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"Hamnet" traz a catarse artística que sucede o luto da maior dor que um ser humano pode enfrentar, a perda de um filho.
Chloé Zhao conduz o filme com uma direção a princípio contida para construir a beleza de um lar vivo quase perfeito, com planos amplos realçando belezas naturais e a dinâmica familiar. Aos poucos, conforme a alegria dá lugar à angústia, a diretora invade o ambiente com planos mais fechados, sufocando seus personagens em uma sensação de impotência que contagia até quem está assistindo. Em determinados momentos o tom do filme se torna um pouco manipulativo ao dramatizar demais a história, e no final a diretora pesa a mão; o encerramento estava lindo com a encenação de Hamlet, mas alguns excessos tornaram o trecho meio pretensioso, especialmente envolvendo uma ação coletiva que, para mim, não funcionou. E a trilha sonora utilizada me tirou um pouco da cena por ser algo já batido, talvez o silêncio tivesse valorizado mais o momento retratado.
O roteiro subverte o senso comum de representar Shakespeare como gênio, deixando-o na sombra enquanto sua esposa Agnes assume o protagonismo. É simbólico que o nome do escritor seja pronunciado uma única vez em todo o filme; o “gênio” aqui está contido, mais humano e frágil. Há apenas um monólogo que parece ter sido escrito para funcionar como um lapso de genialidade de William, mas acaba destoando. Em contrapartida, a atenção que o texto dedica à esposa é o que sustenta o tom emotivo do longa: trata-se de uma protagonista cheia de camadas, que assume o difícil papel de cuidar da casa enquanto lida com o luto praticamente sozinha.
Jessie Buckley entrega uma performance inspiradora e emocionante; a direção lhe dá bastante espaço para reagir ao que é dito e ao que acontece, e a atriz extrai o máximo disso com intensidade e vibração. Paul Mescal demora um pouco para convencer, em parte porque o roteiro não lhe oferece tanto espaço. Ainda assim, sua atuação cresce junto do personagem quando ele é mais exigido em momentos de maior carga emocional. Também gostei muito do elenco mirim, em especial Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet com grande carisma.
"Hamnet" desconstrói um gênio enquanto ilumina uma protagonista silenciosa da qual o mundo muitas vezes esquece que existiu. É uma história sobre distintas abordagens do luto e sobre como a arte pode transformar esse sentimento em algo suportável.
Interessante como "Kokuho" traz uma história sobre uma arte pouco conhecida no resto do mundo, neste caso, o kabuki.
Sang-il Lee conduz o filme com muito carinho e explora os detalhes minuciosos que tornam o treinamento para o kabuki tão intenso. Os momentos teatrais são quando a direção mais brilha; é recompensador acompanhar o resultado final de tanto trabalho duro. Lee tem um olhar sensível à arte dentro de sua obra, colocando o espectador em uma visão privilegiada ao mesclar bastidores com o espetáculo teatral sem perder o ritmo.
Sobre a duração, fiquei com um sentimento dúbio. Sim, é um filme excessivamente longo, mas ele aborda muita coisa de uma vez. No final, fiquei imaginando como seria uma trilogia de "Kokuho". Alguns lapsos temporais contam pequenos fragmentos de uma história com lacunas; compreendemos o que aconteceu, mas faltaram camadas. Para um único filme, é realmente longo e um pouco cansativo. Caso fosse dividido em três partes e desenvolvessem melhor cada etapa, poderia se tornar uma história mais coesa e encorpada.
O roteiro acaba pecando justamente por isso que citei: há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e sem o respiro necessário para digerirmos os acontecimentos. Ainda assim, o longa brilha quando se trata de estudo de personagem e em relação às consequências de uma vida inteira dedicada a uma arte. O protagonista se vê completamente imerso naquele universo e cego de qualquer discernimento que possa humanizá-lo, pois foi criado para ser o maior. Um ponto que senti faltar foi a exploração mais aprofundada da relação do personagem com a Yakuza. No início, acreditamos que isso terá importância ao longo da narrativa, mas, na maior parte do tempo, torna-se apenas um detalhe facilmente esquecido.
Kikuo é interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência e por Ryo Yoshizawa na maior parte de sua vida. Ambos os atores dão vida ao protagonista de forma muito honesta: o primeiro apresenta um garoto mais inseguro, buscando seu lugar, enquanto o segundo entrega um Kikuo mais confiante, conforme o texto exige, sem deixar de evidenciar suas fragilidades pontuais. A entrega corporal de ambos também merece destaque e realça ainda mais a beleza do kabuki.
"Kokuho" é um estudo cultural de grande valor artístico que, apesar de pecar em sua estrutura narrativa, entrega um universo interessantíssimo de conhecer e acompanhar em todo o seu desenrolar.
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LEGAL, PENA QUE COM PÉSSIMO GOSTO
Documentário essencial para qualquer fã de cinema, ainda mais se for uma pessoa que acompanha temporada de premiação. Gostei de saber mais sobre a Diane e também sobre algumas de suas principais composições. Acompanhamos também um pouco da sua relação quase obsessiva com o Oscar até finalmente receber um reconhecimento honorário da academia.
A música concorrente deste ano, apesar de ser um projeto muito pessoal, realmente não é tão boa. Porém é sempre bom ver a artista concorrendo, e apesar de ela já ter um prêmio por suas contribuições, espero que algum dia ela vença diretamente por algum trabalho.