajuda um do outro. Eles também acabam sofrendo um pouco com essa caricatura dos personagens, mas no geral é uma dupla que engrandece muito o filme.
"Dinner in America" é estranho, atraente e divertido. Certamente é uma excelente surpresa para um filme tão discreto, e eu não estranharia se daqui alguns anos ele fosse revisitado e virasse um clássico cult.
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Bons filmes!
Equipe Filmow
LEGAL, PENA QUE COM PÉSSIMO GOSTO
"Gummo" retrata uma pequena cidadezinha tentando lidar com as consequências de um desastre natural que deixou marcas psicológicas enraizadas em seus habitantes.
A direção de Harmony Korine é muito eficiente em retratar a cidade de Xenia da maneira mais crua possível. O diretor se aproveita muito de ambientes fechados para passar a sensação de sufocamento que os personagens sentem ao viverem nesta realidade. A impressão que dá é que não passou tempo algum desde o tornado citado no início do filme e, em determinados momentos, existem inserções em formato documental, o que nos faz acreditar que todas essas histórias que estamos vendo realmente possam ter acontecido.
Não existe um roteiro estruturado da maneira tradicional. A cidade aqui retratada é a verdadeira protagonista e seus personagens são meros coadjuvantes dentro de uma realidade brutal e que não apresenta qualquer perspectiva. O longa trata de trazer diversos tipos de pessoas com os mais variados conflitos, envolvendo minorias, automutilação, abusos e até doenças. Em alguns momentos, certos segmentos tornam-se exaustivos de acompanhar justamente por alguns excessos de repetição, como, por exemplo, a quantidade de gatos mortos que aparecem em tela. Chega um momento em que isso para de chocar e se torna apenas cansativo.
O que mais me agradou, inclusive, foi ver justamente a trivialidade: um grupo de amigos bebendo numa noite e passando o tempo da maneira que conseguem, ou um garoto se alimentando de uma maneira pouco higiênica... elementos visuais que nos chocam pela naturalidade com que acontecem e nos causam esse estranhamento por ser algo que definitivamente não estamos acostumados a ver.
Não tem como falar dos personagens deste filme sem citar a inclusão e diversidade apresentada. Existem até mesmo pequenos trechos apenas para apresentar personagens em específico e suas dificuldades neste mundo, desde uma pessoa com nanismo, outra com albinismo, etc, sem que haja algum desenvolvimento em específico (até porque, se o filme desenvolvesse cada um dos seus personagens, ele teria que ter umas 3 horas de duração). E mesmo sem esse desenvolvimento, nós compreendemos o que cada um representa. Essa estrutura narrativa nos faz ter visões diversas sobre cada segmento apresentado, mas todos eles estão intimamente ligados a este ambiente predatório e desesperançoso.
"Gummo" não tem pudor de ser exagerado e, mesmo assim, causar desconforto por seu realismo. Mesmo sendo um filme curto, pode ser que você se sinta sufocado e exausto ao acompanhar essas histórias, mas ainda assim acredito que vale a experiência.